Lallybroch
14 novembro 2018

Livro x Série de TV- episódio 2 : “Do no Harm”




Livro x série de TV- episódio 2 : “Do no Harm”




Contém spoilers do episódio e dos livros



“Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre”
Martin Luther King 



O título desse segundo episódio “Do no harm” significa “fazer mal algum/fazer nenhum mal” em referência ao código de ética médico em que isso é prometido, sendo uma frase derivada do juramento de Hipócrates. Ele adaptou a parcialmente a parte IV (River Run) do romance que vai dos capítulos dez a um pedaço do treze. 


- River Run



O capítulo dez (Jocasta) inicia-se com a chegada dos Fraser a River Run. Enquanto o Sally Ann vai atracando, os passageiros sentem um forte cheiro de terebintina e rum que leva a Jamie e Ian a uma discussão sobre discernir qual é qual. Jamie fala para Ian se arrumar, e eles conversam sobre o que terão para jantar e se Jamie contará a Jocasta sobre o ataque dos piratas. No episódio, Jamie fala com Claire sobre a morte de Lesley (o que não ocorre no livro, uma vez que ele não estava presente) e sente-se culpado por ter ajudado Stephen Bonnet a escapar da justiça, enquanto Claire o consola. No livro, além de jovem Ian, Fergus também acompanha os Fraser; no episódio, Fergus está ausente. A emoção de Jamie ao se encontrar com sua tia foi expressa tanto no livro quando nas telas, Claire acredita que isso ocorra pela semelhança de Jocasta com a mãe de Jamie. No episódio, Jamie afirma que elas são realmente muito parecidas. Em ambas as mídias, Jocasta expressa a surpresa com o tamanho do sobrinho, porém no livro ela ainda o compara a Dougal. A família entra em River Run em meio a brincadeiras de Fergus e Ian, como na série Fergus não estava presente, isso não ocorre, e Jocasta logo é apresentada a Rollo diferentemente do livro. No episódio, nesse primeiro encontro a beira do rio, Jocasta comenta sobre sua cegueira, para explicar o porquê Ulysses teve que informa-la sobre o ramalhete que jovem Ian carregava como presente. Isso, entretanto, não ocorre no material original, sendo Claire quem nota a deficiência visual algumas cenas mais a frente. A parte da conversa na sala entre Jocasta, Jamie e Claire é semelhante a do livro, salvo que neste ela é mais longa, englobando lallybroch. Jocasta fala em refazer a fortuna de Jamie mais como uma torcida do que como bajulação como foi na série e jovem Ian encontra na sala quadros que foram pintados pela tia-avó. Enquanto na adaptação jovem Ian adentra a sala com um Rollo fedendo a gambá; no livro, eles começam a perceber a chegada do gambá pela agitação de Rollo, e Jamie acreditava ser um animal perigoso. Foi nessa confusão do gambá, em que Jocasta não conseguia entender o que estava acontecendo, que Claire percebeu a cegueira dela. Essa percepção é confirmada por Jocasta quando vão todos dá um passeio (exceto Fergus que pretende ir a cidade enviar notícias a Marsali na Jamaica) e ela comenta sobre apenas conseguir enxergar luzes. Dra. Fraser passa então a matutar sobre um possível diagnóstico para a cegueira de Jocasta, o que por enquanto ainda não aconteceu nas telas. É nesse passeio a cavalo que Jocasta fala aos Frasers o que River Run produz; nas telas, eles apenas estão passeando pelo jardim e é também durante a cavalgada para visitar a fábrica de terebintina que os Fraser conhecem Clarence, uma mula da senhora Cameron que acaba sendo utilizada por eles mais a frente, e na fábrica, eles encontram pela primeira vez com Farquard Campbell (juiz) e tenente Wolff (que facilitava os negócios de River Run com a marinha britânica). No episódio, o tenente Wolff aparece na casa em River Run para falar sobre negócios com Jocasta. Por enquanto tenho achado o modo como Jocasta vem sendo interpretada nas telas muito dócil em comparação à maneira como ela descrita nos livros. Há menções de Jamie sobre a esperteza que ela herdou dos Mackenzies, porém ela parece uma senhora doce e calma, e Jocasta Cameron não tem nada de doce e calma, a não ser que seja para alcançar algum objetivo. Espero que essa seja uma forma de trazer uma apresentação inteligente da personagem, meio que para enganar a audiência, uma vez que era comum ela criar essa imagem de simpatia e educação, e mais a frente apresentem-na com mais do seu verdadeiro caráter: uma mulher forte, astuta e teimosa, como uma Mackenzie. 



“‘Os Fraser são teimosos como rochas’, ele havia dito. ‘ E os Mackenzie são encantadores como cotovias no campo... mas também estatutos como raposas.’”


Nesse dia da cavalgada, Fergus ao retornar da cidade finda por trazer cartas de Ian e Jenny para Jamie. Nelas, é revelado o desejo de Ian pai de que o jovem Ian continue nas colônias com Jamie para evitar que seja recrutado para o exército e assim colocando fim no dilema do retorno do rapaz, que já havia manifestado a vontade de continuar com os tios. As cartas não apareceram neste episódio, mas é algo que pode ser facilmente encaixado em algum dos próximos. Ainda no capítulo dez, comenta-se que o tenente Wolff havia pedido Jocasta em casamento logo após a morte de Hector, não por interesse nela, mas pelas terras; e que ela havia desmaiado para fugir de uma resposta. Já na série, enquanto espera Phaedre arrumar o vestido de Claire, Jocasta responde a jovem que os interesses do tenente nela são meros rumores. 

- Rufus e o dilema de Claire


A reunião que Jocasta organiza em homenagem ao sobrinho é algo que no livro sucede após um mês da chegada dos Fraser a River Run (no capítulo onze- a lei do derramamento), enquanto na série é realizada ainda no mesmo dia. Nesse período de um mês, Claire passava seus dias aprendendo a fiar e evitando os escravos, enquanto Jamie se ocupava da auxiliar Ulysses na administração das contas da fazenda. No dia em que Jocasta estava falando sobre o jantar, Farquard Campbell aparece em River Run para informar acerca de um acidente na serraria e solicitar os remédios de Claire. Ele insistia que a presença dela não era necessária, uma vez que seu marido poderia levar e administrar os medicamentos e que não era uma situação adequada para senhoras. 


“Jocasta se levantou antes que eu pudesse protestar, segurando o braço de Campbell.

— O que foi? — perguntou ela. — Foi um dos meus negros? Byrnes fez alguma coisa?

Ela era mais alta do que ele cerca de cinco centímetros. Campbell tinha que olhar para cima para responder a ela. Eu via as rugas de tensão em seu rosto, e ela também sentiu a situação. Seus dedos apertaram o tecido da manga do casaco dele.

Ele olhou para Ulysses e então para Jocasta. Como se tivesse recebido uma ordem direta, o mordomo se virou e saiu da sala, caminhando suavemente como sempre.

— Foi uma matança, Jo — sussurrou ele. — Não sei quem, nem como, nem a gravidade. O garoto de MacNeill me chamou. Mas quanto ao outro... — Ele hesitou e então deu de ombros. — É a lei.

— E você é o juiz! — rebateu ela. — Pelo amor de Deus, não consegue fazer nada? — Sua cabeça se virou, tentando fixar os olhos cegos nele para convencê-lo.

— Não! — respondeu ele de forma brusca, e então, mais delicadamente, repetiu: — Não. — Tirou a mão dela da manga de seu casaco e a segurou com força. — Você sabe que eu não posso — continuou ele. — Se eu pudesse...

— Se você pudesse, não faria — disse ela com amargura. Puxou a mão que ele segurava e deu um passo para trás, punhos fechados ao lado do corpo. — Vá em frente, então.

Eles o chamaram para ser o juiz. Vá e faça o julgamento. — Ela se virou e saiu da sala, com as saias farfalhando.

Campbell a observou se afastar e então, quando a porta foi fechada, suspirou com uma careta e se virou para Jamie.

— Hesito em pedir tal favor, sr. Fraser, já que nos conhecemos há pouco. Mas eu gostaria muito de sua companhia para essa tarefa. Já que a sra. Cameron não pode estar presente, ter o senhor lá como representante dela no assunto...

— Qual é o assunto, sr. Campbell? — perguntou Jamie.

Campbell olhou para mim, desejando que eu saísse. Como não me mexi, ele deu de ombros, tirou um lenço do bolso e secou o rosto.

— É a lei desta colônia, senhor, que se um negro ataca um branco e o fere, ele deve morrer por esse crime. — Ele parou, relutante. — Felizmente, essas coisas são raras. Mas quando ocorrem...

Campbell parou, contraindo os lábios. Então, suspirou, e com um tapinha no rosto corado, guardou o lençol.

— Tenho que ir. Vem comigo, sr. Fraser?

Jamie permaneceu mais um tempo parado, observando o rosto de Campbell.

— Vou — disse ele abruptamente.

Dirigiu-se ao armário e abriu a gaveta de cima, onde o falecido Hector Cameron guardava as pistolas.

Ao ver isso, eu me virei para Campbell.

— Há perigo?

— Não sei dizer, sra. Fraser. — Campbell encolheu os ombros. — Donald MacNeill me disse apenas que houve um conflito no moinho e que se tratava de um derramamento de sangue, de acordo com a lei. Ele pediu para que eu fosse fazer o julgamento e supervisionasse a execução, e então partiu para reunir os outros donos de propriedades antes que eu pudesse conseguir mais detalhes.

Ele parecia triste, mas conformado.

— Execução? Está dizendo que pretende executar um homem mesmo sem saber o que ele fez? — Na minha agitação, eu havia derrubado o cesto de novelos de Jocasta. Bolinhas de lã colorida se espalharam por todos os lados, pulando no carpete.

— Eu sei o que ele fez, sra. Fraser! — Campbell levantou o queixo, corado, mas, controlando-se, engoliu em seco. — Peço seu perdão, senhora. Sei que chegou há pouco tempo. Considerará algumas de nossas atitudes difíceis e até bárbaras, mas...

— Isso mesmo, eu as considero bárbaras! Que tipo de lei condena um homem...

— Um escravo...

— Um homem! Condena um homem sem um julgamento, sem nem ao menos uma investigação? Que tipo de lei é essa?

— Uma lei ruim, madame! — respondeu ele. — Mas, ainda assim, é a lei, e tenho que cumpri-la. (...)”





A situação em questão foi a mostrada no episódio em que Rufus por ter atacado o capataz foi preso a um ferrão. No livro, Claire finda por ir com Jamie, pois quando ele se recusa a atender o pedido dela para não fazer parte dessa barbaridade, ela decide acompanha-lo para prestar os primeiros socorros. Em “Do no harm”, sem saber exatamente com o que estava lidando, Claire não pensa duas vezes e se oferece para ir com o marido atender a quem estava ferido, pois de pronto já se sabia que o capataz Byrnes havia perdido a orelha. Quando se encontram com MacNeill na estrada, ele comenta sobre a presença de Claire por não ser uma situação adequada a mulheres, enquanto Jamie afirma que sua mulher é uma curandeira, uma ban-lighiche, e por isso sua presença será útil. Na série, Claire acompanhar Jamie não traz questionamentos, na verdade, esperava-se que por ter conhecimentos médicos ela ajudasse com a execução do escravo. No capítulo, MacNeill explica que Rufus havia tentando decepar a cabeça de Byrnes após uma discussão, porém falhou e só conseguiu arrancar-lhe uma orelha. Acrescentam-se comentários sobre a ineficiência de Byrnes, o qual havia sido contratado por Hector, e que Jocasta iria ficar triste por perder Rufus. 


“Então, perdi inteiramente a consciência da multidão. Toda a minha atenção concentrou-se ao lado da serraria, onde a haste de um guindaste fora armada às pressas, com um enorme gancho curvo para levantar toras de madeira ao nível do tablado da serra. Empalado no gancho estava o corpo de um homem negro, contorcendo-se na terrível imitação de uma minhoca. O cheio de sangue, quente e adocicado, impregnava o ar; havia uma poça na plataforma embaixo do gancho.”


