Lallybroch
21 maio 2017

Resenha: A Cruz de Fogo


Contém spoilers

O quinto romance da série Outlander inicia-se no num dia muitíssimo longo em que ocorre uma assembleia (the gathering). A contagem de tempo desse livro é extremamente lenta, tanto é que um dia soma vários acontecimentos e o aparecimento de muitos personagens. A mesma situação acontece com o dia do casamento de Jocasta, tia de Jamie, que ocorre mais na frente. A assembleia e o casamento de Jocasta são os dois principais eventos da trama e a maioria dos conflitos resume-se à problemática diária de tratar com as famílias dos arrendatários e a preparação para guerra. Assim, A Cruz de Fogo acaba sendo um dos livros que menos agradam os fãs de Outlander, e confesso que é o que eu menos gosto também. Se você já leu e não gostou, não se desanime, porque o sexto livro tem um ritmo completamente diferente.


Capa original da edição atual


Diana cansou de torturar Jamie, e, nesse romance foi a vez de Roger sofrer mais um pouco. Ele acaba sendo enforcado como traidor, mas por sorte, Claire consegue salvá-lo por meio de uma cricotireotomia (acesso cirúrgico para a traqueostomia). Entretanto, ele perde a voz por um tempo e quando a recupera, já não consegue cantar como antes. Assim, o casamento entre Bree e Roger acaba passando por uma fase mais conturbada com as tentativas de aproximações de Brianna de seu marido pesaroso com a perda de algo com o qual muito se orgulhava. Dentre as descobertas trazidas por esta história vem o fato que Jemmy pode muito provavelmente viajar através das pedras como seus pais. A conclusão do livro traz uma linda declaração de Jamie para Claire:

“ Quando realmente chegar o dia em que tenhamos que nos separar – ele disse ternamente, virando-se para olhar para mim – , se minhas últimas palavras não forem ‘Eu a amo’, você vai saber que foi porque não tive tempo.”
Apesar de A cruz de fogo ser o livro que eu menos gosto da série como um todo, esse é o meu final favorito até agora dentre a trama de Diana.


Capa da primeira edição de A Cruz de Fogo(Rocco)


Assim, como os outros livros, a Cruz de fogo tem um tema e um formato. Diana escreve em The Outlandish companion v.02, que o quinto livro tem a forma de um arco-íris: começa com um dia bastante longo e as várias tramas do enredo desenvolvem-se a partir dele. Quanto ao tema, é bem claro que é sobre comunidade, já que todo o enredo gira em torno de grandes encontros, convivência e o modo de vida da família e seus arrendatários em Fraser’s Ridge. Diana explica em the Outlandish companion v.02 (tradução nossa):

“A Cruz de Fogo continua o senso de “construção” dos livros, do namoro, ao casamento, à família e agora à formação de uma comunidade, conforme Jamie reivindica seu destino original como laird e líder, sustentáculo e protetor de uma comunidade. Vimo-lo fazer isso (brevemente) em Lallybroch e então durante os anos depois de Culloden, quando ele liderou os prisioneiros em Ardsmuir, e os manteve (na sua maior parte) sãos e vivos ao forjá-los em uma comunidade. Jamie foi sempre definido (para ele mesmo, assim como para o leitor) pelo seu forte senso de responsabilidade e aqui nós o vemos em pleno funcionamento, conforme ele junta arrendatários para sua terra, Fraser’s Ridge, com a ajuda (e obstáculo ocasional de arrepiar os cabelos) dos viajantes do tempo de sua família. Assim como em qualquer história que vale a pena, a autodefinição de um protagonista (quer seja uma pessoa ou um grupo) é um processo tanto de descoberta, como de conflito. Pedras no caminho, oposição e perigo são as ferramentas que a natureza usa para esculpir uma personalidade marcante da pedra nativa. E assim nós vemos não apenas a formação da comunidade de Fraser’s Ridge (um paralelo e microcosmo da América emergente), mas a luta individual de Jamie, Claire, Brianna, Roger e outros, para se encaixar no seu ambiente em mudança, e preservar suas próprias identidades e descobrir suas vocações no processo.”


O que o leitor pode apreciar na comunidade dos colonos de Jamie é tanto a atividade comum da caça, preparação de comida, cuidado com as crianças, quanto as situações mais extraordinárias que costumam acompanhar os Frasers como assassinatos, roubos, mistério e guerra iminente. Finda que A Cruz de fogo seria um livro de transição da série: traz informações necessárias para os próximos livros, mas por si só não é algo muito atraente.


