Lallybroch
18 outubro 2017

A teoria Gabaldon de viagem no tempo


A Teoria Gabaldon de viagem no tempo


O artigo abaixo foi escrito por Diana Gabaldon e pode ser lido na íntegra em inglês em The Outlandish Companion v.1. A tradução foi feita pela equipe Outlander Brasil.


Contém spoilers até “Os Tambores do Outono”


É tudo culpa de Claire Beauchamp. Se ela não tivesse se recusado a calar-se e falasse como uma mulher do século XVIII, esses teriam sido romances históricos perfeitamente íntegros. Como era, porém, muito preguiçosa para lutar contra suas inclinações naturais durante um livro todo, encontrei-me obrigada primeiramente a permitir que ela fosse moderna (não que eu tivesse muita escolha; ela é notavelmente teimosa), em segundo lugar, a descobrir como ela chegou lá, e em terceiro lugar a concluir o que havia ocorrido.


O círculo de pedras utilmente apresentou-se no curso da minha pesquisa sobre a geografia e cenários escoceses, então eu tinha um mecanismo para viagem no tempo. A verdadeira mecânica e implicações do processo, entretanto, necessitaram de um pouco de tempo para serem planejadas- quem quer que tenha erguido os círculos de pedras não pensou em cravar instruções neles.



Desde que Claire tinha noção nenhuma de como a viagem no tempo funcionava- e foi infelizmente privada da companhia de Geillis Duncan em Cranesmuir antes de ser capaz de comparar anotações- a explicação do processo tem sido vagarosa e hesitante, desenvolvendo-se ao longo dos vários livros, à medida que mais pedaços de informações vêm à luz, e aqueles capazes de viajar começam a discutir o assunto.


Duas coisas são óbvias:

1) os círculos de pedras marcam locais de passagem, e 2) a habilidade de viajar no tempo é evidentemente genética.


Agora, nós não sabemos ainda se os círculos de pedras são apenas indicadores, com a intenção de serem avisos antigos de um lugar de desaparecimentos misteriosos, ou se as próprias pedras têm algum papel ativo na “abertura” de uma porta através das camadas do tempo. Eu estou inclinada a acreditar na primeira ideia, mas isso se mantém uma pergunta em aberto.


Até agora, a habilidade sendo genética, é aparente que nem todos podem atravessar as pedras. Daqueles que podem, nós sabemos que dois (Brianna e Roger) são descendentes diretos de outras duas (Claire e Geillis Duncan). Isso sugere que o gene para viagem no tempo é dominante, isto é, apenas um pai precisa ter o gene, e apenas uma cópia do gene precisa estar presente em uma pessoa para que o traço possa ser expresso. É como a habilidade de enrolar a língua formando um cilindro. Se você não tem o gene para esse traço, você simplesmente não consegue fazer de forma alguma.



Genes que controlam traços desse tipo normalmente ocorrem em alelos, ou pares, um alelo sendo derivado de cada pai. Cada pai, porém, terá dois alelos ­-um de cada pai daqueles pais. Isso significa que, por exemplo, se uma pessoa (Brianna Fraser, por exemplo) é descendente de uma viajante e de um não viajante, então ela terá apenas um gene de viagem no tempo- mas esse gene é suficiente para permitir que o traço seja expresso; isso é, permite a ela atravessar os portões do tempo. Entretanto, também significa que ela possui um gene de viajante e um gene de não viajante. Ela passará apenas um dos alelos para a sua prole, e qual será transmitido para cada criança específica é puramente uma questão de seleção aleatória.



Se o outro pai da criança (Roger MacKenzie, por exemplo) é também um viajante do tempo heterozigoto para o gene da viagem do tempo (isso é, tem um gene de viajante e um gene de não viajante) (...), se Brianna e Roger tiverem quatro filhos, três deles serão viajantes do tempo e um deles, não. Se eles tiverem um filho (Jeremiah, por exemplo), as chances são de três em quatro que ele será capaz de viajar- mas há uma chance em quatro que ele não pos


Entretanto, se o pai de Jeremiah não for um viajante do tempo (Stephen Bonnet, por exemplo), então a seleção (...) demonstra que Jeremiah talvez possa viajar, mas as chances são apenas de uma em dois ou meio a meio.


Por outro lado, nós só sabemos o genótipo de Brianna com certeza; Roger poderia ter recebido um gene de viagem de ambos os pais. Se ele recebeu, então seu genótipo é TT, e todos os seus filhos com Brianna serão capazes de viajar.


Por um terceiro lado, nós não sabemos com certeza se Stephen Bonnet não é um viajante. Afinal, uma pessoa não descobriria isso até ele ou ela andar através de um círculo de menires- e apenas na época certa do ano. Nós podemos assumir a partir da pesquisa de Geillis Duncan que isso não ocorre frequentemente- mas acontece.


Geillis Duncan parece ter feito uma extensa pesquisa, e provavelmente sabia mais que qualquer pessoa sobre os caminhos e meios da viagem no tempo. Infelizmente, ela está morta, então a não ser que ela tenha escrito mais dos seus achados em algum outro lugar pelo caminho, nós teremos que tentar descobrir as coisas por dedução e experimento.


Nós devemos também ter em mente que Geillis Duncan possa não estar sempre certa em suas deduções; por exemplo, ela originalmente estava convencida que um sacrifício de sangue era necessário para abrir a passagem no tempo. Nós sabemos que isso não está correto, já que Claire fez a travessia sem esse tipo de assistência.


Geillis também pensou-presumidamente baseando-se em escritos antigos que ela descobriu mais tarde- que pedras preciosas oferecem um meio tanto de controlar o processo de viagem no tempo (abrindo passagens em momentos que não sejam as festas de sol e do fogo, por exemplo), como protegendo o viajante. Ela parece ter estado próxima de acertar nesta hipótese, uma vez que Roger foi de fato protegido em sua jornada- primeiro pelas granadas no broche de sua mãe, e depois, pelo diamante dado a ele por Fiona Graham.


O grimoire que Fiona achou e deu a Roger continha hipóteses que as passagens do tempo eram localizadas em locais onde as “linhas de ley” (linhas de força magnética que passam pela crosta da Terra) aproximavam-se o suficiente torcendo-se em vórtices, formando passagens que uniam as camadas do tempo. Evidentemente, as passagens do tempo podem ser de fato sujeitas a alguma influência da força magnética, uma vez que elas ficam mais abertas nas festas do sol e do fogo- os períodos do ano em que a atração gravitacional do sol é mais pronunciada em respeito às linhas da Terra de força magnética.


Ainda, essas são apenas hipóteses; o verdadeiro efeito das pedras preciosas resta a ser visto.


Isto é o que sabemos no presente em relação ao mecanismo de viagem no tempo. Além do simples fato do fenômeno, entretanto, nós podemos observar e deduzir várias coisas em relação aos seus efeitos. Em outras palavras, como, quando e por que uma pessoa viaja no tempo é uma coisa; mas o que acontece com o viajante – e com o tempo – no outro lado?


Paradoxo, predestinação e livre-arbítrio



Há sempre duas escolhas encarando um escritor que lida com viagem no tempo, quer elas sejam faladas ou não: uma, o paradoxo da viagem no tempo (isso é, o passado pode ser modificado, e se puder, como o futuro é afetado), e duas, a escolha entre predestinação e livre-arbítrio.


Essas perguntas estão certamente ligadas através das noções subjacentes de linearidade e causalidade – naturalmente, se uma pessoa recusa-se a aceitar a hipótese que o tempo é linear, mas essa pessoa aceita a causalidade (e é, eu acho, impossível escrever uma história na qual a noção de causalidade não existe. “Ficção experimental,” sim – história, não), mas quase certamente torna-se um foco importante da história.


Se uma pessoa aceita a hipótese de que a História (isso é, os eventos do passado) pode ser mudada, então essa pessoa aceita a filosofia do livre-arbítrio dos personagens. Se a pessoa rejeita a hipótese que a História possa ser mudada, então esta pessoa é forçada a aceitar a noção de predestinação.


Se o passado não pode ser mudado pelas ações dos viajantes do tempo, então isso implica a necessidade da predestinação (ou pós-destinação, como parece ser no caso) – isto é, a ideia básica que eventos estão “destinados” a ocorrer e, portanto, fora da capacidade do que um indivíduo possa afetar.


Aceitar essa noção implica em uma larga ordem do universo, muito maior em escopo que a ação humana. Por um ponto de vista filosófico ou religioso, isso é atraente para muitas pessoas; nós gostaríamos de pensar que alguém está no comando e sabe o que está fazendo.


Por outro lado, a noção de predestinação não faz muito nem para o nosso senso de autoestima, nem para o nosso senso de possibilidade – e ambas são importantes para a noção da história (nós nos identificamos com os personagens e perguntamos “E então acontece o quê?”). Isso leva a um sentimento de “Por que se importar?” que é contraproducente tanto para o empenho, quanto para a assimilação da história. Eu vou lhe contar; predestinação pode funcionar na ficção, mas é bem menos atraente do que a noção de livre-arbítrio.


(...)


É mais fácil para um leitor aceitar uma história de paradoxo – uma envolvendo circularidade e predestinação – se for contada apenas em termos pessoais, separada de qualquer evento histórico maior. Contar uma história de viagem no tempo na qual eventos maiores reconhecíveis são modificados irá atrapalhar a suspensão de descrença do leitor configurando divergências entre o que o leitor sabe que aconteceu e o mundo criado que ele ou ela está tentando entrar.


(...)


Para mim, histórias que envolvem livre-arbítrio dos protagonistas são mais interessantes de escrever, e, eu acho, mais prováveis de serem atraentes para os leitores. Neste período e cultura específicos, a ideia de que nós temos poder individual sobre nossos próprios destinos é não apenas amplamente aceita, mas altamente desejável (a ficção de outros períodos e culturas naturalmente pode- e realmente- reflete noções diferentes de poder individual).


(...)


Eu decidi usar as duas formas – permitir o livre-arbítrio, mas sem mudar os eventos históricos principais (ah, o que é ser um Deus escritor!). A teoria Gabaldon de viagem no tempo, portanto, depende deste postulado central:


Um viajante do tempo tem livre-arbítrio e poder individual de ação; entretanto, ele ou ela não tem mais poder de ação do que permitido pelas circunstâncias pessoais do viajante.


Um corolário necessário a esse postulado não lida com a viagem do tempo de forma alguma, mas apenas com a natureza observada de eventos históricos:


Os eventos históricos mais notáveis (aqueles que afetam grande número de pessoas e, portanto, mais prováveis de serem registrados) são resultado da ação coletiva de muitas pessoas.


Existem exceções a esse corolário, claro: assassinatos políticos, os quais afetam um grande número de pessoas, mas que podem ser realizados por uma única pessoa; descoberta científica, exploração geográfica, invenção comercial, etc... Ainda assim, os efeitos de eventos como esses dependem em grande parte das circunstâncias nas quais acontecem; muitas descobertas científicas têm sido feitas – e perdidas – um número de vezes, antes de alcançar aceitação geral ou relevância social.



Portanto, a noção de que conhecimento é poder não é absolutamente verdadeira – conhecimento é poder apenas na medida em que as circunstâncias permitam que este conhecimento possa ser usado.


Assim sendo, se um viajante chegar a uma sociedade onde ele ou ela é meramente um cidadão normal, então o viajante tem relativamente pouco poder de afetar eventos sociais. Madame X chega a Paris na véspera da Revolução Francesa, por exemplo. Se Madame X é de fato meramente uma viajante do tempo, e não está tomando o lugar de um cidadão existente, então ela não é uma aristocrata, não tem conexões com os poderes da revolução, e portanto, não está em posição de afetar o curso geral da revolução.