Ao contrário do que acontece na série, Claire congela completamente com a cena e não é capaz nem de pedir ajuda a Jamie. Ele, no entanto, age por conta própria, sacando as pistolas e ordenando que o homem fosse retirado do gancho. Logo quando Claire começa a analisar o caso, ela pergunta a Jamie se caso ela salve Rufus, deixarão ele viver, e Jamie lhe responde que não. É nesse momento, ainda com o corpo do homem no chão, que ela decide acabar com o seu sofrimento. Nem ao menos Jamie sabe dessa decisão de Claire; na série, é ele quem a convence a fazer isso quando eles se veem obrigados a entregar Rufus para evitar a invasão de River Run. Na adaptação, eles estendem essa decisão por todo o episódio, realizam uma cirurgia e mostram todo um comportamento barbárico da população para executar este homem, além dos comentários de Ulysses sobre ter sido melhor deixa-lo morrer quando Claire acabou com os procedimentos médicos. Muito provavelmente, a produção quis deixar a escolha mais difícil e emocional para Claire ao fazê-la conversar com ele, saber sobre sua família e sua vida, assim como ao esticar o dilema fazê-lo parte dos telespectadores também e deixar a morte mais tocante. Ou talvez colocaram a cirurgia de Rufus em substituição da de John Quincy Myers a fim de não divergir do teor médico presente nesta parte. Entretanto, enquanto a operação de John é meio cômico e feita na frente dos convidados de Jocasta, a delicada circunstância de Rufus é extremamente tocante e privada. 



“Seus olhos estavam embaçados. Tentei olhar dentro deles, para fazer com que me visse. Por quê?, eu me perguntava, mesmo quando me inclinei sobre ele e chamei seu nome. Eu não podia perguntar-lhe se essa seria sua escolha – eu a fizera por ele. E tendo feito essa escolha, não podia pedir sua aprovação ou perdão.”


- A festa






Na série a festa havia ocorrido antes do empalamento de Rufus, no livro ela acontece após. E Jocasta até comenta que servirá para tirar a mente deles da tristeza. Seu enredo se desdobra no capítulo doze (a volta de John Quincy Myers). A cena em que Phaedre ajeita um vestido para o jantar ocorre então aqui. A descrição que Phaedre faz sobre Claire a pedido de Jocasta também aparece de forma semelhante a das telas, mas como a cor dos olhos de Claire e de Caitriona não são as mesmas, neste quesito a descrição diverge. No jantar, Claire mais uma vez se encontra com Phillip Wyllie, que flerta descaradamente com ela (Claire o havia conhecido na celebração nos Lillingtons), apesar de não ter grande importância agora, ele criará problemas no quinto livro. John Quincy Myers invade a recepção de Jocasta para dizer a Claire que já está suficientemente bêbado para que ela faça sua cirurgia nos testículos. Quem leu o livro x série do episódio anterior sabe que apesar de na série ele aparecer pela primeira vez neste episódio ao ajudar jovem Ian a dar banho em Rollo, no livro ele auxiliou os Fraser no caminho para River Run e recebeu um possível diagnóstico de Claire sobre a necessidade de cirurgiá-lo. Com insistência, Claire finda por realizar a operação no salão de Jocasta em meio a vários comentários dos convidados sobre a anatomia de Quincy. Jamie tinha permanecido estranho durante o jantar, entrando e saindo do aposento, e no capítulo treze (um exame de consciência) ele comenta o porquê: Ulysses havia lhe informado do desejo de Jocasta anunciar na festa que Jamie seria seu herdeiro. No seriado, Ulysses não passa a informação e como também não há a distração da cirurgia, Jocasta acaba por fazer o anúncio. Jamie e Claire então vão discutir sobre a possibilidade de herdarem River Run a beira do rio em um passeio a barco, o que envolve o debate sobre Claire poder ser dona de escravos, uma vez que seria impossível libertá-los enquanto Jocasta vivesse e talvez até mesmo depois. É Jamie quem explica a Claire sobre as dificuldades de se libertar escravos, o que no episódio é feito por Campbell. Claire lhe fala que não pode dizer o que ele deve fazer, é escolha dele e a isso ele responde: 


“- Seu rosto é meu coração, Sasseanch – ele disse suavamente- e meu amor por você é minha alma. Mas você tem razão, você não pode ser minha consciência.”


Vi alguns comentários de que o episódio teria sido monótono, para mim foi longe disso, preferi este ao anterior. Tenho uma opinião meio dúbia quanto a cena em que os fazendeiros da região vão exigir a entrega de Rufus porque ficou parecendo uma cena de A Bela e a Fera, o que não sei se foi a intenção. Questionamentos morais me são interessantes e a escolha de mostrar de forma mais prolongada não apenas os horrores da escravidão, mas também das leis injustas foi acertada. Eles não podem ser esquecidos ou escanteados.E também a dificuldade de duas pessoas ao tentar fazer a diferença. De duas pessoas que enxergam além da moral da época. Só porque algo é determinado em lei não significa que seja correto. A escravidão um dia foi legal. O apartheid na África do Sul um dia foi legal. A segregação racial nos Estados Unidos um dia foi legal. Existem lugares do mundo em que é legal apedrejar mulheres adúlteras ou que foram estupradas. Há países em que ser homossexual é ilegal. Já houve uma época em que mulheres eram proibidas de estudar ou trabalhar. Se não fosse o pensamento de pessoas vanguardistas e revolucionárias, rebeldes, que questionam essas leis, e as desrespeitam, talvez elas nunca fossem mudadas. EX INJUSTA NON EST LEX, em português, a lei injusta não é lei. Essa frase é de Santo Agostinho. E completava Martin Luther King “é nosso dever moral, e obrigação, desobedecer a uma lei injusta”. De certa forma, foi isso que Claire e Jamie desejavam trazer a tona: a indignidade da lei e a crueldade da escravidão, mas é difícil apelar à razão e à empatia daqueles que não sabem o que é isso ou são egoístas demais para pensar além do seu próprio conforto. Farquad Campbell é um personagem que muito me incomoda nesses capítulos do livro com essa sua personalidade legalista, entretanto na série Tenente Wolff conseguiu ser mais desprezível que ele. 

Concluo então, deixando como reflexão em cima dos fatos narrados neste episódio, outra citação de King, em sua carta da prisão de Birmingham: 


“Esperamos por mais de 340 anos por nossos direitos constitucionais e concedidos por Deus. As nações da Ásia e da África estão dirigindo-se com uma velocidade a jato rumo à conquista da independência política, mas nós ainda nos arrastamos a passo de cavalo e de charrete rumo à conquista de uma xícara de café em um aparador. Talvez seja fácil àqueles que nunca sentiram os dardos perfurantes da segregação dizer “espere”. Mas quando você viu bandos perversos lincharem suas mães e pais à vontade e afogar suas irmãs e irmão a seu capricho; quando você viu policiais cheios de ódio amaldiçoarem, chutarem e até matarem seus irmãos e irmãs negros; quando você vê a vasta maioria de seus vinte milhões de irmãos negros sufocando-se em uma jaula hermética da pobreza em meio a uma sociedade de abundância; quando você de repente descobre sua língua travada e sua fala gaga ao tentar explicar a sua irmã de seis anos de idade por que ela não pode ir ao parque de diversões público cuja propaganda acabou de passar na televisão, e vê lágrimas jorrando dos olhos dela quando lhe é dito que o Funtown está fechado para crianças de cor, e vê ameaçadoras nuvens de inferioridade começando a se formar no pequeno céu mental dela, e a vê começar a distorcer sua personalidade ao desenvolver um rancor inconsciente contra as pessoas brancas; quando você tem de inventar uma resposta a um filho de cinco anos de idade que está perguntando: “papai, por que as pessoas brancas tratam as pessoas de cor tão mal?”; quando você faz uma viagem através de seu estado e descobre ser necessário dormir noite após noite nos cantos desconfortáveis de seu carro porque nenhum motel o aceita; quando você é humilhado entra dia sai dia por sinais irritantes dizendo “branco” e “de cor”; quando seu prenome torna-se “neguinho”, seu nome do meio torna-se “menino” (não importa sua idade) e seu sobrenome torna-se “John”, e sua mulher e mãe nunca são chamadas pelo título respeitável de “Sras.”; quando você é perseguido de dia e assombrado à noite pelo fato de que você é um negro, vivendo constantemente na ponta dos pés, sem saber exatamente o que esperar em seguida, e é atormentado por medos interiores e ressentimentos exteriores; quando você está sempre lutando contra uma impressão degradante de “não ser ninguém” – então você entenderá porque achamos difícil esperar. Chega um momento em que a capacidade de suportar esgota-se, e os homens não estão mais dispostos a mergulhar no abismo do desespero. Espero, senhores, que vocês possam compreender nossa impaciência legítima e inevitável. Vocês manifestam uma boa dose de ansiedade quanto à nossa disposição de violar as leis. Essa é certamente uma preocupação legítima. Como nós exortamos tão ativamente as pessoas a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte que baniu a segregação em escolas públicas, à primeira vista pode parecer um tanto paradoxal que nós conscientemente violemos leis. Também se poderia perguntar: “Como vocês podem advogar a violação de certas leis e a obediência a outras?” A resposta está no fato de que existem dois tipos de leis: as justas e as injustas. Eu seria o primeiro a advogar a obediência a leis justas. Tem-se uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. De modo contrário, tem-se uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas.”




Por Tuísa Sampaio
06 novembro 2018

Livro x Série de TV – episódio 1 : America the beautiful (Quarta temporada)



Livro x Série de TV – episódio 1 : America the beautiful (Quarta temporada) 




Contém spoilers do episódio e dos livros (se você só leu até o quarto livro, há spoiler do sexto) 



Com o retorno de Outlander, estamos de volta também com as análises das semelhanças e diferenças entre o seriado e os livros. A quarta temporada promete adaptar o romance “Os tambores do Outono”, quarto da série. O título do episódio vem de uma famosa canção estadunidense. “America the beautiful” (“América, a linda”) é um poema de Katharine Lee Bates, escrito em 1893, tendo sido publicado pela primeira vez dois anos depois. Em 1910, Samuel A. Ward compôs a música para o poema de Bates. Ela concorreu para ser o hino do país, mas perdeu, porém muito dos seus amantes ainda realizam a sua defesa para o posto pela sua representação do sentimento patriota daquele povo. A versão cantada por Ray Charles é que a pode ser escutada na cena final do episódio. O primeiro episódio adaptou parcialmente a parte I do livro nomeada de “Admirável Mundo Novo”, cujo título faz referência a distopia clássica de Aldous Huxley, a qual carrega como tema principal o choque cultural entre os chamados “selvagens” e “civilizados” e como essas terminologias podem ser uma questão de referência. Essa primeira parte envolve os capítulos um “enforcamento no paraíso” e dois “quando encontramos um fantasma”. Pula-se então a parte II, protagonizada por Roger e Brianna em 1969 com o objetivo acredito eu de manter a mesma linha temporal durante todo o episódio, e continua-se a adaptação com a parte III “piratas” que inclui os capítulos seis a nove. Existe um trecho também cuja fonte é o final do livro seis e outro extraído do três, quando o momento chegar falarei sobre eles. Vou usar como base a ordem dos eventos do livro que é um pouco diferente da do episódio. 


O início do episódio não coincide com o do livro, porém não é algo completamente estrangeiro a história, uma vez que mais para o final de “Os tambores de outono” será mencionada a existência de círculos de pedras nas proximidades dos Frasers. A narrativa inicial de Claire também não está presente na abertura da versão escrita, a qual se inicia com Fergus e Claire procurando por Jamie pela multidão que aguardava o enforcamento dos condenados da coroa. Na história original, Hayes não acompanhava os Frasers da Escócia para as Colônias, ele já estava lá e foi em seus momentos finais que Fergus e Claire o viram pela primeira vez. No episódio, Jamie pensa em estratégias para libertar Hayes, mas falha, e como último pedido de seu amigo lhe dá rum e seu sorriso como visão final antes da morte. A conversa que é interpretada nele não aparece no livro, já que a história é narrada após ela, porém pelo diálogo de Claire e Jamie supõe-se que o conteúdo foi algo semelhante ao que ocorreu no episódio, uma vez que Jamie fala que embebedou Hayes a pedido dele. Ademais, ele se esforça para ser visto pelo amigo. A confusão que permite Stephen Bonnet fugir da forca também acontece no livro, entretanto ele não se aproveita da comoção causada pelo amigo de Hayes, que na verdade não está nem presente, os únicos amigos eram Jamie e sua família, mas sim, cria sua própria oportunidade quando os guardas estão distraídos retirando o corpo do cadafalso. Marsali, que aparece no episódio, havia ficado na Jamaica com amigos, pois sua gravidez, já conhecida no livro anterior faz com que decidam não arriscar coloca-la em um navio. Assim, Marsali só volta a aparecer após o nascimento do bebê quando mandam trazê-la da Jamaica para a Carolina do Norte, onde ela vai se estabelecer com Fergus. No episódio, dá-se a entender que uma possível razão para Fergus e Marsali decidirem ficar na América seria a gestação, porém no livro fica claro que é o desejo de Fergus de não abandonar seu Milorde. 



