Lallybroch
17 novembro 2017

Livro X Série de TV- Episódio 09: The Doldrums


Contem spoilers do episódio e dos livros

Episódio 09: The Doldrums


A adaptação essa semana engloba trechos dos capítulos 40 (Descerei ao mar), 41 (Zarpamos), 42 (O homem da lua), 44 (Forças da natureza), 45 (A história de Sr. Willoughby) e 46 (Encontramos um boto). Resolvi dividir os tópicos dessa vez pelos lugares em que os acontecimentos desenvolveram-se.

- França/Escócia: O final do capítulo 39 foi esquecido para este episódio e já encontramos nossos heróis na França/Escócia (estou até agora sem entender se eles realmente foram para França ou se Jared foi para a Escócia), nos fatos ocorridos no início do capítulo 40. Na verdade, muito pouco deste capítulo foi utilizado em “The Doldrums”, em termos de cena ele corresponde apenas à conversa entre Jamie, Claire e Jared como preparação para embarcar em busca de jovem Ian. O conteúdo em si do diálogo também é diferente. Enquanto no livro, Jared está em seu escritório discutindo ainda com Jamie qual navio é melhor para ele tomar; na série, tudo já está decidido e eles não precisam esperar por nada. De fato, Jared ainda comenta sobre Claire ser médica para ajudar com o enjoo de Jamie em ambas as mídias, e mais à frente que Jamie trabalharia como o sobrecarga no navio; mas no capítulo, eles ficaram vários dias ainda na França, o que inclui uma ida a Botica para Claire, um encontro com um negociante de moedas raras e uma visita ao túmulo de Faith, onde reencontra Madre Hildegard, essa cena foi uma tristeza que foi cortada. O fato de jovem Ian poder ser vendido como escravo é mencionado na narrativa de Claire no capítulo, enquanto na adaptação, Jared é quem diz isso. Jamie realmente escreve uma carta para Jenny nesse período que passam na França. Claire ainda encontra com o Reverendo Campbell na França, antes de partir para as Índias Ocidentais, ele tinha alguns assuntos para tratar lá. É neste capítulo que descobrimos que Jamie havia virado maçom. Seu primo já o era e ele troca um cumprimento com Jamie que o identifica como tal.




- Artemis: No capítulo 41 (Zarpamos), os Frasers e amigos estão já no navio Artemis zarpando para novas aventuras, mas eles param em Cabo Wrath (Escócia) para depois continuar a viagem. Achei estranho que no episódio, eu supus (pelo contexto do livro e pela presença de Jared) que eles estivessem na França, mas quando Jamie e Claire conversam no navio, ele fala que “ver a Escócia desaparecer já é dor suficiente”, acredito que muitos telespectadores, talvez, como eu pensaram “mas eles não estavam na França?” No livro, eles realizam um “pit-stop” na Escócia para pegar Fergus e os amigos contrabandistas antes de eles realmente seguirem viagem. Como eu supus que Fergus tinha ido direto para La Havre no episódio, não sei exatamente qual seria a explicação lá para a parada no porto de Cabo Wrath. Ou simplesmente a saída foi da Escócia e Jared que havia se movido até lá, o que seria estranho a meu ver. É logo quando estão no navio, que Claire menciona o chá de gengibre para Jamie com a expectativa de aliviar o provável e certo enjoo dele; no episódio, ela prepara o chá mais tarde. Em seguida, eles encontram Fergus e Marsali, recebendo a notícia que eles estão casados por um pacto com mãos (espécie de casamento temporário que durava um ano e um dia, pois nem sempre era possível encontrar um padre na região para realizar a cerimônia, assim ele servia para que os casais se unissem, e o tempo permitia que eles esperassem por um padre já podendo usufruir dos direitos e deveres do matrimônio). O conteúdo da conversa tanto no romance, quanto nas telas foi semelhante, só que mais resumido. A principal diferença seria que quando Marsali ameaça sua reputação para permanecer com Fergus, Jamie aceita o casamento deles, entretanto Fergus não poderia tocar na moça até que eles fossem casados por um padre de verdade. Na série, Jamie aceita que ela veleje com eles apenas até a Jamaica. Ora, por acaso ela não voltaria para casa da Jamaica com a reputação arruinada da mesma maneira? Durante todo o episódio Jamie luta com a ideia de permitir o matrimônio dos dois, não sei o porquê. Por sua própria história com Claire é contraditório que ele não acredite no amor dos dois, ainda mais quando no material original, ela aceita o casal com a condição de eles terem um casamento “de verdade”. Assim como no livro, em “The Doldrums”, Claire e Marsali tem que dividir as cabines também para que a virtude da moça fique intacta. Os dizeres de Jamie de que não voltará à Escócia sem jovem Ian é adaptado deste capítulo também, e é nele ainda que ouvimos falar de Duncan Innes pela primeira vez. Personagem que acompanhará Jamie ainda por muito tempo em sua jornada. Ele não apareceu neste episódio, surgindo as questões de quando ele será introduzido ou se Murtagh vai ser seu substituto. Recentemente em uma de suas redes sociais, Diana deu a entender que Murtagh não seguiria a história de Duncan Innes, portanto muito possivelmente podemos nos preparar para encontrar o novo personagem e para ter mais surpresas em relação a Murtagh.


Havia toda uma trama extra sobre um possível traidor tentando matar Jamie no capítulo 41 que também não foi incluída no episódio. O sr. Willoughby conta a Claire que havia sugerido o uso da acupuntura para tratar o enjoo de Jamie, mas o escocês cabeça dura se recusava a ser furado. Claire em uma conversa exposta a Jamie com o chinês usa o mesmo argumento que o da adaptação para convencê-lo ao tratamento, fala sobre possíveis efeitos dolorosos que o excesso de vômito causava, inclusive problemas no testículo. No episódio, é o Sr. Willougbhy quem cita os tais sintomas e é ele quem aplica o tratamento. Em “The Doldrums”, Jamie esconde o tratamento com acupuntura de Claire porque achava que ela pudesse ficar chateada por não estar sendo útil. Achei fofo da parte dele, tolo, mas fofo. São poucas as pessoas que se importam em não magoar até mesmo nas pequenas coisas aqueles com os quais se importam, e no caso deles, ainda havia a tensão prévia sobre o casamento de Jamie com Laoghaire. Agradá-la de todas as formas que ele enxergava possível era uma maneira de mantê-la feliz ao seu lado.



No capítulo 42 (O homem da lua), ocorre a cena em que Jamie e Claire conversam sobre a viagem do homem a lua. Ela descreve como é o satélite pelas fotos que havia visto. É quando então ele pega os retratos de Brianna para olhar, eles conversam mais sobre ela. Ele pergunta de forma relutante sobre o biquíni e Claire responde que era até comportado para época. Jamie questiona se foi realmente certo deixar Brianna sem nenhuma supervisão, falam também sobre casamento e sobre a carta que ela deixou para a filha. No episódio, Claire recita um poema de um livro que ela costumava ler para Brianna, o que não ocorre no material original.


Muito pouco do capítulo 44 foi utilizado e o que o foi refere-se ao Sr. Willoughby , modificado de forma a ser aproveitado bem pontualmente. O chinês caça um pelicano no capítulo a fim de treiná-lo para pegar peixes para ele. No episódio, ele apenas vê o pelicano como um sinal que o vento, que havia parado iria retornar. Neste capítulo, ele também escreve vários pergaminhos e os joga no mar. No episódio isso ocorre na cena da confusão sobre a má sorte que fez o vento sumir, o que não existe no livro. Toda essa calmaria em relação à movimentação do ar, tema principal do “The Doldrums”, não existe em “O Resgate no mar”. A produção por algum motivo escolheu focar nessa concepção de superstição nos navios. Foge do que ocorria no livro naquele momento, mas achei que não ficou ruim. O episódio foi divertido, empolgante e a trilha sonora estava perfeita. Talvez se tivessem utilizado exatamente a trama do livro não tivesse ficado tão bom. O que senti falta foi da presença de Murphy, um cozinheiro rabugento do Artemis, que aparece nos capítulo escolhidos para serem adaptados em “The Doldrums”, mas que por enquanto nas telas não deu o ar da graça.


No capítulo 45 (A história do Sr. Willoughby), como o próprio título demonstra, vamos conhecer um pouco do passado do sócio chinês de Jamie. Ele o conta quando os tripulantes estão reunidos na proa conversando. No episódio, a história é contada resumidamente como uma maneira de distrair os marujos da briga que estava ocorrendo. Assim como no episódio, Marsali também pergunta o que é um eunuco. O que achei engraçado é que Fergus tapa os ouvidos dela quando o Sr. Willoughby começa a descrever o corpo feminino. No capítulo 46, ocorre uma conversa entre Marsali e Claire sobre como prevenir bebês. Queria muito que ela tivesse sido incluída no roteiro principalmente porque Claire superficialmente fala sobre Brianna para ela. Espero que o diálogo apareça mais à frente. É neste capítulo que o Porpoise, o navio inglês, surge dando um tiro de advertência para que o Artemis pare. Jamie conta a Claire que o navio de guerra da marinha inglesa poderia simplesmente confiscar mão de obra britânica ao seu bel prazer, o que também aparece no episódio. Assim, em ambas as mídias ele fala para Claire continuar a busca sem ele, caso ele seja confiscado, mas no livro, ele menciona que Fergus (e Innes) não seria levado e que ele a ajudaria. Claire afirma-se que Jamie poderia facilmente se passar por um francês, mas seu marido responde que ele não se esconderia deixando seus homens para trás. Jamie avisa a ela que é melhor que voltem a usar o sobrenome Malcolm, o que não ocorre no episódio. Assim que Thomas Leonard, capitão substituto do Porpoise sobe a bordo do Artemis, ele pergunta se eles têm um cirurgião. Ele conta sobre a praga infecciosa que se abateu sobre o seu navio, matando o capitão, dois tenentes e boa parte da tripulação. Quando Claire se apresenta como a cirurgiã da embarcação, Thomas olha de forma torta para ela, mas Jamie afirma que ela é uma excelente curandeira. O capitão descreve o sintoma dos seus marujos e Claire acredita saber do que se trata. Jamie diz para o capitão, que sua esposa vai aconselhá-lo, mas não irá acompanhá-lo. Entretanto, Claire insiste em ir até o Porpoise. Jamie a chama para uma conversa em particular onde afirma que ela não pode entrar em um navio com uma praga ao que ela responde que ela acredita ser febre tifoide e ela é vacinada contra tal doença. Ela o convence falando sobre seu juramento. Ela até o recita. No episódio a cena aparece de maneira semelhante sem ela recitar o juramento de Hipócrates.



- Porpoise: Claire sobe então a bordo do navio de guerra britânico. Ela visita o lugar onde os doentes estão se alojando e assim como no livro é um ambiente escuro, fechado e fétido. Diferente do que ocorre nas telas, o primeiro paciente não apresenta erupção na barriga, nem o seguinte, mas o terceiro sim. Ela acaba diagnosticando-os com tifo (na série, ela afirma que é febre tifoide para Jamie e que tifo e a tal febre seriam doenças diferentes. No livro, aparentemente não há esse paralelo). Ela também afirma saber como tratar para o capitão tanto no livro quanto no episódio. Em “O Resgate no Mar”, Claire ainda teve a oportunidade de acenar para Jamie do convés informando que demoraria umas duas horas para retornar. No episódio isso não ocorre, nem acredito que fosse fisicamente possível uma vez que a distância ente os navios parecia ser muito grande para isso. Claire começa então a supervisionar a transferência dos homens para o convés e seus banhos. Quando ela foi para cozinha, ela sente o movimento do navio. No episódio, a ordem das ações é trocada, mas ela percebe que o navio voltou a se mexer também na cozinha. Ela questiona o capitão e o xinga. Ele responde que sente muito, mas que precisa chegar à Jamaica urgentemente. Ele afirma que havia prometido ao marido dela que a marinha daria a ela acomodações quando chegassem ao seu destino.


“O que quer dizer com prometeu ao meu marido? – eu disse, entre dentes. – Está querendo dizer que J... que o Sr. Malcolm permitiu que você me raptasse?
- Hã... não. Não, não permitiu. – O capitão parecia estar achando o confronto uma tarefa estafante. Retirou um lenço imundo do bolso e enxugou a testa e a nuca. – Ele foi muito intransigente, receio.
(...)
- Peço-lhe desculpas pelo que pode parecer o máximo de um comportamento indigno de um cavalheiro, Sra. Malcolm, mas a verdade é que estou desesperado – ele disse simplesmente. – Você pode ser nossa única chance. Não posso perdê-la.”

