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2 de nov. de 2017

Livros x Série de TV- Episódio 07: Crème de menthe



Contem spoilers do episódio e dos livros

Episódio 07: Crème de menthe

O episódio dessa semana de Outlander, “Crème de menthe”, trouxe às telas parte do capítulo 26 (Brunch no bordel), o 27 (Em chamas), parte do 28 (O guardião da virtude) e do 29 (A última vítima de Culloden) de “O Resgate no mar”. Dessa vez, escolhi agrupar os tópicos em relação ao núcleo de interação de personagens (na medida do possível), portanto, a resenha não seguirá necessariamente a ordem cronológica do episódio ou do livro (apesar de se aproximar um pouco mais desta última). Principalmente porque os fatos destes capítulos utilizados ficaram bem embaralhados dentro de “Crème de menthe”.


-Jamie e Claire: retornando de onde “A. Malcolm” terminou, Claire está sendo atacada pelo guarda alfandegário, quando ele finda por cair e bater a cabeça ficando em um estado de vida ou morte. No capítulo 26, o Sr. Willoughby é quem mata o oficial da Coroa com um tiro, como uma forma de proteger Claire. Fergus que chega logo depois, tenta ainda tirar informações do oficial, enquanto ele cospe sangue no colo de Claire, mas é inútil, e o homem logo morre. Temos então a primeira divergência da série e livro. Duas coisas me vieram à mente que possam justificar essa mudança: 1) a moldagem do Sr. Willoughby em um personagem politicamente correto foi levada ao extremo ao ponto de retirar dele qualquer possível falha de caráter. No livro, a morte do oficial aparenta ser bem “gratuita”, visto que Sr. Willoughby é que o ataca depois de ele ter confundido Claire com uma prostituta; enquanto na série, eles deram um jeito de o homem morrer no ato contínuo da briga. Dessa ideia do Sr. Willoughby politicamente correto ainda temos a frase que ele fala a Jamie sobre “admirar uma mulher que valoriza a santidade da vida humana”, enquanto no livro ele não tinha problema algum em matar pessoas; 2) ocasionar uma discussão entre Jamie e Claire (também, talvez, e muito provavelmente, as duas situações). Em “Crème de menthe”, logo após a queda do oficial, Claire tentar salvar sua vida justificando mais à frente que como ela era uma médica, ela tem que socorrê-lo sem julgar. Ora, paciência, isso não tem a ver com o juramento de Hipócrates, mas sim com sobrevivência. Jamie, no episódio, estava certo quando disse que quem acabaria presa era ela se os guardas aparecessem. Claire não era novata naquele século, ela sabia que ser mulher, era ser culpada. Então, por que colocar uma Claire alheia ao período histórico que estava? Só para causar um confronto com Jamie? E mostrar que eles ainda precisavam ajustar os ponteiros do relógio deles, quando no livro, eles vão se conhecendo novamente sem a necessidade dessas pequenas brigas? (na verdade, no material original, eles parecem mais recém-casados). A mesma Claire que já havia praticado eutanásia e até mesmo matado em prol da sobrevivência daqueles que ama e de si mesma realmente teria arriscado ser presa e ainda mais ter colocado em jogo a segurança de Jamie, Fergus e jovem Ian para salvar a vida de um homem que a tentou matar e que claramente não tinha mais chances de sobreviver? Para mim, me pareceu, que além de quererem incluir uma briga entre o casal, os produtores construíram essa cena para justificar a ida dela à botica (o que facilmente poderia ser incluído por “n” outros motivos, inclusive a razão do próprio livro).


“Certamente, o desaparecimento desse funcionário iria provocar uma intensa busca. Eu tinha visões de homens vasculhando o bordel, interrogando e ameaçando mulheres, fornecendo descrições completas de mim, de Jamie e do Sr. Willoughby, bem como de vários relatos de testemunhas do crime.”


No capítulo, logo após a morte do oficial, Jamie leva Claire para tomar um banho, já que sua roupa estava toda melada de sangue. No episódio, Claire sai em busca do material necessário para salvar a vida do guarda, enquanto Jamie organiza seus homens, juntamente com Fergus e jovem Ian para que se livrem do contrabando. No livro, pela descrição que Claire faz da situação e ao olhar o corpo, Jamie percebe que o homem morto pelo Sr. Willoughby não era realmente um guarda alfandegário, pois ele conhecia todos eles, mas também não sabia quem era. Ademais, quando havia ido tratar de negócios mais cedo, Jamie tinha deixado que parte da sua bebida propositalmente fosse apreendida (a de pior qualidade) pelos guardas para que eles parecessem ser competentes, o que estava incluído no acordo deles. Na série, isso não aparece. No capítulo 27, enquanto Jamie e Claire jantam, eles encontram Sir Percival, o qual avisa Jamie para não realizar uma determinada viagem que estava em seus planos. No capítulo 28, Jamie conta a Claire que Sir Percival achava que ele contrabandeava seda e veludo da Holanda, e Jamie pagava a ele em tecido (diferente da série, onde Sir Percival recebia em pecúnia e estava bem ciente do contrabando de bebida alcóolica). Com um alfaiate, Jamie trocava as peças de costura por conhaque. No capítulo 27, Jamie e Claire estão tendo conversas de travesseiro, que infelizmente foram cortadas. Mais uma demonstração de amor entre o casal foi retirada da série, enquanto brigas inventadas foram acrescentadas.


“- Jamie- eu disse finalmente num sussurro, acariciando a sua nuca – acho que nunca me senti tão feliz.


- Nem eu, minha sassenach – ele disse, beijando-me muito de leve, mas longamente, de modo que eu tive tempo de cerrar meus lábios numa pequena mordida na parte cheia de seu lábio inferior. – Não se trata só de sexo- ele disse, afastando-se um pouco finalmente. Seus olhos fitavam-me, com o azul suave e profundo de um quente mar tropical.

- Não- eu disse, tocando sua face. – Não é só isso.


- Ter você comigo outra vez, falar com você, saber que posso dizer qualquer coisa, sem quer que vigiar minhas palavras ou esconder meus pensamentos...meu Deus, Sassenach – ele disse- Deus sabe que como homem sou louco por sexo e não consigo tirar as mãos de você, de nenhuma parte – acrescentou ironicamente- , mas eu não me importaria de perder tudo isso pelo único prazer de ter você a meu lado e poder conversar com você de coração aberto.

- Foi muito solitário viver sem você. – sussurrei. – Muito solitário.


- Para mim também. (...)”



Claramente, a situação do casal Fraser na mesma linha de acontecimentos da série era completamente oposta ao que está sendo apresentada. Isso me entristeceu. Por que escolheram mostrar animosidade entre Jamie e Claire, quando há tantas cenas lindas de reconexão entre eles neste período? Dentre essas conversas de travesseiro, Jamie conta que foi por acaso que ele havia se tornado um mestre-impressor. Quando ele veio para Edimburgo, ele precisava de uma atividade que servisse para esconder seu contrabando. A ideia da gráfica veio quando ele pensou em um local para imprimir alguns panfletos e ali, acreditou que os guardas nunca imaginariam que havia negócios ilegais. Depois de ter colocado a tipografia para funcionar é que nasceu a ideia dos panfletos políticos.



Em “Crème de Menthe”, Ian aparece em busca do filho (na ordem dos livros isso já havia acontecido no capítulo 26, antes mesmo de Claire ter conhecido jovem Ian). Como a presença de Ian é avisada por Madame Jeanne, ele não entra no quarto e sim, são Jamie e Claire quem descem ao salão para recebê-lo, não tendo como ele confundir uma Claire escondida na cama com uma prostituta, uma vez que ele estava olhando diretamente para ela. Essa foi uma das melhores cenas do episódio (apesar de que preferiria ter visto o trecho como descrito no livro, Steve Cree (Ian) estava primoroso em sua interpretação e foi quem mais demonstrou emoção ao reencontrar Claire). Jamie avisa a Claire para que ela não conte a Ian sobre a localização do seu filho. Claire obedece, mas isso a perturba. A série então apresenta um Jamie prepotente que acredita que sabe melhor que ninguém o que seria apropriado na criação do sobrinho. Nessa prepotência, ele permite que sua irmã e cunhado fiquem morrendo de preocupação em relação ao filho. No livro, as coisas não se passam de tal forma. O mero fato da mudança de ordem de cenas já faz com que Claire não tenha que mentir para Ian no material original. Ademais, o motivo para o qual Jamie não conta ao cunhado que o filho estava com ele, foi que ele havia prometido ao jovem Ian que daria a oportunidade de ele mesmo contar. Justo. Assim, enquanto no livro, um acordo que permitia que fosse o próprio filho a se redimir com o pai fez com que Jamie mentisse; na série, foi uma arrogância inventada. E tal arrogância acaba levando a mais uma briga criada pela roteirista, na qual Jamie joga na cara de Claire que não foi capaz de criar a filha e que ela e Frank quem escolheram o que era certo para a menina. Indicando ainda que ela havia sido criada sem moral por usar biquíni . Mas, afinal, não foi o senhor, seu jamie Fraser, que enviou a sua esposa e filha para Frank Randall? Agora é tarde demais para reclamações.


Enquanto no episódio, é Jamie quem conta que o corpo do funcionário de Sir Percival foi escondido em um barril de creme de menta; no livro, é Fergus quem diz isso no capítulo 28 (o guardião da virtude), quando ele aparece para contar ao seu milorde que havia vendido o conhaque que estava guardado (na série a incumbência de vender a bebida coube ao jovem Ian, Fergus apenas o acompanhou).