É nesse primeiro capítulo que Duncan Innes, outro companheiro de luta de Jamie que por não ter um braço havia sido libertado após Ardsmuir para ficar a própria sorte e acabou indo acompanha-los na Carolina do Norte volta a aparecer neste livro. Duncan tem um papel importante na história, mas resta a dúvida se ele irá realmente aparecer na série. 


Enquanto no livro, a viagem de jovem Ian de volta para Escócia e para sua mãe já estava marcada no navio Bonny Mary, pertencente ao primo de Jamie, Jared, com a intenção de que ele fosse aceito como marujo (pois não haviam vendido as pedras preciosas ainda); no episódio há apenas conversas sobre a travessia quando eles conseguem dinheiro e a argumentação do jovem para ficar. Na narrativa original, Ian se livra da viagem marítima porque eles chegam nas proximidades do porto três dias após a partida do navio. Rollo também é apresentado aos leitores no primeiro capítulo e a conversa que se segue no episódio quando Jamie e Claire conhecem o novo mascote é um trecho praticamente idêntico ao do livro. A cena da taverna na versão escrita é o momento para decidir que caminho irão seguir, é Duncan Innes quem comenta que Hayes tinha medo do escuro e de espíritos e conta a história do porquê e sobre a família de Gavin. Ele canta um cathris, uma espécie de lamento gaélico, o que foi entoado na série por Lesley. Fergus espertinho decide passar o chapéu para que as pessoas coloquem moedas pelo show, o que não ocorre no episódio. Após pedir para Fergus comprar uma pá, eles decidem enterrar Hayes em um cemitério. 



O enterro de Gavin ocorre no segundo capítulo “quando encontramos um fantasma”. Assim como na série, Claire pergunta se não irão notar o novo amontoado de terra e Jamie responde que o reverendo queria dinheiro para poder enterrar Gavin, então ele não iria se dá ao trabalho de desenterrá-lo. 


O flashback que jovem Ian tem enquanto ele e Jamie cavam o túmulo não ocorre e a conversa sobre seu abuso acontece no capítulo 62 do livro três, mas quando ainda estavam na Jamaica e o diálogo do romance tem um tom mais sexualmente explícito. Já no livro, Claire acompanha a escavação da sepultura enquanto papeia com jovem Ian e Jamie sobre como estudantes de medicina furtam corpos para estudar, enquanto jovem Ian conta como seu pai quase foi “furtado” da cadeia no meio da noite por acharem que ele estava morto. Em ambas as mídias, Stephen Bonnet se levanta da carroça como uma aparição, assustando a todos. Enquanto no episódio é Jamie quem pergunta a Stephen desde quando ele está no veículo, no livro isso cabe a Duncan, porém o resto do interrogatório passa a Jamie assim como na série e as falas são praticamente as mesmas. Decididos então a ajudar Stephen, resolvem carrega-lo na carroça até uma região sem soldados. Em ambas as mídias ao ser parado no ponto de checagem, o oficial responsável manda o soldado enfiar a baioneta no corpo para averiguar se ele estava realmente morto, uma vez que estavam todos a procura dos criminosos que haviam escapado a tarde. Na série, o casal para a carroça para poder costura-lo o que não livro não ocorre, eles só vão parar horas depois e um diálogo acontece entre Stephen e Jamie em que o segundo explica os motivos de tê-lo ajudado, pois alguém uma vez o havia ajudado na mesma situação. Bonnet chama-o então de asgina ageli, uma lenda cherokee que refere-se a pessoas que deveriam ter morrido e não morreram. E assim, virão meio-fantasmas, com um pé no mundo dos vivos e outro no espiritual. Na série, enquanto Claire presta os primeiros socorros, Bonnet conta ela sobre seu medo de morrer afogado devido a pesadelos recorrentes. Esse medo de Stephen existe, porém não é a Claire que ele conta no livro e sim a Brianna no capítulo 105 do sexto romance quando ele a sequestra. 


No episódio, o acampamento ocorre apenas entre Claire e Jamie onde há declarações e cenas de amor. No livro, a citação de Jamie sobre nada se perde, tudo se transforma e sobre a pequenez da morte ocorre apenas no capítulo dezesseis: 



“-Mas você não vê como é tão pequena a ideia de morte no nosso caso, Claire? – ele sussurrou.
Minhas mãos fecharam-se contra seu peito. Não, eu não achava uma questão menor de modo algum.
-Durante todo o tempo depois que você me deixou, depois do Culloden, estive morto, não estava?
‘Achei que estivesse. Foi por isso que eu... oh. – Respirei fundo, trêmula e ele balançou a cabeça.’
-Daqui a duzentos anos, eu certamente estarei morto, Sassenach – ele disse. Sorriu de modo enviesado.
- Sejam índios, animais selvagens, uma praga, a corda da forca ou apenas a bênção da idade... eu estarei morto.
-Sim.
-E enquanto você estava lá, em sua própria época... eu estava morto, não é?
Balancei a cabeça, concordando sem uma palavra. Mesmo agora eu podia olhar para trás e ver o abismo de desespero no qual aquela separação me lançara e do qual eu me erguera, um doloroso centímetro a cada vez.
Agora eu estava com ele novamente no ápice da vida e não podia contemplar uma queda outra vez. Ele estendeu a mão e arrancou um talo de capim, espalhando as lâminas verdes e macias entre os dedos.
-‘O homem é como a erva do campo’ –citou à meia-voz, roçando a haste fina pelos meus dedos, que repousavam em seu peito
- ‘Hoje ela floresce; amanhã seca e é lançada no forno’
Levou o tufo verde e sedoso aos lábios e beijou, depois o tocou delicadamente em minha boca.
- Eu estava morto, minha Sassenach... e no entanto, durante todo o tempo, eu a amava.
Fechei os olhos, sentindo o toque do capim em meus lábios, leve como o toque do céu e do ar.
-Eu também o amava -sussurrei-. Sempre o amarei
O talo do capim desapareceu. Com os olhos ainda fechados, eu o senti inclinar-se para mim, e sua boca na minha, quente como o sol, leve como o ar.
-Enquanto meu corpo viver, e o seu, seremos um só - sussurrou. Seus dedos tocaram meus cabelos, queixo, o pescoço e seios, e eu respirei seu hálito e o senti sólido sob minha mão. Deitei a cabeça em seu ombro, sua força sustentando-me, as palavras graves e suaves em seu peito
-E quando meu corpo deixar de existir, minha alma ainda será sua, Claire, juro pela minha esperança de céu, eu não me separarei de você.
O vento agitou as folhas castanheiras próximas e os aromas do final do verão eleveram-se, pungentes, à nossa volta; pinho e grama e morangos, pedra esquentada pelo sol e água fria, e o cheiro penetrante, almiscarado, de seu corpo junto ao meu.
- Nada se perde, Sassenach, apenas se transforma.
-Essa é a primeira lei da termodinâmica – eu disse, limpando o nariz.
-Não – ele disse. - Isso é fé.” 


Voltando ao segundo capítulo acontece uma cena de amor entre Jamie e Claire nas margens de um rio, que tem um diálogo bastante sexualizado como é de se esperar deles e há toda uma sensualização de Claire tomando banho antes. Preciso dizer que o modo como foi feito no episódio ficou sem graça comparado a descrição do livro. 



A conversa sobre os nativos ocorre tanto no material escrito quanto em audiovisual e para mim foi uma das cenas mais tocantes do episódio (mais delicada até que no livro, onde Jamie faz uns comentários um pouco preconceituosos sobre os índios), principalmente pela referência feita por Claire em relação às semelhanças do que aconteceria com os indígenas ao que são submetidos os escoceses pós-Culloden pela Coroa Inglesa (no livro, quem faz a associação é Jamie). Por mais que haja uma relação entre as duas opressões “coloniais” por assim dizer, a dizimação indígena, acredito eu, seja muito maior, pois até hoje em vários pontos da América (continente) os índios lutam para que sua cultura sobreviva. Várias línguas, histórias, religiões e segredos ancestrais desapareceram por completo, conhecimento até que poderia alavancar descobertas científicas. Eles são os verdadeiros donos dessa terra, nós somos os invasores. Quem são realmente os “selvagens” e quem são os “civilizados”? Por mais que os escoceses tenham sido proibidos de usar sua língua, seus tartãs, e algumas de suas expressões enquanto povo, hoje, ainda conseguem carregar uma identidade cultural forte e respeitada por seus pares. Ainda são donos da própria terra (apesar de individualmente os inimigos da coroa terem sido expropriados, os escoceses enquanto povo não foram expulsos da Escócia, também nunca foram obrigados a viver em “reservas” quando são os verdadeiros dono daquilo que o homem branco tomou para si). 


Concluindo essa cena, no livro, o episódio pula para o capítulo seis “deparo-me com uma hérnia”, porém o trecho se inicia já com os preparativos em Willington para viagem de barco com destino a River Run (o que não aparece na série), enquanto o episódio segue o jantar na casa dos Lillingtons em que os Frasers têm interesse de conseguir um comprador para um rubi. Infelizmente, como foi cortada a cena dos preparativos, o trecho em que Claire é convidada a examinar os testículos de John Quincy Meyer não aparece na TV, o que é uma situação super divertida. Fazendo logo uma pequena observação, enquanto no barco da série, Jamie comenta com Claire que sua tia era viúva; no livro, ele ainda não sabia sobre a morte do tio e como ela havia sucedido e quem lhe conta isso é John Quincy, assim como é John o contato para eles arranjarem a embarcação. Enquanto estão em Willington, na expectativa de viagem , Jamie descobre que o governador está na cidade hospedado na casa de Lillington e consegue um convite para jantar, onde tem interesse de vender suas pedras preciosas. Anterior a cena da refeição, no episódio, Claire e Jamie se arrumam para a celebração; no livro, Claire se arruma com uma ajuda de uma costureira e ela é quem comenta sobre a necessidade de uma jóia para que Claire não fique com o colo despido (no episódio, é uma fala de Jamie), quando Jamie aparece com o colar. No episódio, os frasers sempre mencionavam vender o rubi primeiro, no livro fica claro que o rubi foi usado para o colar de Claire por escolha de Jamie, poderia ter sido qualquer outra das pedras preciosas. 


“Ele olhou pela janela, onde uma pálida cor de pêssego tingia um céu enevoado, depois se voltou para mim, fez uma rebuscada reverência.
- Poderia me dar o prazer de sua companhia para o jantar, madame?” 



O capítulo sete “Grandes perspectivas repletas de perigo” abre-se com o jantar no Lillingtons. e o diálogo de ambas as mídias segue um tom semelhante com o tema dos impostos, porém no livro a conversa é mais longa e finda por adentrar outros assuntos como a gráfica de Jamie. Após se recolher, Claire decide vagar pela casa e escuta a conversa entre Jamie e o governador, em que este oferece terras a ele (apesar de ele ser católico, uma vez que um dos requisitos para ser proprietário era ser protestante) contanto que Jamie as povoasse e trouxesse colonos para trabalhar nelas. Após essa conversa, Claire e Jamie se encontram e discutem sobre a venda do rubi, a qual em parte foi reproduzida no episódio. 