Retrocedendo um pouco na ordem do episódio, adorei a cena de sexo que acrescentaram. A referência sobre a tão usada frase do fandom em relação a Jamie ser o rei dos homens não passou despercebida. E não é apenas Jamie que acha Claire linda com seus cabelos grisalhos. Fiquei com a sensação de que a personagem fica ainda mais bonita dessa forma, principalmente quando está em sua postura de médica. Ela ganha um ar maior de mulher sábia, carregando consigo mais que uma beleza física, um encanto espiritual. Uma das coisas bastante comum no nosso tempo é como a sociedade cria uma pressão para que as mulheres escondam suas marcas de idade. É a tintura para o cabelo, o botox para as rugas, cremes de rejuvenescimento... mal sabe o capitalismo estético que o melhor remédio não pode ser engarrafado, nem vendido. Afinal, as mulheres mais felizes são as mais bonitas, não importa quantos anos tenham. E as que têm a sorte de ter um Jamie Fraser na vida também recebem um grande sopro de vitalidade.


Em “O Resgate no Mar”, não encontramos o vilão em um indivíduo para Jamie e Claire, como nos livros anteriores com a presença de Black Jack Randall. O “mau” que eles enfrentam ao longo é muito mais circunstancial do que humano. Citei anteriormente que eles haviam vencido o tempo. Em seguida, as vicissitudes do abrupto reencontro, e agora, devem encarar um oceano. E este pode ser obstáculo ou estrada.


“(...) Eu te verei nos ventos de outras plagas:
Juntos – o mar em nós será caminho.” (Zila Mamede)[1]


Por Tuísa Sampaio


[1] Trecho do poema “Partida”.
09 novembro 2017

Livro x Série de TV- Episódio 08: First Wife


Contém spoilers do episódio e dos livros


Episódio 08: First wife


First Wife” abarca trechos dos capítulos 32 (A volta do filho pródigo), 33 (Tesouro enterrado), 34 (Papai), 35 (Fuga do Éden), 36 (Bruxaria prática e aplicada), 37 (O significado de um nome), 38 (O encontro com o advogado), 39 (Perdido e pranteado pelo vento) de O Resgate no mar. Em suma, foram pulados os capítulos 30 e 31, enquanto foram colocados nos episódios os acontecimentos principais da parte 7 (De volta ao lar) do livro.



De volta a Lallybroch: “First wife” pulou os trechos do livro referentes à viagem e já apresentou os personagens chegando a Lallybroch. No capítulo 32, quem primeiro os recebe é a pequena Janet, momento em que faz a brincadeira sobre o rosto do irmão estar sujo, a qual ele responde dizendo que é a sua barba crescendo. No episódio, isso ocorre quando ele está fazendo o trabalho com o qual foi castigado por ter fugido de casa. No livro, ele realmente leva a surra, assim como seu tio. A recepção de Claire por Jenny não é “seca” como nas telas. De primeira, Jenny fica emocionada ao rever a sua cunhada após vinte anos. Nesse reencontro, Claire percebeu que havia uma troca de olhares entre os Murray e Jamie, mas não sabia a causa disso. Jovem Ian tinha seguido a irmã para se limpar, então não estava na sala neste momento (contrário do que ocorreu na série de TV). Jamie comenta então que trouxe o menino para casa. O pai vai procurar o filho pela casa e o traz para a sala. Na conversa entre os pais e o jovem Ian, Jenny estava mais calma que no episódio. Acho que mais acalentada pelo fato de ele ter voltado e não tão raivosa pelo encontro com Claire como a adaptação fez parecer. Também é mencionado que jovem Ian havia deixado uma carta informando aos pais que havia ido para Edimburgo. É Ian quem dá o sermão no filho sobre a decepção que foi ele ter fugido novamente e o manda lá para fora para aguardar a surra, Jamie entra então em defesa do sobrinho. É quando Jenny começa a perder as estribeiras e discuti com o irmão dizendo que ele fez o filho trabalhar com criminosos, e Jamie responde que ela sabia que o dinheiro que ele enviava não vinha da impressão de salmos. Em suma, parte da discussão que foi vista nas telas foi retirada deste trecho. Ian menciona então que o garoto adorava o tio, essa citação aparece no episódio apenas quando jovem Ian está cumprindo seu castigo. Eles continuaram a discussão quando Jamie diz que acha que jovem Ian não deve ser surrado como um garotinho, uma vez que ele já comportava como um homem. Ian disse que não iria voltar atrás em sua palavra, mas afirma que quem vai dá a surra em jovem Ian é Jamie. A cena da surra tem um ar cômico. Jovem Ian e Jamie conversam sobre qual deveria ser a quantidade certa de chibatadas. Quando acabou, Jamie diz ao jovem Ian que é a vez dele de apanhar, pois ele havia errado tanto quanto o garoto. No capítulo 33 (Tesouro enterrado), Jamie conta a Claire sobre o ouro do francês e sua conversa com Duncan Kerr. No episódio, a produção escolheu mostrar essa história também por meio de um flashback de Jamie procurando por Claire, sua dama branca. O diálogo em si no livro é mais extenso que na adaptação e envolve uma história mística sobre Jamie ouvir a mãe falando com ele e encontrar uma foca o encarando.



A segunda esposa: No outro dia, quando Jamie estava mergulhado nas coxas de Claire, Marsali os surpreende com um grito de “Papai!”. No episódio, ainda era noite, e não apenas Marsali, mas sua irmã também os surpreende no quarto e é a pequena Joan quem solta o grito, em seguida entra Laoghaire, a segunda esposa. Na adaptação, momentos antes Jamie estava preparando Claire para o que eu acredito seria a revelação de seu casamento com Laoghaire. O grito de Marsali termina o capítulo 33. O capítulo 34 (Papai) inicia-se com o questionamento de Claire sobre o “papai”. Laoghaire chega ao quarto um tempinho depois e chama Claire de bruxa sassenach, como na adaptação. No capítulo, Laoghaire tenta jogar um vaso em Claire, e Jamie expulsa-a do quarto dizendo que falará com ela depois. Jamie tenta se explicar, mas Claire não acredita que ele seja capaz disso. Abrindo um parêntese antes de seguir para a briga deles: o episódio foi muito bem feito, muito da essência do livro estava presente, o seu maior defeito na verdade não estava contido nele próprio, mas nas consequências de uma divergência do livro que foi apresentada ainda na segunda temporada. A produção achou interessante que Jamie tivesse a informação de que Laoghaire havia sido a pessoa que havia mandado Claire para fogueira. E MESMO ASSIM ELE CASOU COM ELA!!!! No livro, o casamento de Laoghaire com Jamie é mais tolerável pelo fato de ele não saber desse ato da jovem. Claire só conta para ele isso no quinto livro, e ele afirma para ela que se soubesse disso não teria se casado com Laoghaire. Então, como é que ele casa??????? Honestamente, os produtores se enrolaram muito com essa mudança, tornando a construção de um motivo para esse casamento muito mais difícil que a solidão de Jamie. Ele não casou meramente com um antigo namorico de adolescência, o que ainda teria certa lógica, ele casou com a mulher que tentou matar o grande amor da vida dele. Quiseram inserir a ideia de que ele casou com ela por um carinho pelas filhas dela. Tanto carinho que quando o casamento não deu certo, ele se mandou para Edimburgo, onde estaria longe não apenas da esposa, mas das enteadas também. Fechando o parêntese, e voltando para a cena da briga entre o casal, o modo como o “barraco” deles foi retratado na tela foi bastante semelhante ao do livro, só que um pouco menos violento e com menos xingamentos entre eles. No capítulo, após expulsar Laoghaire do quarto (antes disso, ela havia conseguido arranhar o rosto do marido), Claire tentava colocar a roupa enquanto Jamie explicava que Marsali e Joan não eram filhas biológicas dele. Ele sai do quarto para resolver as coisas com Laoghaire. No episódio, ele conversa com Joan, e quando volta Claire está arrumando-se para ir embora, é quando então começam a brigar. No capítulo, quando está sozinha, Claire chora por Brianna porque ela sentia que isso era uma traição tanto a filha quanto a ela (ela ainda achava que as meninas eram dele, quando ele afirma novamente que não são é que ela se sente aliviada). Quando Jamie retorna, Claire não deixa que ele a toque, e ele pergunta se ela não vai lhe deixar explicar. Eles seguem a discussão, as partes que foram acrescentadas no episódio são em relação às mudanças feitas na série como o fato de Jamie saber que Laoghaire tentou mandar Claire para fogueira ou o cabelo ruivo de Joan (no livro é castanho). O capítulo termina com Jenny jogando um balde d’água em cima deles como no episódio. No capítulo 35 (Fuga do Éden), Claire está decidida a ir embora de Lallybroch. Caitriona (Claire) estava ótima não apenas nessas cenas, mas no episódio inteiro. Eu não apenas pude sentir sua revolta e sua dor, como também a compartilhava e queria ser eu mesma a dá na cara daquele traidor de uma figa (a tapa me representou). Como no episódio era noite, ela teve que esperar até a manhã seguinte para partir. No livro, Jamie sai do quarto, e Jenny fica arrumando os cacos do vaso quebrado. A pequena Janet aparece com biscoitos e uísque e pergunta se a tia está bem. Algo que me incomodou um pouco no episódio é que enquanto no livro, todos os filhos de Jenny já haviam ouvido falar de Claire, e quando ela retorna, eles a chamam por tia (os que estavam presentes); no episódio é como se o nome dela nunca mais tivesse sido mencionado, e ela fosse uma completa estranha. Em “First Wife”, Jenny apresenta Claire ao jovem Jamie como alguém que viveu em Lallybroch quando ele era pequeno. Isso não apenas não condiz com o livro, mas com os episódios anteriores quando jovem Ian comenta com Claire que havia escutado histórias sobre ela em Lallybroch. Mais à frente, Claire comenta com jovem Ian que ele é o único que a chama de tia ali. Imagino que a produção talvez quisesse destacar o quão facilmente jovem Ian aceitou Claire, fazendo com que ela fosse uma figura mais afastada da família, mas acho que para isso eles teriam que ter tirado a fala do rapaz sobre já ter ouvido falar sobre ela quando eles se conhecem. Ainda no capítulo 35, quando a pequena Janet está no quarto com Claire, Jenny sai para procurar um vestido para Claire. Momento então que a menina pede desculpas à tia por ter avisado a Laoghaire da sua presença e conta que foi a mãe quem mandou que ela fizesse isso, como no episódio. Agora vem uma diferença, quando a pequena Jenny sai do quarto e a mãe volta, Claire fala que quer ir embora e a isso Jenny responde “Acho que é melhor”. Em “First Wife” quando Jenny chega ao recinto que Claire está, a conversa é outra. Achei interessante colocarem Claire contando sobre o outro marido para Jenny, pareceu que isso a ajudou a entender um pouco mais o lado de Claire, mesmo ela não a perdoando completamente. Nesse momento, Claire guarda a informação sobre Brianna, acredito que teria sido difícil explicar uma filha que ela achava que os Murray nunca iriam conhecer. Qual seria a justificativa que ela poderia dar para que a filha nunca viesse conhecer a família quando ela mesma estava ali? Voltando ao livro, Jenny entrega um cavalo a Claire, que parte para retornar ao seu tempo. No episódio, Claire não chega a ir embora, pois quando ela estava saindo, Jamie a encontra e tenta impedi-la, é quando Laoghaire aparece e atira nele. No livro, jovem Ian vai atrás de Claire e conta que Laoghaire havia atirado no tio e que era necessário que ela voltasse porque ele estava morrendo, e assim ela retorna para salvar a vida dele.