(...)


Madame X, entretanto, tem o poder que qualquer indivíduo daquela época tem: ela pode avisar um amigo que seria sensato deixar Paris, por exemplo. Se ele a escutar, ela pode realmente salvar sua vida – e, portanto, mudar a História (mas não a História registrada).

(...)

Não simultaneidade


Dois indivíduos não podem ocupar o mesmo local no espaço; duas espécies não podem ocupar o mesmo espaço ecológico ou nicho. Por conseguinte, parece ser intuitivamente óbvio que duas entidades não podem ocupar a mesma localização corporal. O truque aqui, claro, é que espaço físico e nichos ecológicos existem do lado de fora do indivíduo, enquanto tempo existe dentro do indivíduo. Qualquer momento no tempo – ou qualquer segmento mais longo (um tempo de vida, por exemplo) – pertencem apenas ao indivíduo.


Por esse motivo, a implicação da não simultaneidade é evidente; dois indivíduos podem existir em espaços diferentes ao mesmo tempo, mas um indivíduo não pode existir simultaneamente em mais de uma locação temporal.



Isso leva a uma das perguntas básicas interessantes sobre viagem no tempo – e se o indivíduo tentar existir em mais de um tempo? Isso é possível?


Em termos da nossa moldura física de referência, não, não é – mas a coisa legal sobre ficção é que não somos limitados à moldura física de referência. Se o indivíduo assume, não obstante, que é possível uma pessoa existir em mais de uma localização temporal simultaneamente, nós recebemos complexidades e possibilidades divertidas (...).


Essas histórias dependem da presunção de dualidade (ou outras pluralidades) de tempo e espaço – que um indivíduo é de fato um indivíduo diferente de um momento no tempo para outro (o que é certamente verdade em termos de processos físicos e talvez mentais). Portanto, sob esta hipótese, uma pessoa não é realmente uma entidade descontínua, mas uma cadeia contígua de identidades, todas com um grande grau de similaridade, mas todas levemente diferentes, e (essa é a presunção básica) que qualquer dessas identidades possa manter-se fisicamente, se removidas da cadeira temporal que as une.


Naturalmente, uma das vantagens da ficção é que isso é um simples caso de remover a ligação temporal; o autor meramente elabora uma causalidade plausível e a declara verdadeira. O único inconveniente a essa hipótese ficcional em particular é se alguém a usá-la, ela é tão inoportuna que exige que essa invenção se torne a premissa central e o conflito da história. Legal, mas limitante.


Se uma pessoa assume, em vez disso – baseando-se no argumento do fenômeno natural/ não simultaneidade – que não é possível existirem pluralidades, então uma nova configuração de situações intrigantes e evolução lógica ocorrem. O que acontece se uma pessoa tentar existir simultaneamente em mais de uma localização temporal? Como uma pessoa pode evitar essa possibilidade?


A teoria Gabaldon postula que não é possível para identidades do mesmo personagem existirem simultaneamente. Assim sendo, um personagem pode existir apenas uma vez, qualquer que seja o período do tempo que esse personagem se encontre. No pressuposto da não simultaneidade, se um personagem tenta existir em um período em que ele ou ela já existe, o resultado deve ser desastroso ou deslocamento ou ambos.


Logo, quando Roger entra pela primeira vez no círculo de pedras em Craigh na Dun e atravessa a pedra fissada enquanto pensa em seu pai, ele inadvertidamente viaja através do seu próprio período de vida – isto é, ele (involuntariamente) tenta existir duas vezes no mesmo tempo. Já que ele não pode fazer isso, o resultado é algo como o que acontece quando dois átomos tentam existir em um mesmo espaço – uma explosão imediata de forças que os separa.


Se Roger não estivesse usando as pedras preciosas (as quais presumidamente absorveram ou desviaram a força), ele sem dúvidas teria sido morto. Sorte para ele (e para a história), ele as usava.


A reviravolta Moebius do destino


O que eu chamo de efeito ficcional de “reviravolta Moebius” (N.T: Moebius era um quadrinista dos anos setenta, que fez histórias que previram invenções atuais) é a situação em que um personagem por uma ação de livre-arbítrio alcança um resultado que preserva uma realidade histórica pessoal, a qual não seria preservada sem a intervenção do personagem. Exemplos disso são (Em Os Tambores do Outono), um jovem que arrisca sua vida para salvar um bebê por motivos humanitários – essa criança sendo (isso é desconhecido para ele) seu próprio ancestral; ou (como no livro “Time and again” de Jack Finney), um viajante do tempo que dá um passo consciente, mas banal que evita a concepção de um homem que mais tarde irá descobrir a viagem no tempo, portanto, removendo um risco pessoal. Esse tipo de situação, claro, esmaga a predestinação – mas como eu disse, nós gostamos de sentir às vezes que alguém está no comando.





13 outubro 2017

Livro x Série de TV- Episódio 05: Freedom and Whisky



Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 05: Freedom & Whisky


“Freedom & Whisky”, o quinto episódio desta temporada caminhou com uma dinâmica diferente dos anteriores. O episódio ocorreu majoritariamente em 1968 com apenas o final em 1766, quando acontece o reencontro do nosso casal, não havendo, assim, um entrelaçamento de linhas do tempo. Portanto, a estrutura da resenha também será modificada e não terá divisões temporais explícitas. A adaptação levou às telas dessa vez o tópico final do capítulo dezenove (Aplacar um fantasma), parte do capítulo vinte (Diagnóstico), 21 (C.Q.D), um trecho do capítulo 22 (Dia das bruxas), 23 (Craigh na Dun) e 24 (A. Malcolm, o mestre-impressor), além de parte do prólogo.

Em “O Resgate no mar” apenas Claire estava em Boston, enquanto Bree e Roger continuavam sua pesquisa na Escócia. Assim começamos com nossa primeira diferença, o capítulo dezenove termina com Claire recebendo um telegrama de Roger informando que encontrou Jamie e pedindo para ela que voltasse à Escócia. Enquanto isso, no episódio, vemos um pouco do trabalho de Claire como cirurgiã com seu amigo Joe Abernathy e a dificuldade de Bree em se adaptar com a faculdade de história novamente. Roger também descobre o paradeiro de Jamie em “Freedom e whisky”, mas em vez de enviar um telegrama, ele mesmo viaja de surpresa para Boston chegando no meio de uma briga entre mãe e filha. A discussão entre elas provia do fato de Brianna ter decidido largar Harvard. Isso não é algo que ocorre no material original neste ponto. Brianna realmente desiste de cursar história e passa a estudar engenharia, mas isso só acontece após Claire ter atravessado as pedras. No capítulo vinte (Diagnóstico), durante uma conversa com Joe, Claire encontra-se em uma situação de descobrir a causa mortis de um esqueleto antigo. Mais à frente com as pistas que foram entregues nesse momento e com os acontecimentos do final do livro, Claire acredita que esses são os ossos de Geillis Duncan. Na cena comenta-se que o esqueleto havia sido achado em uma caverna do Caribe numa região de escravos, mas que ela era branca, explicando que a diferença pode ser percebida pelo tamanho comparado entre fêmur e tíbia, como no livro. Entretanto, a cena na tv é apenas entre Claire e Joe; no capítulo, Horace Thompson, que havia trazido os ossos, também estava presente.


Ainda na sala, logo após a partida do Sr. Thompson, Claire pergunta a Joe se ele a acha sexualmente atraente. No episódio, a questão só surge em outro momento, não é uma continuação da cena, e Joe já sabe sobre o homem que Lady Jane (como ele a chamava carinhosamente) tinha na Escócia, uma vez que eles já haviam conversado sobre isso anteriormente. O que Joe não sabia ainda no episódio era que o homem misterioso era o pai biológico de Bree e é nessa hora que Claire conta a ele. No livro, é a pergunta sobre a aparência de Claire que faz Joe questionar sobre um homem que ela esteja interessada. Claire menciona Jamie para ele logo após a conversa sobre os ossos. É Joe quem percebe por meio do diálogo entre eles que o homem misterioso de Claire era o pai de Brianna e ela confirma, assim como conta também que ele era escocês. Ato contínuo, ela pede um favor a ele e entrega-lhe sua carta de demissão. No episódio, Claire entrega a carta a Bree para que ela dê a Joe.

No capítulo 21 (C.Q.D), Claire está de volta à Escócia e Roger explica a ela como encontrou Jamie. No episódio, a explicação é feita quando Roger vai visitar as Randall em Boston. Logo após uma discussão entre mãe e filha, Brianna sai de casa, deixando Claire com Roger. Eles conversam sobre natal e sobre o pai adotivo de Roger, o reverendo Wakefield até que Roger se encoraja para contar a sua descoberta. Ele havia encontrado em uma publicação de 1765,em Edimburgo, um tipógrafo que publicou falando que “liberdade e uísque andam juntos”, frase que Claire costumava mencionar a Jamie, mas o artigo não era assinado. O detalhe é que o poema não havia sido escrito ainda em 1765, pois Robert Burns, autor do poema era apenas uma criança. Assim, apenas uma pessoa com conhecimento sobre o futuro poderia ter o citado. Ademais, o nome do tal tipógrafo era Alexander Malcolm, os nomes do meio de Jamie. Sabendo onde ele estava em 1765, ela teria que arriscar para ver se ele ainda estava no mesmo local em 1766. No livro, Brianna é quem encontra um artigo do jornal chamado Forrester’s publicado por um Alexander Malcolm. Como o artigo era manuscrito, eles usaram a transferência de propriedade de Lallybroch para comparar a caligrafia entre os dois também como meio de prova de que era Jamie quem tinha escrito. No livro, o artigo fora assinado com um pseudônimo, C.Q.D, mas o tipógrafo responsável pela sua impressão era Alexander Malcolm. Um dos artigos encontrados, assim como no episódio, continha o trecho do poema de Burns. À título de informação, a assinatura original é QED e é a abreviatura em latim para Quod erat demonstrandum. Em português, foi traduzido para “Como Queríamos Demonstrar”, é uma expressão usada por Jamie como uma forma de demonstrar que existem outros caminhos para se fazer algo, explica a autora no primeiro volume do seu compêndio.


No capítulo, quem conta a Claire que Burns tinha apenas seis anos em 1765 é Brianna, enquanto na série de tv, é Roger. No livro a descoberta é mostrada com alegria; no episódio, Claire fica com raiva, porque acredita que não pode deixar Brianna para trás, que sua filha ainda precisa dela, principalmente por estar sofrendo com uma crise de identidade. É Joe quem começa a tentar a convencer Claire a dar uma segunda chance ao amor na adaptação. Claire vai então em uma loja de roupas antigas em Inverness e compra um vestido para sua viagem. No episódio, ela costura o vestido no modo como ela quer, cheio de bolsos que possam ajudar a levar várias coisas como a penicilina. Roger menciona que os bolsos seriam como “um cinto de utilidades do Batman”, daí enquanto ela está costurando começa a tocar o tema do batman. Para mim, essa foi a única parte do episódio que eu não gostei. Achei que a música ficou deslocada e a Claire do livro costura bem apenas carne humana. O episódio se passa no natal, então Roger e Bree dão de presente a ela moedas antigas para viagem. No texto original, eles coletaram moedas para ela levar também, mas ela viaja no samhain. Bree dá de presente a Claire um colar com um topázio, porque nos escritos de Geillis, ela menciona ser necessário viajar com uma pedra preciosa para proteção. Isso realmente estava nos escritos, mas Claire viaja várias vezes sem nenhuma pedra ao longo da saga, apesar que no episódio, ela fala que em todas às vezes ela tinha uma.