- O incêndio: o incêndio na gráfica ocorre no capítulo 27 (em chamas). Enquanto no episódio, madame Jeanne avisa aos Frasers sobre o ocorrido; no livro, Claire e Jamie veem a fumaça quando caminham pela Royal Mile. No capítulo, não apenas Jamie adentra no recinto, mas alguns outros homens que passavam na rua. Jamie passou, então, a jogar pela janela vários de seus materiais de impressão com o intuito de conseguir salvar algo da sua preciosa tipografia. Foi capaz também de resgatar sua prensa com a ajuda dos rapazes que haviam o acompanhado. Ian (pai) aparece na frente da gráfica (o que não acontece no episódio) e é ele quem vê o vulto do jovem Ian dentro do ambiente em chamas (na série, Jamie entra apenas com o objetivo de salvar jovem Ian, quem ele já sabia que estava lá). Claire, então, avisa a Jamie sobre a presença do sobrinho na gráfica, e ele entra para salvá-lo. Depois do alvoroço, os Ians e os Frasers retornam para o bordel, onde Ian (pai) ameaça o filho com a perspectiva de uma surra. Logo em seguida, perguntas são feitas e jovem Ian diz que foi ele quem pôs fogo na gráfica. Ele conta então que havia visto um homem perguntando pelo tio Jamie na taverna onde estava comendo, mas não questionava sobre Alexander Malcolm, mas sim usava o nome verdadeiro de Jamie e também tinha conhecimento do nome que Jamie usava nas docas, Jamie Roy. Tal nome não aparece na série. Jovem Jamie passou a seguir o homem, mas acabou perdendo-o de vista, assim ele retornou ao bordel. Esse trecho no livro é bem engraçado, pois como jovem Ian não sabia ainda quem era Claire – e acreditava que ela fosse uma prostituta- ele acusa o pai de ter um caso com ela, chamando-o de hipócrita – Ian (pai) conta quem é Claire, e a pergunta que jovem Ian fez no episódio passado sobre as mulheres de Lallybroch falarem que Claire era uma fada é feita neste momento. Ian explica ao filho que Claire estava na França e ao achar que Jamie estivesse morto, não podia retornar porque iria por Lallybroch em desgraça, mas quando descobriu que o marido estava vivo retornou. Jovem Ian continua sua história dizendo que do bordel acabou conseguindo sair e encontrar o tal homem, ele viu o sujeito entrar na gráfica. Como havia muitos panfletos subversivos lá, jovem Ian colocou fogo na tipografia para que eles não fossem encontrados. Mais tarde quando o pai sai do recinto, jovem Ian conta que na verdade ele não começou o fogo, quando ele bateu no homem, o sujeito derrubou carvão em brasa que iniciou o incêndio. Ele não quis contar ao pai por vergonha de ser um assassino. Como o rapaz sentia-se culpado, o tio decidiu levá-lo para visitar o padre Hayes com o intuito de se confessar. No episódio, o incêndio é causado pelo tiro do capanga de Sir Percival, e o sujeito estava em busca dos barris de bebida alcoólica.



- Fergus e jovem Ian: no capítulo 28, após realizar a venda do conhaque, Fergus busca uma prostituta para fazer companhia pelo resto da noite. Fergus sugere que jovem Ian deve procurar uma das meninas de madame Jeanne para passar a noite, em vez de ficar no quarto dos tios (a essa altura no livro, a gráfica já havia pegado fogo, e o menino tinha passado pela experiência de quase ser tostado). No episódio, o incêndio não havia acontecido, jovem Ian e Fergus estavam em uma taverna comemorando a venda do conhaque. Fergus comenta que sempre vê o jovem Ian olhando a tal Brighid, que aparenta ser uma garçonete e não uma prostituta como no livro, e o ajuda a conquistá-la. Algo bonito de ser ver nesse episódio foi a amizade entre esses dois. Fergus agia como um irmão mais velho e na verdade é assim que eles se enxergam, não foi à toa que Fergus chama o amigo de irmão. Por mais que Fergus fosse filho adotivo de Jamie, foi Jenny quem o criou por todo o período em que Jamie estava preso e em Helwater. Ele a via como mãe e os filhos dela como irmãos. Essa foi a parte interessante deste episódio, a interação entre esses dois homens que cresceram juntos e que agora compartilham uma forte amizade. César Domboy (Fergus) me conquistou ainda mais. O modo de falar dele está bem semelhante ao de Roman Berrux (Fergus jovem) assim como alguns de seus trejeitos, o que me fez ficar ansiosa para ver o desenvolvimento da sua história ao longo da temporada. Também estou torcendo que pelo fato de ele ser um personagem coadjuvante e como muito provavelmente essa segunda parte da temporada vá ser mais corrida, não cortem os detalhes do casamento dele. É uma cena tanto engraçada, quanto tocante no livro.


- Os Campbell: no capítulo 29 (a última vítima de Culloden), Claire vai a botica para se abastecer de ervas medicinais. É lá que ela conhece o reverendo Archibald Campbell. No episódio, eles transformaram o homem de Deus em um aproveitador da irmã, um tradutor das suas visões. Parte da história deles também foi cortada. Na verdade, o que foi mostrado foi um pobre retalho de uma narrativa mais inventada do que extraída do livro. O que se tem de igual é que eles eram irmãos e que ela aparentava ser uma doente mental. Mas em “Crème de menthe”, eles mudaram a razão de ela ser assim. No episódio, Campbell diz que ela nasceu com a doença nervosa; mas no livro, seu estado sensível é resultado do trauma que sofreu em Culloden. Talvez eles tenham modificado o porquê para economizar tempo, mas depois de uns quinze minutos de cirurgia inútil na cabeça de John Barton e de acréscimos de brigas desnecessárias entre Claire e Jamie, não acredito que tempo fosse realmente um problema para esse episódio. Apesar da aparição dos Campbell parecer algo completamente avulso, ela não é. Margaret Campbell ainda terá importância no desenrolar de “O Resgate no Mar”. No capítulo, quando Claire chega à botica, ela ajuda Haugh na organização da sua loja, o reverendo que estava presente percebe que ela tem conhecimento da ervas e pede sua ajuda no que deve ser fornecido para uma pessoa com doença nervosa. Ele requisita, de maneira meio arrogante, que Claire vá ver sua irmã (nesse momento, Claire pensa que é a esposa dele que precisa de ajuda, só mais tarde que descobre que é a irmã). Quando Claire chega à casa dos Cambpell, é recebida por uma mulher chamada Nellie Cowden que a apresenta a Margaret Campbell (o reverendo havia saído). Nellie diz que Margaret tem 37 anos e está nesse estado catatônico há 20 anos, e mora com o reverendo desde as mortes dos pais. É Nellie quem informa a Claire que o ministro e a irmã estão se mudando para as índias ocidentais, onde ele aceitou uma proposta da Associação de Missionários. Em “Crème de menthe”, Campbell fala que eles irão realizar um trabalho lá, mas não especifica o quê. Nellie conta a Claire também que Margaret tinha 17 anos na época do levante de 1745. O pai e o irmão estavam do lado do rei, mas Margaret era jacobita. Ela trabalhou como informante, espionando o pai e irmão. Quando surgiram boatos de uma possível derrota, Margaret fugiu de casa em busca do homem por quem era apaixonada. Ninguém sabe ao certo se ela o encontrou, o que se sabe é que no dia seguinte a Culloden ela foi capturada por soldados ingleses. Margaret Campbell sofreu um estupro coletivo e foi largada quase morta (mais uma vez Diana usa o recurso narrativo do estupro. Por mais que a ameaça de violência sexual naquela época fosse muito frequente, é um pouquinho de falta de criatividade, ela enfiar isso na vida de quase todo personagem sofrido que aparece). Ela tinha vivido com os ciganos, onde seu irmão a encontrou quando seguia com o seu batalhão. O fardo de cuidar da irmã doente fez com que ele virasse ministro e nunca se casasse. Claire então dá uma receita de chás e frutas como no episódio. Entretanto, algo estranho ocorre no livro. Jovem Ian tinha ido acompanhar Claire na visita, mas não havia entrado na casa. Depois de um tempo, ele vai até a sala onde Claire está para buscá-la e menciona o nome de Jamie, o que faz Margaret gritar. Claire pergunta a Jamie mais tarde se ele conhece uma Margaret Campbell, e ele afirma que pode ser que sim. Ele acredita que ela era a namorada de Ewan Cameron na época de Culloden. O rapaz havia sido fuzilado dois dias após a batalha final. Durante toda a visita de Claire, Margaret havia ficado calada, apenas quando Ian fala o nome de Jamie, que ela solta um grito “Jamie?” e se alvoroça. A possibilidade de ela ser vidente é algo que só é apresentado mais à frente no livro.



“Créme de menthe” foi um episódio de transição. Ele não acrescenta nada de novo à série, e é cheio de embromações (aquela cirurgia sendo a maior delas. Eu gosto de Claire colocando a mão na massa, mas não quando é feito sem um objetivo). Facilmente poderiam tê-lo tornado mais enxuto e acrescentado fatos dos capítulos seguintes. Isso foi algo semelhante ao que fizeram no episódio “The Search” da primeira temporada, em que colocaram Claire buscando por Jamie durante um episódio inteiro, sem necessidade, e depois tiveram um season finale corrido. A sensação que eu tive foi que à roteirista faltava não apenas familiaridade com os livros, mas também com o que havia sido escrito para os episódios anteriores. Mexer com a essência dos personagens tem sido comum nessa série, mas Jamie e Claire pareciam ter incorporado pessoas completamente diferentes em relação ao episódio anterior. Esse foi o episódio com a nota mais baixa dessa temporada no IMDB (8,5). Para mim, o que o fez valer a pena foi a relação de jovem Ian com Fergus, o encontro com Ian pai, e o final em que vemos Jamie tratando Fergus por “meu filho”. Agora os personagens vão voltar para Lallybroch, e o episódio já soltou a pista (para aqueles que não leram os livros) que Jamie tem outra esposa. A sequência de acontecimentos seguintes são a que eu tinha mais curiosidade para ver a interpretação em tela nesta temporada. Minha torcida é para que fique o mais fiel possível ao livro, mas pela promo apresentada aparentemente eles já modificaram algumas das coisas pelas quais eu aguardava. Até a próxima ;)




Por Tuísa Sampaio

26 de out. de 2017

Livros x Série de TV- Episódio 06: A. Malcolm



Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 06: A. Malcolm


            O episódio dessa semana tem sido o mais aguardado entre os fãs desde o season finale da segunda temporada. Finalmente, depois de cinco episódios/23 capítulos, o casal de amor (quase) impossível se une novamente. O roteirista de “A. Malcolm”, Matthew B. Roberts, usou como base principal parte do capítulo 24 (A. Malcolm, o mestre-impressor), o qual evidentemente nomeia o episódio, 25 (A casa da alegria) e parte do 26 (Brunch no bordel) de “O Resgate no mar”. Dessa vez, com Claire e Jamie em um mesmo “tempo”, resolvei criar uma estrutura temática para a resenha. Essa ordem está mais próxima a do episódio, portanto, um pouco mais embaralhada em relação a dos livros. 

