Resenha: Ecos do futuro

por - 18:45





Pode conter spoilers


“- O que afirmo é que realmente o amo. E se você caça à noite, você voltará para casa.
(...)
-E dormirei aos seus pés.”




Interessantemente, “Um sopro de neve e cinzas” é finalizado em 1777, enquanto “Ecos” inicia-se um ano antes, em 1776, destacando a não-linearidade comum nessa série, afinal o tempo e a História são dois grandes protagonistas e nem um dos dois são estritamente retos. A revolução Americana havia começado e os Fraser, de certa forma, estavam divididos entre os dois polos, uma vez que William, mesmo não carregando o sobrenome, não deixava de ser um. O sétimo romance retorna ao paralelismo temporal dos primeiros, revezando a história de um passado e futuro (1980), que justificam o nome que recebeu em português.




     
Capas da edições americanas 



Para mim, os verdadeiros ecos seriam o sistema de troca de cartas que foi estabelecido entre as famílias Fraser e Mackenzie que “desafia” o tempo, entretanto elas seriam melhor denominadas de “ecos do passado” uma vez que eram via de mão única, enviadas dos Fraser para seus filhos e netos no futuro, uma forma de matar a saudade de Jemmy, Bree e Roger e fazer com que Mandy conhecesse um pouco dos avós que eles acreditavam que a menina nunca veria. O seguimento de história dos Mackenzie tem uma abertura lenta por mostrar principalmente seu estabelecimento no novo tempo, sua rotina e as dificuldades de Jemmy de adaptação, no entanto, quando os conflitos surgem, iniciando-se em especial com o novo emprego de Brianna e as dificuldades que ela enfrenta por ser uma mulher no meio de tantos homens, ele torna-se tão empolgante quanto os acontecimentos finais do enredo dos Fraser.





Capa de um dos tomos da primeira edição em português no Brasil publicada em dois volumes pela editora Rocco




No século XVIII, os Fraser se preparam para retornar à Escócia a fim de recuperar a máquina de impressão de Jamie. Como jovem Ian havia cometido um assassinato em Fraser’s Ridge, Jamie resolve cumprir a promessa que havia feito para a irmã anos antes e levar seu filho de volta para ela e ainda protege-lo de qualquer represália nas trezes colônias. Ainda na “América”, um homem chamado Percy Beauchamp/Wainwright (antigo conhecido de Lorde John e de quem o próprio Lorde tem suas suspeitas) está a procura de Fergus que pode ser um herdeiro de uma família rica, mas ninguém sabe ao certo se isso não pode trazer algum perigo para todos eles. Na ida para a Escócia, uma nova aventura no mar surge, assim como um sentimento de nostalgia em relação ao “Resgate no mar”.


Capa da atual edição em português publicada em volume único pela editora Arqueiro

Compre aqui: Ecos do futuro





Quem começa a ganhar bastante destaque nesse livro é William Hamson, filho ilegítimo de Jamie e enteado de Lorde John. Eu tenho a opinião de que ele é um personagem insuportável desde criança e a idade ainda não fez com que ele melhorasse – muito provavelmente resultado de ser um jovem rico e mimado criado para acreditar que poderia ter tudo- e os pontos de vista dele são no geral os que eu mais detesto, porém o seu enredo faz conexões importantes e instigantes com a história, em especial quando sua trama cruza com a dos Fraser. Além disso, eu tenho esperança que William amadureça ao longo da sua jornada com todas as verdades e novas realidades que ele precisará encarar. Talvez ele se torne alguém menos irritante. Lorde John também vai ganhando um papel cada vez maior nesse patamar da trama assim como vão sendo introduzidos outros membros de sua família de forma mais destacada, como seu irmão Hal, o qual havia feito pequenas participações em alguns dos livros anteriores – mas se você já leu os contos da série Outlander, pode estar muito bem familiarizado com ele nas aventuras de Lorde John e na história de como Hal e sua esposa Minnie se conheceram--  e sua sobrinha (filha de Hal), Dottie, além dos outros filhos de Hal que tendem a ir aparecendo ou tendo importância para o decorrer da história. Eu sou completamente apaixonada por Hal e Minnie e pela família deles como um todo, queria muito que Diana reservasse um espaço para outra novela ou conto mostrando mais sobre a dinâmica familiar deles, quando seus filhos eram crianças, ou mais detalhes do início do seu casamento, pois no conto “A fugitive green” (sem tradução para português ainda e incluso na Antologia de Outlander, “Seven stones to stand or fall) vemos apenas como Hal e Minnie se casaram. Outra aparição importante, porém tratada de forma bastante incidental no enredo é a de Denis Randall-Isaacs, o filho de Alex e Mary Randall, mas que historicamente todos acreditam ser de Black Jack.