No capítulo 36 (Bruxaria prática e aplicada), Jenny já havia retirado a bala quando Claire chega (e fica bem chateada da cunhada ter retornado na verdade), mas Claire tem que curar sua febre. Enquanto, Jamie ardia, ele passou achar que Claire era uma alucinação. Quando percebeu que não era, Claire entra na sua função médica e o trata como seu paciente. Jamie finalmente explica pra Claire por que ele casou com Laoghaire. O diálogo na adaptação é um pouco modificado, mas parte dele foi extraído dos capítulos 36 e 37. A história entre Jamie e Laoghaire é um pouco mais detalhada no livro. Jamie conta que por meio de Ned Gowan, que estava ajudando Laoghaire a tentar recuperar as terras do falecido marido, Jenny ficou sabendo de Laoghaire. Jenny então a convidou juntamente com as filhas para passar o Hogmanay (ano novo escocês) em Lallybroch . Essa parte assim como no episódio é parcialmente contada por meio de flashback, mas no livro é a própria Laoghaire quem o chama para dançar, e não, suas filhas. Em uma simpatia de Ano novo, surge o presságio que Jamie casaria com Laoghaire. Ele conta, então, que ela precisava de um marido para sustentar as filhas, e ele “precisava de alguma coisa”. O casamento dura menos de um ano. Ele fala assim como no episódio que a esposa tinha medo dele e do seu toque e que ele não suportava mais isso. Jamie passa então a fazer manha, e Claire massageia sua nuca, finda ainda dormindo ao seu lado. Na conversa que se segue, quando eles estão deitados, foi cortado do episódio uma citação que para mim melhor representa o tema da identidade neste livro. Jamie confessa a Claire:


“Durante tantos anos – ele disse – por tanto tempo, eu fui tantas coisas, tantos homens diferentes. – Senti que ele engolia em seco e ele remexeu-se um pouco, o linho de seu camisão farfalhando de goma. – Fui tio para os filhos de Jenny e irmão para ela e Ian. ‘Milorde’ para Fergus e ‘Senhor’ para os meus colonos. ‘Mac Dubh’ para os homens de Ardsmuir e ‘Mackenzie’ para os outros empregados de Helwater. Depois ‘Malcolm, o mestre-impressor’ e ‘Jamie Roy’ nas docas. – A mão acariciou meus cabelos, devagar, com um som sussurrante, como o vento do lado de fora. – Mas aqui – ele disse, tão baixinho que mal podia ouvi-lo-, aqui no escuro, com você... eu não tenho nenhum nome.”


No capítulo 38 (Encontro com o advogado), tem-se a negociação para que Laoghaire não processe Jamie por ter casado com ela tendo uma esposa viva. O roteirista enxugou bastante o capítulo e realmente só colocou o essencial. Obviamente, também fez algumas alterações acrescentando coisas que não tem no livro. No capítulo, quando Claire acorda no outro dia, ela encontra com jovem Jamie (no livro, sua esposa tinha tido neném há pouco tempo e ele estava em sua casa acompanhando-a, só indo a lallybroch alguns dias depois) e ao contrário do episódio, não apenas ele lembrava-se de Claire como a chamou de tia. Jamie apresenta Claire aos sobrinhos-netos:


“Quem é ela, Nunkie? – perguntou num sussurro bastante audível.
- É a sua tia-avó Claire – Jamie disse com ar sério. – Já ouviu falar dela, não?
- Ah, sim – disse o menino, balançando a cabeça freneticamente. – Ela é tão velha quanto a vovó?
- Mais velha ainda- Jamie disse (...)
- Ah, essa não, tio! Ela não parece nem um pouco mais velha do que a vovó! Ela quase nem tem cabelo branco!
- Obrigada, menino! – eu disse, com um amplo sorriso.
- Tem certeza de que é a nossa tia-avó Claire?- o menino continuou olhando-me com desconfiança. – Mamãe diz que a tia-avó Claire talvez fosse uma bruxa, mas ela não se parece com uma bruxa. Não vejo nem uma verruga no nariz dela!
- Obrigada- repeti, um pouco mais secamente. – E qual é o seu nome?
(...)
- Este é Angus Walter Edwin Murray Carmichael – Jamie respondeu por ele, despenteando os sedosos cabelos louros. – O filho mais velho de Maggie e mais conhecido como Wally. (...)”

Fergus não apareceu neste episódio (ele até gravou, mas a cena que inventaram para ele foi cortada), porém ele estava presente no capítulo 38. Claire o encontra quando passava pelo curral. O leitor descobre nessa conversa entre eles, que Fergus está tentando juntar dinheiro para casar-se e que para isso precisa de uma profissão respeitável. A tipografia lhe dava isso, por essa razão ele lamentava a perda dela, uma vez que a mãe da moça não deixaria que ela se casasse com um contrabandista e já não o via de forma positiva.


“Eu não podia dizer que culpava a mãe da jovem, levando-se tudo em consideração. Embora Fergus possuísse uma bela aparência morena e um jeito arrojado que poderia muito bem conquistar o coração de uma jovem, não possuía alguns dos atributos mais atraentes para pais escoceses conservadores, como propriedade, renda, a mão esquerda e um sobrenome.

Da mesma forma, embora o contrabando, o roubo de gado e outras formas de comunismo prático tivessem uma longa e ilustre história nas Highlands, os franceses não pensavam do mesmo modo. E por mais tempo que o próprio Fergus tenha vivido em Lallybroch, ele continuava tão francês quanto Notre Dame. Ele sempre seria, como eu, um forasteiro.”






Jenny tentou convencer Jamie a ir embora assim que soube que o irmão de Laoghaire, Hobart MacKenzie, estava vindo tomar as dores dela. Jamie se recusou a ir, dizendo que não tinha medo dele. Em seguida, Claire segue Jenny até o celeiro, onde ocorre a conversa que aparece parcialmente no episódio entre as duas na parte de fora da casa. Além do que aparece de forma adaptada em “First Wife”, Claire pergunta a Jenny por que ela juntou Jamie e Laoghaire. Jenny confirma que Jamie não teria se casado se ela não tivesse o obrigado. Ela achava que o irmão estava muito solitário. Claire também pergunta por que ela mandou chamar Laoghaire quando eles chegaram a Lallybroch. Jenny diz que gostava de Claire quando ela morava com eles. Jenny conta então sobre a visão que teve de Claire no casamento de Laoghaire e Jamie. Para Jenny, a união entre o irmão e Laoghaire o ligava àquelas terras, mesmo que ele passasse a maior parte do tempo em Edimburgo, ele sempre retornava. Já com Claire, Jenny tinha medo que ela o levasse embora e que o irmão a seguisse. Jenny achava que uma vez que Claire soubesse de Laoghaire, ela iria partir, e o irmão ficaria com a família. Mas ela percebeu que Claire estava para sempre ligada a Jamie e para onde um fosse o outro também iria. A conversa é concluída quando jovem Ian vem avisar a Jenny que Hobart chegou e que ele havia trazido Ned Gowan com ele. No episódio, é Jamie quem manda chamar o advogado. Eles negociaram uma pensão alimentícia e um dote para cada uma das meninas. Jenny se intromete na conversa dizendo que a pensão deve ser paga apenas até Laoghaire se casar novamente, o que não foi mencionado no episódio. Para pagar a Laoghaire, Jamie decide ir atrás do tesouro na ilha sobre o qual seu cunhado e irmã já sabiam, ao contrário da série. Ele pede para levar jovem Ian com ele uma vez que ele mesmo não podia nada por causa do braço. A família já havia usado o tesouro algumas vezes antes, tendo Michael e jovem Jamie, os outros filhos de Jenny e Ian, nadado para resgatar uma parte do que estava escondido lá. No episódio, Jamie pede permissão também para levar jovem Ian para França com ele. No livro, Ian pergunta se Jamie pensa em levar o menino para a França, e Jamie responde que acha que jovem Ian poderia estudar um pouco lá. Concordando, Jenny fala a mesma frase do episódio sobre liberdade.

- "Sassenach, você vai me aceitar e se arriscar com o homem que eu sou agora em nome do homem que você conheceu?"

Essa frase foi extraída do capítulo 25 ainda, quando Jamie e Claire haviam se reencontrado. Na adaptação, ela foi inserida quando os Frasers observavam jovem Ian nadar em busca do ouro do francês. Fez bastante sentido a colocarem no momento em que Claire ainda tem dúvidas se deve ou não ficar com Jamie, mas a resposta é interrompida pelo sequestro do jovem Ian. O capítulo 39 (Perdido e pranteado pelo vento) é que traz essa cena. O navio também dispara tiros na direção de Claire e Jamie, o que não acontece no episódio. Enquanto o “First wife” é concluído com o afastamento da câmera, como se fosse o navio, deixando para trás Jamie e Claire, o capítulo ainda continua com a discussão do que deve ser feito para que se possa salvar o rapaz. E finalmente, o resgate no mar vai começar.

Nós sabemos que não importa o quão frustrada Claire esteja com Jamie, ela irá sim se arriscar com ele. Quando ela fugiu dele após descobrir sobre Laoghaire, ela chega a admitir para si própria que tinha medo que ele escolhesse essa nova família. Esse episódio traz o questionamento se realmente o amor era suficiente para manter esses dois juntos. Entretanto o que mais me chamou atenção foi o relacionamento entre Claire e Jenny. Duas mulheres de tempos diferentes, com vidas diferentes, mas ainda assim tão iguais. Jenny estava não apenas com medo de que Claire levasse Jamie embora, o que realmente acaba acontecendo, como acredito, que também levasse um pouco dela também caso ela se abrisse novamente. Ela é uma mulher que não confia facilmente, endurecida pela vida, e como Claire menciona uma vez talvez a única pessoa que amasse tanto Jamie quanto ela própria. Foram vinte anos de provações, fome, o afastamento do irmão, a perda da cunhada que ela amava. Assim como Claire, Jenny também perdeu um bebê no parto. Elas duas carregam a dor da morte e da separação, e, imagino que Jenny tenha se sentido traída quando descobriu que Claire estava viva esse tempo todo. O fato de Claire ser incapaz de responder todas as suas perguntas não contribuiu para retomar a confiança perdida. A primeira vez que eu li esses capítulos, eu quis odiar Jenny, mas eu não consegui. Eu a entendi. Ela perdeu Claire também, e carregava o medo de não ter mais o irmão com ela após ter o recuperado há tão pouco tempo. Famílias são assim. É de onde vem nossa maior alegria e nossa maior tristeza. Tem a capacidade de nos destruir e de nos erguer, de nos impulsionar a fazer o nosso melhor e de nos matar de medo de trazer decepção. A traição da família dói mais. É aquela faca enfiada bem fundo no coração que mesmo retirada parece que não sara nunca. Para Jenny, Claire deixara de ser uma forasteira, quando Jamie a trouxe para casa. Ela virou família. Quando ela parte e depois volta, Claire machucou e traiu essa família. Infelizmente, elas não terão tempo de sarar as feridas que se abriram, e levará anos para que elas voltem a ser uma para a outra as irmãs que um dia foram.



“Lar é um lugar para onde, quando você precisa ir para lá, as pessoas têm que recebê-lo”. (Robert Frost)

Por Tuísa Sampaio




02 novembro 2017

Livros x Série de TV- Episódio 07: Crème de menthe



Contem spoilers do episódio e dos livros

Episódio 07: Crème de menthe

O episódio dessa semana de Outlander, “Crème de menthe”, trouxe às telas parte do capítulo 26 (Brunch no bordel), o 27 (Em chamas), parte do 28 (O guardião da virtude) e do 29 (A última vítima de Culloden) de “O Resgate no mar”. Dessa vez, escolhi agrupar os tópicos em relação ao núcleo de interação de personagens (na medida do possível), portanto, a resenha não seguirá necessariamente a ordem cronológica do episódio ou do livro (apesar de se aproximar um pouco mais desta última). Principalmente porque os fatos destes capítulos utilizados ficaram bem embaralhados dentro de “Crème de menthe”.