No capítulo oito “Homem de valor” inicia-se a viagem no barco chamado Sally Ann para River Run, terras da tia de Jamie. Claire conversa com seu marido para tentar distrai-lo de um possível enjoo e ele comenta que não vê sua Tia Jocasta desde que tinha dois anos. A conversa sobre os casamentos de Jocasta com os Camerons vista no episódio e a pergunta sobre o mensageiro chegar antes que eles em River Run também aparece na narrativa original. Tanto na série como no livro, a tripulação do barco é formada pelo capitão e por um ajudante negro idoso. Algum tempo depois de eles terem visto um jacaré passando pelas águas, Jamie dá a Claire o estojo médico de presente pelos 24 anos de casamento. No episódio, ele menciona o tempo de matrimônio, mas não que era aniversário da união. O estojo era de segunda mão e pertencia a um Dr. Daniel Rawlings, que de acordo com a mulher que havia vendido a mercadoria para Jamie, veio se hospedar um dia, saiu e nunca mais voltou. 


“Há vinte e quatro anos, no dia de hoje, eu me casei com você, Sassenach. – ele disse ternamente. – Espero que você ainda não tenha motivo para se arrepender.” 



Durante a viagem, Jamie tenta ensinar grego e latim a jovem Ian, o que foi cortado do episódio, enquanto Claire estudava o caderno de anotações médicas do Dr. Rawlings. 


É no barco que Jamie pergunta a Claire se ela gostaria de se estabelecer nas Colônias e onde Claire menciona a revolução americana, enquanto na série, eles já haviam tomado uma decisão no segundo encontro na taverna, isso já no capítulo nove “dois terços de um fantasma”. É quando Jamie fala sobre querer encher Claire de rendas e jóias e sobre a única coisa que ele pôde dar ela ter sido o anel e as pérolas, quando ela lembra de Brianna e fala que deixou as perólas de herança. 


A cena final do ataque dos piratas orquestrado por Stephen Bonnet é descrita no final do capítulo. Rollo é atingido por um tiro defendendo jovem Ian (o que por enquanto não apareceu, mas não descarto que isso possa ser visto no próximo episódio), mas a bala foi de raspão. Ameaçando Ian com uma pistola, Bonnet obriga Claire a lhe entregar suas alianças. Na confusão, Claire tenta engoli-las, mas quando Bonnet tenta retira-las colocando o dedo na boca dela, uma delas pula. No livro, é a de ouro que ele leva e Claire engole a de prata que depois ela recupera quando Jamie faz uma mistura para induzi-la a vomitar. Na TV, ele leva a de prata e ela consegue cuspir a de ouro depois. Não gostei dessa mudança, pois é aliança de ouro com os dizeres de seu pai para sua mãe que Brianna reconhece mais a frente em seu encontro com Bonnet, porém também não é absurdo ela reconhecer a outra. Apesar dessa mudança, amei a construção da cena com “America, The beautiful” tocando no fundo, mostrando que a América apesar de suas lindas paisagens e abundante natureza guarda perigos antigos. Se muitos tinham medo dos “selvagens” índios, por serem desconhecidos, e os viam como “bárbaros” era na verdade dos já conhecidos piratas, ladrões e contrabandistas vindos do “Antigo mundo” que deveria haver temor. Afinal, os índios só queriam ser deixados em paz. A “América” era linda para quem? 


Por Tuísa Sampaio 

27 setembro 2018

O que vai acontecer na quarta temporada de Outlander?

O que vai acontecer na quarta temporada de Outlander?



Claire e Jamie encontram-se em uma posição muito interessante no final da terceira temporada, então o que o futuro reserva para eles?




** NÃO LEIA SE VOCÊ NÃO VIU O ÚLTIMO EPISÓDIO DE OUTLANDER ** 




A terceira temporada de Outlander chegou a um final ensopado, quando Claire e Jamie se viram flutuando em mar aberto após a maré impiedosa agredir o Artemis em sua viagem de volta da Jamaica para a Escócia. Eles perderam o barco e Claire quase perdeu a vida antes que seu marido highlander mergulhasse sob as ondas para salvá-la. 

Os dois foram levados para uma misteriosa costa, que logo descobriram ser na verdade a Geórgia, uma das treze colônias originais dos Estados Unidos. 

Mas o que isso significa para nosso laird e sua lady? Eles algum dia voltarão à Escócia? 

Vamos falar sobre a quarta temporada de Outlander… 

O que vai acontecer na quarta temporada de Outlander?


A quarta temporada de Outlander será baseada principalmente no quarto romance da série de Diana Gabaldon, Os tambores do Outono. O livro mostra Claire e Jamie enfrentando novos desafios enquanto tentam construir uma nova vida para si nas colônias americanas. 

Caitriona Balfe conta a RadioTimes.com que este novo cenário é particularmente interessante para Claire, que já viveu nos EUA, mas no século XX.

 “Quando ela deixou a América, estava no auge do movimento dos direitos civis e, por isso, é muito interessante vê-la no início dos Estados Unidos da América, como o conhecemos hoje”, diz ela.

O país em que Claire e Jamie se encontram é um lugar muito diferente, onde a escravidão ainda existe e os primeiros colonos estão interagindo com as tribos nativo-americanas. 

É muito interessante vê-la pensando em como ser pioneira, mas também em saber o que sabe e em ter o respeito que ela tem pela cultura nativa americana”, acrescenta Balfe.“Definitivamente, não é sem seus problemas e questões, tendo ela que descobrir como ser uma pioneira respeitosa, suponho. Então sim, é uma coisa interessante de se interpretar.” 

Ela diz que a quarta temporada, como cada temporada anterior, oferecerá aos telespectadores algo diferente. 

É interessante observar como todos esses personagens abraçam a nova terra e todas as provações e tribulações que vêm junto com isso, bem como a empolgação, e esse tipo de novo começo é realmente excitante.” 

Quem está no elenco de Outlander na quarta temporada?




Bem, até agora, sabemos que Sam Heughan, Caitriona Balfe e a turma (ou melhor, aqueles que ainda estavam vivos no final da terceira temporada) TODOS voltarão e temos algumas caras novas se juntando ao elenco para interpretar novos personagens também. 

A atriz irlandesa Maria Doyle Kennedy (que você pode lembrar como Catarina de Aragão em The Tudors ou, mais recentemente, a Sra. S de Orphan Black) juntou-se ao elenco como o mais novo membro do clã Fraser . Ela vai interpretar a tia de Jamie, Jocasta, a quem pertence a plantação que Claire e Jamie chegam em Os tambores do Outono. 

Ed Speelers de Downton Abbey (que também interpretou Eragon em, bem, Eragon) estrelará como Stephen Bonnet, um vilão pirata nascido na Irlanda cujas ações terão consequências importantes para muitos dos personagens principais. 

E para realmente subir os níveis de fofura no cenário, eles também escalaram dois cachorrinhos muito encantadores para interpretar Rollo, um híbrido de lobos que também se torna um membro muito querido do clã Fraser. 

créditos: instagram @outlander_starz 


Brianna e Roger vão voltar?


A terceira temporada nos ofereceu uma boa introdução à filha de Claire e Jamie, Brianna, e ao filho adotivo do reverendo Wakefield, Roger MacKenzie . Os dois permaneceram em nossas telas apenas por um curto período de tempo, mas conseguiram roubar corações com seu quase romance. 

Se a quarta temporada se mantiver fiel a Os Tambores do Outono, então os fãs terão uma verdadeira surpresa, porque Brianna e Roger têm um papel muito maior na história. 

"Eles realmente entram na história de uma maneira muito maior na quarta temporada,

o produtor executivo Ron Moore disse ao RadioTimes.com no início deste ano, e isso é algo que os atores Sophie Skelton e Richard Rankin nos disseram que estão muito entusiasmados.

A esfera de ação realmente aumenta em Os Tambores do Outono. É um livro brilhante e torna-se muito maior; não apenas para nós, mas como um todo, a história como um todo acaba se tornando épica, ” 

disse Rankin, que acrescentou que não tinha ideia de como os roteiristas conseguiriam encaixar o romance inteiro em uma única temporada. 

Há uma ótima história para Roger e Brianna, e podemos ou não voltar no tempo nos livros…” 

Skelton brincou. 

Quando é que as filmagens da quarta temporada de Outlander começam?


As filmagens da quarta temporada de Outlander já estão em andamento! A equipe está trabalhando duro, trazendo a Carolina do Norte à vida na Escócia, e o elenco certamente parece estar se divertindo muito. 

Caitiriona Balfe conta a RadioTimes.com que estará filmando até junho, então há muito trabalho a ser feito nesse período. 

Quando a quarta temporada de Outlander vai ao ar?


A quarta temporada do Outlander será transmitida pela Starz nos EUA e estará disponível para transmissão no Amazon Prime Video no Reino Unido a partir de novembro de 2018.[i]

Quantos episódios haverá na quarta temporada do Outlander?


A quarta temporada terá 13 episódios de duração. 

Outlander retornará para uma quinta temporada?



As terceira e quarta temporadas da série foram encomendadas ao mesmo tempo, e a Starz seguiu o mesmo padrão, confirmando que sim, Outlander retornará para as temporadas cinco e seis! 


Escrito por Sarah Doran
Artigo traduzido de: Radiotimes.com  


Tradução Outlander Brasil




[i] N.T: no Brasil, a quarta temporada estreia 4 de novembro na FOX PREMIUM.
05 setembro 2018

Sam Heughan e Caitriona Balfe de Outlander fofocam sobre o amor mais profundo de Jamie e Claire na quarta temporada !


 Sam Heughan e Caitriona Balfe de Outlander fofocam sobre o amor mais profundo de Jamie e Claire na quarta temporada !



Jesus H. Roosevelt Cristo!



Ainda temos 67 dias até a nova temporada de Outlander nos agraciar com sua presença viajante do tempo, e sabemos que muitos de vocês, rapazes e moças por aí, estão sentindo muita sede durante este brutal Droughtlander.



Para ajudar a saciar sua sede por mais benevolência da família Fraser, a ET está trazendo para você uma entrevista novinha em folha com as estrelas Sam Heughan e Caitriona Balfe! Nós viajamos através das pedras e além até o set de Outlander em Glasgow, Escócia, para trazer a você as informações exclusivas sobre o "amor profundo" de Claire e Jamie na quarta temporada e por que o relacionamento deles continua a triunfar sobre cada obstáculo em seu caminho.



Quando vimos pela última vez nosso laird e lady naufragados no final da terceira temporada do drama da Starz, eles tinham se arrastado para a costa da Geórgia nas novas colônias americanas. (E para ser honesta, nunca soubemos que duas pessoas cobertas de areia poderiam parecer tão incríveis.) À medida que avançamos para os eventos de Tambores do Outono, o quarto romance da série de livros Outlander de Diana Gabaldon, os fãs podem esperar por mais felicidade doméstica e menos drama em alto mar.




"Acho que nesta temporada tivemos a chance de explorar o relacionamento deles sem que as forças externas os destruíssem da mesma forma como fizemos anteriormente", disse Balfe recentemente às câmeras de ET enquanto ela e Heughan relaxavam no cenário de um pub americano que será visto na quarta temporada.



"É um relacionamento mais maduro", acrescentou Balfe. “Eu acho que há um amor mais profundo lá. Pode não ser o tipo de paixão superficial que você tem quando se apaixona pela primeira vez, porém a paixão é mais profunda. Eles são apenas um time realmente sólido nesta temporada, o que eu acho que é muito legal para nós sermos capazes de interpretar. ”



Heughan ecoou os sentimentos de sua esposa na tela, dizendo: “Nós conseguimos vê-los funcionando [e] trabalhando um com o outro em situações muito domésticas. É muito bom como eles interagem um com o outro e eu acho que, pela primeira vez, nós conseguimos respirar por um curto período de tempo. ”



Qualquer fã do Outlander dirá que os Frasers são os objetivos finais do relacionamento - não importa em qual século você esteja vivendo! - mas o que há no relacionamento de viagem no tempo de Jamie e Claire que os torna um ajuste perfeito?



‘Bem, acho que são almas gêmeas’, respondeu Balfe com simplicidade e docilidade. "Eu acho que eles se instigam para serem as melhores versões de si mesmos."



"E agora eles realmente se entendem", acrescentou Heughan. “Eles passaram por muita coisa e nós passamos por muita coisa e há um entendimento real ali. Acho que nesta temporada, sem dar spoilers, eles encontram um lugar que podem chamar de lar e que para eles é algo que sempre quiseram. ”

(...)