Houve um acréscimo de uma cena no episódio que não existe no livro: a homenagem a Frank na universidade. A amante oficial de Frank na série de TV aparece e confronta Claire, dizendo que ela deveria ter deixado Frank livre. Eu fiquei com pena dela quando ela diz que Frank foi o amor de sua vida, mas que ela sentia que parte dele ainda era apaixonada por Claire. Brianna questiona Claire sobre a mulher, e Claire conta a verdade. Elas conversam sobre a amor que Frank tinha pela filha assim como o que Claire também sentia por ela. Brianna soube então da traição de Frank. No material original, ela só desconfia que Frank traiu Claire em livro posterior na saga. A cena em que Claire, Joe e o pessoal do hospital assistem à visita do homem à lua também não existe. Na verdade, são Brianna e Roger que vão a casa de Joe e assistem à chegada do homem à lua após sua mãe ter viajado, no capítulo cinco do quarto livro. No episódio, eles assistiram a circunavegação da lua pela nave apollo 8 em 25 de dezembro de 1968 realizada pela equipe de James Lovell. No livro, Bree e Roger veem Neil Armstrong pisar na lua pela primeira vez com a nave apollo 11 em julho de 1969. 

No capítulo 22 (Dia das bruxas), em uma conversa com Roger, o leitor percebe que Brianna está tendo dificuldade de deixar a mãe ir embora, apesar de não expor isso para ela. Quando Roger afirma para ela que o lugar de Claire é com Jamie, Bree responde que ela sabe que Claire precisa dele, mas que ela também precisa de sua mãe. É então que Roger comenta que Bree é adulta agora, que ela pode amar a mãe, mas não precisa dela como precisava quando criança. Isso é algo, que no episódio, Bree diz a Claire, quando ela lhe conta sobre a descoberta de Roger. Em “Freedom and whisky”, é necessário que várias pessoas convençam Claire a passar novamente pelas pedras. No livro, a decisão parece ter sido fácil, o que nunca pareceu certo para mim, como uma mãe poderia tão facilmente deixar a filha para trás, mesmo uma já adulta. Por isso, gostei mais de como a despedida foi construída na adaptação, houve um maior respeito para a relação delas.

Ainda neste capítulo, Claire escapa de madrugada para ir às pedras sem ter que se despedir de Brianna. No episódio, elas dizem adeus em Boston porque seria muito difícil para Claire despedir-se de Brianna em Craigh na Dun. Em “Dia das bruxas”, Roger e Brianna acabam indo atrás de Claire nas pedras para se despedir, onde então Bree fala a Claire: “-Ele deu você para mim- ela disse, tão baixo que eu mal conseguia ouvi-la. –Agora eu tenho que devolvê-la a ele, mamãe.”. Bree também fala isso no episódio, mas elas estão na casa delas em Boston, e Bree está convencendo a mãe a ir atrás de Jamie. É neste momento também em Craigh na Dun, que Brianna pede para Claire dá um beijo em seu pai; no episódio, ela fala isso quando as duas se despedem em Boston. Na despedida do episódio, Claire entrega as pérolas de Ellen a Bree e pede para ela as use em seu casamento. No material escrito, nós só descobrimos no capítulo 58 que Brianna ficou com as pérolas.


O modo como eles fizeram a viagem do tempo no episódio foi lindo. Eles utilizaram trechos do prólogo do livro que fala sobre as poças serem uma entrada para novos mundos e fizeram a transição de ela pisando na poça ao sair de um táxi em 1968 para ela pisando para fora de uma carruagem em Edimburgo em 1766. Ficou incrível. Foi algo que foi feito para diminuir os custos da viagem à locação das pedras, e que ficou muito lindo, além de se encaixar bem com a essência dos livros. Além disso, corta a ideia de repetição de o telespectador vê-la mais uma vez em Craigh na Dun, mostrando a situação de uma forma inovadora. A trilha sonora no fundo só deixou tudo ainda mais emocionante.

“Quando eu era pequena, nunca gostei de pisar em poças. Não temia minhocas afogadas ou meias molhadas; eu era, de um modo geral, uma criança suja, com uma abençoada indiferença a imundícies de qualquer espécie.


Era porque eu não conseguia acreditar que aquela superfície perfeitamente lisa fosse apenas uma fina lâmina de água sobre solo firme. Eu acreditava tratar-se da entrada de algum espaço insondável. Às vezes, vendo as minúsculas ondulações na água causadas pela minha aproximação, eu imaginava a poça incrivelmente profunda, um mar abismal onde se ocultavam os tentáculos preguiçosamente enroscados e escamas reluzentes, com a ameaça de corpos imensos e dentes afiados à deriva e silenciosos nas profundezas sem fim.

Em seguida, olhando para o reflexo na água, eu podia ver meu próprio rosto redondo e os cabelos crespos contra uma expansão azul e uniforme. Pensava, então, que a poça fosse a entrada de um outro céu. Se eu pisasse ali, cairia imediatamente, e continuaria caindo, indefinidamente, pelo espaço azul.


A única hora em que ousava atravessar uma poça era ao crepúsculo, quando as estrelas começavam a surgir. Se eu olhasse dentro da água e visse ali o reflexo de um pontinho cintilante, poderia passar sem medo, chapinhando água para todos os lados- porque se eu caísse na poça e dentro do espaço, eu poderia agarrar-me à estrela na queda e me salvar.


Mesmo agora, quando vejo uma poça em meu caminho, minha mente hesita-ainda que meus pés não façam-, depois dispara, deixando para trás apenas o eco do pensamento.
E se desta vez você cair?”


No capítulo 24 (A. Malcolm, o mestre-impressor), Claire chega a Edimburgo de 1766. Ela encontra a placa que diz “A.MALCOLM, MESTRE-IMPRESSOR E LIVREIRO”, toca-a e entra no recinto.


“- É você, Geordie? – ele perguntou, sem se virar. Estava de calças e camisa, com uma pequena ferramenta na mão, com a qual mexia nas entranhas da prensa.- Levou bastante tempo. Conseguiu o...

- Não é Geordie. – Eu disse. Minha voz soou mais alta do que o normal. – Sou eu. Claire.

Ele endireitou-se muito lentamente. Usava os cabelos longos; um rabo de cavalo grosso, de um ruivo escuro e forte, com cintilações acobreadas. Tive tempo de ver o laço perfeito que o prendia na nuca era de fita verde-escura. Então ele se virou.

Olhou-me fixamente, sem falar. Um tremor percorreu a garganta musculosa quando ele engoliu em seco, mas ainda não disse nada. (...)

Atravessei pela passagem no balcão, sem ver nada além do olhar fixo em mim. Limpei a garganta.

- Quando foi que quebrou o nariz?

Os cantos da boca larga ergueram-se ligeiramente.

- Cerca de três minutos depois que a vi pela última vez... Sassenach.

Houve uma hesitação, quase uma interrogação, no nome. Não estávamos a mais de trinta centímetros um do outro. Estendi o braço tentando tocar a minúscula linha da cicatriz, onde o osso pressionava, branco, contra o bronze da pele.

Ele contraiu-se, como se uma fagulha elétrica tivesse faiscado entre nós, e a expressão calma desfez-se.

- Você é real.- ele murmurou. Eu já o achara pálido. Agora todos os vestígios de cor desapareceram de seu rosto. Seus olhos reviraram-se para cima e ele desabou no chão numa chuva de papéis e outros objetos que haviam estado sobre a prensa. Caiu graciosamente, de certa forma, para um homem tão grande, pensei distraidamente.”
A cena no episódio ficou muito parecida. Claire não pergunta sobre o nariz quebrado já que na série de TV isso não aconteceu, mas o resto ficou muito semelhante.

Esse episódio não foi meramente sobre liberdade, ou sobre uísque, ou até mesmo sobre o tão aguardado reencontro, foi um grande ode à maternidade e à saudade. Um laço de amor entre mãe e filha tão forte que foi capaz de libertar. Brianna nunca foi tão semelhante ao seu pai biológico quanto quando deu asas à sua mãe para que retornasse a ele. Da mesma maneira que Jamie libertou Claire por seu amor à filha ainda não nascida. A produção soube valorizar e exaltar a maternidade de uma forma que eu não enxerguei nos livros. E foi algo muito bonito de se assistir. Eu sempre achei muito fácil como Claire decidiu se separar de Brianna e ir atrás de Jamie no material original. Possivelmente porque Diana não escreveu muito sobre esse momento de indecisão dela, sua luta interna, o que foi mostrado muito bem na série de TV. Fez com que eu finalmente sentisse um pouco mais de compreensão nesse “rompimento” entre mãe e filha. Para o amor verdadeiro, de qualquer tipo, não existe tempo, não existe distância física, não existe saudade, mesmo que traga dor, ele oxigena sua própria sobrevivência sem respeitar nenhuma lei mundana.


Achei que o episódio foi muito poético com toda essa noção de separação, amores perdidos, maternidade e esperança. Além de que é uma poesia que o nomeia. Robert Burns era um poeta escocês, que dentre vários poemas, havia também escrito sobre amores que se distanciam, mas acho que quem melhor escreve sobre a dor da separação são os brasileiros e portugueses. Afinal, saudade é uma palavra que só existe em português. Inventada pelos portugueses para expressar a melancolia que sentiam da sua terra natal quando vieram povoar as colônias. Saudade é nossa herança linguística. Conseguimos expressar em uma palavra, o que em outras nações apenas se sente. Talvez se saudade existisse em inglês, esse deveria ser o título do episódio. A saudade que surgirá dos diversos tipos de separação. A saudade da perda da mãe e da filha, a saudade de Brianna do pai que a criou e aquela saudade da ideia de um pai que ela nunca conheceu. A saudade de Roger de seu pai. A saudade de Claire por Jamie, que logo seria sanada para dar lugar a uma saudade que ela sentiria da filha. Claro, que eles podem expressar com um “I miss you”, algo próximo dessa dor de separação, mas um “sinto sua falta” não tem tanto poder quanto “estou com saudades”. Saudade mesmo só nós dizemos, por isso acho que para gente, esse episódio, talvez, tenha um significado tão único.


Por Tuísa Sampaio

04 outubro 2017

"Outlander" acerta no que "Game of thrones" errou sobre estupro e consentimento na TV


NA VERDADE, NÃO SIGNIFICA NÃO

‘Outlander’ acerta no que ‘Game of thrones’ errou sobre estupro e consentimento na TV


Revisando a cena dos livros em que o herói estupra sua parceira sexual, ‘Outlander’ nos mostra como o tratamento da TV em relação a consentimento evoluiu.

No quarto episódio da terceira temporada de Outlander, Jamie Fraser faz sexo. Isso não é notável por si só, já que a série da Starz tem uma reputação pelas cenas quentes bem-merecida. Mas o modo como a cena foi modificada na adaptação das páginas para a tela- especialmente na forma como aborda o consentimento entre Jamie e sua parceira sexual, Geneva- revela uma tensão muito fascinante em Outlander.

O seriado, baseado na série de livros de Diana Gabaldon, é sobre um relacionamento entre um casal que nasceu separado por dois séculos. A heroína Claire (Caitriona Balfe) é uma viajante do tempo do período dos anos de 1900 enquanto o herói Jamie (Sam Heughan) é dos anos de 1700. Juntos, eles navegam por um relacionamento carregado de costumes de gênero de dois séculos diferentes.