-Jamie e Claire: retornando de onde “A. Malcolm” terminou, Claire está sendo atacada pelo guarda alfandegário, quando ele finda por cair e bater a cabeça ficando em um estado de vida ou morte. No capítulo 26, o Sr. Willoughby é quem mata o oficial da Coroa com um tiro, como uma forma de proteger Claire. Fergus que chega logo depois, tenta ainda tirar informações do oficial, enquanto ele cospe sangue no colo de Claire, mas é inútil, e o homem logo morre. Temos então a primeira divergência da série e livro. Duas coisas me vieram à mente que possam justificar essa mudança: 1) a moldagem do Sr. Willoughby em um personagem politicamente correto foi levada ao extremo ao ponto de retirar dele qualquer possível falha de caráter. No livro, a morte do oficial aparenta ser bem “gratuita”, visto que Sr. Willoughby é que o ataca depois de ele ter confundido Claire com uma prostituta; enquanto na série, eles deram um jeito de o homem morrer no ato contínuo da briga. Dessa ideia do Sr. Willoughby politicamente correto ainda temos a frase que ele fala a Jamie sobre “admirar uma mulher que valoriza a santidade da vida humana”, enquanto no livro ele não tinha problema algum em matar pessoas; 2) ocasionar uma discussão entre Jamie e Claire (também, talvez, e muito provavelmente, as duas situações). Em “Crème de menthe”, logo após a queda do oficial, Claire tentar salvar sua vida justificando mais à frente que como ela era uma médica, ela tem que socorrê-lo sem julgar. Ora, paciência, isso não tem a ver com o juramento de Hipócrates, mas sim com sobrevivência. Jamie, no episódio, estava certo quando disse que quem acabaria presa era ela se os guardas aparecessem. Claire não era novata naquele século, ela sabia que ser mulher, era ser culpada. Então, por que colocar uma Claire alheia ao período histórico que estava? Só para causar um confronto com Jamie? E mostrar que eles ainda precisavam ajustar os ponteiros do relógio deles, quando no livro, eles vão se conhecendo novamente sem a necessidade dessas pequenas brigas? (na verdade, no material original, eles parecem mais recém-casados). A mesma Claire que já havia praticado eutanásia e até mesmo matado em prol da sobrevivência daqueles que ama e de si mesma realmente teria arriscado ser presa e ainda mais ter colocado em jogo a segurança de Jamie, Fergus e jovem Ian para salvar a vida de um homem que a tentou matar e que claramente não tinha mais chances de sobreviver? Para mim, me pareceu, que além de quererem incluir uma briga entre o casal, os produtores construíram essa cena para justificar a ida dela à botica (o que facilmente poderia ser incluído por “n” outros motivos, inclusive a razão do próprio livro).


“Certamente, o desaparecimento desse funcionário iria provocar uma intensa busca. Eu tinha visões de homens vasculhando o bordel, interrogando e ameaçando mulheres, fornecendo descrições completas de mim, de Jamie e do Sr. Willoughby, bem como de vários relatos de testemunhas do crime.”


No capítulo, logo após a morte do oficial, Jamie leva Claire para tomar um banho, já que sua roupa estava toda melada de sangue. No episódio, Claire sai em busca do material necessário para salvar a vida do guarda, enquanto Jamie organiza seus homens, juntamente com Fergus e jovem Ian para que se livrem do contrabando. No livro, pela descrição que Claire faz da situação e ao olhar o corpo, Jamie percebe que o homem morto pelo Sr. Willoughby não era realmente um guarda alfandegário, pois ele conhecia todos eles, mas também não sabia quem era. Ademais, quando havia ido tratar de negócios mais cedo, Jamie tinha deixado que parte da sua bebida propositalmente fosse apreendida (a de pior qualidade) pelos guardas para que eles parecessem ser competentes, o que estava incluído no acordo deles. Na série, isso não aparece. No capítulo 27, enquanto Jamie e Claire jantam, eles encontram Sir Percival, o qual avisa Jamie para não realizar uma determinada viagem que estava em seus planos. No capítulo 28, Jamie conta a Claire que Sir Percival achava que ele contrabandeava seda e veludo da Holanda, e Jamie pagava a ele em tecido (diferente da série, onde Sir Percival recebia em pecúnia e estava bem ciente do contrabando de bebida alcóolica). Com um alfaiate, Jamie trocava as peças de costura por conhaque. No capítulo 27, Jamie e Claire estão tendo conversas de travesseiro, que infelizmente foram cortadas. Mais uma demonstração de amor entre o casal foi retirada da série, enquanto brigas inventadas foram acrescentadas.


“- Jamie- eu disse finalmente num sussurro, acariciando a sua nuca – acho que nunca me senti tão feliz.


- Nem eu, minha sassenach – ele disse, beijando-me muito de leve, mas longamente, de modo que eu tive tempo de cerrar meus lábios numa pequena mordida na parte cheia de seu lábio inferior. – Não se trata só de sexo- ele disse, afastando-se um pouco finalmente. Seus olhos fitavam-me, com o azul suave e profundo de um quente mar tropical.

- Não- eu disse, tocando sua face. – Não é só isso.


- Ter você comigo outra vez, falar com você, saber que posso dizer qualquer coisa, sem quer que vigiar minhas palavras ou esconder meus pensamentos...meu Deus, Sassenach – ele disse- Deus sabe que como homem sou louco por sexo e não consigo tirar as mãos de você, de nenhuma parte – acrescentou ironicamente- , mas eu não me importaria de perder tudo isso pelo único prazer de ter você a meu lado e poder conversar com você de coração aberto.

- Foi muito solitário viver sem você. – sussurrei. – Muito solitário.


- Para mim também. (...)”



Claramente, a situação do casal Fraser na mesma linha de acontecimentos da série era completamente oposta ao que está sendo apresentada. Isso me entristeceu. Por que escolheram mostrar animosidade entre Jamie e Claire, quando há tantas cenas lindas de reconexão entre eles neste período? Dentre essas conversas de travesseiro, Jamie conta que foi por acaso que ele havia se tornado um mestre-impressor. Quando ele veio para Edimburgo, ele precisava de uma atividade que servisse para esconder seu contrabando. A ideia da gráfica veio quando ele pensou em um local para imprimir alguns panfletos e ali, acreditou que os guardas nunca imaginariam que havia negócios ilegais. Depois de ter colocado a tipografia para funcionar é que nasceu a ideia dos panfletos políticos.



Em “Crème de Menthe”, Ian aparece em busca do filho (na ordem dos livros isso já havia acontecido no capítulo 26, antes mesmo de Claire ter conhecido jovem Ian). Como a presença de Ian é avisada por Madame Jeanne, ele não entra no quarto e sim, são Jamie e Claire quem descem ao salão para recebê-lo, não tendo como ele confundir uma Claire escondida na cama com uma prostituta, uma vez que ele estava olhando diretamente para ela. Essa foi uma das melhores cenas do episódio (apesar de que preferiria ter visto o trecho como descrito no livro, Steve Cree (Ian) estava primoroso em sua interpretação e foi quem mais demonstrou emoção ao reencontrar Claire). Jamie avisa a Claire para que ela não conte a Ian sobre a localização do seu filho. Claire obedece, mas isso a perturba. A série então apresenta um Jamie prepotente que acredita que sabe melhor que ninguém o que seria apropriado na criação do sobrinho. Nessa prepotência, ele permite que sua irmã e cunhado fiquem morrendo de preocupação em relação ao filho. No livro, as coisas não se passam de tal forma. O mero fato da mudança de ordem de cenas já faz com que Claire não tenha que mentir para Ian no material original. Ademais, o motivo para o qual Jamie não conta ao cunhado que o filho estava com ele, foi que ele havia prometido ao jovem Ian que daria a oportunidade de ele mesmo contar. Justo. Assim, enquanto no livro, um acordo que permitia que fosse o próprio filho a se redimir com o pai fez com que Jamie mentisse; na série, foi uma arrogância inventada. E tal arrogância acaba levando a mais uma briga criada pela roteirista, na qual Jamie joga na cara de Claire que não foi capaz de criar a filha e que ela e Frank quem escolheram o que era certo para a menina. Indicando ainda que ela havia sido criada sem moral por usar biquíni . Mas, afinal, não foi o senhor, seu jamie Fraser, que enviou a sua esposa e filha para Frank Randall? Agora é tarde demais para reclamações.


Enquanto no episódio, é Jamie quem conta que o corpo do funcionário de Sir Percival foi escondido em um barril de creme de menta; no livro, é Fergus quem diz isso no capítulo 28 (o guardião da virtude), quando ele aparece para contar ao seu milorde que havia vendido o conhaque que estava guardado (na série a incumbência de vender a bebida coube ao jovem Ian, Fergus apenas o acompanhou).


- O incêndio: o incêndio na gráfica ocorre no capítulo 27 (em chamas). Enquanto no episódio, madame Jeanne avisa aos Frasers sobre o ocorrido; no livro, Claire e Jamie veem a fumaça quando caminham pela Royal Mile. No capítulo, não apenas Jamie adentra no recinto, mas alguns outros homens que passavam na rua. Jamie passou, então, a jogar pela janela vários de seus materiais de impressão com o intuito de conseguir salvar algo da sua preciosa tipografia. Foi capaz também de resgatar sua prensa com a ajuda dos rapazes que haviam o acompanhado. Ian (pai) aparece na frente da gráfica (o que não acontece no episódio) e é ele quem vê o vulto do jovem Ian dentro do ambiente em chamas (na série, Jamie entra apenas com o objetivo de salvar jovem Ian, quem ele já sabia que estava lá). Claire, então, avisa a Jamie sobre a presença do sobrinho na gráfica, e ele entra para salvá-lo. Depois do alvoroço, os Ians e os Frasers retornam para o bordel, onde Ian (pai) ameaça o filho com a perspectiva de uma surra. Logo em seguida, perguntas são feitas e jovem Ian diz que foi ele quem pôs fogo na gráfica. Ele conta então que havia visto um homem perguntando pelo tio Jamie na taverna onde estava comendo, mas não questionava sobre Alexander Malcolm, mas sim usava o nome verdadeiro de Jamie e também tinha conhecimento do nome que Jamie usava nas docas, Jamie Roy. Tal nome não aparece na série. Jovem Jamie passou a seguir o homem, mas acabou perdendo-o de vista, assim ele retornou ao bordel. Esse trecho no livro é bem engraçado, pois como jovem Ian não sabia ainda quem era Claire – e acreditava que ela fosse uma prostituta- ele acusa o pai de ter um caso com ela, chamando-o de hipócrita – Ian (pai) conta quem é Claire, e a pergunta que jovem Ian fez no episódio passado sobre as mulheres de Lallybroch falarem que Claire era uma fada é feita neste momento. Ian explica ao filho que Claire estava na França e ao achar que Jamie estivesse morto, não podia retornar porque iria por Lallybroch em desgraça, mas quando descobriu que o marido estava vivo retornou. Jovem Ian continua sua história dizendo que do bordel acabou conseguindo sair e encontrar o tal homem, ele viu o sujeito entrar na gráfica. Como havia muitos panfletos subversivos lá, jovem Ian colocou fogo na tipografia para que eles não fossem encontrados. Mais tarde quando o pai sai do recinto, jovem Ian conta que na verdade ele não começou o fogo, quando ele bateu no homem, o sujeito derrubou carvão em brasa que iniciou o incêndio. Ele não quis contar ao pai por vergonha de ser um assassino. Como o rapaz sentia-se culpado, o tio decidiu levá-lo para visitar o padre Hayes com o intuito de se confessar. No episódio, o incêndio é causado pelo tiro do capanga de Sir Percival, e o sujeito estava em busca dos barris de bebida alcoólica.



- Fergus e jovem Ian: no capítulo 28, após realizar a venda do conhaque, Fergus busca uma prostituta para fazer companhia pelo resto da noite. Fergus sugere que jovem Ian deve procurar uma das meninas de madame Jeanne para passar a noite, em vez de ficar no quarto dos tios (a essa altura no livro, a gráfica já havia pegado fogo, e o menino tinha passado pela experiência de quase ser tostado). No episódio, o incêndio não havia acontecido, jovem Ian e Fergus estavam em uma taverna comemorando a venda do conhaque. Fergus comenta que sempre vê o jovem Ian olhando a tal Brighid, que aparenta ser uma garçonete e não uma prostituta como no livro, e o ajuda a conquistá-la. Algo bonito de ser ver nesse episódio foi a amizade entre esses dois. Fergus agia como um irmão mais velho e na verdade é assim que eles se enxergam, não foi à toa que Fergus chama o amigo de irmão. Por mais que Fergus fosse filho adotivo de Jamie, foi Jenny quem o criou por todo o período em que Jamie estava preso e em Helwater. Ele a via como mãe e os filhos dela como irmãos. Essa foi a parte interessante deste episódio, a interação entre esses dois homens que cresceram juntos e que agora compartilham uma forte amizade. César Domboy (Fergus) me conquistou ainda mais. O modo de falar dele está bem semelhante ao de Roman Berrux (Fergus jovem) assim como alguns de seus trejeitos, o que me fez ficar ansiosa para ver o desenvolvimento da sua história ao longo da temporada. Também estou torcendo que pelo fato de ele ser um personagem coadjuvante e como muito provavelmente essa segunda parte da temporada vá ser mais corrida, não cortem os detalhes do casamento dele. É uma cena tanto engraçada, quanto tocante no livro.