- A jornada de Jamie: o episódio já começa com cenas que não existem no livro, uma vez que o reencontro entre Jamie e Claire é narrado por Claire no material original, e em “A. Malcolm”, há um pequeno retrocesso temporal em relação ao episódio anterior para contar sob a perspectiva de Jamie como havia sido seu dia antes de Claire aparecer. Ele sai do bordel de Madame Jeanne, onde mantém um quarto, caminha espalhando aquele charme escocês pelas ruas de Edimburgo (tenho que confessar que achei que esse figurino foi um dos que caiu melhor nele, obviamente, o kilt não conta. O traje completo escocês, principalmente o “feile mor” ou “great kilt”, combina mais que perfeitamente com Jamie, é quase uma segunda pele), adentra sua gráfica e o telespectador já tem uma pequena noção que Jamie não está fazendo negócios completamente legais, quando ele entrega panfletos que envolvem algum tipo de traição para serem levados a um colega papista. É logo em seguida que conhecemos quem seria o Geordie, a pessoa com a qual ele confundiu Claire no episódio anterior. O ator que está interpretando Geordie (Lorn MacDonald) encaixou-se muito bem com esse papel, ele ficou hilário e suas caras de nojo e antipatia dão um ar mais cômico ao ambiente da tipografia. Até que um tempo depois que Geordie sai, Claire chega e reencontra Jamie. Essa cena, como mencionei na resenha anterior, ocorre no capítulo 24. Os produtores escolheram repetir parte da cena sob o ponto de vista de Jamie até quando ele desmaia, a partir daí inicia-se o trecho que ainda não havia sido mostrado no episódio anterior. Logo após eles perceberem que são reais mesmo; no livro, eles passam a chorar um nos braços do outro. Jamie, depois, tira os grampos do cabelo de Claire e traça seu rosto com os dedos. Ambos usam um lenço para assoar o nariz e limpam as lágrimas até que Claire o abraça novamente. É quando ela pergunta se ele perdeu algo, e ele responde que ficou com receio de ter se mijado, mas que havia apenas derrubado a cerveja nas calças. Ele se levanta e vai tirar as calças quando se toca da presença de Claire. Ela comenta que ele pode fazer isso na frente dela já que eles são casados, pelo menos, ela acredita que sejam, e ele confirma. Ele olha para as mãos dela e ela diz que nunca tirou a aliança dele. Ele perde permissão para beijá-la, ela concorda e Jamie diz que não faz isso há muito tempo com o qual ela também responde que não. Jamie comenta sobre tê-la visto em sonhos e quando estava com febre, mas que ela nunca o tocava. Claire menciona que agora pode tocá-lo. Jamie então diz a fala que me fez perder algumas batidas do coração “Não tenha medo (...). Agora somos nós dois.” Essa é uma frase que Jamie também havia dito a Claire na noite de núpcias deles. O episódio do casamento na primeira temporada é um dos que eu mais gosto, mas eu tinha um pequeno ressentimento da produção ter excluído essa frase, porque eu acredito que ela passou naquele momento um enorme conforto e segurança para Claire, que estava sozinha e perdida em um tempo e país que não eram seus. Foi uma promessa de proteção. Tanto é que Claire narra no capítulo 15 do primeiro livro, logo após Jamie dizer-lhe isso, que se sentiu “aquecida, acalmada e segura pela primeira vez em muitos dias.” Quando eles se reencontram Jamie faz a mesma afirmação e não apenas o coração descompassou como meus olhinhos brilharam quando eu vi que a produção, dessa vez, inseriu essa declaração dele. Geordie entra e vê a cena de Jamie e Claire se beijando, ele se demite assustado com a depravação do patrão. O diálogo da demissão na série e livros são os mesmos. Jamie, então chama Claire para subir para o outro andar da tipografia com ele, se ela não considerar o ato imoral, e ela o acompanha, mais uma vez de forma semelhante a que ocorre no episódio. Tirando a parte que seguiu Jamie antes de ele se encontrar com Claire, as conversas até aqui entre os personagens no reencontro foram, no grosso, extraídas do livro, o que foi mais modificado, acredito eu, foi o posicionamento corporal dos atores e o modo como as emoções foram expressas em cena. O fato de eles não terem chorado imediatamente quando se encontraram, acho que tirou uma parte da comoção do momento. Isso de certa forma foi um pouco amenizado com a lágrima que Claire deixa escorrer durante o primeiro beijo com Jamie. A falta do choro não foi culpa do roteiro, porque há nele a descrição das lágrimas de Claire tanto quando eles percebem que a presença um do outro é real, quanto no beijo, em que os dois deveriam chorar, mas só Claire o faz. Já vi vários comentários de fãs que não gostaram da intepretação do reencontro e acharam os personagens frios demais para a situação. Eu concordo que algumas cenas ficaram mais “secas” do que deveriam se comparadas com as descrições de DG, por assim dizer, (sendo essa primeira conversa um exemplo delas) mas outras tiveram uma quantidade de emoção que eu esperava. Depois de vinte anos separados, Jamie e Claire eram dois estranhos. A faísca da paixão deles está lá, mas toda chama para se espalhar precisa de combustível e oxigênio, ou seja, ela precisa ser alimentada para crescer. A fagulha existe, e ela foi crescendo com os toques e conversas, mas eles ainda não chegaram naquela fase de amor incendiário que tinham quando se separaram. Eles não têm mais intimidade para isso. Eles não se conhecem mais. E, na verdade, nem o leitor, nem o telespectador conhecem mais Jamie, pois acredito que de forma proposital a autora deixou os anos de Jamie pós- Helwater até o reencontro sem narração. Assim, o leitor teria a mesma sensação de Claire de enfrentar o desconhecido, o mesmo estranhamento. No livro, existiam momentos mais explosivos, porém também havia aqueles de “reconhecimento de terreno” por assim dizer. Acredito que algumas cenas que carregam uma explosão emocional no livro não foram bem interpretadas neste episódio, mas as cenas mais calmas, as que portavam a sensação de estranhamento e distância com uma pitada de deslumbramento foram bem feitas. Foi isso que faltou em “A. Malcolm”: uma melhor dosagem da emoção. Infelizmente, houve interpretações que realmente não funcionaram para mim, e a principal foi a da conversa sobre os filhos, a qual foi a minha decepção neste episódio.





- Sobre os filhos: ainda no capítulo 24, Jamie pergunta sobre o bebê que Claire carregava quando eles se despediram. Ela então fala a ele sobre Brianna. O diálogo é muito similar ao do livro. Ela mostra as fotos e conta emocionada alguns detalhes sobre crescimento da filha. As diferenças foram: Faith, William e a falta de emoção de Jamie. Durante esta conversa, no material original, Faith, a filha que eles perderam na França não é mencionada. Essa foi uma modificação da cena que eu gostei. Jamie e Claire falam de Faith ao longo dos livros, mas isso ocorre poucas vezes (só nesta temporada, na série, eles lembraram mais dela do que nos oito livros publicados). Acho que inseri-la na conversa sobre Brianna foi uma forma respeitosa de lembrar  uma das maiores perdas do casal e também uma maneira de representar a união da família. Já em relação a Jamie falar sobre William neste momento não encaixou tão bem devido às consequências que essa mudança traz e pelo modo como a cena foi interpretada.  Em o Resgate no Mar, Jamie não conta a Claire sobre William nesta conversa. Na verdade, quem menciona William a Claire pela primeira vez é Lorde John, quando ele e Claire se encontram na Jamaica (capítulo 59- quando há grandes revelações) e depois de John já ter contado, Jamie confirma a história. Quando Lorde John conta a Claire sobre Willie é a ele que Claire pergunta se Jamie havia se apaixonado pela mulher, e John diz que acredita que não. O retrato que Jamie carrega de Willie foi entregue por Lorde John a ele, na Jamaica. Eu não gostei dessa mudança por vários motivos dentre eles está a possível modificação da dinâmica inicial do relacionamento entre John e Claire. Quando os dois se conhecem, e Claire percebe que Lorde John não apenas é apaixonado por Jamie como é pai adotivo de seu filho; e, no mesmo contexto, John descobre que Claire era a esposa a quem Jamie nunca deixou de amar, surge um sentimento de rivalidade, que é atrativo e intrigante de se ler. Ao longo dos livros, John e Claire acabam tornando-se amigos devido ao amor que tem por Jamie e passam a ser respeitar, mas essa relação é algo que é gradativamente construída, e o sentimento de ciúmes um do outro que surge quando eles se conhecem é meio que o alicerce para o que estar por vir. Eu não sei como a temporada vai se desenvolver e se os produtores vão acrescentar outras coisas para criar essa dinâmica entre eles, mas espero que não modifiquem o desenvolvimento do relacionamento entre esses dois personagens. Além disso, se Sam (Jamie) tivesse interpretado a cena com a emoção que Jamie expressa no livro ao olhar para as fotos de Brianna, o incômodo da inserção de Willie teria sido menor, uma vez que a comoção do personagem na cena foi mais “contida” que no livro. No capítulo, quando Jamie vê as fotos da filha, suas mãos tremem e ele precisa da ajuda de Claire para segurar os retratos, enquanto derrama lágrimas pela criança por quem ele fez um dos maiores sacrifícios da sua vida.

Suas mãos tremiam tanto que ele não conseguia mais segurar as fotos; tive que mostrar-lhes as últimas (...). As fotos mostravam seu rosto em todos os estados de espírito que eu pude captar, sempre aquele rosto, nariz reto e comprido, boca larga, com aquelas maçãs do rosto viking, altas, largas e lisas, e os olhos rasgados – uma versão mais delicada, de ossos mais delgados, de seu pai, do homem que se sentava na cama ao meu lado, a boca abrindo-se e fechando-se sem emitir nenhum som, e as lágrimas rolando silenciosamente pela própria face.
 Espalmou a mão sobre as fotografias, os dedos trêmulos apenas roçando as superfícies lustrosas, depois se virou e inclinou-se em minha direção, lentamente, com a graça improvável de uma árvore alta caindo. Enterrou o rosto em meu ombro e desmoronou completamente.