Mas fora do escopo da história, Outlander tem um deslocamento de tempo ainda mais intrigante. Os três primeiros romances, nos quais as três primeiras temporadas da série são baseadas, foram publicados no início da década de 90.


Embora Gabaldon tenha dito que os livros de Outlander não são romances românticos, eles compartilham DNA com o gênero- como o recorrente tropo da sedução forçada. E a grande conversa cultural sobre consentimento e sua representação na ficção tem mudado nas décadas entre os livros e a série.


Sedução forçada, também conhecida como consentimento dúbio, é um tropo em que o herói faz um avanço sexual indesejado e a relutância da heroína abre espaço para entusiasmo. Em outras palavras, é a ideia que “não” significa “sim” se o herói for sexy o suficiente. “E o vento levou”, apesar de não ser um romance romântico, tem talvez um dos exemplos mais famosos de sedução forçada, quando Rhett Butler inicia sexo com Scarlett O’Hara contra sua vontade. “Ela gritou, sufocada contra ele,” Margaret Mitchell escreve em seu romance, “e ele... curvou-se sobre ela e beijou-a com selvageria... De repente ela teve uma vontade selvagem que ela nunca havia conhecido...” O tropo é mais proeminente em romances históricos como o de Kathleen E. Woodiwiss, A Chama e a flor, e mais proveniente das décadas de oitenta e noventa. É daí que o termo “Bodice ripper” (N.T: algo como “rasgador de corpete”) vem; frequentemente, o herói rasga o corpete da heroína em sua agressão.


Independentemente de você pensar que Outlander é um romance romântico ou não, ele certamente tem seus elementos de “bodice ripper”. No primeiro livro, Jamie disciplina Claire com uma surra carregada de sexualidade, e muitos dos seus encontros começam enquanto Claire está relutante ou protestando completamente. A cena dele com Geneva no terceiro livro, o qual foi publicado em 1993, é também desenhada na tradição do “não significa sim”. É assim que está nas páginas: “ ‘Pare! É grande demais! Tire!’. Em pânico, Geneva debatia-se por baixo dele. Ele colocou uma mão sobre a sua boca e disse a única coisa coerente que ele conseguiu pensar ‘não’, ele disse desafiadoramente e empurrou.” Anteriormente a cena, Geneva queria fazer sexo com Jamie. Na ocasião, ela muda de ideia, mesmo assim ele ignora seu consentimento revogado.


Reveladoramente, a cena na versão da TV foi drasticamente alterada da versão do romance. Em “Of lost things” na terceira temporada, os roteiristas de Outlander pareceram intensamente conscientes que os espectadores de 2017 têm uma tolerância baixa para momentos de desistência, quando o herói sexy não aceita “não” como resposta. Antes de eles fazerem sexo na tela, Jamie fala a Geneva, “Nós não precisamos fazer isso. Você pode mudar de ideia se quiser.” Isso levanta a dinâmica da versão do romance da cena de forma tão descarada, Jamie quase pisca para câmera.


Com essa mudança, a série não está apenas revisando uma cena desnecessária de estupro. Está também apagando a posição de Gabaldon em relação à cena do livro não ser estupro da parte de Jamie. O pilar do argumento dela é o fato que Geneva chantageia Jamie. No contexto da cena, ele está vivendo sob uma identidade falsa, e Geneva ameaça revelar seu nome verdadeiro se ele não tirar sua virgindade antes de ela casar com um homem muito mais velho. (No livro, ela fica com medo, por isso seus protestos.) A série não muda o cenário; ela simplesmente apaga o elemento do consentimento dúbio da cena de sexo deles. Em ambas as versões da história, Geneva não é uma boa pessoa e ela encurralou Jamie. Mas como a mudança na adaptação mostrou, isso não tem nada a ver com- e certamente não justifica- sua recusa de aceitar um “não” como resposta. Outlander nem sempre teve um histórico limpo de retratar o assédio sexual, mas com uma cajadada só, “Of lost things” leva o sentimento da cultura do estupro de “não significa sim” e “mas ela estava pedindo por isso” e toca fogo neles.


Enquanto escrevia sobre a cena na sua página do facebook e twitter, Gabaldon chama o princípio de “não significa não” de “ficção útil” que se desenvolveu nos últimos cinquenta anos “em resposta a um contexto cultural muito limitado”. Ironicamente, ao citar o contexto cultural no seu argumento, ela enfatiza a importância de o porquê a cena de Jamie e Geneva tinha que mudar para as telas. Considerem a quarta temporada de Game of thrones, na qual Jaime Lannister agressivamente faz sexo com Cersei em frente ao corpo do filho deles, enquanto ela protesta. Comentários do ator e do diretor indicam que aquela cena não tinha intenção de ser um estupro- mas boa parte do público entendeu de forma diferente. O clima do mundo real em que a série é lançada importa. Fingir que não, é no mínimo ingenuidade ou uma surdez proposital.


Hoje, as cenas de consentimento dúbio no entretenimento popular lançam milhares de tópicos no twitter sobre por que elas são #problemáticas. Graças parcialmente às mídias sociais, conversas sobre atuação e consentimento na ficção mudaram-se dos círculos feministas para o discurso mainstream.


Isso coloca Outlander em uma posição difícil. Seu material fonte é embebido na tradição da sedução forçada- mas também é uma série de televisão sendo transmitida em uma época em que a cultura do estupro é mais abertamente examinada do que antes. Nos anos recentes, graças aos números assombrosos de séries e a abundância de violência sexual na TV, há um impulso negativo quando isso não é o retratado de uma forma significativa. Showrunners como Bryan Fuller (Deuses Americanos, Hannibal) falaram sobre sua aversão ao estupro como ferramenta do enredo. O produtor de O Exorcista, Jeremy Slater contou a Variety que a notoriedade do estupro na TV tem se tornado “uma praga na indústria”. Outlander é deixada com uma questão difícil, porque os livros frequentemente usam o estupro como ferramenta de enredo. Nos dois primeiros romances, Claire é ameaçada com estupro não menos que quatro vezes, Jamie é estuprado, e dois de seus conhecidos (Mary e Fergus) são estuprados.


“Bodice rippers” e dramas de TV a cabo têm funções artísticas diferentes, e diferentes formas de trabalho pelos quais são avaliados. Quando Outlander demonstra sua consciência deste fato, é aí que a tensão da série com o seu material fonte atinge seu auge. Não há lugar mais claro que nas duas versões da cena de sexo entre Jamie e Geneva.


O público já foi instruído na cena de estupro de Sansa Stark em Game of thrones e na reação subsequente da internet; no estupro de Mellie Grant em Scandal, no de Claire Underwood em House of cards, no de Jessica Jones em Jessica Jones, no de Anna em Downton Abbey, no de Dolores em Westworld. Nenhuma arte existe em um vácuo isento de contexto moderno, até mesmo nos dramas históricos. E os telespectadores estão cansados de estupros na televisão.


O fato que este episódio de Outlander tenha consertado o assunto do consentimento do romance de 1993 é uma narrativa quieta brincando por cima da superfície- e ainda, é tão interessante quanto à história nas telas. Isso é o que é verdadeiramente fascinante sobre Outlander. O real deslocamento temporal com quem ela deve negociar não são os dois séculos entre Jamie e Claire, mas sim a mudança na conversa cultural ao redor de consentimento entre as décadas dos livros e da série.


Por Lauren Sarner


Traduzido por Outlander Brasil de The Daily Beast




Livro x Série de TV- Episódio 04: Of lost things

Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 04: Of lost thingS



De volta com o episódio 04 desta temporada, “Of lost things” adapta os capítulos catorze (Geneva), quinze (Por falta de sorte), dezesseis (Willie), uma informação do capítulo três (Frank e a revelação completa), pequenos acontecimentos dos capítulos sete (Fé nos documentos) e dezoito (raízes) e um trecho do capítulo 59 (Quando há grandes revelações).


Jamie (1756-1764)



Jamie é introduzido ao Lorde Dunsany de maneira um pouco diferente da do livro. No capítulo catorze, quando John chega à propriedade a família já está na residência, enquanto em “Of lost things”, eles retornam de uma viagem para Itália um tempo depois que Jamie já está prestando seus serviços de cavalariço lá. Com isso, assim que chega Lorde Dunsany pede para falar com ele. Já no livro, a família conversa com Lorde John, quando Lady Dunsany se distrai dando ordens ao mordomo, Lorde Dunsany pergunta pelo prisioneiro. Grey informa que o deixou no vestíbulo, pois não sabia o que o senhor da casa pretendia fazer com ele. Lorde Dunsany fala que fará de Jamie um cavalariço como ele havia sugerido, mas que não diria a sua esposa quem Jamie era, já que ela tinha medo dos highlanders e nunca havia se recuperado da morte do filho Gordon. No episódio, Dunsany diz algo semelhante diretamente a Jamie, o qual comenta que nunca uma pessoa se recupera completamente após ter perdido um filho e que ele havia perdido dois. Achei bonito esse acréscimo de conversa em que Jamie lembra-se dos filhos que ele nunca havia conhecido. Faz um bom paralelo com o filho que ele iria ganhar naquela propriedade, mas que também iria, de certa forma, iria perder.


Em Helwater, Jamie ou Alex Mackenzie como era lá conhecido, estava tendo uma existência pacífica, com exceção de Geneva, um das filhas de Dunsany que resolveu aproximar-se dele e perturbar essa paz.

“Bonita, mimada e aristocrata, lady Geneva estava acostumada a conseguir o que queria, quando queria, e dane-se quem estivesse em seu caminho. Era uma boa amazona- Jamie reconhecia-, mas tão caprichosa e ferina que os cavalariços costumavam tirar na sorte para determinar quem teria a infelicidade de acompanhá-la em sua cavalgada diária. Ultimamente, entretanto, lady Geneva andava ela mesmo escolhendo seu acompanhante- Alex MacKenzie”


No episódio, Geneva fala pela primeira vez quando sai em busca de um cavalo e um cavalariço para acompanha-la em seu passeio; e como descrito no livro, os homens tiram a sorte para ver quem vai sofrer esse fardo. Até que um dia, após saber de seu casamento arranjado com o Conde de Ellesmere, um homem com idade de ser seu avô, ela requisita especificamente pela companhia de Mackenzie. No capítulo, a escolha do acompanhante já havia começado mesmo antes da proposta ser mencionada para os leitores, e Geneva já demonstrava uma espécie de paixonite por Jamie, que era zoado por isso pelos outros cavalariços. No capítulo catorze, Geneva menciona seu casamento para Jamie quando ele está “espalhando bosta” de cavalo. No episódio, além de Jamie ter visto o noivo e ouvido a conversa, Geneva pergunta o que ele acha do prometido dela durante a cavalgada deles. A cena em que Jamie está espalhando estrume aparece no episódio, mas ela é usada diretamente para o momento em que ela chantageia-o para que vá ao seu quarto tirar sua virgindade. Ela pergunta se ele já foi casado e Jamie responde que sim, a isso ela diz “Ótimo, então saberá o que fazer”. Essa pergunta também é feita no diálogo do livro, mas a chantagem não é mesma. No livro, Geneva chantageia Jamie ameaçando entregar uma carta de Jenny ao seu pai; nas telas, ela ameaça contar a sua mãe a verdadeira identidade de Jamie e comenta sobre seus parentes em Lallybroch, tendo descoberto tudo por meio de um Lorde Melton bêbado, que havia visitado a propriedade junto com seu irmão Lorde John.