- Os Campbell: no capítulo 29 (a última vítima de Culloden), Claire vai a botica para se abastecer de ervas medicinais. É lá que ela conhece o reverendo Archibald Campbell. No episódio, eles transformaram o homem de Deus em um aproveitador da irmã, um tradutor das suas visões. Parte da história deles também foi cortada. Na verdade, o que foi mostrado foi um pobre retalho de uma narrativa mais inventada do que extraída do livro. O que se tem de igual é que eles eram irmãos e que ela aparentava ser uma doente mental. Mas em “Crème de menthe”, eles mudaram a razão de ela ser assim. No episódio, Campbell diz que ela nasceu com a doença nervosa; mas no livro, seu estado sensível é resultado do trauma que sofreu em Culloden. Talvez eles tenham modificado o porquê para economizar tempo, mas depois de uns quinze minutos de cirurgia inútil na cabeça de John Barton e de acréscimos de brigas desnecessárias entre Claire e Jamie, não acredito que tempo fosse realmente um problema para esse episódio. Apesar da aparição dos Campbell parecer algo completamente avulso, ela não é. Margaret Campbell ainda terá importância no desenrolar de “O Resgate no Mar”. No capítulo, quando Claire chega à botica, ela ajuda Haugh na organização da sua loja, o reverendo que estava presente percebe que ela tem conhecimento da ervas e pede sua ajuda no que deve ser fornecido para uma pessoa com doença nervosa. Ele requisita, de maneira meio arrogante, que Claire vá ver sua irmã (nesse momento, Claire pensa que é a esposa dele que precisa de ajuda, só mais tarde que descobre que é a irmã). Quando Claire chega à casa dos Cambpell, é recebida por uma mulher chamada Nellie Cowden que a apresenta a Margaret Campbell (o reverendo havia saído). Nellie diz que Margaret tem 37 anos e está nesse estado catatônico há 20 anos, e mora com o reverendo desde as mortes dos pais. É Nellie quem informa a Claire que o ministro e a irmã estão se mudando para as índias ocidentais, onde ele aceitou uma proposta da Associação de Missionários. Em “Crème de menthe”, Campbell fala que eles irão realizar um trabalho lá, mas não especifica o quê. Nellie conta a Claire também que Margaret tinha 17 anos na época do levante de 1745. O pai e o irmão estavam do lado do rei, mas Margaret era jacobita. Ela trabalhou como informante, espionando o pai e irmão. Quando surgiram boatos de uma possível derrota, Margaret fugiu de casa em busca do homem por quem era apaixonada. Ninguém sabe ao certo se ela o encontrou, o que se sabe é que no dia seguinte a Culloden ela foi capturada por soldados ingleses. Margaret Campbell sofreu um estupro coletivo e foi largada quase morta (mais uma vez Diana usa o recurso narrativo do estupro. Por mais que a ameaça de violência sexual naquela época fosse muito frequente, é um pouquinho de falta de criatividade, ela enfiar isso na vida de quase todo personagem sofrido que aparece). Ela tinha vivido com os ciganos, onde seu irmão a encontrou quando seguia com o seu batalhão. O fardo de cuidar da irmã doente fez com que ele virasse ministro e nunca se casasse. Claire então dá uma receita de chás e frutas como no episódio. Entretanto, algo estranho ocorre no livro. Jovem Ian tinha ido acompanhar Claire na visita, mas não havia entrado na casa. Depois de um tempo, ele vai até a sala onde Claire está para buscá-la e menciona o nome de Jamie, o que faz Margaret gritar. Claire pergunta a Jamie mais tarde se ele conhece uma Margaret Campbell, e ele afirma que pode ser que sim. Ele acredita que ela era a namorada de Ewan Cameron na época de Culloden. O rapaz havia sido fuzilado dois dias após a batalha final. Durante toda a visita de Claire, Margaret havia ficado calada, apenas quando Ian fala o nome de Jamie, que ela solta um grito “Jamie?” e se alvoroça. A possibilidade de ela ser vidente é algo que só é apresentado mais à frente no livro.



“Créme de menthe” foi um episódio de transição. Ele não acrescenta nada de novo à série, e é cheio de embromações (aquela cirurgia sendo a maior delas. Eu gosto de Claire colocando a mão na massa, mas não quando é feito sem um objetivo). Facilmente poderiam tê-lo tornado mais enxuto e acrescentado fatos dos capítulos seguintes. Isso foi algo semelhante ao que fizeram no episódio “The Search” da primeira temporada, em que colocaram Claire buscando por Jamie durante um episódio inteiro, sem necessidade, e depois tiveram um season finale corrido. A sensação que eu tive foi que à roteirista faltava não apenas familiaridade com os livros, mas também com o que havia sido escrito para os episódios anteriores. Mexer com a essência dos personagens tem sido comum nessa série, mas Jamie e Claire pareciam ter incorporado pessoas completamente diferentes em relação ao episódio anterior. Esse foi o episódio com a nota mais baixa dessa temporada no IMDB (8,5). Para mim, o que o fez valer a pena foi a relação de jovem Ian com Fergus, o encontro com Ian pai, e o final em que vemos Jamie tratando Fergus por “meu filho”. Agora os personagens vão voltar para Lallybroch, e o episódio já soltou a pista (para aqueles que não leram os livros) que Jamie tem outra esposa. A sequência de acontecimentos seguintes são a que eu tinha mais curiosidade para ver a interpretação em tela nesta temporada. Minha torcida é para que fique o mais fiel possível ao livro, mas pela promo apresentada aparentemente eles já modificaram algumas das coisas pelas quais eu aguardava. Até a próxima ;)




Por Tuísa Sampaio
26 outubro 2017

Livros x Série de TV- Episódio 06: A. Malcolm



Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 06: A. Malcolm


            O episódio dessa semana tem sido o mais aguardado entre os fãs desde o season finale da segunda temporada. Finalmente, depois de cinco episódios/23 capítulos, o casal de amor (quase) impossível se une novamente. O roteirista de “A. Malcolm”, Matthew B. Roberts, usou como base principal parte do capítulo 24 (A. Malcolm, o mestre-impressor), o qual evidentemente nomeia o episódio, 25 (A casa da alegria) e parte do 26 (Brunch no bordel) de “O Resgate no mar”. Dessa vez, com Claire e Jamie em um mesmo “tempo”, resolvei criar uma estrutura temática para a resenha. Essa ordem está mais próxima a do episódio, portanto, um pouco mais embaralhada em relação a dos livros. 

- A jornada de Jamie: o episódio já começa com cenas que não existem no livro, uma vez que o reencontro entre Jamie e Claire é narrado por Claire no material original, e em “A. Malcolm”, há um pequeno retrocesso temporal em relação ao episódio anterior para contar sob a perspectiva de Jamie como havia sido seu dia antes de Claire aparecer. Ele sai do bordel de Madame Jeanne, onde mantém um quarto, caminha espalhando aquele charme escocês pelas ruas de Edimburgo (tenho que confessar que achei que esse figurino foi um dos que caiu melhor nele, obviamente, o kilt não conta. O traje completo escocês, principalmente o “feile mor” ou “great kilt”, combina mais que perfeitamente com Jamie, é quase uma segunda pele), adentra sua gráfica e o telespectador já tem uma pequena noção que Jamie não está fazendo negócios completamente legais, quando ele entrega panfletos que envolvem algum tipo de traição para serem levados a um colega papista. É logo em seguida que conhecemos quem seria o Geordie, a pessoa com a qual ele confundiu Claire no episódio anterior. O ator que está interpretando Geordie (Lorn MacDonald) encaixou-se muito bem com esse papel, ele ficou hilário e suas caras de nojo e antipatia dão um ar mais cômico ao ambiente da tipografia. Até que um tempo depois que Geordie sai, Claire chega e reencontra Jamie. Essa cena, como mencionei na resenha anterior, ocorre no capítulo 24. Os produtores escolheram repetir parte da cena sob o ponto de vista de Jamie até quando ele desmaia, a partir daí inicia-se o trecho que ainda não havia sido mostrado no episódio anterior. Logo após eles perceberem que são reais mesmo; no livro, eles passam a chorar um nos braços do outro. Jamie, depois, tira os grampos do cabelo de Claire e traça seu rosto com os dedos. Ambos usam um lenço para assoar o nariz e limpam as lágrimas até que Claire o abraça novamente. É quando ela pergunta se ele perdeu algo, e ele responde que ficou com receio de ter se mijado, mas que havia apenas derrubado a cerveja nas calças. Ele se levanta e vai tirar as calças quando se toca da presença de Claire. Ela comenta que ele pode fazer isso na frente dela já que eles são casados, pelo menos, ela acredita que sejam, e ele confirma. Ele olha para as mãos dela e ela diz que nunca tirou a aliança dele. Ele perde permissão para beijá-la, ela concorda e Jamie diz que não faz isso há muito tempo com o qual ela também responde que não. Jamie comenta sobre tê-la visto em sonhos e quando estava com febre, mas que ela nunca o tocava. Claire menciona que agora pode tocá-lo. Jamie então diz a fala que me fez perder algumas batidas do coração “Não tenha medo (...). Agora somos nós dois.” Essa é uma frase que Jamie também havia dito a Claire na noite de núpcias deles. O episódio do casamento na primeira temporada é um dos que eu mais gosto, mas eu tinha um pequeno ressentimento da produção ter excluído essa frase, porque eu acredito que ela passou naquele momento um enorme conforto e segurança para Claire, que estava sozinha e perdida em um tempo e país que não eram seus. Foi uma promessa de proteção. Tanto é que Claire narra no capítulo 15 do primeiro livro, logo após Jamie dizer-lhe isso, que se sentiu “aquecida, acalmada e segura pela primeira vez em muitos dias.” Quando eles se reencontram Jamie faz a mesma afirmação e não apenas o coração descompassou como meus olhinhos brilharam quando eu vi que a produção, dessa vez, inseriu essa declaração dele. Geordie entra e vê a cena de Jamie e Claire se beijando, ele se demite assustado com a depravação do patrão. O diálogo da demissão na série e livros são os mesmos. Jamie, então chama Claire para subir para o outro andar da tipografia com ele, se ela não considerar o ato imoral, e ela o acompanha, mais uma vez de forma semelhante a que ocorre no episódio. Tirando a parte que seguiu Jamie antes de ele se encontrar com Claire, as conversas até aqui entre os personagens no reencontro foram, no grosso, extraídas do livro, o que foi mais modificado, acredito eu, foi o posicionamento corporal dos atores e o modo como as emoções foram expressas em cena. O fato de eles não terem chorado imediatamente quando se encontraram, acho que tirou uma parte da comoção do momento. Isso de certa forma foi um pouco amenizado com a lágrima que Claire deixa escorrer durante o primeiro beijo com Jamie. A falta do choro não foi culpa do roteiro, porque há nele a descrição das lágrimas de Claire tanto quando eles percebem que a presença um do outro é real, quanto no beijo, em que os dois deveriam chorar, mas só Claire o faz. Já vi vários comentários de fãs que não gostaram da intepretação do reencontro e acharam os personagens frios demais para a situação. Eu concordo que algumas cenas ficaram mais “secas” do que deveriam se comparadas com as descrições de DG, por assim dizer, (sendo essa primeira conversa um exemplo delas) mas outras tiveram uma quantidade de emoção que eu esperava. Depois de vinte anos separados, Jamie e Claire eram dois estranhos. A faísca da paixão deles está lá, mas toda chama para se espalhar precisa de combustível e oxigênio, ou seja, ela precisa ser alimentada para crescer. A fagulha existe, e ela foi crescendo com os toques e conversas, mas eles ainda não chegaram naquela fase de amor incendiário que tinham quando se separaram. Eles não têm mais intimidade para isso. Eles não se conhecem mais. E, na verdade, nem o leitor, nem o telespectador conhecem mais Jamie, pois acredito que de forma proposital a autora deixou os anos de Jamie pós- Helwater até o reencontro sem narração. Assim, o leitor teria a mesma sensação de Claire de enfrentar o desconhecido, o mesmo estranhamento. No livro, existiam momentos mais explosivos, porém também havia aqueles de “reconhecimento de terreno” por assim dizer. Acredito que algumas cenas que carregam uma explosão emocional no livro não foram bem interpretadas neste episódio, mas as cenas mais calmas, as que portavam a sensação de estranhamento e distância com uma pitada de deslumbramento foram bem feitas. Foi isso que faltou em “A. Malcolm”: uma melhor dosagem da emoção. Infelizmente, houve interpretações que realmente não funcionaram para mim, e a principal foi a da conversa sobre os filhos, a qual foi a minha decepção neste episódio.