As teorias que os personagens criam sobre as viagens do tempo passam a retornar a trama quando Roger encontra a notícia sobre o incêndio na casa dos Frasers- o qual ele já sabia não ter matado seu sogros através de uma de suas cartas- e a data está mudada (Para saber mais sobre a teoria gabaldon sobre viagem no tempo, leia: A teoria Gabaldon de viagem no tempo). A ideia de que eles podem sim mudar a história, em situações pequenas, na esfera individual, é reacendida.





O primeiro Fraser com quem William tem um forte relacionamento é Ian, não apenas o primo lhe salva a vida, mas eles se apaixonam pela mesma mulher, Rachel, e isso passará, mais à frente a causar discórdia entre os dois. O clima de guerra na América é muito forte, e como Jamie e Claire foram obrigados a parar no forte Ticonderoga pelo seu capitão, atrasando sua viagem para Escócia, eles participam durante uma parte grande do enredo dos preparativos das batalhas e dos acampamentos de guerra, trazendo um contexto parecido ao da segunda metade de A libélula no Âmbar. Não apenas o contexto, mas assuntos, que acreditávamos estar enterrados no segundo romance ressurgem e podem ameaçar os Frasers. Ao chegar a Lallybroch, Jamie, Claire e jovem Ian descobrem que Ian sênior está morrendo. Por mais que Jenny peça, não há nada que Claire possa fazer, e isso acaba por causar uma rachadura na amizade delas. Claire precisa voltar antecipadamente à América para socorrer Henri-Christian e assim o casal se separa mais uma vez. O reencontro deles é fantástico, principalmente por todos os desdobramentos relacionados ao fato de tanto Claire, quanto Lorde John acharem que Jamie tivesse falecido em um naufrágio.






Surpreendentemente, Roger encontra um viajante do tempo nos anos oitenta, alguém por quem ele não tem nenhum afeto após acontecimentos em livros anteriores e o desaparecimento de Jemmy causa uma grande reviravolta na vida dos Mackenzie.



O final do livro sete é encantador, sendo protagonizado por Ian e Rachel e tenho certeza que não há um único leitor da série que não torcesse para que Ian encontrasse sua paz e seu amor, após tanto sofrimento nesse ângulo da vida do rapaz. Diana escolheu como tema desse livro “Nexo”, e honestamente foi o tema mais vago de todos até agora, pois todos os protagonistas tendem a estar ligados em seus livros não apenas nesse.O  tema alternativo faz mais sentido para mim, o qual ela afirma ser “mortalidade”, mas também é algo presente em outros livros, porém não com tanta força. Talvez por acharem temporariamente que Jamie e Jenny haviam morrido, pelo falecimento de Ian sênior, por Claire precisar viajar sem o marido para ajudar a salvar a vida de Henri- Christien,  o ferimento de Rollo, o ataque a Ian e Rachel mais no final e etc..., além da presente guerra, realmente tem muitas cenas em que o coração fica na mão pensando se não iríamos perder algum dos personagens queridos, mas a noção de mortalidade também se faz muito presente nos livros anteriores.


Nessa edição, a autora nos presenteia com uma nota falando um pouco sobre a sua pesquisa e alguns pontos da história que ou são reais ou que foram adaptados de situações e pessoas que existiram. É um romance que conta com tudo que amamos de Outlander, e apesar de graças a Deusa dos bons leitores não terminar em suspense, ele contém problemas os quais não são completamente resolvidos que atraem o leitor para o próximo livro.




Por Tuísa Sampaio



REFERÊNCIAS:
GABALDON, Diana. Ecos do futuro. São Paulo: Arqueiro, 2019.
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. New York: Delacorte Press, 2015. V.2.



Você também pode gostar de ver

0 comentários