A editora Arqueiro publicou “A Cruz de fogo” no Brasil em dois tomos.


Capas das edições brasileiras atuais - Arqueiro

Por Tuísa Sampaio

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REFERÊNCIAS:

GABALDON, Diana. The Fiery Cross. Nova York: Dell, 2005.
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. 2. ed. New York: Delacorte Press, 2015.V.1.
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. New York: Delacorte Press, 2015. V.2.






01 maio 2017

Resenha: Os Tambores do Outono


O artigo abaixo contém spoilers do quarto livro da série Outlander
Esse quarto romance da série Outlander, escrito por Diana Gabaldon, inicia-se com Jamie e Claire na América e com seu futuro incerto. Ao presenciar a execução de um antigo amigo, Jamie Fraser finda por ajudar a escapar outro condenado, ação que pode afetar toda sua família. Seu sobrinho Ian ganha um novo amigo, Rollo, e permanece na companhia dos Frasers, e novos personagens são apresentados como a Tia-avó Jocasta e o governador Tryon, por meio do qual Jamie recebe uma terra para cuidar novamente.


Enquanto no passado, Jamie e Claire tentam se estabelecer em sua nova terra; em 1969, segue-se a trama de Brianna e Roger. Brianna, ao pesquisar sobre os pais, descobre uma notícia que a leva, secretamente, a atravessar as pedras em Craigh na Dun. Ao descobrir, Roger a segue para o passado. Encontrando com os pais na América, Brianna enfrentará uma nova descoberta e um relacionamento tanto amoroso, quanto conturbado com o pai que acabara de conhecer; ao mesmo tempo em que, sabendo da presença de Roger naquele tempo, todos na colina passam a procurar por um certo Roger Wakefield, sem saber que um mal-entendido levara Jamie e Jovem Ian a conceder um novo futuro ao historiador. Na busca para resgatar Roger, quando finalmente foi descoberto quem ele era e onde estava, Brianna faz amizade com Lord John, antigo amigo do pai, concluindo, então, o livro com a decisão de Brianna acerca de seu casamento definitivo com Roger.


Capa da primeira edição de Os Tambores de Outono


Admirável mundo novo” é o título da primeira parte deste livro. Diana tem um enorme amor por literatura e referências literárias em seus livros raramente, se nunca, são coincidências. Realmente para Claire, Jamie, Fergus e o jovem Ian, a América era um futuro incerto expresso por entre as batidas dos tambores que avisavam a chegada dos prisioneiros da Coroa para a execução. Huxley, autor de “Admirável mundo novo” afirmava que o futuro imediato tem muitas chances de se parecer com o passado imediato, mesmo tendo representações diferentes.


Seja pela representação do regime de totalitarismo da Coroa descrito no capítulo inicial, com um governo feito a base da força; seja pela perspectiva de um futuro semelhante ao passado, como casal de donos de terras com vários inquilinos para administrar, esse início seria o rufar inicial de que tipo de Mundo Novo a América seria para esses personagens: um mundo semelhante ao deles, mas ao mesmo tempo ainda repleto de “selvagens” desconhecedores dos desígnios sociais comuns aos europeus.

Capa original da edição atual


Algo que foi muito interessante neste livro, comparando ao terceiro, foi o desenvolvimento da personagem Brianna. Enquanto no livro anterior sua participação é bem pequena, nesse ela divide o protagonismo com os pais (e Roger). Uma personagem que nem sempre é do agrado de muitos leitores da série, para alguns pela personalidade, para outros pelo fato de sua própria existência ter acarretado na separação dos seus pais, Brianna é o que Diana chama de “hard nut” (“osso duro” em tradução livre) no quesito criação de personagem: uma pessoa cuja presença na história é estrutural, mas que não veio naturalmente em sua mente, sendo majoritariamente importante pela função que desempenha no enredo, qual seja, primeiramente, a separação de seus pais.


Por mais que a trama de Roger e Brianna comece separada da história de Jamie e Claire é sua união que causa o estrondo maior do tambor, em especial, quando se trata do choque de culturas entre Jamie e Brianna.