A quarta temporada da Outlander estréia no domingo, 4 de novembro, no Starz.



Texto integral em: ET online

Tradução: Outlander Brasil
05 janeiro 2018

Outlander x Kindred

                                             

Outlander x Kindred


O texto abaixo pode conter spoilers dos três primeiros livros de Outlander 

Octavia Butler foi uma precursora na ficção científica, abrindo portas para outras mulheres em uma área dominada por homens. Tendo se tornado conhecida como “A primeira dama da ficção científica”, em 1979, ela publicou “kindred”, uma história sobre uma mulher negra que viaja no tempo da Califórnia dos anos setenta para o sul escravagista dos Estados Unidos antes da guerra de secessão (séc. XIX). Em 1991, Diana Gabaldon lança seu romance sobre uma enfermeira inglesa da segunda guerra que se transporta no tempo para a Escócia na iminência do levante jacobita de 1745. O que Dana (a personagem de Octavia) e Claire têm em comum além da habilidade de suas escritoras escreverem mulheres fortes em uma época dominada por homens? Quais são as diferenças que as tornam tão únicas? E qual o paralelo entre as teorias de viagem no tempo criadas pelas duas autoras? 


                                                            
Diana Gabaldon
                                           
Octávia Butler


          Dana “viaja” pela primeira vez no dia do seu aniversário de 26 anos, enquanto organizava seu apartamento com seu marido, Kevin. Ela não precisou entrar em um círculo de pedras como Claire, sua situação foi muito mais assustadora. Ela começou a passar mal, sentia-se tonta e nauseada e simplesmente desapareceu na frente de seu marido, reaparecendo alguns segundos depois. Para Kevin, foram segundos, mas Dana sabia que haviam se passado minutos. Nessa primeira viagem, Dana salva a vida de um menino ruivo chamado Rufus, mas acaba retornando ao seu tempo quando seu pai aponta uma espingarda para ela. No mesmo dia, Dana é chamada novamente para próximo a Rufus para novamente salvar o menino, entretanto desta vez ela passa horas e tem a oportunidade de conversar com um Rufus um pouco mais velho do que no incidente anterior, descobrindo assim que ela fora transportada para Maryland de 1815. Não apenas Dana havia viajado no tempo, como também no espaço. Dana passa a enfrentar um perigo muito maior que o de Claire, pois ela era uma mulher negra em meio a uma sociedade escravagista a qual se já não dava voz a mulheres brancas, considerava como corpos descartáveis as negras.

Acredito que a partir daí já temos dois grandes divisores de águas entre as obras de Butler e Gabaldon. O primeiro é que o tempo em Outlander se passava de forma paralela, um minuto no passado, era um minuto no presente, o que não ocorre em Kindred. Além disso, Claire precisava de um mecanismo (o círculo de pedras) para transportá-la e não conseguia voltar para a sua época a não ser por ele. Em segundo, Claire, como mulher branca, tinha uma ameaça diferente à sua liberdade. Ela pode ter sido mantido prisioneira pelos Mackenzie, porém fora tratada com o respeito que se era dado as mulheres da sociedade (até certo ponto). Ela ainda era vista como um ser humano; inferior, contudo, ser humano. Esse privilégio não foi concedido a Dana, cuja cor da pele fazia dela um alvo para um aprisionamento cruel, agonizante e desesperador. 


Claire conhece a escravidão como espectadora, e sente a dor por empatia, principalmente por ter um amigo negro e enxergar nos escravos a lembrança e a presença do homem a quem havia confiado sua própria filha. Dana, não. Ela era uma mulher dos anos setenta, que nasceu e viveu em liberdade toda a sua vida, que não conhecia violência de perto, e que foi arrastada para o inferno em que ser negra era ser pior que bicho. 

“Já tinha visto pessoas serem surradas na televisão e nos filmes. Já tinha visto sangue falso nas costas delas. Mas não havia ficado perto e sentido o cheiro de suor, nem ouvido as súplicas e as orações das pessoas humilhadas diante de suas famílias e si mesmas. Eu provavelmente estava menos preparada para a realidade do que a criança que chorava não muito longe de mim. Na verdade, ela e eu estávamos reagindo de modo muito parecido. Meu rosto estava banhado em lágrimas. E minha mente ia de um pensamento a outro, tentando me desligar das chibatadas. Em determinado momento, essa covardia extrema até trouxe algo útil. Um nome para os brancos que atravessavam a noite no sul pré-guerra, derrubando portas, surrando e torturando negros.
Capatazes. Grupos de jovens brancos que mantinham a ordem de modo ostensivo entre os escravos. Capatazes. Precursores da Ku Kux Klan.
(...)
- Você não tem modos, preta, vou te ensinar a me respeitar!
- (...) Quanto você deve valer?
Entrei em pânico. Era muito ruim que ele tivesse me pegado e estivesse me segurando. Agora, ele queria me entregar como fugitiva...” (Kindred)

Claire e Dana passam por outra experiência semelhante, ambas são quase estupradas por homens, quando perdidas em uma floresta em um tempo estranho. Claire, pelo ancestral do marido, o capitão Randall. Dana, por um capataz da fazenda do pequeno Rufus que tinha ido atrás de se aproveitar de outra negra, mas a encontrou no meio do camiho. Outro recurso usado por ambas autoras é o que eu chamo de “marido útil”. É muito comum em livros ou filmes escritos/dirigidos por homens encontrarmos a figura da “figura feminina útil”, ela não tem um papel realmente importante, existe apenas para auxiliar, dá suporte, trazer meios para que o protagonista resolva problemas, ou ser uma fonte de informações que justifique o comportamento do personagem principal. São figuras cuja vida própria não tem muita relevância para o leitor/telespectador, meros recursos. Octávia e Diana ao se utilizarem de heroínas femininas, realizaram uma inversão de papéis, criando o “marido útil”. Kevin, cuja profissão de escritor abre espaço para haver no lar do casal, inúmeros livros de não ficção que permitiram a pesquisa sobre a vida dos negros nos Estados Unidos no período escravagista[1]. O fato de ele ser branco é outra utilidade para Dana, uma vez que ela consegue levá-lo em uma de suas “viagens” e a cor da pele dele serve como proteção para ela; e Frank, cuja profissão de historiador, especialista no levante de 45, permitiu a Claire ter informações privilegiadas acerca do tempo para o qual fora transportada. Toda a existência de Frank, como personagem, orbitava ao redor de Claire. O que já não ocorre com Jamie. Ele é um par romântico, porém em pé de igualdade com a protagonista e cuja existência não se justifica como “estepe” para ela, nem como mero fornecedor de respostas e soluções. 


Claire não entende realmente como funciona o mecanismo da viagem no tempo. Ela descobre que apenas algumas pessoas podem realizar a travessia, portanto, deve estar relacionada a um algum traço genético. Além disso, em algum momento, ela chega à conclusão de que apesar de existir uma média de duzentos anos para as viagens, ela não é exata, pois o viajante é atraído por algo em um determinado tempo, uma pessoa que funciona como uma espécie de centro gravitacional. Na primeira viagem de Claire, ela é atraída para o tempo do ancestral do marido, o qual ele estava compulsivamente pesquisando. Na segunda, ela já viaja com o objetivo de retornar para Frank, conseguindo assim, alcançar seu tempo de origem. E na terceira, reencontrar seu grande amor, Jamie, é o seu imã para o período almejado. Em Kindred, Dana vai descobrindo aos poucos, o que a faz viajar, para onde, e por quê. Assim, como Claire, ela e Kevin formulam teorias. Mas para o leitor desta obra de Octávia, a fonte de atração já é um pouco óbvia até pelo próprio subtítulo colocado na tradução do livro para o português “Kindred: laços de sangue”. Ademais, a palavra “Kindred” pode ser traduzida para o português como “parentes”. Assim, durante a narrativa, a própria existência de Dana é colocada em risco, enquanto em Outlander, Claire nunca questionou se suas ações poderiam afetar o seu nascimento, mas sim, o de Frank. 

Quando lemos ou assistimos à Outlander, podemos compreender que as atitudes de Claire é que possibilitaram que o futuro que ela conhece, fosse como ele é, como se fizesse parte de um plano maior a presença dela naquele século. O mesmo ocorre com Dana. Ela teme um efeito pernicioso para si, porém com o desenrolar da história percebemos que são suas palavras, seus gestos e condutas que constroem o futuro que ela conhece e que justificam sua própria existência. 

Claire não viaja com um objetivo claro da primeira vez, mas acaba se apaixonado por um highlander ruivo que se torna o motivo de sua segunda viagem. Dana realiza várias viagens para encontrar Rufus, o seu ruivinho, a quem ela acompanha desde criança até a vida adulta. Entretanto, ao contrário de Outlander, Kindred não é uma história de amor. Não é este o foco narrativo. Por mais que Kevin e Dana sejam apaixonados, e existam obstáculos colocados no relacionamento deles que tornam a trama interessante e fazem os leitores torcerem pelo casal, como eu mencionei anteriormente, Kevin não estão em pé de igualdade com Dana em termos de protagonismo. É a história de Dana e de como por alguma força superior inexplicável, ela torna-se uma espécie de anjo da guarda para Rufus, a quem tenta constantemente ensinar um pouco de respeito aos negros, para que no futuro, ele seja uma pessoa melhor e trate os escravos de sua propriedade com o mínimo de dignidade. 

“Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via as mulheres como eternas incapazes. Eu teria que fazer tudo o que pudesse para cuidar de mim mesma. Mas o ajudaria da melhor maneira que conseguisse. E tentaria manter a amizade dele, talvez plantar algumas ideias em sua mente que ajudassem a mim e às pessoas que seriam seus escravos nos anos vindouros." (Kindred). 

Tanto Claire como Dana aprendem a se preparar para suas viagens. Claire carrega consigo em O Resgate no mar, penicilina, seringas e outras coisas que lhe poderiam ser úteis. Dana leva aspirina, um livro sobre escravidão, mapas, caneta e uma faca para proteção- o que os escoceses chamavam de “Sgian dubh”, a adaga escondida. Claire conquista o respeito dos Mackenzie por meio de suas habilidades de cura e sua lealdade para com o grupo. Dana, o apreço dos outros negros da fazenda por sua disposição de ajudar, e de se rebelar quando necessário, mesmo que em pequenas lutas. Por meio de seus ensinamentos, ela consegue devolver um pouco de dignidade e esperança aos seus companheiros. Até mesmo Tom, o cruel dono da fazenda de escravos, começa a olhar para ela com um misto de medo e um pouco de respeito pelos seus conhecimentos quando percebe que ela não é uma mulher comum. Ambas, Claire e Dana com sua visão do futuro conseguem carregar uma onda de mistério e misticismo que aos olhos daqueles do passado pode fazê-las parecer uma entidade sem explicação. 

Além disso, apesar de Dana não ter formação médica como Claire, seus conhecimentos sobre higiene e transmissão de algumas doenças fazem com que ela seja considerada como uma curandeira para os moradores da fazenda.

A opressão feminina não fica por conta apenas do silenciamento, objetificação e das tentativas de estupro. Claire e Dana levam surras mais de uma vez. A primeira por sua condição de mulher e curandeira, quando recebe chibatadas em Cranesmuir, no julgamento das bruxas, e anteriormente pelas mãos do próprio marido que à época acreditava ser seu dever discipliná-la; a segunda por ser mulher e escrava. As surras que Dana levavam também compreendem a ideia de incapacidade que existem na surra que Jamie deu em Claire. Se mulheres deveriam ser “ensinadas” por seus maridos uma vez que eram vistas como crianças, inaptas a tomarem decisões próprias e devendo ser sempre submissas; esse aspecto não era diferente com as escravas, cujas vontades deveriam ser inexistentes e a obediência, cega. 