Outra divergência é que logo no início da cena das fotos em O Resgate no mar, Claire dá a Jamie o beijo que Brianna mandou para ele, isso foi cortado da série. A falta de emoção na adaptação não foi culpa do roteiro, as lágrimas foram colocadas no contexto da interpretação, mas o ator Sam falou em entrevista para EW que achou que ficaria muito “melodramático” construir a cena dessa forma e a mudou. O argumento dele era que um pai que não conhecia a filha não iria chorar pelas fotos. Outro pai talvez não, mas Jamie Fraser sim. Um homem que tem a história de vida marcada pelo sofrimento, pela ausência, pela solidão, pelo exílio... acima de tudo, um homem que foi pai mas que nunca pode criar nenhum de seus filhos biológicos pelo próprio bem deles, que passou duas décadas sofrendo pela perda da família que ele mandou para longe para proteger, não iria apenas chorar, iria desmoronar e tremer como no livro. Não era só a filha que ele acreditava que nunca iria conhecer naquelas fotos, é a simbologia de que toda dor e sacrifício valeram a pena: o nariz quebrado, seis anos morando numa caverna, três anos em uma prisão, mais alguns anos no exílio na Inglaterra trabalhando como servo, vinte anos ardendo por uma mulher que ele nunca conseguiu esquecer e rezando pela segurança dela e do filho que ele mandou para ser criado por outro homem. Toda essa vida de penitência foi para que Claire e Brianna vivessem seguras, e o ator vem e diz que chorar pelas fotos seria “melodramático”. Até parece que ele esqueceu tudo o que ele havia interpretado até aquele momento e pensou só naquela cena fora de contexto. Segue a descrição do roteiro:

Claire mostra a ele as fotos novamente, e Jamie rapidamente é dominado pela emoção. Enquanto ele olha as fotografias de Brianna – como qualquer novo pai faria – Jamie desmorona completamente, caindo nos braços de Claire, lágrimas escorrendo pelas suas bochechas. Após um pedaço ele se recupera, levanta sua cabeça – (tradução minha)”

Depois de um episodio anterior majoritariamente dedicado ao laço entre mãe e filha, fiquei surpresa de que a paternidade de Jamie fosse tratada de uma forma tão banal. Até que eu vi que o problema não foi o roteiro, e sim a liberdade artística do ator. A combinação dessa descrição do roteiro com o episódio anterior (neste quesito) faz muito mais sentido do que a forma como a cena foi conduzida por Sam.

O capítulo é concluído com a lembrança de Jamie que tinha que se encontrar com o Sr. Willoughby e convidando Claire para ir com ele. No episódio, ele só diz que precisa ir a taverna, quem menciona o Sr. Willoughby é Fergus quando eles se encontram no caminho para The World’s End . No livro, Claire só encontra Fergus no dia seguinte no bordel (capítulo 26), mas a fala dele é em parte semelhante a retratada na TV. Imagino que eles modificaram a ordem das cenas para que todos os filhos ficassem em um mesmo seguimento, já que Fergus é filho adotivo de Jamie. Uma divergência em relação à aparência de Fergus é que ele usava um gancho no lugar da mão perdida, e, não, uma prótese de madeira. Eu não entendi essa mudança, uma vez que o gancho seria mais útil para “pegar” coisas, não vejo vantagem na prótese a não ser decoração. Mas ainda temos uma temporada inteira pela frente onde pode surgir alguma explicação para isso. Ademais, quando Claire encontra Fergus na série, ela diz que estava vivendo na América; no livro, ela informa a todos (exceto Jamie) que tinha ido viver na França. Eu tinha ficado com o pé atrás em relação ao ator escolhido para interpretar Fergus mais velho (César Domboy) e confesso que a primeira vez que eu assisti ao episódio ele ainda não tinha se encaixado completamente no que eu esperava do personagem; mas, da segunda vez em diante, eu comecei a ter uma mente mais aberta e acredito que ele tenha potencial.

- O quarto no bordel: depois da taverna, onde Claire conhece o Sr. Willoughby (Gary Young), o chinês sócio de Jamie, Claire é conduzida pelo marido ao bordel de Madame Jeanne. Antes de adentrar no cômodo favorito do episódio, vou abrir um parêntese para comentar sobre como o Sr. Willoughby foi retratado na série. No livro, o Sr. Willoughby é descrito como meio que um pervertido sexual (com uma fixação por pés). Inicialmente, aparece no episódio, o fato de ele ter lambido o cotovelo de uma prostituta sem pagar o que devia, isso foi o único ponto sexual que foi apresentado. No livro, surge uma discussão em que uma moça o acusa de fazer algo ofensivo a ela, não menciona exatamente o quê; e Jamie, Claire e o pequeno chinês, o qual estava muito bêbado por sinal, são obrigados a fugir do recinto. No episódio, Jamie paga a dívida do seu sócio e deixa Claire aos cuidados dele enquanto sai para resolver questões relacionadas ao seu negócio de contrabando. O que se segue é que Claire e o Sr. Willoughby tem uma conversa interessante sobre a vida dele e como ele e Jamie se conheceram, informações no geral, que foram extraídas de conversas de Jamie e Claire do livro, já que o Willoughby quase não falava inglês no material original. O destaque é que pelo menos, por enquanto, ele não foi mostrado como um personagem exageradamente sexualizado, nem a relação com Jamie parece ser cheia de ofensas e gritos como é no livro. Uma das produtoras-executivas da série, Maril Davis, deu uma entrevista para PopSugar onde comentava sobre o Willoughby. No teor do texto, o redator menciona que para muitos leitores, o personagem era um “conjunto de estereótipos chineses” e, Maril afirma que gostava muito dele, mas que “havia coisas ofensivas no livro” em relação a ele.  Assim, os produtores modificaram o personagem um pouco, tirando o seu vício sexual para torná-lo mais politicamente correto, em vez de cortá-lo completamente, pois seria uma grande perda. Não vejo isso como algo necessariamente ruim, nem bom; tudo vai depender de como o personagem será trabalhado ao longo do resto da temporada. Compreendo que ao passar o Sr. Willoughby das páginas do livro para o audiovisual da série, os produtores entenderam que retratar um asiático estereotipado pudesse ser ofensivo para determinado público, mesmo que ele fosse descrito assim no material original. A adaptação televisiva tem um maior alcance que os livros, e ver algo é sempre mais chocante que ler. Sem contar que “O Resgate no Mar” foi escrito nos anos 90, enquanto a série está sendo transmitida quase vinte anos depois. A visão das pessoas em relação a determinados temas mudou. O Sr. Willoughby dos livros é um personagem muito interessante, ele acaba dando a Claire os conhecimentos sobre acupuntura, por exemplo, que ajudam a diminuir o enjoo de Jamie na travessia do mar. Ele é alguém que tem sua sabedoria, mas também é portador de muitos defeitos. Eu acredito que na nossa sociedade contemporânea, determinados estereótipos de personagem simplesmente não funcionem na mídia televisiva e poderiam trazer publicidade negativa. Foi uma escolha segura e se bem trabalhada pode ter sido realmente muito boa.  O casting do ator foi maravilhoso, e o neozelandês Gary Young caiu como uma luva no personagem.

O núcleo do episódio acontece no quarto do bordel, quando Claire e Jamie tem seu reencontro sexual e conversam sobre suas vidas, tentando recuperar a intimidade perdida. Muito deste seguimento de cenas é espelhado no episódio do casamento, mas isso também ocorre no livro. Os diálogos trocados dentro do quarto são bem semelhantes aos do capitulo 25 (a casa da alegria), com alguns acréscimos e trocas de ordem. Até mesmo as narrações de Claire nesse trecho foram em maioria retiradas diretamente deste capítulo. A cicatriz na perna de Jamie é vista por Claire, mas ela é descrita de uma forma muito mais grotesca de como foi desenhada na série de TV.  Ainda mais porque ela não era resultado apenas da baioneta, mas também de Jenny ter cortado a perna dele até o osso para lavar com água fervente o ferimento para impedir a gangrena. Eles conversam sobre a cicatriz logo depois de Jamie dedilhar as estrias de Claire antes de fazerem sexo (na adaptação, as estrias não são mencionadas, apenas a cicatriz de Jamie, e isso é feito após o sexo)

“A cicatriz estendia-se do meio da coxa até perto da virilha, vinte centímetros de tecido esbranquiçado e esgarçado. Não pude conter uma exclamação sufocada diante da aparência da cicatriz e cai de joelhos ao lado dele.
Encostei a face sobre a coxa, agarrando sua perna com força, como se fosse cuidar dele agora – como eu não pudera cuidar na ocasião. Eu podia sentir a pulsação profunda e lenta do sangue através da artéria femoral sob meus dedos – a menos de dois centímetros do horrendo sulco daquela cicatriz contorcida.
- Não a assusta nem revolta seu estômago, Sassenach? – ele perguntou, colocando a mão em meus cabelos. Ergui a cabeça e fitei-o intensamente.- Claro que não!- Sim, bem. – Estendeu o braço e tocou minha barriga, os olhos presos aos meus.- E se você carrega as cicatrizes das suas próprias batalhas, Sassenach – disse ternamente - , elas também não me incomodam.”

O pedido que Claire no início da cena de sexo deles para que ele não fosse gentil, no livro é apenas um pensamento dela, pois devido ao medo e nervosismo que ainda sentiam um do outro, ela não conseguia expressar isso em palavras. A coreografia desse primeiro ato sexual deles também foi semelhante a do livro, ele bate a cabeça no nariz dela, ele pergunta se ela se machucou, e ela afirma que acha que quebrou o nariz, e Jamie faz a descrição de como seria a quebra dessa parte do corpo. Ele pede a boca dela antes de começarem efetivamente a fazer sexo, logo após a batida do nariz; no episódio, isso ocorre durante o ato sexual.




O casal conversa após o sexo, o conteúdo é muito similar ao do livro. Claire descobre que Jamie é um contrabandista além de tipógrafo, ela também brinca de adivinhar sua profissão escondida por acreditar que devido à forma física de Jamie, ele não fosse apenas um impressor.
A cena em que ela pergunta se ele se sentiu daquela forma na primeira vez que eles se deitaram (logo após de Jamie descrever as belezas do corpo dela, e como ele não conseguia parar de tocá-la) e ele diz “Sempre foi para sempre para mim, Sassenach!” pareceu estranha para mim. São frases do livro, mas elas ficaram soltas e acredito que para alguém que não os tenha lido, uma sequência de sentenças não completou a outra, como se tivesse algo que foi cortado no meio.

“- Eu estava com mais medo agora do que na noite do nosso casamento – murmurei, os olhos fixos na pulsação lenta e forte na base de sua garganta.- Estava?- Seu braço mudou de posição e apertou-se com mais força ao meu redor. – Eu a assusto, Sassenach?- Não. – (...)- É que... na primeira vez... eu não achava que seria para sempre. Na época eu pretendia ir embora.(...)- E você realmente foi embora e voltou outra vez- ele disse. – Você está aqui, nada mais importa além disso.
(...)- O que você pensou na primeira vez que dormimos juntos? – perguntei. Os olhos azul-escuros abriram-se devagar e pousaram em mim.
-Comigo, desde o começo foi para sempre, Sassenach – ele disse simplesmente.”