Vamos adentrar então na cena de sexo entre Jamie e Geneva. Essa foi uma mudança que a série fez que eu não consigo nem expressar o quanto eu gostei. Eles conseguiram fazer a relação entre os dois de uma forma claramente consensual e respeitosa. No livro, há uma relativização do consentimento que tem gerado polêmica ao longo dos anos. Em um determinado momento, em que eles estavam iniciando o ato sexual, Geneva pede para Jamie parar e ele diz que não e continua. No episódio, além de isso não acontecer, Jamie pergunta se ela tem certeza do que quer e ela confirma. Amei. Enquanto muitas séries tendem a transformar cenas de sexo dos livros em estupro, Outlander conseguiu fazer o contrário, transformar uma cena de um possível estupro (já que o consentimento foi retirado por meio de um “pare”) em sexo totalmente e sem sombra de dúvidas consensual (pelo menos da parte dela). O resto do diálogo da cena no episódio foi em parte retirado do livro, com algumas pequenas modificações que honestamente só tornaram a sua construção mais agradável e que foram feitas com um intuito, imagino eu, de não deixar a cena muito extensa.



“- Ooh!- exclamou Geneva. Seus olhos arregalaram-se.
-Uh- ele resmungou, penetrando-a um pouco mais fundo.
-Pare! É grande demais! Tire!- Em pânico, Geneva debatia-se sob ele. Imprensados sob seu peito, seus seios agitavam-se e roçavam-se nele, de modo que seus próprios mamilos eriçaram-se abruptamente numa brusca sensação.
Os esforços dela estavam conseguindo à força o que ele tentara fazer com delicadeza. Atordoado, ele lutava para mantê-la sob ele, enquanto buscava loucamente algo para dizer que pudesse acalmá-la.
- Mas...- ele começou.
- Pare!
-Eu!
- Tire isso já!- ela gritou.
Ele tampou sua boca com uma das mãos e disse a única coisa coerente que lhe ocorreu.
- Não- disse categoricamente e avançou.”


O capítulo quinze (Por falta de sorte) inicia-se com uma tempestade. Hughes, o chefe do cavalariços, chama Jamie para levar os Dunsany a Ellesmere. No episódio, é Isobel quem o chama já avisando que a irmã estava enfrentando uma situação difícil. No livro, os criados da casa contam a Jamie que o conde tinha tratado Geneva bem até saber de sua gestação. Começaram então inúmeras brigas, pois Ellesmere afirmava que o bebê não era dele. Os criados supunham que o chefe fosse impotente, de qualquer forma sabiam que na noite de núpcias não havia sangue nos lençóis. Foram os criados também que contaram a Jamie sobre a morte de Geneva. No episódio, a notícia é contada por Isobel. A morte de sua irmã é descrita a Jamie de forma semelhante ao livro, mas algo é acrescentado. Isobel sabia que Geneva havia se deitado com Jamie e fica com raiva dele, dando-lhe uma tapa na cara. Jamie então é chamado pela criada para ajudar o patrão. No livro, ele e Jeffries, o outro cavalariço, são chamados. Ellesmere discutia com Dunsany dizendo que o menino era um bastardo e que ficaria com ele já que pagou por ele. A discussão em si é parecida com a do episódio com exceção que inicialmente Ellesmere não ameaçava a vida do bebê, Dunsany e ele começaram uma luta corpórea que é separada por Jamie e quem porta as pistolas é Jeffries. O bebê é trazido por uma criada e avô e suposto pai brigam para ver quem ficará com ele. Ellesmere então pega o bebê e ameaça jogá-lo da janela se Dunsany não for embora da sua casa. É então que Jamie pega uma das pistolas de Jeffries, atira em Ellesmere e agarra o bebê.



A conversa que ocorre entre Lady Dunsany e Jamie sobre sua condicional acontece no estábulo no livro; já na série é na parte externa da casa, enquanto as mulheres da família passeavam com o pequeno Willie. Ele decide ficar na propriedade para poder assistir a Willie crescer. Enquanto no livro, Lady Dunsany diz que a o marido não tem mais influência em Londres, mas John tem e pode conseguir a condicional; no episódio, seu marido ainda mantém a influência e ele é quem conseguirá essa liberdade.


“Não ser mais um estranho. Deixar para trás a hostilidade e a solidão, chegar a Lallybroch e ver o rosto da sua irmã iluminar-se de alegria ao avistá-lo, sentir seus braços em torno de sua cintura, o abraço de Ian em torno de seus ombros e as mãos das crianças, agarrando-o, puxando-o pelas roupas.

Ir embora, e nunca mais ver ou ouvir o seu próprio filho. Olhou fixamente para Lady Dunsany, o rosto impassível, indecifrável, de modo que ela não percebesse o turbilhão de emoções que a sua oferta desencadeara em seu íntimo.

Ele havia, finalmente, descoberto o bebê ontem, dormindo num cesto perto da janela de um quarto no segundo andar. Precariamente empoleirado num galho de um enorme abeto norueguês, ele estreitara os olhos para ver melhor através da cortina de agulhas de abeto que o ocultavam.

O rosto da criança só era visível de perfil, uma bochecha gorducha descansando sobre o ombro coberto de babados. A touca se deslocara para o lado, de modo que ele pôde ver a curva lisa do minúsculo crânio, coberto com uma leve penugem louro-clara.

‘Graças a Deus que não é ruivo.’, fora seu primeiro pensamento, persignando-se em seguida num agradecimento.
‘Meu Deus, ele é tão pequeno.’, foi seu segundo pensamento, associado a uma intensa necessidade de entrar pela janela e pegar o bebê no colo. A cabeça lisa, tão bem torneada, caberia perfeitamente na palma de sua mão. Pôde sentir, na lembrança, o corpinho agitado que ele segurara por tão pouco tempo junto ao coração. (...)
Lady Dunsany aguardava pacientemente. (...)
- Agradeço-lhe, Milady, mas... acho que não devo ir... por enquanto. (...)
- Como quiser, MacKenzie. Só tem que pedir.”


O capítulo dezesseis (Willie) dá um pequeno salto no tempo e encontramos Jamie com um Willie já um pouco crescido. A cena do episódio em que Lady Dunsany comenta com sua amiga que Willie fica tanto tempo com o cavalariço que está começando a parecer-se com ele também ocorre no livro. É quando Jamie reconhece o perigo de ficar próximo ao seu filho, decidindo então voltar para casa. Assim, como no livro, em “Of lost things”, Willie não aceita bem a partida do seu grande amigo. Eles discutem de uma forma semelhante a da série, parte do diálogo foi extraído do livro e parte acrescentado. Jamie dá um rosário para Willie lembrar-se dele, enquanto no episódio, Jamie lhe dá uma cobra semelhante ao que irmão havia lhe presentado. No livro, quando Jamie entrega o rosário, ele explica que é um “maldito papista” como Lady Dunsany chamava e batiza Willie como “William James” já que o menino decidiu que quer ser papista também como na série. Essa cena ficou muito próxima a do material original. Eu preferia que eles tivessem utilizado o rosário em vez da cobra, mas a explicação que a produção deu foi bastante compreensível. O rosário estava com Jamie desde Lallybroch, mas indo para uma prisão, eles teriam o confiscado lá, principalmente um rosário papista. Pensando de forma lógica, ele deveria ter perdido o rosário em Ardsmuir. Nem sempre DG percebe esses pequenos detalhes e a história acaba ficando com alguns “furos”.


A cena em que Lorde John e Jamie conversam sobre como Lorde John concorda que Jamie deve partir, porque Willie e ele são muito parecidos, e qualquer pessoa pode perceber isso também ocorre no livro, mas no capítulo 59 (Quando há grandes revelações). Assim, como o momento em que ele informa Jamie que casará com Isobel e será padrasto de Willie. Isso aparece no livro em uma espécie de flashback que John conta a Claire. A diferença principal é que em vez de um aperto de mão no final, eles selam o acordo com um beijo na boca. Eu achei que a cena ficou muito bem feita e os atores expressaram uma emoção de arrepiar. Eu consegui sentir a força daquela amizade nos ossos, apesar de não ter visto o beijo entre eles dois. Espero que incluam isso em algum outro momento, talvez da mesma forma que no livro, com John contando para Claire.


Em um momento do episódio, eles retrataram Lorde John e Jamie jogando xadrez. No livro, eles apenas jogavam xadrez oralmente, uma vez que não tinham um tabuleiro.


Originalmente, o leitor não sabe se Lady Isobel tinha conhecimento que Jamie era pai de Willie. Ela não fala isso para ele diretamente, mas Geneva era sua irmã, então não seria algo absurdo que elas compartilhassem segredos. Na verdade, Isobel nem aparece muito e eu gostei que a produção tenha expandido o papel dela. A atriz era muito boa. Criaram uma Isobel mais madura, com falas reflexivas e coerentes, que possibilitaram aproximar a família Dunsany mais do espectador. Acredito que eles tenham colocado Isobel sabendo sobre a paternidade de Willie uma vez que o ator que interpreta Willie não era tão parecido assim com Jamie como no livro, apesar dos mexericos criados no roteiro. Além de que condiz com esse papel de Isobel mais humana e mais próxima do telespectador que eles criaram. Outro detalhe é que Isobel não era apaixonada por Lorde John como na série, mas o casamento provou ser algo adequado para ambos.


A atriz escolhida para fazer Geneva (Hannah James) estava perfeita. Ela conseguiu passar o ar de menina mimada e rica exatamente como no livro. Assim como o casting de Lorde John foi incrível, o dela também foi. Essa temporada está trazendo atores excelentes. Ela pareceu do jeitinho que eu imaginava e conseguiu me transmitir os mesmos sentimentos da leitura. Quanto ao ator que interpreta Willie, eu não o achei parecido com Sam, mas como é uma criança imagino que seja difícil encontrar uma que atue bem e seja parecido com seu co-star. Willie é um personagem que em geral me irrita na maior parte do tempo. Acho-o muito detestável e mimado (bem parecido com a mãe nesse aspecto), e os roteiristas e o ator conseguiram me fazer gostar um pouquinho dele nesse episódio.






O modo como o personagem é retratado na tela é resultado não apenas da atuação, mas também do roteiro. Muitas vezes reclamei que por mais impressionantes que sejam os três atores principais, o fato dos roteiristas mudarem a essência de seus personagens, acrescentando atitudes por vezes opostas ao seu caráter ou muito distintas do que eles fariam me incomodava muito. Neste episódio, eu enxerguei a Geneva de “O Resgate no mar” e, por enquanto, eles estão mantendo meu John como no livro. Exceto aquele cabelo que está competindo com o vestido de A Bela Adormecida para saber com que cor vai ficar... loiro... castanho.... loiro.... castanho, estava esperando a qualquer momento aparecer uma fada Primavera e outra Flora com varinhas em riste, gritando “melhor loiro!”, “melhor castanho!”. Produção, decida-se porque isso está estranho. O cabelo não pode ficar mudando de cor como em um passe de mágica.



Claire (1968)



No início do episódio, Fiona cita a lenda do Dunbonnet e cogita a possibilidade de ele ser “Jamie, o ruivo”. No capítulo três, é Brianna quem trás a tona o mito dessa figura histórica e que ele poderia ser seu pai; enquanto na série, ela acredita que isso realmente seja uma lenda. No capítulo sete, a história do Dunbonnet volta à pauta pelas contos de Fiona. No episódio, ele é apenas mencionado, a narrativa de sua lenda não é contada. É neste capítulo também que Claire descobre que Jamie esteve na prisão de Ardsmuir entre 1753 a 1756, ela encontra isso enquanto pesquisava de madrugada sozinha; no episódio, a filha e Roger também estavam presentes já que ainda estavam em seu momento diurno de pesquisa. Quando Fiona conta a lenda, ela diz que o Dunbonnet armou um plano para se entregar aos ingleses de forma que seus arrendatários ficassem com o ouro de recompensa. Olhando a lista de prisioneiros, ela acha o seu nome em Ardsmuir. Sabendo que Jamie estava em Ardsmuir até 1756, eles precisam estabelecer onde ele estava em 1766, e aí outra parte da pesquisa começa.