“Existe uma coisa chamada justiça, Claire. Você agiu mal com todos eles e terá que sofrer por isso. - Respirou fundo. - Sou seu marido; é meu dever resolver isso e é o que pretendo fazer.
Eu tinha fortes objeções a essa proposição em diversos níveis, qualquer que fosse a justiça dessa situação - e eu tinha que admitir que em parte ele tinha razão - meu senso de amor-próprio ofendia-se profundamente diante da idéia de levar uma surra, por quem quer que fosse e por qualquer que fosse a razão.
Senti-me profundamente traída pelo fato de que o homem do qual eu dependia como amigo, protetor e amante pretendesse fazer tal coisa comigo. E minha noção de autopreservação estava aterrorizada diante da idéia de me submeter à compaixão de um homem que manejava uma espada de sete quilos como se fosse um mata-moscas.
- Não vou permitir que bata em mim - disse com firmeza, agarrando-me à coluna do dossel da cama. - Ah, não? - Ergueu as sobrancelhas ruivas. - Bem, vou lhe dizer, menina, acho que não tem muita escolha. Você é minha mulher, quer goste ou não. Se quisesse quebrar seu braço, deixá-la a pão e água ou trancá-la num quartinho por vários dias - e não pense que não me sinto tentado -, eu poderia, quanto mais esquentar o seu traseiro.” (Outlander- A viajante do tempo)

Entretanto, enquanto podemos listar como duas as surras obviamente resultantes da sua condição de mulher para Claire; são inúmeras as vezes que Dana apanha devido a sua condição de mulher negra, incontáveis humilhações que ela precisava aguentar calada para sobreviver. Octávia retrata a crueldade de um período que por mais queiramos esquecer, devemos nos esforçar para lembrar para que ele nunca mais se repita. Nas palavras da própria Dana, “(...) Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitar a escravidão.”



Octávia e Diana são escritoras com uma capacidade de descrição assustadora. Se é possível encontrar uma amostra da opressão feminina nas páginas de Outlander, é evidentíssimo em Kindred a denúncia ao abafamento da dor e sofrimento da mulher negra: das surras, do trabalho exaustivo, dos filhos vendidos, das famílias separadas, das humilhações, da comida ruim, da dormida no chão imundo, do racismo abertamente aceito, da impotência para se defender, da ausência de voz, da usurpação de identidade, da imposição de inferioridade. 




Kindred é um livro triste, marcante, perturbador, porém necessário. Apresenta a escravidão com um víes tão estranho, tão confuso, que somos capazes de entender os pensamentos de Dana como manifestações navegantes entre uma espécie de síndrome de Estocolmo, um desejo por sobrevivência, e um sopro de rebelião.







Por Tuísa Sampaio






[1] Ambos, Kevin e Dana, eram escritores que se sustentavam por meio de sub-empregos, porém Kevin muitas vezes auxiliava Dana nos procedimentos de pesquisa, ensinava-a a ser proteger, e lhe fornecia informações extras. Ele era um espécie de Robin para o batman dela.
28 dezembro 2017

As mulheres reais de Outlander: Marie Louise de La Tour d'Auvergne

As mulheres reais de Outlander : Marie Louise de La Tour d’Auvergne


Contém spoilers da segunda temporada/segundo livro

Trazida de volta à vida em ficção


A série de TV “Outlander” da Starz é de longe um dos maiores sucessos da televisão nos últimos anos. A série é baseada nos livros de Diana Gabaldon e conta a história da enfermeira da segunda guerra mundial Claire, que acidentalmente viaja pelo tempo e acaba na Escócia no meio do século XVIII. Os livros de Diana Gabaldon são imensamente populares – também porque ela inclui eventos e pessoas históricas reais. Podendo ser Charles Edward Stuart, o pretendente ao trono britânico, ou Louise de Rohan, a amiga parisiense de Claire. Louise introduz Claire à sociedade parisiense e até mesmo ao rei. No momento em que Claire luta com o nascimento da sua filha natimorta, ela está lá para ajudá-la. Ela também é retratada como a amante de Charles Edward Stuart.


Realidade

A verdadeira Louise de Rohan nasceu em 15 de Agosto de 1725 em Paris como Marie Louise Henriette Jeanne de La Tour d’Auvergne. Seus pais foram Charles Godefroy de la Tour d’Auvergne (1706–1771), Duque de Bouillon, e Maria Karolina Sobieska, filha do rei da Polônia. De início, ela deveria tornar-se a esposa de Honoré III de Mônaco. Entretanto, os planos da família mudaram. Quando ela estava com dezessete anos, ela casou-se com Jules Hercule Mériadec de Rohan, príncipe de Guéméné, no dia 17 de fevereiro de 1743. Dois anos depois ela deu a luz a um filho. Em 1746, ela sofreu de varíola, mas sobreviveu. 

O caso com o “bonnie prince Charles”

Seu marido estava longe a maior parte do tempo, visto que ele era membro do exército francês lotado nos Países Baixos (Holanda). Em 1747, ela conheceu seu primo Charles Edward Stuart, e eles se apaixonaram um pelo outro. Começaram um caso que eles precisavam manter em segredo. Embora o adultério fosse amplamente aceito na alta sociedade, tinha que ser mantido em segredo. Era especialmente difícil para Louise, uma vez que sua sogra sempre a vigiava. Charles e Louise comumente escapavam da vigília da mulher à meia-noite, mas o caso teve suas consequências: primeiramente, a sogra de Louise uma vez chamou a polícia para impedi-la de ver Charles novamente. Em segundo lugar, Louise engravidou.


Para esconder o escândalo, Louise tentou seduzir seu marido para fazê-lo acreditar que ele era o pai da criança. Para salvar o nome da família da ruína, seu sogro e sogra forçaram-na a escrever uma carta para Charles a fim de acabar com o caso. Marie Louise, entretanto, ameaçou se matar se eles não permitissem que ela o visse novamente. Charles continuou visitando a família, mas ele já havia achado um novo amor: Clementina Walkinshaw.


Em 28 de julho de 1748, Louise deu à luz ao filho do amante. O menino, Charles Godefroi Sophie Jules Marie de Rohan, foi aceito como um membro legítimo da família Rohan, mas morreu cinco meses depois. A sogra de Louise informou ao pai de Charles sobre o nascimento do seu neto. É desconhecido o que o próprio Charles teve a dizer sobre o filho.


Vida posterior

Após a perda do amante e do filho, sua vida mudou drasticamente. Ela tornou-se uma esposa fiel e mais tarde trabalhou como governanta das crianças reais. Era conhecida por seus bailes e festas luxuosos, e logo o casal estava profundamente endividado. Em 1783, a dívida deles atingiu 33 milhões de francos. Ela teve que desistir de sua posição na corte, e seu marido não era mais igualmente bem-vindo lá. Entretanto, seu casamento parece ter sido feliz no final.  Não há clara evidência quanto à data de sua morte. Contudo, a maioria dos especialistas acredita que ela tenha se tornado uma vítima da revolução francesa e morrido em 1793 da mesma maneira que a Rainha Marie Antoinette: pela guilhotina. Ela foi enterrada no convento Feuillant, junto com seu segundo filho.


Louise “retornou à vida” em 2016 quando a segunda temporada de Outlander foi lançada. A atriz francesa Claire Sermonne interpreta a amiga engraçada e amparo da protagonista Claire Fraser. Seu retrato de Louise fez uma mulher extraordinária ser conhecida por um público mais amplo. Embora Outlander seja ficção e goste de brincar com fatos históricos, isso mostra que tipo de vida Louise deve ter tido. O que ela sabia e via, o que ela acreditava, e quem ela amava.


Artigo traduzido de History of Royal Woman




18 dezembro 2017

Livro x Série de TV- Episódio 13 (season finale): Eye of the storm

Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 13 (season finale): Eye of the storm


O ultimo episódio da temporada trouxe às telas parte dos escritos dos capítulos 60 (Cheiro de pedras preciosas), 61 (A fogueira do crocodilo), 62 (Abandawe), 63 (Das profundezas), e uma cena que foi cortada do capítulo 52 de O Resgate no mar, concluindo-o. Na estrutura do episódio, inicialmente, Jamie e Claire estavam separados, mas como, além de ser por um pedaço pequeno de tempo, no livro, eles chegam à mansão da rosa juntos, preferi não utilizar uma separação em tópicos nesta análise.


Quem pegou o livro percebeu que muitas páginas formam esses capítulos finais, e com isso boa parte da trama descrita neles foi excluída de Eye of the storm. Eu acredito que o essencial para a compreensão e apresentação ao público do encerramento dessa história estava presente no “finale”, porém algumas coisas interessantes foram deixadas de lado também. No capítulo 60, Jamie e Claire chegam à mansão rosa, conversando sobre o que poderia acontecer com o sr. Willougbhy caso fosse encontrado pelos oficiais britânicos (enquanto na série, o chinês havia fugido com Margaret; no livro, ele estava se escondendo de uma acusação de assassinato). No material original, Jamie e Claire entram na casa de Geillis pela porta da frente (sem ainda saber a verdadeira identidade da sra. Abernathy); no episódio, Claire, sozinha, é encontrada por um dos escravos de Geillis bisbilhotando a propriedade e é levada a patroa, que ela já sabia quem era, de início como prisioneira. Enquanto esperava pela dona da casa na sala, Claire toma chá, e quando Geillis entra, o espanto é tanto que ela deixa a xícara cair. Claire pergunta por que Geillis não está morta ao que a amiga responde que muitas pessoas perguntam isso, e que ela sempre pensou se um dia veria Claire novamente após Cranesmuir. Elas conversam sobre Cranesmuir e sobre o dia em que Gillian Edgars atravessou as pedras para tornar-se Geillis Duncan. Geillis pergunta a Claire também quem a acompanhava quando ela tentou impedi-la de atravessar as pedras em 1968, mas Jamie interrompe o diálogo. Jamie pergunta como Geillis havia ido parar lá naquele lugar, e ela conta a mesma história que, na versão adaptada, ela contara a Claire no episódio anterior. Tem algo importante que aparece na conversa do livro; mas não, na das telas: o apelido de Geillis quando morou em Paris, período esse em que ganhou fama de vidente. Ela comenta que passou anos lá com o nome de madame Melisande Robicheaux. Aqueles que leram o conto “The space Between” estão mais familiarizados com as atividades de Geillis durante esse período. Ela também conta que Dougal havia a ajudado a fugir porque ela havia ameaçado matar a criança, o que não aparece na conversa do episódio anterior. Quando os Frasers dizem que estão a procura do sobrinho Ian Murray, Geillis afirma que o único trabalhador branco que existe na propriedade é o administrador. Jamie pergunta se Geillis não tem medo de morar sozinha, longe da cidade, cercada por tantos escravos. É quando ela lhes apresenta Hércules, mencionando que ele tem um irmão gêmeo chamado Atlas, ela afirma que os escravos a temem porque acham que ela é uma bruxa. Claire percebe que Hércules tem um olhar muito vazio e pergunta se ele não é um zumbi. No episódio, é Hércules que captura Claire e leva-a até Geillis.




Geillis recorda-se das habilidades médicas de Claire e pede ajuda para tratar de dois de seus escravos, enquanto Jamie se oferece para consertar o moinho de açúcar dela. Geillis informou a Claire que um dos pacientes tinha um verme loa-loa que se alojava no globo ocular, ela precisava manter o homen no escuro porque a claridade fazia com que os vermes se movimentassem, o que era muito doloroso. Claire fez uma incisão no olho e retirou o problema. Já o outro paciente tinha uma hérnia estrangulada e findou morrendo antes que Claire chegasse a ele. Claire usou a desculpa de que precisava examinar uma escrava grávida para conversar com ela e perguntar sobre Ian, mas a moça afirmava que não havia garotos brancos ali. Quando Claire retorna à sala, Geillis está olhando as fotos de Brianna. As duas passam a conversar sobre a filha de Claire e Jamie. Geillis faz várias perguntas a Claire em relação à travessia, como ela conseguiu passar pelas pedras mais de uma vez? Ela usou algo como sangue ou pedras preciosas? Claire percebe, então, que Geillis matou o marido para usar o sangue que ela acreditava precisar para a passagem.