Acho que o fato de terem tirado a fala de Claire anterior a essa resposta dele ficou um pouco fora de contexto na cena (apesar de eu estar muito feliz de eles terem incluído essa citação linda).
Durante a noite, eles fazem amor novamente só que de uma forma mais terna e carinhosa, como aparece na série e depois ela pergunta novamente sobre a cicatriz e eles conversam sobre Brianna.
Eu senti falta da mudança no modo como se pronuncia “Brianna”. No livro, comenta-se que os escoceses diziam “Brianna” com uma sonorização diferente. Sempre imaginei como seria, pois a mera descrição não conseguiu cumprir esse papel. Na série, eu não percebi diferença na pronúncia.
No capítulo 26, Claire acorda no outro dia, vê Jamie no urinol (na série, ele está observando ela dormir). Eles conversam, analisando as diferenças um do outro e falam sobre a pergunta que Jamie havia feito no passado sobre o que existia entre eles. A citação é colocada quase literal como no livro, entretanto, no capítulo, logo em seguida eles falam também sobre Brianna e a cicatriz novamente. Ele conta a ela como se entregou aos oficiais ingleses quando morava na caverna para que seus arrendatários recebessem o valor da recompensa, nesta conversa mais uma vez se fala sobre Brianna. Senti falta disso no episódio também. Eles falaram sobre a filha basicamente em um momento. No livro, a conversa no quarto constantemente volta a ela.

Logo em seguida, no livro, Ian (pai) aparece no quarto à procura de Ian (filho), o que neste episódio não aconteceu ainda. Ian (pai) antes de ver o rosto de Claire achava que ela fosse uma prostituta com quem Jamie estava dividindo a cama. Jamie afirma que não viu o jovem Ian (o que saberemos mais à frente ser uma mentira), mas sai para procurá-lo, além de precisar resolver seus negócios. Na série, a saída de Jamie é apenas para negócios, já que os Ians não apareceram ainda. Como no livro, Claire havia rasgado seu vestido na confusão da taverna, ela precisava esperar que Madame Jeanne lhe fornecesse um novo antes que pudesse sair do bordel, e não poderiam acompanhar Jamie.

- O encontro com jovem Ian/ Claire, a prostituta: um tempo depois da saída de Jamie, jovem Ian aparece no quarto a procura do tio, conhecendo, assim, sua tia Claire. Entretanto, à primeira vista, ele acredita que Claire seja uma prostituta que esteja acompanhando seu tio. No capítulo, Claire conta ao jovem Ian que Jamie saiu buscando ele juntamente com seu pai, o que assusta o menino e o faz achar que o pai já usufruiu dos serviços de Claire. Ela pergunta a idade dele, que afirma que tem quase quinze. Mas Claire ainda não conta quem ela é. O fato do jovem Ian não descobrir que Claire é sua tia ainda torna os seus encontros mais engraçados; infelizmente, na série de TV, Claire logo se apresenta a ele. No capítulo, quando jovem Ian sai do quarto, entra o Sr. Willoughby (isso foi cortado da série). Claire vai para o salão em busca de comida onde encontra com as meninas de Madame Jeanne que acham que ela seja uma recém–contratada da cafetina. A conversa que se segue é bem semelhante a mostrada na adaptação, a diferença é quando Madame Jeanne a encontra, no livro, a leva pra arrumar um vestido, mas também fica chateada por Claire está conversando com suas prostitutas, tendo medo que Jamie ache isso ofensivo. Na série, Madame Jeanne despacha Claire para o quarto com a promessa de mandar comida para ela. No capítulo, após a prova da roupa, Claire volta ao salão, onde mais uma vez, é confundida como sendo uma prostituta por um rapaz, que parece ser um guarda alfandegário, em busca de arrancar mais dinheiro de Jamie. Na série, ao retornar ao quarto, Claire dá de cara com um homem vasculhando as coisas de seu marido, e o episódio acaba nesse suspense da nova enrascada que Claire se meteu.

Esse foi, acredito eu, o primeiro episódio das três temporadas que não achei a atuação de Sam, primorosa. Não digo que estava ruim, longe de mim, mas comparado a tudo o que ele vem mostrando ao longo das três temporadas de Outlander, eu esperava uma tsunami, e ele apresentou uma marola. Caitriona, no entanto, atingiu próximo ao alvo, mas o fato em si de Claire saber de antemão que iria se encontrar com Jamie, ou seja, já estar psicologicamente preparada para essa reunião retirava dela um peso emocional maior. Também achei que a produção poderia ter trabalhado melhor a trilha sonora dessa vez, em especial, nas cenas do quarto. Mesmo que as músicas fossem semelhantes as do episódio do casamento, o reencontro tem uma carga emocional que não existia nas bodas, consequentemente, a trilha sonora deveria refletir isso. Não digo que deveriam introduzir necessariamente algo estranho a série, mas talvez utilizar parte da “dance of druids” ou uma versão alternativa dela, que tenha batidas fortes, ou uma remixagem das músicas próprias da série ou até mesmo das músicas que eles usaram, mas que acentuasse um choque auditivo que se encaixasse com o visual e com o sentimento do momento. No mínimo, tornar a música utilizada mais alta e mais sincronizada com os movimentos dos atores. Por exemplo, a cena em que eles tiram a roupa um do outro estava tão lenta que foi enfadonha, se eles tivessem conseguido colocar por cima o ritmo certo daquela música ou de alguma outra com o estilo de Outlander... nenhuma cena fica monótona, não importa quão lenta seja, com a trilha sonora correta para ela.  O roteiro estava, no geral, ótimo, o que faltou foi o arrepio. Se eles tivessem conseguido brincar melhor com o jogo de imagens e música nesse momento, o encaixe seria perfeito.




Jamie e Claire são novamente desconhecidos. Enfrentaram fome, guerra, morte e o tempo, mas retornaram aos braços um do outro. Black Jack se foi, mas ele não era o único vilão que perturbava a felicidade do casal; o tempo sempre foi um grande protagonista nesta história, um gigante que os amedrontava. Passado, presente e futuro não existem mais para eles, nunca existiram, nunca existirão. Só há o amor. E o que quer que a vida lhes traga, "ele se basta".

“O tempo não importa, Sassenach.”


Por Tuísa Sampaio 

13 de out. de 2017

Livro x Série de TV- Episódio 05: Freedom and Whisky



Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 05: Freedom & Whisky


“Freedom & Whisky”, o quinto episódio desta temporada caminhou com uma dinâmica diferente dos anteriores. O episódio ocorreu majoritariamente em 1968 com apenas o final em 1766, quando acontece o reencontro do nosso casal, não havendo, assim, um entrelaçamento de linhas do tempo. Portanto, a estrutura da resenha também será modificada e não terá divisões temporais explícitas. A adaptação levou às telas dessa vez o tópico final do capítulo dezenove (Aplacar um fantasma), parte do capítulo vinte (Diagnóstico), 21 (C.Q.D), um trecho do capítulo 22 (Dia das bruxas), 23 (Craigh na Dun) e 24 (A. Malcolm, o mestre-impressor), além de parte do prólogo.

Em “O Resgate no mar” apenas Claire estava em Boston, enquanto Bree e Roger continuavam sua pesquisa na Escócia. Assim começamos com nossa primeira diferença, o capítulo dezenove termina com Claire recebendo um telegrama de Roger informando que encontrou Jamie e pedindo para ela que voltasse à Escócia. Enquanto isso, no episódio, vemos um pouco do trabalho de Claire como cirurgiã com seu amigo Joe Abernathy e a dificuldade de Bree em se adaptar com a faculdade de história novamente. Roger também descobre o paradeiro de Jamie em “Freedom e whisky”, mas em vez de enviar um telegrama, ele mesmo viaja de surpresa para Boston chegando no meio de uma briga entre mãe e filha. A discussão entre elas provia do fato de Brianna ter decidido largar Harvard. Isso não é algo que ocorre no material original neste ponto. Brianna realmente desiste de cursar história e passa a estudar engenharia, mas isso só acontece após Claire ter atravessado as pedras. No capítulo vinte (Diagnóstico), durante uma conversa com Joe, Claire encontra-se em uma situação de descobrir a causa mortis de um esqueleto antigo. Mais à frente com as pistas que foram entregues nesse momento e com os acontecimentos do final do livro, Claire acredita que esses são os ossos de Geillis Duncan. Na cena comenta-se que o esqueleto havia sido achado em uma caverna do Caribe numa região de escravos, mas que ela era branca, explicando que a diferença pode ser percebida pelo tamanho comparado entre fêmur e tíbia, como no livro. Entretanto, a cena na tv é apenas entre Claire e Joe; no capítulo, Horace Thompson, que havia trazido os ossos, também estava presente.


Ainda na sala, logo após a partida do Sr. Thompson, Claire pergunta a Joe se ele a acha sexualmente atraente. No episódio, a questão só surge em outro momento, não é uma continuação da cena, e Joe já sabe sobre o homem que Lady Jane (como ele a chamava carinhosamente) tinha na Escócia, uma vez que eles já haviam conversado sobre isso anteriormente. O que Joe não sabia ainda no episódio era que o homem misterioso era o pai biológico de Bree e é nessa hora que Claire conta a ele. No livro, é a pergunta sobre a aparência de Claire que faz Joe questionar sobre um homem que ela esteja interessada. Claire menciona Jamie para ele logo após a conversa sobre os ossos. É Joe quem percebe por meio do diálogo entre eles que o homem misterioso de Claire era o pai de Brianna e ela confirma, assim como conta também que ele era escocês. Ato contínuo, ela pede um favor a ele e entrega-lhe sua carta de demissão. No episódio, Claire entrega a carta a Bree para que ela dê a Joe.

No capítulo 21 (C.Q.D), Claire está de volta à Escócia e Roger explica a ela como encontrou Jamie. No episódio, a explicação é feita quando Roger vai visitar as Randall em Boston. Logo após uma discussão entre mãe e filha, Brianna sai de casa, deixando Claire com Roger. Eles conversam sobre natal e sobre o pai adotivo de Roger, o reverendo Wakefield até que Roger se encoraja para contar a sua descoberta. Ele havia encontrado em uma publicação de 1765,em Edimburgo, um tipógrafo que publicou falando que “liberdade e uísque andam juntos”, frase que Claire costumava mencionar a Jamie, mas o artigo não era assinado. O detalhe é que o poema não havia sido escrito ainda em 1765, pois Robert Burns, autor do poema era apenas uma criança. Assim, apenas uma pessoa com conhecimento sobre o futuro poderia ter o citado. Ademais, o nome do tal tipógrafo era Alexander Malcolm, os nomes do meio de Jamie. Sabendo onde ele estava em 1765, ela teria que arriscar para ver se ele ainda estava no mesmo local em 1766. No livro, Brianna é quem encontra um artigo do jornal chamado Forrester’s publicado por um Alexander Malcolm. Como o artigo era manuscrito, eles usaram a transferência de propriedade de Lallybroch para comparar a caligrafia entre os dois também como meio de prova de que era Jamie quem tinha escrito. No livro, o artigo fora assinado com um pseudônimo, C.Q.D, mas o tipógrafo responsável pela sua impressão era Alexander Malcolm. Um dos artigos encontrados, assim como no episódio, continha o trecho do poema de Burns. À título de informação, a assinatura original é QED e é a abreviatura em latim para Quod erat demonstrandum. Em português, foi traduzido para “Como Queríamos Demonstrar”, é uma expressão usada por Jamie como uma forma de demonstrar que existem outros caminhos para se fazer algo, explica a autora no primeiro volume do seu compêndio.