- Sobre os filhos: ainda no capítulo 24, Jamie pergunta sobre o bebê que Claire carregava quando eles se despediram. Ela então fala a ele sobre Brianna. O diálogo é muito similar ao do livro. Ela mostra as fotos e conta emocionada alguns detalhes sobre crescimento da filha. As diferenças foram: Faith, William e a falta de emoção de Jamie. Durante esta conversa, no material original, Faith, a filha que eles perderam na França não é mencionada. Essa foi uma modificação da cena que eu gostei. Jamie e Claire falam de Faith ao longo dos livros, mas isso ocorre poucas vezes (só nesta temporada, na série, eles lembraram mais dela do que nos oito livros publicados). Acho que inseri-la na conversa sobre Brianna foi uma forma respeitosa de lembrar  uma das maiores perdas do casal e também uma maneira de representar a união da família. Já em relação a Jamie falar sobre William neste momento não encaixou tão bem devido às consequências que essa mudança traz e pelo modo como a cena foi interpretada.  Em o Resgate no Mar, Jamie não conta a Claire sobre William nesta conversa. Na verdade, quem menciona William a Claire pela primeira vez é Lorde John, quando ele e Claire se encontram na Jamaica (capítulo 59- quando há grandes revelações) e depois de John já ter contado, Jamie confirma a história. Quando Lorde John conta a Claire sobre Willie é a ele que Claire pergunta se Jamie havia se apaixonado pela mulher, e John diz que acredita que não. O retrato que Jamie carrega de Willie foi entregue por Lorde John a ele, na Jamaica. Eu não gostei dessa mudança por vários motivos dentre eles está a possível modificação da dinâmica inicial do relacionamento entre John e Claire. Quando os dois se conhecem, e Claire percebe que Lorde John não apenas é apaixonado por Jamie como é pai adotivo de seu filho; e, no mesmo contexto, John descobre que Claire era a esposa a quem Jamie nunca deixou de amar, surge um sentimento de rivalidade, que é atrativo e intrigante de se ler. Ao longo dos livros, John e Claire acabam tornando-se amigos devido ao amor que tem por Jamie e passam a ser respeitar, mas essa relação é algo que é gradativamente construída, e o sentimento de ciúmes um do outro que surge quando eles se conhecem é meio que o alicerce para o que estar por vir. Eu não sei como a temporada vai se desenvolver e se os produtores vão acrescentar outras coisas para criar essa dinâmica entre eles, mas espero que não modifiquem o desenvolvimento do relacionamento entre esses dois personagens. Além disso, se Sam (Jamie) tivesse interpretado a cena com a emoção que Jamie expressa no livro ao olhar para as fotos de Brianna, o incômodo da inserção de Willie teria sido menor, uma vez que a comoção do personagem na cena foi mais “contida” que no livro. No capítulo, quando Jamie vê as fotos da filha, suas mãos tremem e ele precisa da ajuda de Claire para segurar os retratos, enquanto derrama lágrimas pela criança por quem ele fez um dos maiores sacrifícios da sua vida.

Suas mãos tremiam tanto que ele não conseguia mais segurar as fotos; tive que mostrar-lhes as últimas (...). As fotos mostravam seu rosto em todos os estados de espírito que eu pude captar, sempre aquele rosto, nariz reto e comprido, boca larga, com aquelas maçãs do rosto viking, altas, largas e lisas, e os olhos rasgados – uma versão mais delicada, de ossos mais delgados, de seu pai, do homem que se sentava na cama ao meu lado, a boca abrindo-se e fechando-se sem emitir nenhum som, e as lágrimas rolando silenciosamente pela própria face.
 Espalmou a mão sobre as fotografias, os dedos trêmulos apenas roçando as superfícies lustrosas, depois se virou e inclinou-se em minha direção, lentamente, com a graça improvável de uma árvore alta caindo. Enterrou o rosto em meu ombro e desmoronou completamente.

Outra divergência é que logo no início da cena das fotos em O Resgate no mar, Claire dá a Jamie o beijo que Brianna mandou para ele, isso foi cortado da série. A falta de emoção na adaptação não foi culpa do roteiro, as lágrimas foram colocadas no contexto da interpretação, mas o ator Sam falou em entrevista para EW que achou que ficaria muito “melodramático” construir a cena dessa forma e a mudou. O argumento dele era que um pai que não conhecia a filha não iria chorar pelas fotos. Outro pai talvez não, mas Jamie Fraser sim. Um homem que tem a história de vida marcada pelo sofrimento, pela ausência, pela solidão, pelo exílio... acima de tudo, um homem que foi pai mas que nunca pode criar nenhum de seus filhos biológicos pelo próprio bem deles, que passou duas décadas sofrendo pela perda da família que ele mandou para longe para proteger, não iria apenas chorar, iria desmoronar e tremer como no livro. Não era só a filha que ele acreditava que nunca iria conhecer naquelas fotos, é a simbologia de que toda dor e sacrifício valeram a pena: o nariz quebrado, seis anos morando numa caverna, três anos em uma prisão, mais alguns anos no exílio na Inglaterra trabalhando como servo, vinte anos ardendo por uma mulher que ele nunca conseguiu esquecer e rezando pela segurança dela e do filho que ele mandou para ser criado por outro homem. Toda essa vida de penitência foi para que Claire e Brianna vivessem seguras, e o ator vem e diz que chorar pelas fotos seria “melodramático”. Até parece que ele esqueceu tudo o que ele havia interpretado até aquele momento e pensou só naquela cena fora de contexto. Segue a descrição do roteiro:

Claire mostra a ele as fotos novamente, e Jamie rapidamente é dominado pela emoção. Enquanto ele olha as fotografias de Brianna – como qualquer novo pai faria – Jamie desmorona completamente, caindo nos braços de Claire, lágrimas escorrendo pelas suas bochechas. Após um pedaço ele se recupera, levanta sua cabeça – (tradução minha)”

Depois de um episodio anterior majoritariamente dedicado ao laço entre mãe e filha, fiquei surpresa de que a paternidade de Jamie fosse tratada de uma forma tão banal. Até que eu vi que o problema não foi o roteiro, e sim a liberdade artística do ator. A combinação dessa descrição do roteiro com o episódio anterior (neste quesito) faz muito mais sentido do que a forma como a cena foi conduzida por Sam.

O capítulo é concluído com a lembrança de Jamie que tinha que se encontrar com o Sr. Willoughby e convidando Claire para ir com ele. No episódio, ele só diz que precisa ir a taverna, quem menciona o Sr. Willoughby é Fergus quando eles se encontram no caminho para The World’s End . No livro, Claire só encontra Fergus no dia seguinte no bordel (capítulo 26), mas a fala dele é em parte semelhante a retratada na TV. Imagino que eles modificaram a ordem das cenas para que todos os filhos ficassem em um mesmo seguimento, já que Fergus é filho adotivo de Jamie. Uma divergência em relação à aparência de Fergus é que ele usava um gancho no lugar da mão perdida, e, não, uma prótese de madeira. Eu não entendi essa mudança, uma vez que o gancho seria mais útil para “pegar” coisas, não vejo vantagem na prótese a não ser decoração. Mas ainda temos uma temporada inteira pela frente onde pode surgir alguma explicação para isso. Ademais, quando Claire encontra Fergus na série, ela diz que estava vivendo na América; no livro, ela informa a todos (exceto Jamie) que tinha ido viver na França. Eu tinha ficado com o pé atrás em relação ao ator escolhido para interpretar Fergus mais velho (César Domboy) e confesso que a primeira vez que eu assisti ao episódio ele ainda não tinha se encaixado completamente no que eu esperava do personagem; mas, da segunda vez em diante, eu comecei a ter uma mente mais aberta e acredito que ele tenha potencial.

- O quarto no bordel: depois da taverna, onde Claire conhece o Sr. Willoughby (Gary Young), o chinês sócio de Jamie, Claire é conduzida pelo marido ao bordel de Madame Jeanne. Antes de adentrar no cômodo favorito do episódio, vou abrir um parêntese para comentar sobre como o Sr. Willoughby foi retratado na série. No livro, o Sr. Willoughby é descrito como meio que um pervertido sexual (com uma fixação por pés). Inicialmente, aparece no episódio, o fato de ele ter lambido o cotovelo de uma prostituta sem pagar o que devia, isso foi o único ponto sexual que foi apresentado. No livro, surge uma discussão em que uma moça o acusa de fazer algo ofensivo a ela, não menciona exatamente o quê; e Jamie, Claire e o pequeno chinês, o qual estava muito bêbado por sinal, são obrigados a fugir do recinto. No episódio, Jamie paga a dívida do seu sócio e deixa Claire aos cuidados dele enquanto sai para resolver questões relacionadas ao seu negócio de contrabando. O que se segue é que Claire e o Sr. Willoughby tem uma conversa interessante sobre a vida dele e como ele e Jamie se conheceram, informações no geral, que foram extraídas de conversas de Jamie e Claire do livro, já que o Willoughby quase não falava inglês no material original. O destaque é que pelo menos, por enquanto, ele não foi mostrado como um personagem exageradamente sexualizado, nem a relação com Jamie parece ser cheia de ofensas e gritos como é no livro. Uma das produtoras-executivas da série, Maril Davis, deu uma entrevista para PopSugar onde comentava sobre o Willoughby. No teor do texto, o redator menciona que para muitos leitores, o personagem era um “conjunto de estereótipos chineses” e, Maril afirma que gostava muito dele, mas que “havia coisas ofensivas no livro” em relação a ele.  Assim, os produtores modificaram o personagem um pouco, tirando o seu vício sexual para torná-lo mais politicamente correto, em vez de cortá-lo completamente, pois seria uma grande perda. Não vejo isso como algo necessariamente ruim, nem bom; tudo vai depender de como o personagem será trabalhado ao longo do resto da temporada. Compreendo que ao passar o Sr. Willoughby das páginas do livro para o audiovisual da série, os produtores entenderam que retratar um asiático estereotipado pudesse ser ofensivo para determinado público, mesmo que ele fosse descrito assim no material original. A adaptação televisiva tem um maior alcance que os livros, e ver algo é sempre mais chocante que ler. Sem contar que “O Resgate no Mar” foi escrito nos anos 90, enquanto a série está sendo transmitida quase vinte anos depois. A visão das pessoas em relação a determinados temas mudou. O Sr. Willoughby dos livros é um personagem muito interessante, ele acaba dando a Claire os conhecimentos sobre acupuntura, por exemplo, que ajudam a diminuir o enjoo de Jamie na travessia do mar. Ele é alguém que tem sua sabedoria, mas também é portador de muitos defeitos. Eu acredito que na nossa sociedade contemporânea, determinados estereótipos de personagem simplesmente não funcionem na mídia televisiva e poderiam trazer publicidade negativa. Foi uma escolha segura e se bem trabalhada pode ter sido realmente muito boa.  O casting do ator foi maravilhoso, e o neozelandês Gary Young caiu como uma luva no personagem.

O núcleo do episódio acontece no quarto do bordel, quando Claire e Jamie tem seu reencontro sexual e conversam sobre suas vidas, tentando recuperar a intimidade perdida. Muito deste seguimento de cenas é espelhado no episódio do casamento, mas isso também ocorre no livro. Os diálogos trocados dentro do quarto são bem semelhantes aos do capitulo 25 (a casa da alegria), com alguns acréscimos e trocas de ordem. Até mesmo as narrações de Claire nesse trecho foram em maioria retiradas diretamente deste capítulo. A cicatriz na perna de Jamie é vista por Claire, mas ela é descrita de uma forma muito mais grotesca de como foi desenhada na série de TV.  Ainda mais porque ela não era resultado apenas da baioneta, mas também de Jenny ter cortado a perna dele até o osso para lavar com água fervente o ferimento para impedir a gangrena. Eles conversam sobre a cicatriz logo depois de Jamie dedilhar as estrias de Claire antes de fazerem sexo (na adaptação, as estrias não são mencionadas, apenas a cicatriz de Jamie, e isso é feito após o sexo)

“A cicatriz estendia-se do meio da coxa até perto da virilha, vinte centímetros de tecido esbranquiçado e esgarçado. Não pude conter uma exclamação sufocada diante da aparência da cicatriz e cai de joelhos ao lado dele.
Encostei a face sobre a coxa, agarrando sua perna com força, como se fosse cuidar dele agora – como eu não pudera cuidar na ocasião. Eu podia sentir a pulsação profunda e lenta do sangue através da artéria femoral sob meus dedos – a menos de dois centímetros do horrendo sulco daquela cicatriz contorcida.
- Não a assusta nem revolta seu estômago, Sassenach? – ele perguntou, colocando a mão em meus cabelos. Ergui a cabeça e fitei-o intensamente.- Claro que não!- Sim, bem. – Estendeu o braço e tocou minha barriga, os olhos presos aos meus.- E se você carrega as cicatrizes das suas próprias batalhas, Sassenach – disse ternamente - , elas também não me incomodam.”