No episódio, Claire encontra Geillis sozinha, e ela acha estranho Claire estar constantemente entrando em seu caminho. Para provar que tudo que ela contara para Geillis era verdade, sobre ela ter voltado ao seu próprio tempo para criar a filha de Jamie, Claire mostra a fotos de Brianna. É quando Geillis percebe que Brianna era a moça da profecia e esconde uma das fotos. No livro, ela também pega uma foto escondida, mas como já comentei anteriormente, a profecia foi modificada e originalmente não falava de um bebê de duzentos anos que precisava morrer, e sim, que o um descendente da linha fraser de lovat sentaria no trono escocês. Quando Claire é dispensada para descansar em Eye of the storm, ela encontra Jamie que estava a procurando na propriedade após ter sido solta com a intervenção de lorde John a pedido de Fergus. Esta foi uma cena que não existe no livro, mas que além de uma ótima solução para essa prisão inventada, foi gostosa de assistir à dinâmica entre os amigos e a humilhação do capitão Leonard. Voltando ao capítulo 60, Claire tem certeza que Ian está na casa, quando vê o tesouro das focas com Geillis. A sra. Abernathy usa a caixa para explicar sobre o poder das pedras preciosas em estabilizar a viagem no tempo. Geillis chama Claire para ir até seu gabinete de trabalho, Claire questiona a “amiga” sobre quantas vezes ela havia se casado, e ela responde que acha que cinco. Claire assusta-se com a quantidade, é quando Geillis comenta que o ar dos trópicos é muito insalubre para os ingleses, qualquer coisinha os faz ficarem doentes. Algo semelhante ao que ela havia dito em The bakra. Geillis apresenta a Claire o “veneno de zumbi”, uma poção que ela recebera de um cozinheiro escravo chamado “Ishmael”. Daí descobrimos de onde “Ishmael” havia surgido (lembrando que o personagem foi excluído da série). Geillis conta que Ishmael havia sobrevivido ao naufrágio de um navio negreiro, segurando-se em um barril de bebida. Os homens que o encontraram, quando foram abrir o recipiente acharam um corpo imerso no crème de menthe. E agora temos a explicação do livro do que acontece com o corpo do guarda, bem diferente do que aparece na série. Acho interessante como Diana sempre consegue fechar os arcos das tramas paralelas que surgem nos seus romances com uma sequência de coincidências perfeitas. Quase nada acontece por acaso, assim quando algo realmente aparece de forma aleatória, é muito difícil de acreditar que não haja uma justificativa mais à frente. Após falarem sobre “Ishmael” e o veneno de zumbi (a bebida que fazia Hércules parecer um morto-vivo), Claire e Geillis passam a discutir os pormenores das viagens no tempo. Quando Claire viajou, o uso das pedras preciosas e o sangue. É nesta conversa que Claire comenta que acredita que uma das coisas que atrai o indivíduo para um determinado tempo é fixar a mente em uma pessoa que está no tempo que você quer viajar. Assim, a conversa que aparece no episódio, apesar de conter uma animosidade que não é apresentada no livro, contém alguns dos pontos apresentados durante esse extenso diálogo entre as duas viajantes. Após o término da conversa, elas foram atrás de Jamie que já havia acabado de consertar o moinho com a ajuda do administrador da fazenda. Geillis o convida para um lanche, mas ele a informa que precisa partir logo para Kingston a fim de chegarem antes do anoitecer. Ele pergunta a Geillis ainda se ela conheceu o duque de Sandringham, e ela confirma. Quando estão sozinhos, Jamie conta a Claire que apesar de não ter conseguido nenhuma informação com os escravos ou o administrador sobre o paradeiro do jovem Ian, ele imagina onde o sobrinho esteja. Jamie havia olhado o terreno enquanto fazia sua tarefa, mas ninguém o havia deixado chegar próximo ao engenho, era ali que ele acreditava estar Ian. Eles foram se esconder, esperando o melhor momento para entrar no engenho, quando viram o reverendo Archie Campbell chegando para fazer uma visita a Geillis. No episódio, Claire e Jamie só encontram o ministro junto a cerimônia sagrada da tribo nativa jamaicana, estando ele em busca de sua irmã que havia fugido para lá junto com sr. Willoughby. No livro, Jamie traça um plano para ir de barco pegar jovem Ian o que iria demorar alguns dias e precisaria da ajuda de John Grey.




No capítulo 61 (A fogueira do crocodilo), a empreitada para salvar Ian começa. Quando o barco atraca, Jamie parte, deixando Claire com uma pistola carregada e esperando junto com Stern e seus homens nas proximidades da embarcação. Enquanto esperava, Claire viu uma figura passando pela casa, a qual ela sabia não ser Geillis. Ela a segue, pensando ser jovem Ian, mas na verdade era o reverendo Campbell, que a reconhece. Ele a questiona sobre o que ela estaria fazendo ali, o que Claire responde que procurava pelo sobrinho do marido e retruca a ele sobre onde estaria a senhora Abernathy, o que ele não soube responder. Eles passam a discutir porque, por meio de Geillis, Campbell havia descoberto o verdadeiro nome de James, acreditando ser ele o causador dos infortúnios da irmã. Claire explica que ela falara com Jamie, e ele lhe dissera que o namorado de Margaret chamava-se Ewan Cameron, mas o reverendo não acredita. Claire estava se sentindo ameaçada por Campbell até que ela vê o pelicano de estimação do sr. Willoughby e imaginou que o sócio chinês do marido estivesse por perto. Na série, o sr. Willoughby não tem esse pássaro. Durante o diálogo, Campbell conta que estava na fazenda realizando cópias de uns documentos a pedido da senhora abernathy (vou abrir esses parênteses só para destacar que eu constantemente chamo Campbell de reverendo porque ele tem esse ofício no livro, mas na série, vale lembrar, ele apenas explora as visões da irmã). No material original, é durante essa conversa que Claire fica sabendo sobre o conteúdo da profecia Fraser feita pelo adivinho Brahan.


“A profecia diz que um novo governante da Escócia surgirá da linhagem Lovat. Isso ocorrerá depois do eclipse dos ‘reis da rosa branca’, uma clara referência aos Stuarts papistas, é claro. – Balançou a cabeça indicando as rosas brancas no desenho do tapete. – Há referências mais obscuras na profecia, é claro; a época em que esse governante surgirá e se será um rei ou uma rainha, há uma dificuldade de interpretação, devido ao manejo errado do original...”

Enquanto Claire passa a pensar sobre o que Campbell havia dito acerca da profecia, o Sr. Willoughby entra na sala e acusa o reverendo de ter assassinado a sra. Alcott (trama exclusiva do livro). O sr. Willougby continua seu discurso dizendo que já havia visto o reverendo muitas vezes na Escócia com prostitutas, e que acreditava que ele já havia matado antes. Yi Tien Cho avisa a Claire para ela ir embora, pois o “Homem santo gostar de mulheres, não com pau. Com faca”. Claire então aponta a pistola que portava para Campbell, pois percebeu que ele era “o demônio” que assassinava mulheres em Edimburgo (mais uma linha da história dos livros que foi excluída da série). Para se defender, Campbell afirmou que o sr. Willoughby havia traído Jamie para Sir Percival Turner, e assim Claire fica confusa. Com essa distração, o reverendo pula para cima de Claire que acaba atirando, mas não o atinge, ele então saca uma faca, mas o sr. Willoughby o ataca e o mata. Como na série, a trama do “demônio” não existia, achei a morte do reverendo muito “gratuita”. Ele podia ser um homem mesquinho e abusivo com a irmã, mas ele não era um assassino. Ele morre também pelas mãos do sr.Willloughby como forma de proteger Margaret de uma surra. Posso ter achado um pouco gratuita a morte na série, pois sem o lado assassino, Campbell aparentava ser menos cretino, mas a satisfação de ver o crápula abusivo morrer esteve presente durante a cena. No livro, Willoughby admite que havia traído Jamie pois estava bêbado. E afirma que Jamie não deve matá-lo, pois ele salvou a vida de Claire, então parte. Esse é outro enredo que não existe na série. Diana escreve muitas tramas além da principal, e a produção resolveu seguir apenas o essencial para contar a história de Jamie e Claire nesse fim de temporada. Acabaram criando também um final para o sr. Willoughby bem mais nobre que o original. Excluindo a história da traição, fazendo-o ser parte de uma história de amor com Margaret, e ainda matando Campbell para protegê-la. Após o incidente, Claire sai a procura de Geillis em seu gabinete e encontra uma fotografia de Brianna chamuscada:


“Deve ser magia – ou a versão de Geillie de magia. Tentei freneticamente lembrar-me de nossa conversa nesse aposento; o que ela dissera? Ela mostrara-se curiosa sobre o modo como eu viajara pelas pedras – esse era o ponto principal. E o que eu disse? Apenas algo vago, sobre fixar minha atenção em uma pessoa – sim, era isso - , eu disse que fixara minha atenção em uma pessoa específica que vivia no tempo para o qual eu queria ser atraída.

(...) ‘Uma das profecias do adivinho Brahan’, ele dissera, ‘Referentes aos Fraser de Lovat.’ ‘O governante da Escócia virá desta linhagem.’ Mas, graças às pesquisas de Roger Wakefield, eu sabia – o que Geillis provavelmente também sabia, obcecada como era pela história escocesa – que a linha direta dos Lovat fracassara nos anos 1800. Quer dizer, para todos os propósitos e intenções visíveis. Houve, de fato, um sobrevivente daquela linhagem vivendo em 1968 – Brianna.”



No episódio, Claire encontra a foto chamuscada de Brianna junto com Geillis em Abandawe, quando ela se prepara para viajar no tempo novamente a fim de matar o “bebê de 200 anos” que era como se referia a profecia da série.


Voltando ao livro, ao sair da casa em busca de Jamie, Claire escuta uma cantoria e acaba sendo atacada por um crocodilo, mas é salva pelos negros liderados por Ishmael que estavam por perto. Mais uma trama paralela que não foi colocada na série. Eu acredito que a cabeça de crocodilo que um dos negros usava no ritual nas telas tenha sido uma referência a esse trecho do livro, uma vez que depois de matar o crocodilo, Ishamel usa a carcaça da cabeça dele como um chapéu. Os homens levaram uma Claire não muito consciente para uma cabana próxima a uma fogueira. Ishmael vai falar com ela. Conta que a patroa saiu e deve ter levado o menino com ela, pois Geillis “gosta de garotos”. Enquanto, eles conversam Margaret Campbell aparece. Margaret, Ishmael e Claire se aproximam da fogueira, onde um ritual com o resto do crocodilo será realizado. A cena no episódio em que um dos negros bebe sangue de um galo/galinha (não sei o que era na imagem) também acredito ser uma referência ao ritual do livro, só que neste é Margaret quem mata uma galinha e bebe seu sangue em uma xícara junto com seu chá. Após beberem algum tipo de alucinógeno, Margaret passa a utilizar seus talentos como vidente com os negros.

“Ouvindo, eu senti os cabelos de minha nuca ficarem em pé e compreendi pela primeira vez o que trouxera Ishmael de volta a este lugar, arriscando-se a recapturado e escravizado outra vez. Não era amizade, nem amor, nem qualquer lealdade a seus companheiros escravos, mas poder.


Qual o preço do poder de predizer o futuro? Qualquer preço, foi a resposta que eu vi, olhando os rostos enlevados da congregação. Ele voltara por Margaret.”

Enquanto Claire observa Margaret contar o futuro das pessoas, ela vê Jamie escondido. Ela pensa em escapar para ele, mas é quando Margaret passa a incorporar Brianna. Parte desse diálogo foi reproduzido no episódio. Ishmael conta a Jamie que a senhora Abernathy havia ido com Ian para Abandawe (no episódio, Margaret fala o nome da caverna logo após incorporar Brianna, o que, depois de saber sobre a profecia e a foto perdida, faz Claire ter uma epifania que essa caverna sagrada deve ser o local de passagem no tempo e lá que Geillis e Ian devem estar). Ishmael pergunta a Claire se ela ainda sangra (menstrua) e ela diz que sim. Ela fala então que se ela ainda sangra, ela mata a magia, apenas as idosas podem realizar mágica, por isso ele afirma que a magia que Claire não pode fazer, a magia que Geillis faz, que a tal magia pode matar tanto a própria Geillis quanto Claire. Continua dizendo que se eles seguirem atrás do rapaz, eles irão morrer. Quanto a esta parte há uma citação semelhante no episódio. No fim do capítulo, Jamie e Claire se preparam para ir a Abandawe, mas uma fazenda próxima começa a pegar fogo. Jamie vê Margaret, e ela o reconhece como um dos amigos de Ewan, seu falecido namorado. O incêndio, na verdade, havia sido uma distração arranjada pelos homens de Jamie, que acabou servindo também para facilitar uma fuga dos escravos.