A autora revelara uma vez que baseou a relação de Jamie e Brianna com seu próprio relacionamento paterno. De Jamie foi roubada a oportunidade de ser pai de seus filhos e foi algo de extrema dificuldade, para um homem do século XVIII, lidar com sua filha, jovem adulta do século XX. O tema deste livro é família (leia: Os Temas de Outlander por Diana Gabaldon), como dito pela própria autora, e família é algo que para Jamie, além de sua honra, era fonte de todo seu sacrifício e de toda a sua alegria.

Capa da primeira edição de Os Tambores de Outono (Rocco)


Confesso que o método “Jamie Fraser de educação” não é algo que eu sempre entenda, mas Jamie tinha seu próprio modo de amar sua filha. Para mim, os tambores que rufam no início do livro, e que dão nome a este, são muito mais que o presságio deste mundo novo, mas também representam o choque entre pai e filha, entre Roger e Brianna, entre Jamie e a memória de Frank, e entre novo e antigo mundo. É um livro de batalhas familiares, mas acima disso, de como essas batalhas constroem e unem uma família.


Liev Tolstói inicia seu romance “Anna Kariênina” com a seguinte passagem:



“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”
Nenhuma família é sempre feliz ou sempre triste, mas são seus laços, seus choques, seu amor, sua perseverança e até mesmo seus traumas que a aproxima, formando uma união indestrutível. A família Fraser não é diferente. Estão sempre prontos para defenderem uns aos outros, porém sempre prontos para deixar a teimosia correr solta em calorosos embates.


Capas das edições brasileiras atuais (relançamento) / Arqueiro


Para muitas meninas e mulheres, Jamie e Frank são manifestações de seus próprios pais. Vi muito mais do meu pai na memória do carinhoso, amoroso e dedicado papai Frank; mas também relembrei inúmeras brigas, teimosias, e narizes empinados que terminavam com aquele gostoso e saudoso colo do meu pai quando os nossos choques de gerações se manifestavam nas batidas dos tambores de Jamie e Bri.


Para mim, além da família, “Tambores do Outono” é sobre um homem aprendendo a ser pai e sobre os sacrifícios que todos nós aprendemos a fazer pela família.


“Os Tambores do Outono” está sendo publicado em português em dois volumes pela Editora Arqueiro. O primeiro volume já está disponível para compra, e o segundo tem previsão de lançamento para 06/05/2016.



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REFERÊNCIAS: 
GABALDON, Diana. Drums of Autumn. New York: Dell, 2002. (Outlander).
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. 26. ed. [S.l]: Globo Editora, 2001. 
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. 2. ed. New York: Delacorte Press, 2015.V.1.
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. New York: Delacorte Press, 2015. V.2.
TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. São Paulo: Cosac Naify, 2008. Tradução de: Rubens Figueiredo.




Por Tuísa Sampaio
23 abril 2017

Resenha: O Resgate no mar

CONTÉM SPOILERS

“O Resgate no mar” (título original: Voyager) traz consigo algumas novidades na escrita de Diana Gabaldon. Não apenas Claire é narradora-personagem da história, mas agora contamos com a mudança de foco narrativo de maneira mais aprofundada, principalmente com a entrada do ponto de vista de Jamie. Gabaldon começou a usar esse recurso ainda no segundo livro, porém é a partir do terceiro que essa miríade de pontos de vista surge com força (e esse leque de narração vai se abrindo mais ainda ao longo da série), transmitindo um maior amadurecimento da escrita da autora. Enquanto no segundo livro há um narrador em terceira pessoa para a linha textual de Roger, e uma em primeira pessoa para Claire; a trama do livro três inicia-se já com a jornada de Jamie em 1746, o que antes não seria possível com a narração de Claire ou Roger. Nesse contexto, Diana demonstra mais uma vez sua maestria na arte literária: os pontos de vista de cada personagem acabam que tendo uma lógica na moldura da história. Ela menciona no volume um de seu compêndio que o primeiro terço do livro é realizado com uma técnica de narrativa em formato de trança, onde Jamie narra de ordem cronológica na terceira pessoa, Claire fala em primeira pessoa em ordem contrária e em flashbacks, e Roger traz o ponto de vista em terceira pessoa como transição entre os dois personagens anteriores. No segundo terço do livro, essa narrativa se fecha em Claire linearmente.