No capítulo, quem conta a Claire que Burns tinha apenas seis anos em 1765 é Brianna, enquanto na série de tv, é Roger. No livro a descoberta é mostrada com alegria; no episódio, Claire fica com raiva, porque acredita que não pode deixar Brianna para trás, que sua filha ainda precisa dela, principalmente por estar sofrendo com uma crise de identidade. É Joe quem começa a tentar a convencer Claire a dar uma segunda chance ao amor na adaptação. Claire vai então em uma loja de roupas antigas em Inverness e compra um vestido para sua viagem. No episódio, ela costura o vestido no modo como ela quer, cheio de bolsos que possam ajudar a levar várias coisas como a penicilina. Roger menciona que os bolsos seriam como “um cinto de utilidades do Batman”, daí enquanto ela está costurando começa a tocar o tema do batman. Para mim, essa foi a única parte do episódio que eu não gostei. Achei que a música ficou deslocada e a Claire do livro costura bem apenas carne humana. O episódio se passa no natal, então Roger e Bree dão de presente a ela moedas antigas para viagem. No texto original, eles coletaram moedas para ela levar também, mas ela viaja no samhain. Bree dá de presente a Claire um colar com um topázio, porque nos escritos de Geillis, ela menciona ser necessário viajar com uma pedra preciosa para proteção. Isso realmente estava nos escritos, mas Claire viaja várias vezes sem nenhuma pedra ao longo da saga, apesar que no episódio, ela fala que em todas às vezes ela tinha uma.

Houve um acréscimo de uma cena no episódio que não existe no livro: a homenagem a Frank na universidade. A amante oficial de Frank na série de TV aparece e confronta Claire, dizendo que ela deveria ter deixado Frank livre. Eu fiquei com pena dela quando ela diz que Frank foi o amor de sua vida, mas que ela sentia que parte dele ainda era apaixonada por Claire. Brianna questiona Claire sobre a mulher, e Claire conta a verdade. Elas conversam sobre a amor que Frank tinha pela filha assim como o que Claire também sentia por ela. Brianna soube então da traição de Frank. No material original, ela só desconfia que Frank traiu Claire em livro posterior na saga. A cena em que Claire, Joe e o pessoal do hospital assistem à visita do homem à lua também não existe. Na verdade, são Brianna e Roger que vão a casa de Joe e assistem à chegada do homem à lua após sua mãe ter viajado, no capítulo cinco do quarto livro. No episódio, eles assistiram a circunavegação da lua pela nave apollo 8 em 25 de dezembro de 1968 realizada pela equipe de James Lovell. No livro, Bree e Roger veem Neil Armstrong pisar na lua pela primeira vez com a nave apollo 11 em julho de 1969. 

No capítulo 22 (Dia das bruxas), em uma conversa com Roger, o leitor percebe que Brianna está tendo dificuldade de deixar a mãe ir embora, apesar de não expor isso para ela. Quando Roger afirma para ela que o lugar de Claire é com Jamie, Bree responde que ela sabe que Claire precisa dele, mas que ela também precisa de sua mãe. É então que Roger comenta que Bree é adulta agora, que ela pode amar a mãe, mas não precisa dela como precisava quando criança. Isso é algo, que no episódio, Bree diz a Claire, quando ela lhe conta sobre a descoberta de Roger. Em “Freedom and whisky”, é necessário que várias pessoas convençam Claire a passar novamente pelas pedras. No livro, a decisão parece ter sido fácil, o que nunca pareceu certo para mim, como uma mãe poderia tão facilmente deixar a filha para trás, mesmo uma já adulta. Por isso, gostei mais de como a despedida foi construída na adaptação, houve um maior respeito para a relação delas.

Ainda neste capítulo, Claire escapa de madrugada para ir às pedras sem ter que se despedir de Brianna. No episódio, elas dizem adeus em Boston porque seria muito difícil para Claire despedir-se de Brianna em Craigh na Dun. Em “Dia das bruxas”, Roger e Brianna acabam indo atrás de Claire nas pedras para se despedir, onde então Bree fala a Claire: “-Ele deu você para mim- ela disse, tão baixo que eu mal conseguia ouvi-la. –Agora eu tenho que devolvê-la a ele, mamãe.”. Bree também fala isso no episódio, mas elas estão na casa delas em Boston, e Bree está convencendo a mãe a ir atrás de Jamie. É neste momento também em Craigh na Dun, que Brianna pede para Claire dá um beijo em seu pai; no episódio, ela fala isso quando as duas se despedem em Boston. Na despedida do episódio, Claire entrega as pérolas de Ellen a Bree e pede para ela as use em seu casamento. No material escrito, nós só descobrimos no capítulo 58 que Brianna ficou com as pérolas.


O modo como eles fizeram a viagem do tempo no episódio foi lindo. Eles utilizaram trechos do prólogo do livro que fala sobre as poças serem uma entrada para novos mundos e fizeram a transição de ela pisando na poça ao sair de um táxi em 1968 para ela pisando para fora de uma carruagem em Edimburgo em 1766. Ficou incrível. Foi algo que foi feito para diminuir os custos da viagem à locação das pedras, e que ficou muito lindo, além de se encaixar bem com a essência dos livros. Além disso, corta a ideia de repetição de o telespectador vê-la mais uma vez em Craigh na Dun, mostrando a situação de uma forma inovadora. A trilha sonora no fundo só deixou tudo ainda mais emocionante.

“Quando eu era pequena, nunca gostei de pisar em poças. Não temia minhocas afogadas ou meias molhadas; eu era, de um modo geral, uma criança suja, com uma abençoada indiferença a imundícies de qualquer espécie.


Era porque eu não conseguia acreditar que aquela superfície perfeitamente lisa fosse apenas uma fina lâmina de água sobre solo firme. Eu acreditava tratar-se da entrada de algum espaço insondável. Às vezes, vendo as minúsculas ondulações na água causadas pela minha aproximação, eu imaginava a poça incrivelmente profunda, um mar abismal onde se ocultavam os tentáculos preguiçosamente enroscados e escamas reluzentes, com a ameaça de corpos imensos e dentes afiados à deriva e silenciosos nas profundezas sem fim.

Em seguida, olhando para o reflexo na água, eu podia ver meu próprio rosto redondo e os cabelos crespos contra uma expansão azul e uniforme. Pensava, então, que a poça fosse a entrada de um outro céu. Se eu pisasse ali, cairia imediatamente, e continuaria caindo, indefinidamente, pelo espaço azul.


A única hora em que ousava atravessar uma poça era ao crepúsculo, quando as estrelas começavam a surgir. Se eu olhasse dentro da água e visse ali o reflexo de um pontinho cintilante, poderia passar sem medo, chapinhando água para todos os lados- porque se eu caísse na poça e dentro do espaço, eu poderia agarrar-me à estrela na queda e me salvar.


Mesmo agora, quando vejo uma poça em meu caminho, minha mente hesita-ainda que meus pés não façam-, depois dispara, deixando para trás apenas o eco do pensamento.
E se desta vez você cair?”


No capítulo 24 (A. Malcolm, o mestre-impressor), Claire chega a Edimburgo de 1766. Ela encontra a placa que diz “A.MALCOLM, MESTRE-IMPRESSOR E LIVREIRO”, toca-a e entra no recinto.


“- É você, Geordie? – ele perguntou, sem se virar. Estava de calças e camisa, com uma pequena ferramenta na mão, com a qual mexia nas entranhas da prensa.- Levou bastante tempo. Conseguiu o...

- Não é Geordie. – Eu disse. Minha voz soou mais alta do que o normal. – Sou eu. Claire.

Ele endireitou-se muito lentamente. Usava os cabelos longos; um rabo de cavalo grosso, de um ruivo escuro e forte, com cintilações acobreadas. Tive tempo de ver o laço perfeito que o prendia na nuca era de fita verde-escura. Então ele se virou.

Olhou-me fixamente, sem falar. Um tremor percorreu a garganta musculosa quando ele engoliu em seco, mas ainda não disse nada. (...)

Atravessei pela passagem no balcão, sem ver nada além do olhar fixo em mim. Limpei a garganta.

- Quando foi que quebrou o nariz?

Os cantos da boca larga ergueram-se ligeiramente.

- Cerca de três minutos depois que a vi pela última vez... Sassenach.

Houve uma hesitação, quase uma interrogação, no nome. Não estávamos a mais de trinta centímetros um do outro. Estendi o braço tentando tocar a minúscula linha da cicatriz, onde o osso pressionava, branco, contra o bronze da pele.

Ele contraiu-se, como se uma fagulha elétrica tivesse faiscado entre nós, e a expressão calma desfez-se.

- Você é real.- ele murmurou. Eu já o achara pálido. Agora todos os vestígios de cor desapareceram de seu rosto. Seus olhos reviraram-se para cima e ele desabou no chão numa chuva de papéis e outros objetos que haviam estado sobre a prensa. Caiu graciosamente, de certa forma, para um homem tão grande, pensei distraidamente.”
A cena no episódio ficou muito parecida. Claire não pergunta sobre o nariz quebrado já que na série de TV isso não aconteceu, mas o resto ficou muito semelhante.