Os roteiristas resumiram os capítulos da pesquisa de Roger, Brianna e Claire para encontrar Jamie, o que foi uma coisa boa porque esses capítulos são bem enfadonhos. No episódio, após descobrirem que Jamie estava em Ardsmuir até 1756, eles passaram a procurar por seu nome nas listas de passageiros de navios, acreditando que possivelmente ele havia sido enviado para as Colônias. Quando não encontram nada, Claire e Brianna desistem e voltam para Boston. No capítulo dezoito, Claire retorna para Boston sem Brianna, que continua na Escócia. Dra. Randall tem que resolver algumas pendências na sua vida (suas férias haviam acabado) e queria conversar com Joe, enquanto sua filha e Roger continuam a pesquisa.

Uma modificação importante que fizeram e que foi (talvez) sanada neste episódio foi em relação às pérolas de Ellen. No livro, Claire havia as guardado e depois as entrega a filha, que as utiliza como prova para atestar que Claire era sua mãe em “Tambores do Outono”. Na série, Claire havia se livrado de todos os bens materiais que a lembravam de Jamie com exceção da aliança. Para trazer as pérolas de volta, eles fizeram Fiona, neta da Sra. Graham, devolver as pérolas a Claire. Posso apenas supor (e torcer!) então que a produção retornou o colar para Claire realmente o entregar a Bree.






O final do episódio foi um dos mais bonitos até agora. A trilha sonora combinou perfeitamente com o sentimento de despedida em ambos os períodos históricos. Jamie, que já havia perdido Claire, e duas filhas, agora dizia adeus para mais um filho; e talvez o mais difícil, ele dizia adeus para um filho que ele chegou a conhecer por seis anos. Dizia adeus para seu melhor amigo e para a identidade que havia tomado em Helwater, Alex Mackenzie, mas ganhava Lallybroch e parte da sua família de volta. Claire perdeu mais uma vez o seu grande amor e a esperança de encontrá-lo. Deu adeus a Roger e à Escócia, mas recebeu de volta mais uma coisa perdida: as pérolas, e o mais importante, um relacionamento mais verdadeiro com a filha Os Dunsany perderam a filha, mas ganharam um neto. Lorde John separou-se do amigo e grande amor, mas ganhou uma família; e não qualquer uma, ,mas uma que carregava os mesmos olhos azuis puxados e a mesma teimosia de seu parceiro de xadrez. Willie perdeu o amigo; a figura heroica que enxergava no seu querido Mac, mas ganhou um pai. “A vida é a perda lenta de tudo o que amamos”, pode até ser assim, mas algumas coisas são perdidas para que outras possam ser achadas. Parafraseando Cervantes, só se perde tudo quando se perde a coragem, e isso nossos personagens têm de sobra. É essa coragem que vai trazer Claire de volta para Jamie. E nós aguardamos ansiosos por esse reencontro.

Por Tuísa Sampaio
27 setembro 2017

Livros x Série de TV- Episódio 03: All debts paid



Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 03: All debts paid


O terceiro episódio desta temporada “All debts paid” adapta trechos dos capítulos oito (Prisioneiro da honra), nove (O andarilho), dez (A maldição da bruxa branca), onze (O gambito torremolinos), o iniciozinho do capítulo 14 (Geneva) e um flashback de Claire no capítulo 19 (Aplacar um fantasma) de “O Resgate no mar”.

Jamie (1755-1756)


Jamie agora é um prisioneiro em Ardsmuir, Escócia. O capítulo oito inicia-se com uma conversa entre Lorde John, o novo diretor da prisão, e Coronel Harry Quarry, o seu predecessor a qual envolve o modo como a cadeia funciona, a quantidade de presos, sobre o ouro dos franceses e fala sobre o “acordo” que tem com Jamie Fraser de jantar com ele, enquanto o escocês lhe conta as necessidades dos prisioneiros. No episódio, apenas um trecho dessa conversa, a qual é originariamente bem mais extensa é exposta. Neste diálogo, Quarry, que era um amigo da família de Grey, menciona que ele não sabe o que John tinha feito para ter recebido esse posto, mas esperava que ele merecesse para seu próprio bem. Essa fala acaba pertencendo a Jamie em “All debts paid” na cena em que ele e Lorde John se encontram em seu gabinete.  Ademais, eles mudaram as características completamente de Harry, uma vez que ele era conhecido por ser bonitão e era um dos melhores amigos de Hal, Lorde Melton, irmão de Grey e, portanto, tinham uma idade aproximada a dele (John tinha vinte seis anos quando foi enviado a Ardsmuir, nesta época Hal tinha em torno de trinta e cinco) e o ator no episódio é bem mais velho. Quanto ao motivo de ter sido imposto esse “castigo” que era o cargo de diretor de Ardsmuir, nada é realmente deixado explícito nos livros, mas por dicas deixadas nas reflexões de John e por alguns comentários de Diana, seu exílio teve algo a ver com um quase escândalo entre John e seu amante George Everett (o relacionamento sexual/amoroso entre homens naquele período era crime), e muito provavelmente teve um dedo de Hal no meio para evitar que o nome da família ficasse mais manchado do que já estava (o patriarca Grey foi acusado de ser um traidor jacobita antes da sua morte, o que foi algo que desonrou o sobrenome deles). É mencionado durante a conversa ente Grey e Quarry, que Jamie em Ardsmuir é conhecido como Mac Dubh. No episódio, o coronel acredita que a expressão tem  algum significado de respeito. No capítulo, Harry diz que um dos soldados que fala gaélico disse-lhe que Mac Dubh é um diminutivo da de Seumas, mac an fhear dhuibh, que seria traduzido como “James, filho do negro”. O “negro” aqui faz referência aos cabelos negros do pai de Jamie, que era conhecido com Black Brian ou Brian Duhb.[1]

A cena tanto no capítulo quanto no livro muda para a conversa dos jacobitas com Jamie sobre o novo diretor. Em termos de conteúdo o diálogo é bem similar, a grande divergência vem com a aparição de Murtagh durante o episódio como um dos presos (no livro, Murtagh havia morrido em Culloden). Para uma parte do Fandom, uma alegria; para a outra, nem tanto. O Murtagh vivo tem gerado controvérsias. Aqueles que não gostam de nenhum tipo de desvio dos livros odiaram essa situação, entretanto uma parte do fandom tinha feito campanha nas redes sociais (Save Murtagh) para que o padrinho de Jamie continuasse vivo na série. Ron, produtor-executivo de Outlander, explica em uma entrevista a Mashable o porquê da decisão:

O desenvolvimento de Murtagh na série é diferente do dos livros basicamente desde o início. Nós o fizemos um personagem muito mais importante na história, mais próximo a Jamie e ele entrou no segredo [de Claire] em Paris. Ele tornou-se parte da família de uma forma diferente da dos livros. E eu não estava pronto para deixá-lo partir após Culloden. Ele vai sobreviver e vamos encontrá-lo mais tarde, vamos mantê-lo.

Meu palpite é que mantiveram Murtagh vivo na série de TV por duas razões. A primeira sendo fan service mesmo já que o personagem era muito amado principalmente na versão das telas; as segunda seria por questão de logística.  Acredito que eles irão fazer Murtagh substituir Duncan Innes (personagem que aparece em Tambores do Outono), seguindo um raciocínio parecido com o que os produtores de Game of thrones fizeram ao colocar a personagem Sansa para fazer a história de Jeyne Poole. Eles já tinham um ator contratado, em vez de descartá-lo e ter que fazer um novo casting, introduzir um novo personagem, organizar uma agenda com uma nova pessoa, eles vão usar esse ator que já está à disposição deles e que eles sabem que funciona em tela. Com o adendo de agradar a parcela de fãs que realizou a campanha do “Save Murtagh”. Eu gostei que mantiveram Murtagh vivo porque nunca quis que ele tivesse morrido, além de que Murtagh-série me conquistou muito mais que Murtagh-livro, o primeiro é mais carismático. Já perdi muito personagem amado, não queria perdê-lo também. Acho que foi um desvio em relação aos livros que se assenta bem na história, entretanto esse com certeza é um tema polêmico que continuará dividindo opiniões no fandom por um bom tempo.
Continuando no capítulo, Grey escreve uma carta para sua mãe, lembra-se de quando conheceu Jamie em Culloden, e de Hector, seu primeiro amor, que morreu no batalha final do levante. Já o episódio pula para o jantar de Grey em que ele se depara com um enorme rato o que também ocorre no livro ensejando uma conversação entre ele e McKay bem similar a do livro e encerrando o oitavo capítulo.
Iniciando “O andarilho” (capítulo nove) John Grey escuta sobre um caminhante que falava quase unicamente em francês e gaélico sobre um ouro (o ouro do francês como era conhecido havia sido supostamente enviado pelo Rei Louis da França para Charles Stuart, entretanto nunca foi encontrado), é quando então ele decide falar com Fraser (em “All debts paid”, ele comunica-se com Jamie no jantar onde há a conversa sobre ratos com McKay), uma vez que ele era o único ali que falava as duas línguas. O major faz a proposta a Fraser de que se ele for intérprete desta situação, ele vai retirar suas algemas. A discussão no livro é bem semelhante a do episódio, mas sem a parte em que Jamie perde remédios e cobertores (isso só é pedido em um encontro mais a frente entre eles, assim como o pedido para colocarem armadilhas). No capítulo ele contenta-se em ter suas algemas retiradas. Jamie reporta a John a conversa que teve com o moribundo, a qual não faz muito sentido, pois eram palavras soltas sobre feiticeiras brancas e focas. Na série, John fica desconfiado de que possa haver mais alguma coisa. No livro, o major já começava a ter sentimentos por Fraser então essa desconfiança não aparece. Um  detalhe era que Duncan Kerr era um conhecido de Jamie, foi um arrendatário de seu tio Colum, mas isso não é mencionado no episódio. No capítulo, enquanto retornam para Ardsmuir, Jamie cata agrião e fala sobre Claire e seu conhecimento sobre plantas e como elas deixam os dentes fortes e previnem escorbuto e por fim, conta que ela se foi. No episódio, essa conversa ocorre quando Jamie vai finalmente jantar com Lorde John e ele solicita que os prisioneiros possam fazer armadilhas para pegar animais e colher as plantas verdes. Na continuação do capítulo, John é informado sobre a fuga de Jamie, mas acaba o reencontrando e recapturando-o, ou melhor, Jamie deixa-se ser capturado. No episódio, assim também acontece, mas Jamie quando encontra Lorde John menciona que ele lembra quem ele é  e pede para que o major cumpra sua promessa final e o mate, o que não acontece. Em seguida, em “All debts paid”, Jamie conta a Grey que a conversa entre ele e Duncan Kerr tinha um significado especial para ele uma vez que o andarilho mencionou uma bruxa branca, a qual ele pensou que poderia ser sua esposa. Ele afirma então que o tesouro era uma lenda, porque tudo o que achou foi uma caixa vazia com uma pequena safira. No capítulo 10 (A maldição da bruxa branca), é onde é descrita a conversa entre Jamie e Duncan, que na adaptação já tinha aparecido. Jamie recusa-se inicialmente a dizer o motivo de sua fuga para Grey e depois disso é que Lorde John o convida para jantar como forma de conseguir fazer Jamie falar algo sobre o ouro, acreditando que devido a fuga, ele sabia mais do que demonstrava. Depois, eles começam a ter encontros para jogar xadrez. Em um desses jantares, Grey ameaça a família de Jamie em Lallybroch, é quando então Jamie conta o motivo de ele ter escapado. Também afirma que encontrou um tesouro que não era francês, mas que o jogou no mar e entrega a safira como prova.