Capa da primeira edição de Voyager (O Resgate no Mar)

A continuação da aventura dos Frasers nesse novo livro inicia-se em 1746, como mencionado, com Jamie em Culloden. O leitor vai descobrir como ele sobreviveu. Na linha narrativa de Jamie acompanhamos os anos em que ele ficou escondido, fugitivo da coroa; o nascimento do seu sobrinho mais novo jovem Ian; sua ida para a prisão em Ardsmuir; sua amizade com o carcereiro Lord John; seus anos de exílio em Helwater onde conhece Geneva Dunsany com quem tem um filho: William, entre outros momentos de sua vida. Paralelamente, com Claire e Roger vemos a busca para saber onde Jamie estaria exatamente para que a médica pudesse voltar a rever o seu amado. Até que preparada, Claire volta pelas pedras, onde reencontra Jamie em sua gráfica em que ele utiliza o nome de Alexander Malcolm. O capítulo 24 é o mais esperado pelos fãs justamente por ser o famoso reencontro entre os dois e ele não decepciona. Há conversa, choro, riso, desmaio, calças arriadas e muito, mas muito amor.

Porém, onde há Jamie e Claire juntos, a confusão parece achá-los. E logo, eles têm que resolver os problemas relacionados com a outra profissão de Jamie: o contrabando. Claire também esbarra em Fergus, agora um adulto de trinta anos, e Ian pai e filho. O jovem Ian é um dos personagens mais carismáticos da série para mim, pois ele mescla um pouco do humor, honra e inteligência de Jamie com a habilidade de Claire de atrair problemas. Fergus havia virado filho adotivo de Jamie, mas pelos anos de Fraser afastado pela prisão e exílio, o jovem francês acaba por seu criado por Jenny. Ao retornar para Lallybroch, Claire tem a maior surpresa de todas. Jamie havia se casado novamente (e o principal: não contou nada a sua primeira esposa, voltando a dividir a cama com ela sem nem mencionar o detalhe do segundo matrimônio) e com ninguém mais, ninguém menos que Laoghaire, a mulher que havia tentado fazer com que Claire fosse queimada como bruxa. Ocorre uma briga enorme entre eles, momento então que a sassenach resolve voltar para sua filha e seu tempo. Porém um tiro que Laoghaire dá em Jamie, faz com que jovem Ian traga a sua nova tia de volta para cuidar do tio. Por meio de muita conversa, Claire é convencida por seu marido a ficar, e o casamento com Laoghaire é anulado, obviamente com uma boa negociação monetária. Na busca pelos valores necessários para o pagamento, o jovem Ian acaba sendo sequestrado por um navio pirata e cabe aos seus tios sair a sua procura.



Capa original atual edição norte-americana


Para quem gosta de aventura, a viagem de navio de Jamie e Claire é a parte mais divertida deste livro. Eles são acompanhados por Fergus e Marsali (filha do primeiro casamento de Laoghaire e quem Jamie considera como filha) e do Sr. Willoughby, um chinesinho bem peculiar, além da tripulação do navio. Eles conseguem encontrar o jovem Ian, mas acham também alguém que acreditávamos que estivesse morta desde o primeiro livro: Geillis Duncan. Com uma nova identidade, a reunião de Geillis com a família de sua amiga será bem intensa e meio macabra.  Os Frasers retornam ao navio de viagem e graças a uma tempestade vão parar na América.

A segunda parte do livro tem um clima de “A ilha do tesouro” de Robert Louis Stevenson (que por sinal, era escocês e um autor que Diana não apenas gosta, mas também indica para os períodos em que não se tem mais nada de Outlander para ler), só que o tesouro no caso seria o jovem Ian. O cozinheiro do navio, com quem Claire tem algumas discussões iniciais me lembra de Long John Silver que é o pirata cozinheiro do navio de “A ilha do tesouro”. Se o personagem de Diana foi ou não inspirado no Long John é um mistério (considerando que os livros de Outlander são lotados de referências literárias realmente não seria uma surpresa se isso ocorresse), mas para mim como grande fã desse romance de Stevenson foi bem gostoso dá de cara com esse contexto de aventura, piratas, caçada, emboscada e etc...


Capa da primeira edição brasileira, Editora Rocco.