Esse episódio não foi meramente sobre liberdade, ou sobre uísque, ou até mesmo sobre o tão aguardado reencontro, foi um grande ode à maternidade e à saudade. Um laço de amor entre mãe e filha tão forte que foi capaz de libertar. Brianna nunca foi tão semelhante ao seu pai biológico quanto quando deu asas à sua mãe para que retornasse a ele. Da mesma maneira que Jamie libertou Claire por seu amor à filha ainda não nascida. A produção soube valorizar e exaltar a maternidade de uma forma que eu não enxerguei nos livros. E foi algo muito bonito de se assistir. Eu sempre achei muito fácil como Claire decidiu se separar de Brianna e ir atrás de Jamie no material original. Possivelmente porque Diana não escreveu muito sobre esse momento de indecisão dela, sua luta interna, o que foi mostrado muito bem na série de TV. Fez com que eu finalmente sentisse um pouco mais de compreensão nesse “rompimento” entre mãe e filha. Para o amor verdadeiro, de qualquer tipo, não existe tempo, não existe distância física, não existe saudade, mesmo que traga dor, ele oxigena sua própria sobrevivência sem respeitar nenhuma lei mundana.


Achei que o episódio foi muito poético com toda essa noção de separação, amores perdidos, maternidade e esperança. Além de que é uma poesia que o nomeia. Robert Burns era um poeta escocês, que dentre vários poemas, havia também escrito sobre amores que se distanciam, mas acho que quem melhor escreve sobre a dor da separação são os brasileiros e portugueses. Afinal, saudade é uma palavra que só existe em português. Inventada pelos portugueses para expressar a melancolia que sentiam da sua terra natal quando vieram povoar as colônias. Saudade é nossa herança linguística. Conseguimos expressar em uma palavra, o que em outras nações apenas se sente. Talvez se saudade existisse em inglês, esse deveria ser o título do episódio. A saudade que surgirá dos diversos tipos de separação. A saudade da perda da mãe e da filha, a saudade de Brianna do pai que a criou e aquela saudade da ideia de um pai que ela nunca conheceu. A saudade de Roger de seu pai. A saudade de Claire por Jamie, que logo seria sanada para dar lugar a uma saudade que ela sentiria da filha. Claro, que eles podem expressar com um “I miss you”, algo próximo dessa dor de separação, mas um “sinto sua falta” não tem tanto poder quanto “estou com saudades”. Saudade mesmo só nós dizemos, por isso acho que para gente, esse episódio, talvez, tenha um significado tão único.


Por Tuísa Sampaio

4 de out. de 2017

Livro x Série de TV- Episódio 04: Of lost things

Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 04: Of lost thingS



De volta com o episódio 04 desta temporada, “Of lost things” adapta os capítulos catorze (Geneva), quinze (Por falta de sorte), dezesseis (Willie), uma informação do capítulo três (Frank e a revelação completa), pequenos acontecimentos dos capítulos sete (Fé nos documentos) e dezoito (raízes) e um trecho do capítulo 59 (Quando há grandes revelações).


Jamie (1756-1764)



Jamie é introduzido ao Lorde Dunsany de maneira um pouco diferente da do livro. No capítulo catorze, quando John chega à propriedade a família já está na residência, enquanto em “Of lost things”, eles retornam de uma viagem para Itália um tempo depois que Jamie já está prestando seus serviços de cavalariço lá. Com isso, assim que chega Lorde Dunsany pede para falar com ele. Já no livro, a família conversa com Lorde John, quando Lady Dunsany se distrai dando ordens ao mordomo, Lorde Dunsany pergunta pelo prisioneiro. Grey informa que o deixou no vestíbulo, pois não sabia o que o senhor da casa pretendia fazer com ele. Lorde Dunsany fala que fará de Jamie um cavalariço como ele havia sugerido, mas que não diria a sua esposa quem Jamie era, já que ela tinha medo dos highlanders e nunca havia se recuperado da morte do filho Gordon. No episódio, Dunsany diz algo semelhante diretamente a Jamie, o qual comenta que nunca uma pessoa se recupera completamente após ter perdido um filho e que ele havia perdido dois. Achei bonito esse acréscimo de conversa em que Jamie lembra-se dos filhos que ele nunca havia conhecido. Faz um bom paralelo com o filho que ele iria ganhar naquela propriedade, mas que também iria, de certa forma, iria perder.


Em Helwater, Jamie ou Alex Mackenzie como era lá conhecido, estava tendo uma existência pacífica, com exceção de Geneva, um das filhas de Dunsany que resolveu aproximar-se dele e perturbar essa paz.

“Bonita, mimada e aristocrata, lady Geneva estava acostumada a conseguir o que queria, quando queria, e dane-se quem estivesse em seu caminho. Era uma boa amazona- Jamie reconhecia-, mas tão caprichosa e ferina que os cavalariços costumavam tirar na sorte para determinar quem teria a infelicidade de acompanhá-la em sua cavalgada diária. Ultimamente, entretanto, lady Geneva andava ela mesmo escolhendo seu acompanhante- Alex MacKenzie”


No episódio, Geneva fala pela primeira vez quando sai em busca de um cavalo e um cavalariço para acompanha-la em seu passeio; e como descrito no livro, os homens tiram a sorte para ver quem vai sofrer esse fardo. Até que um dia, após saber de seu casamento arranjado com o Conde de Ellesmere, um homem com idade de ser seu avô, ela requisita especificamente pela companhia de Mackenzie. No capítulo, a escolha do acompanhante já havia começado mesmo antes da proposta ser mencionada para os leitores, e Geneva já demonstrava uma espécie de paixonite por Jamie, que era zoado por isso pelos outros cavalariços. No capítulo catorze, Geneva menciona seu casamento para Jamie quando ele está “espalhando bosta” de cavalo. No episódio, além de Jamie ter visto o noivo e ouvido a conversa, Geneva pergunta o que ele acha do prometido dela durante a cavalgada deles. A cena em que Jamie está espalhando estrume aparece no episódio, mas ela é usada diretamente para o momento em que ela chantageia-o para que vá ao seu quarto tirar sua virgindade. Ela pergunta se ele já foi casado e Jamie responde que sim, a isso ela diz “Ótimo, então saberá o que fazer”. Essa pergunta também é feita no diálogo do livro, mas a chantagem não é mesma. No livro, Geneva chantageia Jamie ameaçando entregar uma carta de Jenny ao seu pai; nas telas, ela ameaça contar a sua mãe a verdadeira identidade de Jamie e comenta sobre seus parentes em Lallybroch, tendo descoberto tudo por meio de um Lorde Melton bêbado, que havia visitado a propriedade junto com seu irmão Lorde John.







Vamos adentrar então na cena de sexo entre Jamie e Geneva. Essa foi uma mudança que a série fez que eu não consigo nem expressar o quanto eu gostei. Eles conseguiram fazer a relação entre os dois de uma forma claramente consensual e respeitosa. No livro, há uma relativização do consentimento que tem gerado polêmica ao longo dos anos. Em um determinado momento, em que eles estavam iniciando o ato sexual, Geneva pede para Jamie parar e ele diz que não e continua. No episódio, além de isso não acontecer, Jamie pergunta se ela tem certeza do que quer e ela confirma. Amei. Enquanto muitas séries tendem a transformar cenas de sexo dos livros em estupro, Outlander conseguiu fazer o contrário, transformar uma cena de um possível estupro (já que o consentimento foi retirado por meio de um “pare”) em sexo totalmente e sem sombra de dúvidas consensual (pelo menos da parte dela). O resto do diálogo da cena no episódio foi em parte retirado do livro, com algumas pequenas modificações que honestamente só tornaram a sua construção mais agradável e que foram feitas com um intuito, imagino eu, de não deixar a cena muito extensa.



“- Ooh!- exclamou Geneva. Seus olhos arregalaram-se.
-Uh- ele resmungou, penetrando-a um pouco mais fundo.
-Pare! É grande demais! Tire!- Em pânico, Geneva debatia-se sob ele. Imprensados sob seu peito, seus seios agitavam-se e roçavam-se nele, de modo que seus próprios mamilos eriçaram-se abruptamente numa brusca sensação.
Os esforços dela estavam conseguindo à força o que ele tentara fazer com delicadeza. Atordoado, ele lutava para mantê-la sob ele, enquanto buscava loucamente algo para dizer que pudesse acalmá-la.
- Mas...- ele começou.
- Pare!
-Eu!
- Tire isso já!- ela gritou.
Ele tampou sua boca com uma das mãos e disse a única coisa coerente que lhe ocorreu.
- Não- disse categoricamente e avançou.”


O capítulo quinze (Por falta de sorte) inicia-se com uma tempestade. Hughes, o chefe do cavalariços, chama Jamie para levar os Dunsany a Ellesmere. No episódio, é Isobel quem o chama já avisando que a irmã estava enfrentando uma situação difícil. No livro, os criados da casa contam a Jamie que o conde tinha tratado Geneva bem até saber de sua gestação. Começaram então inúmeras brigas, pois Ellesmere afirmava que o bebê não era dele. Os criados supunham que o chefe fosse impotente, de qualquer forma sabiam que na noite de núpcias não havia sangue nos lençóis. Foram os criados também que contaram a Jamie sobre a morte de Geneva. No episódio, a notícia é contada por Isobel. A morte de sua irmã é descrita a Jamie de forma semelhante ao livro, mas algo é acrescentado. Isobel sabia que Geneva havia se deitado com Jamie e fica com raiva dele, dando-lhe uma tapa na cara. Jamie então é chamado pela criada para ajudar o patrão. No livro, ele e Jeffries, o outro cavalariço, são chamados. Ellesmere discutia com Dunsany dizendo que o menino era um bastardo e que ficaria com ele já que pagou por ele. A discussão em si é parecida com a do episódio com exceção que inicialmente Ellesmere não ameaçava a vida do bebê, Dunsany e ele começaram uma luta corpórea que é separada por Jamie e quem porta as pistolas é Jeffries. O bebê é trazido por uma criada e avô e suposto pai brigam para ver quem ficará com ele. Ellesmere então pega o bebê e ameaça jogá-lo da janela se Dunsany não for embora da sua casa. É então que Jamie pega uma das pistolas de Jeffries, atira em Ellesmere e agarra o bebê.



A conversa que ocorre entre Lady Dunsany e Jamie sobre sua condicional acontece no estábulo no livro; já na série é na parte externa da casa, enquanto as mulheres da família passeavam com o pequeno Willie. Ele decide ficar na propriedade para poder assistir a Willie crescer. Enquanto no livro, Lady Dunsany diz que a o marido não tem mais influência em Londres, mas John tem e pode conseguir a condicional; no episódio, seu marido ainda mantém a influência e ele é quem conseguirá essa liberdade.


“Não ser mais um estranho. Deixar para trás a hostilidade e a solidão, chegar a Lallybroch e ver o rosto da sua irmã iluminar-se de alegria ao avistá-lo, sentir seus braços em torno de sua cintura, o abraço de Ian em torno de seus ombros e as mãos das crianças, agarrando-o, puxando-o pelas roupas.