O pedido que Claire no início da cena de sexo deles para que ele não fosse gentil, no livro é apenas um pensamento dela, pois devido ao medo e nervosismo que ainda sentiam um do outro, ela não conseguia expressar isso em palavras. A coreografia desse primeiro ato sexual deles também foi semelhante a do livro, ele bate a cabeça no nariz dela, ele pergunta se ela se machucou, e ela afirma que acha que quebrou o nariz, e Jamie faz a descrição de como seria a quebra dessa parte do corpo. Ele pede a boca dela antes de começarem efetivamente a fazer sexo, logo após a batida do nariz; no episódio, isso ocorre durante o ato sexual.




O casal conversa após o sexo, o conteúdo é muito similar ao do livro. Claire descobre que Jamie é um contrabandista além de tipógrafo, ela também brinca de adivinhar sua profissão escondida por acreditar que devido à forma física de Jamie, ele não fosse apenas um impressor.
A cena em que ela pergunta se ele se sentiu daquela forma na primeira vez que eles se deitaram (logo após de Jamie descrever as belezas do corpo dela, e como ele não conseguia parar de tocá-la) e ele diz “Sempre foi para sempre para mim, Sassenach!” pareceu estranha para mim. São frases do livro, mas elas ficaram soltas e acredito que para alguém que não os tenha lido, uma sequência de sentenças não completou a outra, como se tivesse algo que foi cortado no meio.

“- Eu estava com mais medo agora do que na noite do nosso casamento – murmurei, os olhos fixos na pulsação lenta e forte na base de sua garganta.- Estava?- Seu braço mudou de posição e apertou-se com mais força ao meu redor. – Eu a assusto, Sassenach?- Não. – (...)- É que... na primeira vez... eu não achava que seria para sempre. Na época eu pretendia ir embora.(...)- E você realmente foi embora e voltou outra vez- ele disse. – Você está aqui, nada mais importa além disso.
(...)- O que você pensou na primeira vez que dormimos juntos? – perguntei. Os olhos azul-escuros abriram-se devagar e pousaram em mim.
-Comigo, desde o começo foi para sempre, Sassenach – ele disse simplesmente.”

Acho que o fato de terem tirado a fala de Claire anterior a essa resposta dele ficou um pouco fora de contexto na cena (apesar de eu estar muito feliz de eles terem incluído essa citação linda).
Durante a noite, eles fazem amor novamente só que de uma forma mais terna e carinhosa, como aparece na série e depois ela pergunta novamente sobre a cicatriz e eles conversam sobre Brianna.
Eu senti falta da mudança no modo como se pronuncia “Brianna”. No livro, comenta-se que os escoceses diziam “Brianna” com uma sonorização diferente. Sempre imaginei como seria, pois a mera descrição não conseguiu cumprir esse papel. Na série, eu não percebi diferença na pronúncia.
No capítulo 26, Claire acorda no outro dia, vê Jamie no urinol (na série, ele está observando ela dormir). Eles conversam, analisando as diferenças um do outro e falam sobre a pergunta que Jamie havia feito no passado sobre o que existia entre eles. A citação é colocada quase literal como no livro, entretanto, no capítulo, logo em seguida eles falam também sobre Brianna e a cicatriz novamente. Ele conta a ela como se entregou aos oficiais ingleses quando morava na caverna para que seus arrendatários recebessem o valor da recompensa, nesta conversa mais uma vez se fala sobre Brianna. Senti falta disso no episódio também. Eles falaram sobre a filha basicamente em um momento. No livro, a conversa no quarto constantemente volta a ela.

Logo em seguida, no livro, Ian (pai) aparece no quarto à procura de Ian (filho), o que neste episódio não aconteceu ainda. Ian (pai) antes de ver o rosto de Claire achava que ela fosse uma prostituta com quem Jamie estava dividindo a cama. Jamie afirma que não viu o jovem Ian (o que saberemos mais à frente ser uma mentira), mas sai para procurá-lo, além de precisar resolver seus negócios. Na série, a saída de Jamie é apenas para negócios, já que os Ians não apareceram ainda. Como no livro, Claire havia rasgado seu vestido na confusão da taverna, ela precisava esperar que Madame Jeanne lhe fornecesse um novo antes que pudesse sair do bordel, e não poderiam acompanhar Jamie.

- O encontro com jovem Ian/ Claire, a prostituta: um tempo depois da saída de Jamie, jovem Ian aparece no quarto a procura do tio, conhecendo, assim, sua tia Claire. Entretanto, à primeira vista, ele acredita que Claire seja uma prostituta que esteja acompanhando seu tio. No capítulo, Claire conta ao jovem Ian que Jamie saiu buscando ele juntamente com seu pai, o que assusta o menino e o faz achar que o pai já usufruiu dos serviços de Claire. Ela pergunta a idade dele, que afirma que tem quase quinze. Mas Claire ainda não conta quem ela é. O fato do jovem Ian não descobrir que Claire é sua tia ainda torna os seus encontros mais engraçados; infelizmente, na série de TV, Claire logo se apresenta a ele. No capítulo, quando jovem Ian sai do quarto, entra o Sr. Willoughby (isso foi cortado da série). Claire vai para o salão em busca de comida onde encontra com as meninas de Madame Jeanne que acham que ela seja uma recém–contratada da cafetina. A conversa que se segue é bem semelhante a mostrada na adaptação, a diferença é quando Madame Jeanne a encontra, no livro, a leva pra arrumar um vestido, mas também fica chateada por Claire está conversando com suas prostitutas, tendo medo que Jamie ache isso ofensivo. Na série, Madame Jeanne despacha Claire para o quarto com a promessa de mandar comida para ela. No capítulo, após a prova da roupa, Claire volta ao salão, onde mais uma vez, é confundida como sendo uma prostituta por um rapaz, que parece ser um guarda alfandegário, em busca de arrancar mais dinheiro de Jamie. Na série, ao retornar ao quarto, Claire dá de cara com um homem vasculhando as coisas de seu marido, e o episódio acaba nesse suspense da nova enrascada que Claire se meteu.

Esse foi, acredito eu, o primeiro episódio das três temporadas que não achei a atuação de Sam, primorosa. Não digo que estava ruim, longe de mim, mas comparado a tudo o que ele vem mostrando ao longo das três temporadas de Outlander, eu esperava uma tsunami, e ele apresentou uma marola. Caitriona, no entanto, atingiu próximo ao alvo, mas o fato em si de Claire saber de antemão que iria se encontrar com Jamie, ou seja, já estar psicologicamente preparada para essa reunião retirava dela um peso emocional maior. Também achei que a produção poderia ter trabalhado melhor a trilha sonora dessa vez, em especial, nas cenas do quarto. Mesmo que as músicas fossem semelhantes as do episódio do casamento, o reencontro tem uma carga emocional que não existia nas bodas, consequentemente, a trilha sonora deveria refletir isso. Não digo que deveriam introduzir necessariamente algo estranho a série, mas talvez utilizar parte da “dance of druids” ou uma versão alternativa dela, que tenha batidas fortes, ou uma remixagem das músicas próprias da série ou até mesmo das músicas que eles usaram, mas que acentuasse um choque auditivo que se encaixasse com o visual e com o sentimento do momento. No mínimo, tornar a música utilizada mais alta e mais sincronizada com os movimentos dos atores. Por exemplo, a cena em que eles tiram a roupa um do outro estava tão lenta que foi enfadonha, se eles tivessem conseguido colocar por cima o ritmo certo daquela música ou de alguma outra com o estilo de Outlander... nenhuma cena fica monótona, não importa quão lenta seja, com a trilha sonora correta para ela.  O roteiro estava, no geral, ótimo, o que faltou foi o arrepio. Se eles tivessem conseguido brincar melhor com o jogo de imagens e música nesse momento, o encaixe seria perfeito.




Jamie e Claire são novamente desconhecidos. Enfrentaram fome, guerra, morte e o tempo, mas retornaram aos braços um do outro. Black Jack se foi, mas ele não era o único vilão que perturbava a felicidade do casal; o tempo sempre foi um grande protagonista nesta história, um gigante que os amedrontava. Passado, presente e futuro não existem mais para eles, nunca existiram, nunca existirão. Só há o amor. E o que quer que a vida lhes traga, "ele se basta".

“O tempo não importa, Sassenach.”


Por Tuísa Sampaio 
18 outubro 2017

A teoria Gabaldon de viagem no tempo


A Teoria Gabaldon de viagem no tempo


O artigo abaixo foi escrito por Diana Gabaldon e pode ser lido na íntegra em inglês em The Outlandish Companion v.1. A tradução foi feita pela equipe Outlander Brasil.


Contém spoilers até “Os Tambores do Outono”


É tudo culpa de Claire Beauchamp. Se ela não tivesse se recusado a calar-se e falasse como uma mulher do século XVIII, esses teriam sido romances históricos perfeitamente íntegros. Como era, porém, muito preguiçosa para lutar contra suas inclinações naturais durante um livro todo, encontrei-me obrigada primeiramente a permitir que ela fosse moderna (não que eu tivesse muita escolha; ela é notavelmente teimosa), em segundo lugar, a descobrir como ela chegou lá, e em terceiro lugar a concluir o que havia ocorrido.


O círculo de pedras utilmente apresentou-se no curso da minha pesquisa sobre a geografia e cenários escoceses, então eu tinha um mecanismo para viagem no tempo. A verdadeira mecânica e implicações do processo, entretanto, necessitaram de um pouco de tempo para serem planejadas- quem quer que tenha erguido os círculos de pedras não pensou em cravar instruções neles.



Desde que Claire tinha noção nenhuma de como a viagem no tempo funcionava- e foi infelizmente privada da companhia de Geillis Duncan em Cranesmuir antes de ser capaz de comparar anotações- a explicação do processo tem sido vagarosa e hesitante, desenvolvendo-se ao longo dos vários livros, à medida que mais pedaços de informações vêm à luz, e aqueles capazes de viajar começam a discutir o assunto.


Duas coisas são óbvias:

1) os círculos de pedras marcam locais de passagem, e 2) a habilidade de viajar no tempo é evidentemente genética.


Agora, nós não sabemos ainda se os círculos de pedras são apenas indicadores, com a intenção de serem avisos antigos de um lugar de desaparecimentos misteriosos, ou se as próprias pedras têm algum papel ativo na “abertura” de uma porta através das camadas do tempo. Eu estou inclinada a acreditar na primeira ideia, mas isso se mantém uma pergunta em aberto.


Até agora, a habilidade sendo genética, é aparente que nem todos podem atravessar as pedras. Daqueles que podem, nós sabemos que dois (Brianna e Roger) são descendentes diretos de outras duas (Claire e Geillis Duncan). Isso sugere que o gene para viagem no tempo é dominante, isto é, apenas um pai precisa ter o gene, e apenas uma cópia do gene precisa estar presente em uma pessoa para que o traço possa ser expresso. É como a habilidade de enrolar a língua formando um cilindro. Se você não tem o gene para esse traço, você simplesmente não consegue fazer de forma alguma.



Genes que controlam traços desse tipo normalmente ocorrem em alelos, ou pares, um alelo sendo derivado de cada pai. Cada pai, porém, terá dois alelos ­-um de cada pai daqueles pais. Isso significa que, por exemplo, se uma pessoa (Brianna Fraser, por exemplo) é descendente de uma viajante e de um não viajante, então ela terá apenas um gene de viagem no tempo- mas esse gene é suficiente para permitir que o traço seja expresso; isso é, permite a ela atravessar os portões do tempo. Entretanto, também significa que ela possui um gene de viajante e um gene de não viajante. Ela passará apenas um dos alelos para a sua prole, e qual será transmitido para cada criança específica é puramente uma questão de seleção aleatória.



Se o outro pai da criança (Roger MacKenzie, por exemplo) é também um viajante do tempo heterozigoto para o gene da viagem do tempo (isso é, tem um gene de viajante e um gene de não viajante) (...), se Brianna e Roger tiverem quatro filhos, três deles serão viajantes do tempo e um deles, não. Se eles tiverem um filho (Jeremiah, por exemplo), as chances são de três em quatro que ele será capaz de viajar- mas há uma chance em quatro que ele não pos


Entretanto, se o pai de Jeremiah não for um viajante do tempo (Stephen Bonnet, por exemplo), então a seleção (...) demonstra que Jeremiah talvez possa viajar, mas as chances são apenas de uma em dois ou meio a meio.