Como cada livro tem um tema, o terceiro volume trata sobre identidade, principalmente, a de Jamie em minha opinião. O tempo de separação entre ele e Claire faz com que ele perca muito de sua essência, e com o retorno dela, ele começa a se encontrar novamente. Enquanto fugitivo e prisioneiro da Coroa, Jamie precisou usar nomes diferentes para se esconder ou se camuflar, aprender novas profissões, teve uma nova esposa, uma outra família, quem seria esse novo Jamie? Ele precisou se adaptar à solidão e à dor e criar uma persona apta a sobreviver. Estaria Claire disposta a aceitar esse homem sem saber quem ele havia se tornado?

No momento em que Jamie e Claire estão juntos novamente parece que o antigo Jamie renasce, assim como esse amor que estava adormecido. Dá uma sensação saudosa em relação à noite de núpcias deles no primeiro livro, afinal, o casal tem uma nova noite de amor vinte anos depois em que eles precisam se reconhecer tanto de corpo como de alma. A estrutura desse romance navega um pouco para mim também pela ordem da Divina Comédia de Dante Alighieri, em que o protagonista começa no inferno em busca de sua amada (e logo no início do livro, o primeiro pensamento de Jamie é que ele está morto. E se lembrarmos da despedida deles dois no segundo livro, ele fala em enfrentar duzentos anos de purgatório por ela, assim ele esperava iniciar uma jornada similar a de Dante que procura Beatriz após a morte. Além de que a vida dele longe de Claire não foi nada fácil. “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais” seria uma excelente frase representativa da linha temporal de Jamie sem Claire porque antes do reencontro deles Jamie viveu muita desgraça) e termina na sua própria idealização de paraíso. Em termos de local físico seria a América, mas naquela época a América não era nem de perto um Éden. A ideia de paraíso que se resolveu na minha mente foi a de paraíso dos amantes, não de um lugar físico, mas de um estado de espírito da certeza da presença um do outro, uma espécie de felizes para sempre enquanto ambos estivessem juntos e fora de perigo.




Capas da edições atuais (relançamento), Editora SdE/Arqueiro.


Em busca de recuperar a própria identidade e o significado de quem eles são como marido e mulher, Jamie e Claire vivem seu amor com mais intensidade do que quando se casaram. Eles sabem a dor de viver separados, então conseguem aproveitar a alegria da vida juntos. É possível perceber muito do amadurecimento de Jamie tanto como homem, como marido. Enquanto cônjuge, ele está mais apto a entender a modernidade de Claire e a apoia-la em seus desejos. “O Resgate no mar” é não apenas a salvação do jovem Ian, mas também o resgate desse matrimônio e da identidade de Jamie e Claire quanto indivíduos.

O terceiro livro da série Outlander foi publicado no Brasil pela editora Arqueiro dividido em dois tomos.

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Por Tuísa Sampaio

REFERÊNCIAS:
GABALDON, Diana. Voyager. Nova York: Dell, 2002
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. 2. ed. New York: Delacorte Press,
2015.V.1.
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. New York: Delacorte Press, 2015. V.2.    
 STEVENSON, Robert Louis. A ilha do tesouro. [s.l.]: L&M Pocket, 2004.
ALIGHIERI, Dante. A dívina comédia. [s.l.]: Landmark, 2011.


09 abril 2017

Simon Fraser: o último homem a ser decapitado


Um retrato de Simon Fraser na época de sua captura


Rapidamente conhecido como o avô de Jamie Fraser em Outlander, Simon Fraser, o 11º Lorde de Lovat, foi o último homem a ser decapitado no Reino Unido. Ele foi condenado por seu papel nos levantes jacobitas de 1746. Vivendo uma vida colorida, Simon Fraser nasceu em 1667, sua principal preocupação era ser o sucessor do título de Lorde Lovat de Hugh Fraser, chefe do clã dos Frasers.


                               
Enquanto o castelo original de Dounie foi destruído pelos casaca-vermelhas , Simon Fraser, 15º Lorde Lovat fundou o castelo Beaufort no mesmo lugar.


Simon tinha a impressão que o modo de Hugh de liderar o clã parecia fraco em relação ao crescente clã MacKenzie. Quando Hugh faleceu, Simon decidiu que a melhor forma de assegurar seu domínio seria casar-se com sua herdeira- a filha de Hugh, Amelia. Mas o tio de Amelia tinha outros planos- ele casou a sobrinha com Alexander MacKenzie, herdeiro de Lorde Saltoun. Em resposta, Simon Fraser forçou a mãe dela- também chamada Amelia- a casar-se com ele e consumou a cerimônia, estuprando-a. Com um preço em sua cabeça agora, Simon fugiu para França, por onde ele caminhou nos círculos jacobitas. Tendo sido concedida uma audiência com o Rei Louis IX, Simon declarou seu suporte à causa jacobita e à restauração do rei Stuart ao trono escocês, concordando em ajudar no levante de 1715.