Ir embora, e nunca mais ver ou ouvir o seu próprio filho. Olhou fixamente para Lady Dunsany, o rosto impassível, indecifrável, de modo que ela não percebesse o turbilhão de emoções que a sua oferta desencadeara em seu íntimo.

Ele havia, finalmente, descoberto o bebê ontem, dormindo num cesto perto da janela de um quarto no segundo andar. Precariamente empoleirado num galho de um enorme abeto norueguês, ele estreitara os olhos para ver melhor através da cortina de agulhas de abeto que o ocultavam.

O rosto da criança só era visível de perfil, uma bochecha gorducha descansando sobre o ombro coberto de babados. A touca se deslocara para o lado, de modo que ele pôde ver a curva lisa do minúsculo crânio, coberto com uma leve penugem louro-clara.

‘Graças a Deus que não é ruivo.’, fora seu primeiro pensamento, persignando-se em seguida num agradecimento.
‘Meu Deus, ele é tão pequeno.’, foi seu segundo pensamento, associado a uma intensa necessidade de entrar pela janela e pegar o bebê no colo. A cabeça lisa, tão bem torneada, caberia perfeitamente na palma de sua mão. Pôde sentir, na lembrança, o corpinho agitado que ele segurara por tão pouco tempo junto ao coração. (...)
Lady Dunsany aguardava pacientemente. (...)
- Agradeço-lhe, Milady, mas... acho que não devo ir... por enquanto. (...)
- Como quiser, MacKenzie. Só tem que pedir.”


O capítulo dezesseis (Willie) dá um pequeno salto no tempo e encontramos Jamie com um Willie já um pouco crescido. A cena do episódio em que Lady Dunsany comenta com sua amiga que Willie fica tanto tempo com o cavalariço que está começando a parecer-se com ele também ocorre no livro. É quando Jamie reconhece o perigo de ficar próximo ao seu filho, decidindo então voltar para casa. Assim, como no livro, em “Of lost things”, Willie não aceita bem a partida do seu grande amigo. Eles discutem de uma forma semelhante a da série, parte do diálogo foi extraído do livro e parte acrescentado. Jamie dá um rosário para Willie lembrar-se dele, enquanto no episódio, Jamie lhe dá uma cobra semelhante ao que irmão havia lhe presentado. No livro, quando Jamie entrega o rosário, ele explica que é um “maldito papista” como Lady Dunsany chamava e batiza Willie como “William James” já que o menino decidiu que quer ser papista também como na série. Essa cena ficou muito próxima a do material original. Eu preferia que eles tivessem utilizado o rosário em vez da cobra, mas a explicação que a produção deu foi bastante compreensível. O rosário estava com Jamie desde Lallybroch, mas indo para uma prisão, eles teriam o confiscado lá, principalmente um rosário papista. Pensando de forma lógica, ele deveria ter perdido o rosário em Ardsmuir. Nem sempre DG percebe esses pequenos detalhes e a história acaba ficando com alguns “furos”.


A cena em que Lorde John e Jamie conversam sobre como Lorde John concorda que Jamie deve partir, porque Willie e ele são muito parecidos, e qualquer pessoa pode perceber isso também ocorre no livro, mas no capítulo 59 (Quando há grandes revelações). Assim, como o momento em que ele informa Jamie que casará com Isobel e será padrasto de Willie. Isso aparece no livro em uma espécie de flashback que John conta a Claire. A diferença principal é que em vez de um aperto de mão no final, eles selam o acordo com um beijo na boca. Eu achei que a cena ficou muito bem feita e os atores expressaram uma emoção de arrepiar. Eu consegui sentir a força daquela amizade nos ossos, apesar de não ter visto o beijo entre eles dois. Espero que incluam isso em algum outro momento, talvez da mesma forma que no livro, com John contando para Claire.


Em um momento do episódio, eles retrataram Lorde John e Jamie jogando xadrez. No livro, eles apenas jogavam xadrez oralmente, uma vez que não tinham um tabuleiro.


Originalmente, o leitor não sabe se Lady Isobel tinha conhecimento que Jamie era pai de Willie. Ela não fala isso para ele diretamente, mas Geneva era sua irmã, então não seria algo absurdo que elas compartilhassem segredos. Na verdade, Isobel nem aparece muito e eu gostei que a produção tenha expandido o papel dela. A atriz era muito boa. Criaram uma Isobel mais madura, com falas reflexivas e coerentes, que possibilitaram aproximar a família Dunsany mais do espectador. Acredito que eles tenham colocado Isobel sabendo sobre a paternidade de Willie uma vez que o ator que interpreta Willie não era tão parecido assim com Jamie como no livro, apesar dos mexericos criados no roteiro. Além de que condiz com esse papel de Isobel mais humana e mais próxima do telespectador que eles criaram. Outro detalhe é que Isobel não era apaixonada por Lorde John como na série, mas o casamento provou ser algo adequado para ambos.


A atriz escolhida para fazer Geneva (Hannah James) estava perfeita. Ela conseguiu passar o ar de menina mimada e rica exatamente como no livro. Assim como o casting de Lorde John foi incrível, o dela também foi. Essa temporada está trazendo atores excelentes. Ela pareceu do jeitinho que eu imaginava e conseguiu me transmitir os mesmos sentimentos da leitura. Quanto ao ator que interpreta Willie, eu não o achei parecido com Sam, mas como é uma criança imagino que seja difícil encontrar uma que atue bem e seja parecido com seu co-star. Willie é um personagem que em geral me irrita na maior parte do tempo. Acho-o muito detestável e mimado (bem parecido com a mãe nesse aspecto), e os roteiristas e o ator conseguiram me fazer gostar um pouquinho dele nesse episódio.






O modo como o personagem é retratado na tela é resultado não apenas da atuação, mas também do roteiro. Muitas vezes reclamei que por mais impressionantes que sejam os três atores principais, o fato dos roteiristas mudarem a essência de seus personagens, acrescentando atitudes por vezes opostas ao seu caráter ou muito distintas do que eles fariam me incomodava muito. Neste episódio, eu enxerguei a Geneva de “O Resgate no mar” e, por enquanto, eles estão mantendo meu John como no livro. Exceto aquele cabelo que está competindo com o vestido de A Bela Adormecida para saber com que cor vai ficar... loiro... castanho.... loiro.... castanho, estava esperando a qualquer momento aparecer uma fada Primavera e outra Flora com varinhas em riste, gritando “melhor loiro!”, “melhor castanho!”. Produção, decida-se porque isso está estranho. O cabelo não pode ficar mudando de cor como em um passe de mágica.



Claire (1968)



No início do episódio, Fiona cita a lenda do Dunbonnet e cogita a possibilidade de ele ser “Jamie, o ruivo”. No capítulo três, é Brianna quem trás a tona o mito dessa figura histórica e que ele poderia ser seu pai; enquanto na série, ela acredita que isso realmente seja uma lenda. No capítulo sete, a história do Dunbonnet volta à pauta pelas contos de Fiona. No episódio, ele é apenas mencionado, a narrativa de sua lenda não é contada. É neste capítulo também que Claire descobre que Jamie esteve na prisão de Ardsmuir entre 1753 a 1756, ela encontra isso enquanto pesquisava de madrugada sozinha; no episódio, a filha e Roger também estavam presentes já que ainda estavam em seu momento diurno de pesquisa. Quando Fiona conta a lenda, ela diz que o Dunbonnet armou um plano para se entregar aos ingleses de forma que seus arrendatários ficassem com o ouro de recompensa. Olhando a lista de prisioneiros, ela acha o seu nome em Ardsmuir. Sabendo que Jamie estava em Ardsmuir até 1756, eles precisam estabelecer onde ele estava em 1766, e aí outra parte da pesquisa começa.

Os roteiristas resumiram os capítulos da pesquisa de Roger, Brianna e Claire para encontrar Jamie, o que foi uma coisa boa porque esses capítulos são bem enfadonhos. No episódio, após descobrirem que Jamie estava em Ardsmuir até 1756, eles passaram a procurar por seu nome nas listas de passageiros de navios, acreditando que possivelmente ele havia sido enviado para as Colônias. Quando não encontram nada, Claire e Brianna desistem e voltam para Boston. No capítulo dezoito, Claire retorna para Boston sem Brianna, que continua na Escócia. Dra. Randall tem que resolver algumas pendências na sua vida (suas férias haviam acabado) e queria conversar com Joe, enquanto sua filha e Roger continuam a pesquisa.

Uma modificação importante que fizeram e que foi (talvez) sanada neste episódio foi em relação às pérolas de Ellen. No livro, Claire havia as guardado e depois as entrega a filha, que as utiliza como prova para atestar que Claire era sua mãe em “Tambores do Outono”. Na série, Claire havia se livrado de todos os bens materiais que a lembravam de Jamie com exceção da aliança. Para trazer as pérolas de volta, eles fizeram Fiona, neta da Sra. Graham, devolver as pérolas a Claire. Posso apenas supor (e torcer!) então que a produção retornou o colar para Claire realmente o entregar a Bree.






O final do episódio foi um dos mais bonitos até agora. A trilha sonora combinou perfeitamente com o sentimento de despedida em ambos os períodos históricos. Jamie, que já havia perdido Claire, e duas filhas, agora dizia adeus para mais um filho; e talvez o mais difícil, ele dizia adeus para um filho que ele chegou a conhecer por seis anos. Dizia adeus para seu melhor amigo e para a identidade que havia tomado em Helwater, Alex Mackenzie, mas ganhava Lallybroch e parte da sua família de volta. Claire perdeu mais uma vez o seu grande amor e a esperança de encontrá-lo. Deu adeus a Roger e à Escócia, mas recebeu de volta mais uma coisa perdida: as pérolas, e o mais importante, um relacionamento mais verdadeiro com a filha Os Dunsany perderam a filha, mas ganharam um neto. Lorde John separou-se do amigo e grande amor, mas ganhou uma família; e não qualquer uma, ,mas uma que carregava os mesmos olhos azuis puxados e a mesma teimosia de seu parceiro de xadrez. Willie perdeu o amigo; a figura heroica que enxergava no seu querido Mac, mas ganhou um pai. “A vida é a perda lenta de tudo o que amamos”, pode até ser assim, mas algumas coisas são perdidas para que outras possam ser achadas. Parafraseando Cervantes, só se perde tudo quando se perde a coragem, e isso nossos personagens têm de sobra. É essa coragem que vai trazer Claire de volta para Jamie. E nós aguardamos ansiosos por esse reencontro.

Por Tuísa Sampaio

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