No episódio, a procura por jovem Ian segue um caminho diferente, após estarem novamente juntos, Claire informa a Jamie que viu Ian sendo carregado na direção dos batuques. Eles seguem o barulho e encontram uma cerimônia dos nativos, que faz Claire lembrar a dança das druidisas presenciada no primeiro episódio da primeira temporada (e em A viajante do tempo). Eles encontram o sr. Willoughby que estava acompanhando Margaret por quem havia se apaixonado, enquanto ela compartilhava seus dons com a tribo nativa. Os Frasers perguntam ao chinês se ele havia visto Ian, mas ele não tinha nenhuma informação. Assim, Claire segue para procurar Margaret, pois talvez ela pudesse saber algo sobre o paradeiro de jovem Ian. Margaret tem visões do passado do casal, e incorpora um pedido de socorro de Brianna. Campbell aparece, tenta levar Margaret embora, e acaba contando sobre a profecia de um bebê de 200 anos que deve morrer para o monarca escocês surgir. É quando Claire percebe que Geillis levou uma das fotos de Brianna e que ela deve ter ido atrás de sua filha, e os Frasers partem desesperados para Abandawe.


No capítulo 62 (Abandawe), Jamie combina com John para roubar o barco do governador com o intuito de resgatar Ian, o que Jamie não conta ao amigo. John só sabe que Jamie precisa do barco, confiando cegamente na súplica do escocês. Na embarcação, partiram Jamie, Claire, Stern e os contrabandistas, mas ao chegarem ao local onde deveriam partir a pé apenas os três primeiros seguiram viagem. Ao encontrarem Abandawe, Claire vê um círculo de pedras, Stern comenta que ele havia sido erguido por aborígenes. No episódio, os menires, apesar de existirem, foram substituídos como forma de passagem por um pequeno lago. Apenas Jamie e Claire entraram na caverna, uma vez que Jamie não permitiu que Stern os seguisse. Jamie comenta que se algo for acontecer com um dos dois, tem que ser com ele, porque Claire é capaz de seguir Geillis através das pedras e impedir quaisquer planos que ela tenha. Algo semelhante é dito no episódio, quando Jamie fala que se algo acontecer a ele, Claire deve seguir Geillis, pois eles já perderam Faith, não poderiam perder Brianna também (essa frase derreteu meu coração, adoro que na série eles colocam vários lembretes sobre a importância de Faith na vida do casal. Infelizmente, ela não é tão lembrada assim através dos livros. Talvez para os personagens criados por Diana fosse mais difícil falar sobre o bebê perdido). No capítulo, após o aviso dado por Jamie, ele complementa com “- Então me beije, Claire – ele sussurrou. – E saiba que você é mais para mim do que a própria vida e que não me arrependo de nada.” citação que foi cortada do episódio. Adentrando a caverna, eles encontram Geillis preparando o ritual para a travessia, e Ian, amarrado, próximo a um machado. No episódio, Geillis prepara-se para por fogo no jovem Ian para matá-lo em sacrifício, assim como fez com seu marido em 1968. Ademais, como no livro, Geillis também comenta que só vai poupar Jamie por Claire gostar dele; mas exclusivamente no capítulo, Geillis fala que Jamie estava muito parecido com Dougal.



“- Não faça isso, Geilie – eu disse, sabendo que palavras não iriam resolver nada.


- Eu tenho que fazer – ela disse calmamente. – Sou destinada a fazê-lo. Lamento ter que levar a garota, mas eu lhe deixarei o homem.


- Que garota? – Os punhos de Jamie estavam cerrados com força ao lado do corpo, os nós dos dedos brancos mesmo à luz turva da tocha.


-Brianna? É esse o nome dela, não é? – Sacudiu os cabelos pesados para trás, afastando-os do rosto. – A última da linhagem Lovat. – Sorriu para mim. – Que sorte você ter vindo me ver, hein? Se não fosse por isso, eu jamais ficaria sabendo. Eu pensava que todos tinham morrido antes de 1900.”

Com essa afirmação de Geillis, Jamie tenta partir para cima dela, mas ela atira nele. Com Jamie caído no chão e ferido, cabe a Claire tentar salvar jovem Ian. Em Eye of the storm, Hércules está presente e luta com Jamie para impedi-lo de chegar perto da patroa. Quando Claire tenta conversar com ela, Geillis afirma que Claire lhe deve uma vida por ter salvado a amiga de queimar na pira como bruxa, e que ambas devem sacrificar seus filhos pela causa. Para impedir Geillis de realizar a viagem e matar jovem Ian e como consequência Brianna, Claire pega um facão e corta a garganta dela. No livro, Geillis percebe as intenções de Claire e tenta atirar nela antes que a mulher chegue até ela, mas falha, permitindo assim que Claire alcance o machado, e a matasse. Depois disso, Jamie acorda, e segue com Claire e Ian para fora, pois pelo vento já conseguia perceber que uma tempestade se aproximava. No episódio, quando Claire mata Geillis, ela parte com o marido e o sobrinho, mas ainda não há o prelúdio da tempestade – e Jamie também não está ferido.



Ao sair da caverna, encontram com Stern, montam acampamento, a tempestade passa, e Claire cuida do ferimento na cabeça de Jamie. Nada disso ocorreu no episódio, onde os personagens partem da caverna direto para o navio. Mais tarde, Ian conta sobre o que havia acontecido com ele. O menino havia sido mantido com outros rapazes dentro da embarcação pirata. Quando chegaram à mansão da rosa, eles só mudaram de prisão. De tempos em tempos, a senhora Abernathy aparecia e levava um dos garotos, que nunca retornava. Um das noites, levaram Ian, quando ele entrou no cômodo onde estava Geillis, ela usava uma camisola e deu um líquido para Ian beber e fez perguntas sobre a vida e família de Ian e se ele era virgem. Quando Ian contou a Geillis que ele já havia se deitado com uma mulher, ela ficou revoltada (na série, há uma cena em The Bakra que Geillis descobre que Ian é virgem, mas ela só diz que, assim ele saberá o que fazer). No livro, depois das perguntas, Geillis abusa sexualmente do jovem Ian, enquanto Hércules ou Atlas assistia. Em The Bakra, como essa cena não aparece, os telespectadores não sabem o que realmente ocorreu entre eles. Em Eye of the storm, Jamie fala a Claire que Ian vai voltar para Lallybroch e para a mãe no primeiro navio com destino para Escócia, e Claire lhe lembra de que o rapaz pode não querer ficar em Lallybroch após toda essa aventura, o que é uma conversa retirada deste capítulo.


Seguindo a ordem cronológica do episódio neste ponto, tenho que retornar ao capítulo 52 (Um casamento é realizado), de onde foi extraída a conversa romântica entre Claire e Jamie, que em Eye of the storm foi introduzida em um diálogo dentro do navio que os levava da Jamaica. No capítulo, eles estavam na cabine do Artemis, atracados, antes do casamento de Fergus e Marsali. O diálogo que ocorre aí sobre o que Jamie planeja fazer com Claire quando tiverem espaço foi majoritariamente copiado e colocado na cena antes da tempestade no episódio.



No capítulo 62 (Nas profundezas), quando eles estão em alto mar, o Porpoise volta a persegui-los, o que não ocorre em Eye of the storm. A tempestade, no livro, ocorre um tempo depois de deflagrada a perseguição do porpoise, o que foi dito ser uma sorte, pois resultou na diminuição da velocidade do navio de guerra britânico. A tempestade findou por afundar o Porpoise (bem feito, quem mandou querer prejudicar os Frasers). Durante a tempestade é que Claire faz a associação entre o crânio que Joe Abernathy analisou em 1968 e a morte de Geillis Duncan, o que no episódio, acontece quando ela ainda estava em terra firme. A tempestade passou e cinco dias depois eles encontraram local para atracar e é aí que Claire é jogada ao mar quando o mastro principal se parte, meio amarrada na vela, e Jamie pula para salvá-la. No episódio, ela é lançada ao oceano ainda durante a tempestade. A fala de Jamie de que se ela morrer, ele irá matá-la foi extraída deste capítulo.


“Eu estava morta. Tudo ao meu redor era de um branco ofuscante e havia um ruído suave, sussurrante, como o de asas de anjos. Senti-me em paz e sem corpo, livre do terror, livre da raiva, repleta de um tranquilo contentamento. Então tossi.”

A narração de Claire no início do episódio e que se repete ao final também foi adaptada deste capítulo. Claire acorda, no livro, já deitada em uma cama, com a perna quebrada, enquanto em Eye of the Storm, ela e Jamie retomam a consciência praticamente juntos na praia e aparentemente ela está sem ferimentos. Jamie conta a Claire que o navio havia ancorado no mesmo local em que eles estavam só que mais distante. Jamie comenta que havia perdido os retratos dos filhos quando pulou no mar, mas conseguiu salvar as pedras preciosas de Geillis. A senhora Olivier, a dona da casa em que estavam, adentra o quarto, eles perguntam a ela onde estão e a jovem responde que na colônia da Geórgia.


“- América – eu disse a meia-voz. – O Novo Mundo. – A pulsação sob meus dedos acelarara-se, reproduzindo a minha própria. Um mundo novo. Refúgio. Liberdade.”

Eye of the storm foi uma versão bastante simplificada dos capítulos finais de O Resgate no mar, mas eu acredito que cumpriu seu propósito. Foi um episódio que resolveu os conflitos principais restantes, mesmo que alguns de forma divergente do livro, e nos envolveu na força do relacionamento entre Jamie e Claire. A fotografia do final ficou primorosa. O modo como focaram a câmera em movimento me fez preferir o final na praia ao na casa dos Oliviers. Foi uma temporada com seus altos e baixos, mas no geral, achei que ela carregou várias melhorias em relação à temporada anterior. Foi mais dinâmica (o que é uma característica do próprio livro que a originou) e mais romântica (não tanto quanto queríamos, mas é um começo). Com esse episódio, despedimo-nos, por um tempo, não apenas de Jamie, Claire, Fergus, Ian, Marsali e tantos outros, mas de um personagem que nos tem iluminado e arrepiado durante as três temporadas: a Escócia. Não completamente. A cultura, a identidade e o patriotismo estarão presentes ainda nos highlanders que acompanharemos, mas a terra será deixada para trás por um longo período. Muito dos leitores e telespectadores, acredito que como eu, apaixonaram-se não apenas pelo amor impossível de Jamie e Claire, uma inglesa do século XX e um highlander do século XVIII, mas pela história dessa nação.



Saudade. “Sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas”. Mais uma vez durante a temporada voltamos a falar sobre ela. Mais uma vez nossa herança linguística nos abraça para expressar essa história. Conhecemos a força que o povo escocês carrega, a sua luta pela sobrevivência, o orgulho de sua identidade e o esforço para mantê-la. A cultura e povo escocês não mereciam sofrer com o apagamento e aniquilamento imposto pelos ingleses.


Escócia. Saudade. Nossa e dos Frasers. América. Esperança. Recomeço. E nesse jogo de palavras únicas, o tema do livro surge novamente: identidade. Jamie, escocês, pai, líder, prisioneiro, amigo, contrabandista, tipográfico, tio, irmão, Alexander Mackenzie, Alexander Malcolm, James Roy, James Fraser, marido de Claire. Claire, inglesa, curandeira, cirurgiã, mãe, viajante, Claire Beauchamp, Claire Randall, Claire Malcolm, Claire Fraser, esposa de Jamie. Os dois, solitários por vinte anos, agora conseguem reconstruir sua identidade como casal. Unidos em um mesmo tempo e em uma mesma terra. Chegou a hora dos Frasers dominarem a América.



Com o final da temporada, gostaria de agradecer a todos e todas que acompanharam as resenhas, quer seja de forma silenciosa, quer seja comentando. Foi um prazer fazer essa viagem com vocês. Nos encontramos novamente nos tambores do outono ;)



Por Tuísa Sampaio

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