Entretanto, seu principal objetivo era reivindicar o seu domínio, e como alternativa agiu como um agente duplo, informando James, 2º Duque de Queensberry e o representante da rainha escocesa acerca do levante iminente. A notícia de Simon estar de volta na Grã-Bretanha se espalhou, e ele escapou da França, para esperar e ver se seus crimes seriam perdoados.

Mas quando a Corte Francesa descobriu sobre sua traição, Simon foi sentenciado a uma vida de exílio. De volta à Escócia, muitos poucos Lairds Frasers tinha aceitado Alexander MacKenzie como seu chefe, então vários homens foram à França para restabelecer Simon. Infelizmente para ele, Alexander foi apanhado no lado perdedor do levante de 1715 e foi condenado a prisão. Simon recebeu um perdão total por sua ajuda e o título de Lorde Lovat foi restaurado para ele em 1716. Seu casamento anterior foi esquecido e Simon Fraser, Lorde Lovat, casou-se com Margaret Grant, tendo com ela cinco filhos, dois dos quais eram meninos, garantindo o domínio de sua família na propriedade.

Através de tudo isso, e apesar de sua traição, Simon sempre alegou ter simpatias jacobitas. Quando em 1745, o levante aproximou-se, Simon estava inseguro em qual lado unir-se, mesmo depois de seu filho de dezenove anos ter juntado um grupo de homens do clã para apoiar o “Bonnie Prince”. O governo foi ficando cada vez mais impaciente com a falta de apoio de Simon para algum lado e ordenou sua presença em Inverness, onde ele foi rapidamente confinado a sua casa. Escapando através de uma passagem secreta, Lorde Lovat declarou oficialmente seu suporte à causa jacobita, e seus homens foram lutar na batalha. Combatendo nas linhas de frente, o clã Fraser foi dizimado em Culloden Moor. Lorde Lovat escapou para as Highlands, apenas um dia depois do “Bonnie Prince”, após sua casa - Castelo Dounie- ter sido saqueada e queimada pelos casacas-vermelhas.
Simon foi eventualmente preso pelos casacas-vermelhas em Loch Morar, enquanto tentava arranjar transporte de volta para França e foi levado a Londres para julgamento. Sofrendo de gota e artrite, em sua idade avançada de setenta anos, Simon foi julgado durante seis dias, tendo recebido um veredito de culpado. Originalmente, Lorde Lovat foi sentenciado a ser enforcado, afogado e esquartejado- a punição típica para a traição.



Mas o rei teve misericórdia de Simon e permitiu que ele simplesmente fosse decapitado em vez disso. No dia 09 de abril de 1747, muitos espectadores chegaram na Tower Hill para assistir a sua execução- tantos, de fato, que um suporte de madeira que segurava espectadores desabou e matou nove pessoas- para o entretenimento de Lovat.  Disseram que ele manteve seu senso de humor até o fim. Foi dito que entre suas últimas palavras havia uma fala de Horácio “Dulce et decorum est pro patria mori”, que significa “é belo e nobre morrer pela pátria”. E quando a lâmina caiu, Simon Fraser, Lorde Lovat, tornou-se o último homem da Grã-Bretanha a ser executado por decapitação.



Artigo Original por Scotsman Traduzido e adaptado por Outlander Brasil
21 março 2017

Por

25 anos de A Libélula no Âmbar


Para comemora os 25 anos do segundo livro da série Outlander, A Libélula no Âmbar, Diana Gabaldon anunciou que uma edição especial será lançada. Nesta nova edição teremos capa dura, novo design de capa e novos comentários da autora. O aniversário de A Libélula no Âmbar é em julho, porém o livro será lançado somente em novembro deste ano. No Brasil, você pode adquirir o livro através da loja online Amazon  (produto ainda não disponível / em processo de pré-venda)


novo cover de A Libélula no Âmbar edição de aniversário

12 março 2017

Resenha: A libélula no Âmbar


CONTÉM SPOILERS 


Segundo romance da série Outlander, A Libélula no Âmbar (título original: Dragonfly in Amber) é um dos livros mais políticos e emocionantes da trama de Diana Gabaldon. O enredo segue inicialmente a vida de Claire em 1968 (trecho que inicia a história e confunde a maioria dos leitores, uma vez que na conclusão de A viajante do tempo, Claire e Jamie estão juntos na França ainda no séc. XVIII) para só depois retornar ao período próximo onde A viajante do tempo havia terminado.