Por outro lado, nós só sabemos o genótipo de Brianna com certeza; Roger poderia ter recebido um gene de viagem de ambos os pais. Se ele recebeu, então seu genótipo é TT, e todos os seus filhos com Brianna serão capazes de viajar.


Por um terceiro lado, nós não sabemos com certeza se Stephen Bonnet não é um viajante. Afinal, uma pessoa não descobriria isso até ele ou ela andar através de um círculo de menires- e apenas na época certa do ano. Nós podemos assumir a partir da pesquisa de Geillis Duncan que isso não ocorre frequentemente- mas acontece.


Geillis Duncan parece ter feito uma extensa pesquisa, e provavelmente sabia mais que qualquer pessoa sobre os caminhos e meios da viagem no tempo. Infelizmente, ela está morta, então a não ser que ela tenha escrito mais dos seus achados em algum outro lugar pelo caminho, nós teremos que tentar descobrir as coisas por dedução e experimento.


Nós devemos também ter em mente que Geillis Duncan possa não estar sempre certa em suas deduções; por exemplo, ela originalmente estava convencida que um sacrifício de sangue era necessário para abrir a passagem no tempo. Nós sabemos que isso não está correto, já que Claire fez a travessia sem esse tipo de assistência.


Geillis também pensou-presumidamente baseando-se em escritos antigos que ela descobriu mais tarde- que pedras preciosas oferecem um meio tanto de controlar o processo de viagem no tempo (abrindo passagens em momentos que não sejam as festas de sol e do fogo, por exemplo), como protegendo o viajante. Ela parece ter estado próxima de acertar nesta hipótese, uma vez que Roger foi de fato protegido em sua jornada- primeiro pelas granadas no broche de sua mãe, e depois, pelo diamante dado a ele por Fiona Graham.


O grimoire que Fiona achou e deu a Roger continha hipóteses que as passagens do tempo eram localizadas em locais onde as “linhas de ley” (linhas de força magnética que passam pela crosta da Terra) aproximavam-se o suficiente torcendo-se em vórtices, formando passagens que uniam as camadas do tempo. Evidentemente, as passagens do tempo podem ser de fato sujeitas a alguma influência da força magnética, uma vez que elas ficam mais abertas nas festas do sol e do fogo- os períodos do ano em que a atração gravitacional do sol é mais pronunciada em respeito às linhas da Terra de força magnética.


Ainda, essas são apenas hipóteses; o verdadeiro efeito das pedras preciosas resta a ser visto.


Isto é o que sabemos no presente em relação ao mecanismo de viagem no tempo. Além do simples fato do fenômeno, entretanto, nós podemos observar e deduzir várias coisas em relação aos seus efeitos. Em outras palavras, como, quando e por que uma pessoa viaja no tempo é uma coisa; mas o que acontece com o viajante – e com o tempo – no outro lado?


Paradoxo, predestinação e livre-arbítrio



Há sempre duas escolhas encarando um escritor que lida com viagem no tempo, quer elas sejam faladas ou não: uma, o paradoxo da viagem no tempo (isso é, o passado pode ser modificado, e se puder, como o futuro é afetado), e duas, a escolha entre predestinação e livre-arbítrio.


Essas perguntas estão certamente ligadas através das noções subjacentes de linearidade e causalidade – naturalmente, se uma pessoa recusa-se a aceitar a hipótese que o tempo é linear, mas essa pessoa aceita a causalidade (e é, eu acho, impossível escrever uma história na qual a noção de causalidade não existe. “Ficção experimental,” sim – história, não), mas quase certamente torna-se um foco importante da história.


Se uma pessoa aceita a hipótese de que a História (isso é, os eventos do passado) pode ser mudada, então essa pessoa aceita a filosofia do livre-arbítrio dos personagens. Se a pessoa rejeita a hipótese que a História possa ser mudada, então esta pessoa é forçada a aceitar a noção de predestinação.


Se o passado não pode ser mudado pelas ações dos viajantes do tempo, então isso implica a necessidade da predestinação (ou pós-destinação, como parece ser no caso) – isto é, a ideia básica que eventos estão “destinados” a ocorrer e, portanto, fora da capacidade do que um indivíduo possa afetar.


Aceitar essa noção implica em uma larga ordem do universo, muito maior em escopo que a ação humana. Por um ponto de vista filosófico ou religioso, isso é atraente para muitas pessoas; nós gostaríamos de pensar que alguém está no comando e sabe o que está fazendo.


Por outro lado, a noção de predestinação não faz muito nem para o nosso senso de autoestima, nem para o nosso senso de possibilidade – e ambas são importantes para a noção da história (nós nos identificamos com os personagens e perguntamos “E então acontece o quê?”). Isso leva a um sentimento de “Por que se importar?” que é contraproducente tanto para o empenho, quanto para a assimilação da história. Eu vou lhe contar; predestinação pode funcionar na ficção, mas é bem menos atraente do que a noção de livre-arbítrio.


(...)


É mais fácil para um leitor aceitar uma história de paradoxo – uma envolvendo circularidade e predestinação – se for contada apenas em termos pessoais, separada de qualquer evento histórico maior. Contar uma história de viagem no tempo na qual eventos maiores reconhecíveis são modificados irá atrapalhar a suspensão de descrença do leitor configurando divergências entre o que o leitor sabe que aconteceu e o mundo criado que ele ou ela está tentando entrar.


(...)


Para mim, histórias que envolvem livre-arbítrio dos protagonistas são mais interessantes de escrever, e, eu acho, mais prováveis de serem atraentes para os leitores. Neste período e cultura específicos, a ideia de que nós temos poder individual sobre nossos próprios destinos é não apenas amplamente aceita, mas altamente desejável (a ficção de outros períodos e culturas naturalmente pode- e realmente- reflete noções diferentes de poder individual).


(...)


Eu decidi usar as duas formas – permitir o livre-arbítrio, mas sem mudar os eventos históricos principais (ah, o que é ser um Deus escritor!). A teoria Gabaldon de viagem no tempo, portanto, depende deste postulado central:


Um viajante do tempo tem livre-arbítrio e poder individual de ação; entretanto, ele ou ela não tem mais poder de ação do que permitido pelas circunstâncias pessoais do viajante.


Um corolário necessário a esse postulado não lida com a viagem do tempo de forma alguma, mas apenas com a natureza observada de eventos históricos:


Os eventos históricos mais notáveis (aqueles que afetam grande número de pessoas e, portanto, mais prováveis de serem registrados) são resultado da ação coletiva de muitas pessoas.


Existem exceções a esse corolário, claro: assassinatos políticos, os quais afetam um grande número de pessoas, mas que podem ser realizados por uma única pessoa; descoberta científica, exploração geográfica, invenção comercial, etc... Ainda assim, os efeitos de eventos como esses dependem em grande parte das circunstâncias nas quais acontecem; muitas descobertas científicas têm sido feitas – e perdidas – um número de vezes, antes de alcançar aceitação geral ou relevância social.



Portanto, a noção de que conhecimento é poder não é absolutamente verdadeira – conhecimento é poder apenas na medida em que as circunstâncias permitam que este conhecimento possa ser usado.


Assim sendo, se um viajante chegar a uma sociedade onde ele ou ela é meramente um cidadão normal, então o viajante tem relativamente pouco poder de afetar eventos sociais. Madame X chega a Paris na véspera da Revolução Francesa, por exemplo. Se Madame X é de fato meramente uma viajante do tempo, e não está tomando o lugar de um cidadão existente, então ela não é uma aristocrata, não tem conexões com os poderes da revolução, e portanto, não está em posição de afetar o curso geral da revolução.

(...)


Madame X, entretanto, tem o poder que qualquer indivíduo daquela época tem: ela pode avisar um amigo que seria sensato deixar Paris, por exemplo. Se ele a escutar, ela pode realmente salvar sua vida – e, portanto, mudar a História (mas não a História registrada).

(...)

Não simultaneidade


Dois indivíduos não podem ocupar o mesmo local no espaço; duas espécies não podem ocupar o mesmo espaço ecológico ou nicho. Por conseguinte, parece ser intuitivamente óbvio que duas entidades não podem ocupar a mesma localização corporal. O truque aqui, claro, é que espaço físico e nichos ecológicos existem do lado de fora do indivíduo, enquanto tempo existe dentro do indivíduo. Qualquer momento no tempo – ou qualquer segmento mais longo (um tempo de vida, por exemplo) – pertencem apenas ao indivíduo.


Por esse motivo, a implicação da não simultaneidade é evidente; dois indivíduos podem existir em espaços diferentes ao mesmo tempo, mas um indivíduo não pode existir simultaneamente em mais de uma locação temporal.



Isso leva a uma das perguntas básicas interessantes sobre viagem no tempo – e se o indivíduo tentar existir em mais de um tempo? Isso é possível?


Em termos da nossa moldura física de referência, não, não é – mas a coisa legal sobre ficção é que não somos limitados à moldura física de referência. Se o indivíduo assume, não obstante, que é possível uma pessoa existir em mais de uma localização temporal simultaneamente, nós recebemos complexidades e possibilidades divertidas (...).


Essas histórias dependem da presunção de dualidade (ou outras pluralidades) de tempo e espaço – que um indivíduo é de fato um indivíduo diferente de um momento no tempo para outro (o que é certamente verdade em termos de processos físicos e talvez mentais). Portanto, sob esta hipótese, uma pessoa não é realmente uma entidade descontínua, mas uma cadeia contígua de identidades, todas com um grande grau de similaridade, mas todas levemente diferentes, e (essa é a presunção básica) que qualquer dessas identidades possa manter-se fisicamente, se removidas da cadeira temporal que as une.


Naturalmente, uma das vantagens da ficção é que isso é um simples caso de remover a ligação temporal; o autor meramente elabora uma causalidade plausível e a declara verdadeira. O único inconveniente a essa hipótese ficcional em particular é se alguém a usá-la, ela é tão inoportuna que exige que essa invenção se torne a premissa central e o conflito da história. Legal, mas limitante.


Se uma pessoa assume, em vez disso – baseando-se no argumento do fenômeno natural/ não simultaneidade – que não é possível existirem pluralidades, então uma nova configuração de situações intrigantes e evolução lógica ocorrem. O que acontece se uma pessoa tentar existir simultaneamente em mais de uma localização temporal? Como uma pessoa pode evitar essa possibilidade?


A teoria Gabaldon postula que não é possível para identidades do mesmo personagem existirem simultaneamente. Assim sendo, um personagem pode existir apenas uma vez, qualquer que seja o período do tempo que esse personagem se encontre. No pressuposto da não simultaneidade, se um personagem tenta existir em um período em que ele ou ela já existe, o resultado deve ser desastroso ou deslocamento ou ambos.


Logo, quando Roger entra pela primeira vez no círculo de pedras em Craigh na Dun e atravessa a pedra fissada enquanto pensa em seu pai, ele inadvertidamente viaja através do seu próprio período de vida – isto é, ele (involuntariamente) tenta existir duas vezes no mesmo tempo. Já que ele não pode fazer isso, o resultado é algo como o que acontece quando dois átomos tentam existir em um mesmo espaço – uma explosão imediata de forças que os separa.


Se Roger não estivesse usando as pedras preciosas (as quais presumidamente absorveram ou desviaram a força), ele sem dúvidas teria sido morto. Sorte para ele (e para a história), ele as usava.


A reviravolta Moebius do destino


O que eu chamo de efeito ficcional de “reviravolta Moebius” (N.T: Moebius era um quadrinista dos anos setenta, que fez histórias que previram invenções atuais) é a situação em que um personagem por uma ação de livre-arbítrio alcança um resultado que preserva uma realidade histórica pessoal, a qual não seria preservada sem a intervenção do personagem. Exemplos disso são (Em Os Tambores do Outono), um jovem que arrisca sua vida para salvar um bebê por motivos humanitários – essa criança sendo (isso é desconhecido para ele) seu próprio ancestral; ou (como no livro “Time and again” de Jack Finney), um viajante do tempo que dá um passo consciente, mas banal que evita a concepção de um homem que mais tarde irá descobrir a viagem no tempo, portanto, removendo um risco pessoal. Esse tipo de situação, claro, esmaga a predestinação – mas como eu disse, nós gostamos de sentir às vezes que alguém está no comando.





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