Em um dos jogos de xadrez, eles conversaram sobre Claire e Hector, o que também aparece no episódio, mas a cena na tela foi fundida com outra, quando Lorde John toca na mão de Jamie o que só ocorre em outro momento. Por causa desse toque, no capítulo seguinte, Jamie assume a culpa por portar um tartã, obrigando Lorde John a açoitá-lo como castigo, já que portar esse tecido tinha sido proibido. Ele fez isso para afastá-lo, mas no episódio isso não aparece. Eu até imaginei que eles fossem inserir isso quando vi Murtagh com um pedaço de tartã, mas não foi dessa vez. A parte final da história de Jamie neste episódio acontece quando a prisão é fechada e os prisioneiros são transferidos para as Colônias americanas para fazerem trabalhos forçados. Fraser, entretanto, é levado por Lorde John a outro local: Helwater. No início do capítulo catorze (Geneva), Lorde John sugere a Jamie usar outro nome enquanto estiver trabalhando na propriedade assim como no episódio já que Lorde Dunsany havia perdido o filho em Prestonpans.

David Berry, ator que interpreta Lorde John, foi um dos melhores achados desta série. Não apenas é lindo e realmente parece um Lorde inglês, como sua atuação é realmente digna de dividir as telas com Sam e Caitriona. O personagem de Lorde John Grey já tinha meu coração, agora David Berry também o tem.

Claire (1956-1966)


Na linha histórica de Claire mais uma vez só foi usada uma passagem do livro, a qual falarei mais à frente. Focarei primeiramente em uma mudança realizada na vida de Claire com Frank que muito me incomodou.  No episódio, logo na primeira cena, durante um café da manhã em que Claire convida o marido para ir ao cinema, o telespectador descobre que o casal tem algum tipo de acordo em que ambos poderiam “ver” outras pessoas contanto que fossem discretos. No livro, Claire suspeita e depois tem a certeza que Frank teve amantes (no plural mesmo) ao longo do casamento. Ela se incomoda com isso, por vezes tem raiva, mas faz vista grossa porque considera isso uma forma de vingança dele, MAS ELA JAMAIS aceita isso na boa ou faz algum tipo de acordo de “relacionamento aberto”. Na série isso é provavelmente consequência de eles não dormirem na mesma cama e nem terem mais um relacionamento sexual aparentemente. Entretanto no livro, sabe-se que ao longo do casamento eles mantem um relacionamento sexual mesmo que seja para diminuir a solidão e compartilham a cama. Existem várias passagens do livro que demonstram que apesar de não haver mais paixão, eles mantinham um casamento em que havia parceria e amizade. Por exemplo, quando Claire começa a estudar medicina, ela chega um dia mais tarde em casa e a babá de Brianna não tinha a esperado e a menina acabou saindo para rua, sofrendo um acidente. Isso a desespera de uma forma que a faz pensar em desistir da faculdade. Frank enxergando nela a paixão pela profissão não a deixa fazer isso e passa a levar Brianna para o escritório dele enquanto Claire está na aula. Essa mudança feita pela produção só quer arranjar uma justificativa para “traição” de Frank (que deixa de ser traição já que Claire concorda com ela) de forma a pintá-lo como uma pobre alma atormentada e Claire como a esposa insensível e fria. Pela razão de que por mais que não tivessem um casamento apaixonado, eles tinham um casamento de parceria, ficou algo totalmente deslocado colocar em tela uma cena em que há uma saída para celebrar a formatura de Claire sem o marido e ele trazendo a amante para casa. Representou não apenas uma falta de respeito, como da amizade e carinho de um pelo outro.  Quando Claire confronta Frank sobre ter trazido a amante para casa, eles conversam sobre divórcio, mas ele se recusa porque não quer ficar longe da filha e não acredita que Claire vá manter a palavra de deixá-la próxima a ele. Outro ponto é que na conversa final entre eles quando Claire fala que já sabia de suas amantes, no livro, Frank pergunta por que ela nunca lhe falou nada, ele ficou irritado com o fato de ela não ter reclamado, dá a entender que por mais que ele tentasse ser discreto, ele queria que ela sentisse um pouco de ciúmes e fazia isso para que ela de alguma forma mostrasse que ainda o amava.

O trecho que foi adaptado direto do livro é a discussão final quando Frank decide deixar Claire para em seguida morrer em um acidente de carro. O conteúdo da conversa na adaptação foi bem semelhante ao do material original, presente no capítulo dezenove:

“—Não vem para cama, Claire? Já passa da meia-noite. - Frank ergueu os olhos para mim por cima do livro. Ele próprio já estava instalado na cama, lendo com o livro apoiado nos joelhos. A suave poça de luz do abajur fazia com que parecesse estar flutuando numa bolha aquecida, serenamente isolado da escuridão fria do resto do quarto. Já era quase janeiro e, apesar dos melhores esforços da fornalha, o único lugar realmente quente à noite era a cama, sob pesados cobertores.
Sorri para ele e levantei-me da poltrona, deixando o grosso robe de lã deslizar dos meus ombros.
— Você não dormiu por minha causa? Desculpe-me. Só estava repassando a cirurgia de hoje de manhã.
— Sim, eu sei — disse ele secamente. — Eu sei só de olhar para você. Seus olhos ficam vitrificados e sua boca fica aberta.
— Desculpe-me — repeti, no mesmo tom seco. — Não posso me responsabilizar pelo que meu rosto faz quando estou pensando.
— Mas de que adianta pensar? — perguntou ele, colocando um marcador entre as páginas do livro. — Você fez tudo que podia... se preocupar com isso agora não vai mudar... ah, bem. — Deu de ombros com irritação e fechou o livro. — Já disse tudo isso antes.
— Já, sim — retruquei laconicamente. Entrei na cama, tremendo levemente de frio, e enfiei minha camisola em volta de minhas pernas. Frank automaticamente moveu-se em minha direção e eu deslizei por baixo dos lençóis para o lado dele, aconchegando-nos para unir nosso calor contra a friagem. (...)Frank resmungou quando desliguei a luz e me enfiei na cama outra vez, mas após um instante, ele rolou na cama para junto de mim, passando um braço por cima da minha cintura. Fiquei de lado e encolhi-me contra ele, relaxando gradualmente, conforme os dedos congelados dos meus pés degelavam. (...)— Estive pensando. — A voz de Frank veio da escuridão às minhas costas, excessivamente descontraída. — Hummm? — Eu ainda estava absorvida na visão da cirurgia, mas esforcei-me para voltar ao presente. — Sobre o quê? — Meu ano sabático. — Sua licença da universidade estava programada para começar dentro de um mês. Ele planejara fazer uma série de pequenas viagens pelo nordeste dos Estados Unidos, coletando material, depois iria para a Inglaterra por seis meses, retornando a Boston para passar os últimos três meses da licença escrevendo. — Eu havia pensado em ir direto para a Inglaterra — disse ele cautelosamente.
— Bem, por que não? O clima estará terrível, mas se vai passar a maior parte do tempo em bibliotecas...
— Quero levar Brianna comigo. Fiquei paralisada, o frio no quarto repentinamente se aglutinando em um pequeno grumo de suspeita na boca do estômago.
— Ela não pode ir agora, falta apenas um semestre para se formar. Certamente você pode esperar até nós irmos ao seu encontro no verão, não é? Já entrei com o pedido de férias de verão e talvez...
— Eu vou agora. Definitivamente. Sem você. Afastei-me abruptamente e sentei-me na cama, acendendo a luz. Frank estava deitado, piscando, os cabelos escuros desgrenhados. Tornaram-se grisalhos nas têmporas, conferindo-lhe um ar distinto que parecia ter efeitos alarmantes nas suas alunas mais suscetíveis. Eu me sentia surpreendentemente calma.
— Por que agora, de repente? Ela está pressionando-o, é isso?
O olhar de espanto que atravessou seus olhos foi tão evidente que que atravessou seus olhos foi tão evidente que chegou a ser cômico. Eu ri, com uma visível falta de humor.
— Você realmente pensava que eu não sabia? Meu Deus, Frank! Você é a pessoa mais... desligada que conheço!
Ele sentou-se ereto na cama, os maxilares contraídos.
— Achei que eu era discreto.
— Você pode até ter sido — disse ironicamente. — Contei seis nos últimos dez anos. Se houve cerca de uma dúzia, então você foi um modelo de discrição.
Seu rosto raramente demonstrava grande emoção, mas uma lividez em torno de sua boca disse-me que ele estava furioso de verdade.
— Esta deve ser muito especial — eu disse, cruzando os braços e recostando-me na cabeceira da cama com presumida descontração. — Mesmo assim, por que a pressa em ir para a Inglaterra agora, e por que levar Bree?
— Ela pode ir para um internato para terminar o último período — disse ele de maneira sucinta. — Será uma nova experiência para ela. — Não uma experiência que eu ache que ela queira — eu disse. — Ela não vai querer deixar seus amigos, especialmente logo antes da formatura. E certamente não para ir para um internato inglês! — Estremeci diante da ideia. Eu mesma quase fora confinada numa instituição desse tipo quando criança; o cheiro da lanchonete do hospital às vezes evocava lembranças daquela escola, junto com as ondas de terror e desamparo que eu sentira quando tio Lamb me levou para conhecer o lugar.
— Um pouco de disciplina não faz mal a ninguém — disse Frank. Mostrava-se mais sereno, mas as linhas de seu rosto ainda estavam tensas. — Teria lhe feito bem. — Abanou a mão, descartando o assunto. — Deixe isso pra lá. De qualquer modo, resolvi voltar para a Inglaterra definitivamente. Ofereceram-me um bom cargo em Cambridge e pretendo aceitá-lo. Você não vai deixar o hospital, é claro. Mas não pretendo deixar minha filha para trás.
— Sua filha? — Senti-me de repente sem fala. Então ele tinha um novo emprego completamente arranjado e uma nova amante para acompanhá-lo. Portanto, havia planejado tudo durante bastante tempo. Uma vida inteiramente nova, mas não com Brianna.
— Minha filha — disse ele calmamente. — Você pode vir nos visitar sempre que quiser, é claro...
— Seu... maldito... canalha! — disse.Seja razoável, Claire. — Olhou-me de cima, com aquele ar de longa paciência e tolerância, reservado para alunos de notas baixas. — Você quase nunca está em casa. Se eu não estiver aqui, não haverá ninguém para cuidar de Bree adequadamente.
— Você fala como se ela tivesse oito anos e não quase dezoito! Pelo amor de Deus, ela é quase uma adulta. — Mais razão ainda para precisar de atenção e supervisão — retrucou ele. — Se você visse o que eu vejo na universidade... bebidas, drogas e...
— Eu sempre vejo — eu disse entre dentes. — Bem de perto, na sala de emergência. Bree não vai...
— Claro que vai! As jovens não têm nenhuma noção nesta idade, ela vai sair com o primeiro sujeito que... — Não seja idiota! Bree é muito sensata. Além do mais, todos os jovens experimentam, é assim que aprendem. Não pode mantê-la presa em casa a vida toda. (...)E também não vai mesmo. Ela vai para a Inglaterra comigo.
— Não, se ela não quiser — disse, com decisão.
Sem dúvida percebendo que sua posição o colocava em desvantagem, Frank saiu da cama e começou a tatear em busca dos chinelos. — Não preciso de sua permissão para levar minha filha para a Inglaterra — disse ele.
— E Bree ainda é menor de idade, terá de ir para onde eu disser. Agradeço se puder me dar seu histórico médico, a nova escola vai pedir.
— Sua filha? — disse outra vez. Notei vagamente a friagem no quarto, mas estava com tanta raiva que sentia todo o corpo afogueado. — Bree é minha filha e você não vai levá-la a lugar algum!
— Não pode me impedir — ressaltou ele, com uma calma irritante, pegando o robe aos pés da cama.
— É o que você pensa — eu disse. — Quer se divorciar de mim? Muito bem. Use qualquer motivo que quiser, com exceção de adultério, que não pode provar, porque não existe. Mas se tentar levar Bree com você, terei uma ou duas coisas a dizer a respeito de adultério. Quer saber quantas amantes que você abandonou foram me procurar para me pedir que abrisse mão de você?
Ele ficou boquiaberto, em estado de choque.
— Eu disse a todas elas que abriria mão de você na mesma hora — continuei —, se você pedisse. — Cruzei os braços, enfiando as mãos sob as axilas. Estava começando a sentir a friagem outra vez. — Na verdade, sempre me perguntei por que você nunca pediu, mas imagino que tenha sido por causa de Brianna.
Seu rosto ficara completamente exangue, assomando branco como um crânio na penumbra do outro lado da cama.
— Bem — disse ele, com uma fraca tentativa de recompor o seu autocontrole habitual —, eu não achei que se importasse. Você nunca fez nenhuma tentativa de me impedir. Fitei-o, completamente surpresa. — Impedi-lo? — disse. — O que eu deveria ter feito? Abrir sua correspondência com vapor e sacudir as cartas sob seu nariz? Fazer uma cena na faculdade na festa de Natal? Queixar-me com o reitor?
Apertou os lábios com força por um instante, depois relaxou.
— Poderia ter demonstrado que se importava — disse ele à meia voz.
— E me importava. — Minha voz soou entrecortada.
Ele sacudiu a cabeça, ainda me fitando, os olhos escuros à luz do abajur. — Não o suficiente. — Parou, o rosto flutuando, pálido, no ar acima de seu robe escuro, depois deu a volta na cama para colocar-se ao meu lado. — Às vezes, eu me perguntava se teria o direito de censurá- la — disse ele, quase pensativamente. — Ele se parecia com Bree, não é? Ele era como ela?
— Sim.
Respirou ruidosamente, quase arfando.
— Eu podia ver em seu rosto... quando você olhava para ela, podia ver você pensando nele. Droga, Claire Beauchamp — disse ele, quase num sussurro. — Você e esse seu rosto que não consegue esconder nada do que pensa ou sente.
Houve um silêncio depois disso, do tipo que nos faz ouvir todos os minúsculos e quase inaudíveis ruídos de madeira estalando e casas respirando quando tentamos fingir que não ouvimos o que acabou de ser dito.
— Eu realmente amei você — eu disse baixinho, finalmente. — Um dia.
— Um dia — repetiu ele. — Devo ficar agradecido por isso?
A sensação começava a voltar aos meus lábios dormentes.
— Eu lhe contei — disse. — E depois, quando você não quis ir embora... Frank, eu realmente tentei.
O que quer que ele tenha ouvido em minha voz o fez parar por um instante.
— Mesmo — acrescentei, num sussurro.
Ele virou-se e dirigiu-se à penteadeira, onde ficou tocando nos objetos agitadamente, apanhando-os e colocando-os de novo sobre o móvel, aleatoriamente.
— No começo, eu não podia deixá-la... grávida, sozinha. Só um canalha o faria. E depois... Bree. — Olhou cegamente para o batom que segurava na mão, depois o colocou delicadamente de volta no tampo lustroso. — Não podia abrir mão dela — disse ele baixinho. Virou-se para olhar para mim, os olhos eram dois buracos escuros num rosto ensombreado. — Sabia que eu não podia gerar um filho? Eu... fiz um exame, há alguns anos. Sou estéril. Sabia?
Sacudi a cabeça, sem conseguir falar.
— Bree é minha, minha filha — disse ele, como se falasse consigo mesmo. — O único filho que terei. Não podia abrir mão dela. — Deu uma risada curta. — Eu não podia abrir mão dela, mas você não podia vê-la sem pensar nele, não é? Sem essa lembrança permanente, eu me pergunto... você o teria esquecido com o tempo?
— Não. — A palavra, apenas um murmúrio, pareceu percorrê-lo como um choque elétrico. Ficou paralisado por um instante, depois girou nos calcanhares, dirigiu-se ao closet e começou a vestir roupas por cima do pijama. Fiquei parada, os braços em volta do corpo, observando-o vestir o sobretudo e sair do quarto batendo os pés, sem olhar para mim. A gola de seu pijama de seda azul sobressaía por cima da borda de astracã do seu casaco. Instantes depois, ouvi a porta da frente se fechar — ele teve suficiente presença de espírito para não batê-la — e, em seguida, o barulho de um motor frio hesitante em pegar. Os faróis varreram o teto do quarto quando o carro saiu de ré da garagem e depois foi embora, deixando-me trêmula junto à cama desfeita.
Frank não voltou. Tentei dormir, mas continuava deitada rigidamente na cama fria, mentalmente revivendo a discussão, ouvindo o ruído dos pneus no caminho da garagem. Por fim, levantei-me e me vesti, deixei um bilhete para Bree e também saí. O hospital não me telefonou, mas fui para lá assim mesmo (...).Deve ter sido uma meia hora mais tarde quando uma enfermeira da emergência atravessou apressadamente a porta de vaivém e parou abruptamente ao me ver. Então, aproximou-se, muito devagar.
Eu soube imediatamente; eu já vira médicos e enfermeiros comunicarem notícias de morte muitas vezes para me enganar com os sinais. Com muita calma, sem sentir absolutamente nada, coloquei a xícara quase cheia sobre a mesa, percebendo, enquanto o fazia, que pelo resto da minha vida eu me lembraria que havia uma lasca na borda da xícara e que o B das letras douradas na lateral estava quase apagado. — ... que você estaria aqui. A identidade em sua carteira... a polícia disse... neve sobre gelo, uma derrapagem... já chegou morto... — A enfermeira continuava a falar, balbuciando, enquanto eu atravessava a passos largos os corredores brilhantemente brancos, sem olhar para ela, vendo os rostos das enfermeiras do posto virarem-se para mim em câmara lenta, sem saber, mas vendo, com um relance de olhos para mim, que algo terrível acontecera.
Ele estava em uma maca, em um dos cubículos da sala de emergências; um lugar anônimo, espartano. Havia uma ambulância estacionada do lado de fora — talvez a que o trouxera. As portas no final do corredor estavam abertas para o amanhecer glacial. A luz vermelha da ambulância pulsava como uma artéria, banhando de sangue o corredor. Toquei-o de leve. Seu corpo possuía aquela sensação plástica, inerte, dos que acabaram de morrer, tão em desacordo com a aparência de vida. Não havia nenhum ferimento visível; qualquer dano estava escondido sob o cobertor que o cobria. Sua garganta estava lisa e morena. Não havia nenhuma pulsação na base do seu pescoço.
Fiquei ali parada, a mão na curva imóvel de seu peito, olhando para ele como não olhava havia algum tempo. Um perfil forte e delicado, lábios sensíveis, nariz e maxilares perfeitamente cinzelados. Um homem bonito, apesar dos sulcos ao redor da boca, rugas de decepção e raiva contida, rugas que nem o relaxamento da morte conseguia apagar.
Permaneci completamente imóvel, ouvindo. Podia ouvir o lamento de outra ambulância se aproximando, vozes no corredor. O rangido de rodas de maca, a estática de um rádio de polícia e o zumbido suave de uma luz fluorescente em algum lugar. Compreendi com um susto que eu estava tentando ouvir Frank, esperando... o quê? Que seu espírito estivesse pairando ali por perto, ansioso para terminar nossa discussão inacabada? Fechei os olhos para fugir à perturbadora visão daquele perfil imóvel, ficando vermelho e branco e vermelho outra vez, alternadamente, conforme a luz da ambulância pulsava pelas portas abertas.
— Frank — disse num sussurro, para o ar gelado, agitado —, se ainda estiver perto o suficiente para me ouvir... eu realmente o amei. Um dia. Mesmo.
Então Joe surgiu, abrindo caminho pelo corredor apinhado de gente, o rosto ansioso acima da roupa verde do hospital. Viera diretamente da sala de cirurgia; havia respingos de sangue nas lentes de seus óculos, uma mancha de sangue no peito também.
— Claire — ele disse —, meu Deus, Claire!
E eu comecei a tremer. Em dez anos, ele nunca me chamara de outro modo senão de “Jane” ou “L. J.”. Se ele estava usando meu nome, aquilo devia ser real. Vi minha mão extraordinariamente branca na mão escura de Joe, depois vermelha à luz pulsante. Em seguida, virei-me para ele, sólido como um tronco de árvore, descansei a cabeça em seu ombro e — pela primeira vez — chorei por Frank.”

A história de Jamie na série de TV é a que tem mais me agradado por enquanto nesta temporada, por estar mais fiel aos livros. Eu até gosto da ideia de ver os anos passando entre Claire, Frank e Bree, mas as mudanças no relacionamento de Frank e Claire foram decepcionantes para mim. Frank, como a maioria dos personagens de Diana tem várias facetas, tem suas qualidades e defeitos; porém os produtores teimaram em criar um Frank mártir, o qual até quando cometia erros, esses não eram meramente resultado de seu caráter, mas da pobre situação familiar em que vivia. Diversas vezes ao longo das temporadas, a produção realizou algumas modificações para colocar em pauta o empoderamento feminino ou de forma a mostrar a opressão das mulheres na História. A partir daí fica a reflexão: até que ponto, eles realmente querem valorizar o papel feminino, quando recriam um personagem masculino para que ele vire uma caricatura do seu original e o infantilizam, retirando a responsabilidade de suas atitudes ou colocando justificativas onde não deveria haver? Os seres humanos comentem erros, desvios ao longo da vida, por que Frank-série não tem o direito de ser dono dos seus próprios equívocos, das suas imperfeições? Frank-livro é um personagem que me trouxe sentimentos contraditórios durante a narrativa, principalmente pelo relacionamento entre ele e Bree me fazer lembrar do meu próprio pai, mas Frank-série é uma mera sombra do personagem criado por Diana, modificado para ser digno de pena.




No próximo episódio, Jamie estará em Helwater e finalmente o veremos com aparência de highlander saudável com aqueles lindos cabelos ruivos, nutridos e limpos. Já estava cansada daquela cor de pele gangrena-zumbi que ele estava na prisão, estava com saudade do meu Jaminho com aparência de gente viva. Até mais ;)

Por Tuísa Sampaio




[1] Na versão oficial do livro lançado no Brasil “Mac Dubh” foi traduzido como “filho do coisa ruim”. A expressão em inglês é “son of the black one”. No capítulo dez, Jamie explica que seu apelido veio de seu pai: “E isso foi o que as pessoas disseram, quando ela saiu de casa, para fugir com Brian Dubh Fraser, o homem com os cabelos negros de uma silkie. O homem em razão do qual ele próprio era agora chamado de Mac Dubh- o filho de ‘Black Brian’.” Assim, o apelido não é uma referência a um demônio como traduzido, mas a seu pai. 

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