Capa e contra-capa da primeira edição de A Libélula no Âmbar

O livro é dividido em sete partes. Iniciando em 1968 com delineamento da busca de Claire e Roger (sobrinho-neto e filho adotivo do Reverendo Wakefield) pelo que teria acontecido com os jacobitas amigos de Claire em Culloden. Brianna, filha de Jamie e Claire, havia sido criada por Frank Randall após o retorno de sua mãe ao tempo “presente” e não tinha conhecimento acerca de sua misteriosa origem. A jornada de Jamie e Claire na França tem o objetivo de minar o levante jacobita a fim de que uma vez, sem a revolta, a Escócia não fosse massacrada e cruelmente dominada pela Inglaterra, acreditando que com as informações de Claire sobre o futuro, eles pudessem mudar o passado. O período em Paris é extremamente tenso, colocando à prova o recente casamento entre Jamie e Claire. Surgem novos personagens na trama dentre eles o Conde de St. Germain (baseado em uma figura histórica real), com quem Claire logo cria inimizade. Dentro os amigos, Claire conhece Mestre Raymond, Madre Hildegarde, Louise de Rohan e Mary Hawkins.


Capa original atual edição norte-americana



O período na França também traz um acréscimo à família Fraser, o pequeno Fergus, um batedor de carteiras que é inicialmente contratado por Jamie, mas por quem no futuro os Frasers desenvolvem um carinho paternal; infelizmente, também traz a perda de Faith, a bebê que Claire carregava.


Capa especial com elenco principal da série de TV.


Após o parto prematuro da filha natimorta, resultado de uma série de infortúnios, que leva os Frasers a se culparem (e também se perdoarem), eles voltam para Escócia. A guerra se aproxima, e na véspera de Culloden, Jamie e Claire percebem que não era possível mudar o curso da História. Assim, para proteger a amada que estava novamente grávida, Jamie a envia de volta para o século XX, enquanto ele pretendia morrer em campo de batalha no século XVIII (concedendo ao leitor a explicação detalhada de o porquê Claire estar em seu tempo de origem no início do livro).


Capa da primeira edição brasileira, Editora Rocco.



Vinte anos após a separação de Jamie, Claire acredita que ele realmente havia morrido em Culloden, entretanto, as pesquisas de Roger revelam que um oficial Fraser do regimento Lovat havia sobrevivido. E agora? Claire deve deixar sua vida de médica (as duas décadas de separação possibilitaram que a enfermeira estudasse medicina) no século XX e sua filha para tentar reencontrar o amor da sua vida? É com esse suspense que Diana termina o segundo romance da série.


Capa da edição atual brasileira (relançamento), Editora SdE/Arqueiro.


Pelos escritos da autora no volume um do seu compêndio, a história de A libélula no âmbar tem um formato específico, assim como cada um dos romances da série tem uma configuração diferente. O formato desse segundo livro é de um haltere: há um arco entre a história inicial e a final (fixadores do peso). Um outro arco maior simboliza em uma ponta a trama na França e outro o levante de Culloden (os pesos). E esses dois arcos são conectados pelo período em que os personagens principais estão em Lallybroch (informações retiradas da p. 337, The Outlandish Companion v.01).


Assim, como o tema do primeiro livro foi o amor; o do segundo, Diana afirma, é casamento. O desenvolvimento do matrimônio de Jamie e Claire é o que é mais escancarado na trama por serem os personagens principais: a persistência de Claire na recuperação do marido após o trauma de Wentworth é vista ainda no primeiro livro, porém o trauma ainda afeta seu casamento em A libélula no âmbar; a perda da filha que era tão esperada causa um grande atrito entre eles, cujo esforço e o amor que os envolve propicia o necessário perdão. Casamentos não são fáceis, requerem sacrifícios, perdão, cuidado, respeito ao seu parceiro e à sua individualidade, muito amor e a sabedoria de balancear tudo isso. Jamie e Claire em A libélula no âmbar são um lindo exemplo de casamento com amor.


Mas como a própria autora delineia em The Outlandish Companion v.01, não é apenas o casamento de Jamie e Claire que vemos. A jovem Mary Hawkins tem que lidar com a perspectiva de um casamento arranjado com um visconde; em seguida, se apaixona e busca um casamento por amor, mas este é logo descartado pela doença de seu amado que o leva a óbito, fazendo Mary contrair matrimônio com Jack Randall a fim de dar um nome para a criança que espera de Alex, irmão de Jack. Ainda há a comparação do forte e inquebrável casamento entre Jamie e Claire com o fragilizado laço matrimonial entre Claire e Frank. Acrescento ainda, o casamento de Louise de Rohan, aquele que além de ser resultado de um acordo para manter as aparências, é constantemente desrespeitado pelo fantasma da traição.


Um dos pontos fortes para mim deste livro e de maior sensibilização das provações que apenas um casamento com amor consegue manter é a parte do perdão após a morte de Faith. Enquanto na série de TV, esse momento ocorre em uma única cena; no livro, o diálogo é quebrado em mais de um período. E quando eles finalmente fazem amor após terem colocado todos os pingos nos “is”, consegui compreender que a dor da perda sempre estará presente. Culpar o outro, entretanto, não permitiria um acalento no coração. Apenas aquele encontro de almas que eles compartilharam poderia possibilitar que eles sobrevivessem a maior tragédia que um casal pode enfrentar.



Minha cena favorita deste romance (por mais que eu ame os trechos em que eles vão se perdoando pela “morte” de Faith) é a despedida deles em Craigh na Dun, quando Jamie faz Claire retornar ao século XX.


“ Eu a encontrarei- murmurou em meu ouvido. – Eu prometo. Ainda que tenha que suportar duzentos anos de purgatório, duzentos anos sem você, esse será meu castigo, que eu mereci pelos meus crimes. Porque eu menti, matei e roubei; traí e quebrei confiança. Mas há uma única coisa que deverá pesar a meu favor. Quando eu ficar diante de Deus, eu terei uma única coisa a dizer, para contrabalancear o resto.
(...)
- Meu Deus, o Senhor me deu uma mulher especial e, Deus!, eu a amei demais.” (p. 877-878).


Durante todo o livro, Jamie vem aprendendo a ser marido, mas é nesse momento que ele realmente se torna pai. Já ouvi várias vezes, que a mulher se compreende como mãe quando descobre a gravidez, e o pai, quando pega seu filho ou filha pela primeira vez nos braços. Acho que a perda de Faith criou um choque de realidade necessário a Jamie que facilitou ele se reconhecer como pai de forma semelhante a uma mãe. Não apenas casamento requer sacrifícios para se manter, mas também a paternidade. Jamie sacrificou o seu direito de ser pai para que a filha vivesse bem e entregou a outro homem a sua função (alguém que ele acreditava ser capaz de ser uma boa figura paterna) de pai e marido. Ele sacrificou a si mesmo pelo bem-estar da esposa, filha e pela honra de cuidar até o último suspiro dos homens por quem era responsável (também representação de um grande líder).


“Eu vou morrer amanhã. Esta criança... é tudo que restará de mim. Eu lhe peço, Claire, eu lhe imploro, proteja-a.” (p. 877).


No fim, o livro me levou a reflexão de que será que há fortaleza maior que um matrimônio que sobreviveu não apenas a perda de um filho, prisão, estupro, duelo, o “fantasma” de um outro marido, a morte e ao tempo? Se o amor “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13:7), o casamento entre Jamie e Claire é um símbolo eterno de amor, respeito e perdão.


A libélula no âmbar inspirou a segunda temporada da série de TV, Outlander. Para quem quiser saber sobre as diferenças e semelhanças entre os livros e a adaptação para televisão, há no blog as resenhas de cada episódio com a respectiva comparação (obviamente, contém spoilers tanto dos livros, quanto da segunda temporada da série):




Por Tuísa Sampaio

LEIA também a resenha do primeiro livro da série A Viajante do Tempo, clicando aqui.

Referências:
GABALDON, Diana. A libélula no âmbar. Rio de Janeiro: Saída de Emergência, 2014. Tradução de: Geni Hirata.
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. 2d. New York: Delacorte Press. 2015. V.1.


                

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