Lallybroch
06 dezembro 2018

Livro x série de TV: episódio 05- Savages



Livro x série de TV: episódio 05- Savages




Contém spoilers dos livros e do episódio 



Esse foi um episódio de muitas mudanças e enredos adicionais e mesmo assim eu amei- quase -cada pedacinho dele. Tendo retomado ao capítulo 23 (o crânio sob a pele), que havia sido parcialmente inserido no episódio três, pularam o 25, 26 e 27 e que pela promo talvez apareçam no próximo episódio, e utilizaram parte do 28 (conversa acalorada) e 29 (ossuários) na adaptação. Em relação à linha temporal de Roger e Brianna, o que foi colocado no episódio é completamente diferente do livro. Como eu mencionei no livro x série de tv do episódio quatro todo o modo como Roger descobre a viagem de Brianna para o passado, a comparação já foi feita e dá para perceber que foi adicionada uma nova explicação. O ponto mais importante a se fazer sobre esse casal é que a dúvida existente no episódio anterior, se Brianna iria viajar pelos mesmos motivos que ela faz no livro, foi sanada. Sim, ela atravessa as pedras para avisar aos pais sobre o incêndio, portanto, o livro x série de TV do episódio Savages vai se ater à linha temporal de Claire e Jamie. Dessa vez, vou seguir uma ordem de acontecimentos semelhante a do episódio, por serem poucos os capítulos adaptados, separando, entretanto, o texto em tópicos pelas três tramas principais que se interligam: Jamie e Ian; Claire e os Muellers, e por fim, o reaparecimento de Murtagh. 



- A partida de Jamie e jovem Ian 



A preparação para a viagem de Jamie e jovem Ian para a cidade não é algo que aparece nos livros, ainda mais porque no livro x série de TV passado, eu comentei que ele deixou essa tarefa a cargo de Duncan Innes. Como Duncan conseguiu os colonos necessários (e isso é citado no capítulo 23), toda a trama de Jamie e jovem Ian longe de Claire (na cidade) não existe na história original. Não há essa intriga em relação aos preços dos impostos e reguladores, pelo menos não para se conseguir arrendatários. Entretanto, a conversa de Jamie e Claire sobre a marca de nascença atrás da orelha de Brianna e o sonho que teve com ela realmente ocorre no final do capítulo 21 (uma montanha nevada). O resto deste capítulo, no entanto, não aparece em Savages. Algo que senti falta em relação a esse capítulo e gostaria que tivesse sido colocado na série (pode ser que ainda coloquem lá na frente, nunca se sabe) foi a conversa em que Claire conta a Jamie sobre quando foi falar da sua profissão de médica na escola de Brianna, e Bree acabou batendo com um livro na cabeça de um colega por insultar sua mãe. Resumidamente, o capítulo 21 é onde Jamie sai para pescar e finda por deslocar as costas e sem conseguir se mexer não retorna para casa até que Claire sai para busca-lo em pleno inverno. Como Claire não consegue transportá-lo, jovem Ian que estava passando pela região com alguns índios consegue improvisar um trenó para levá-lo de volta para casa. 



“(...) — Ele parecia um pouco tímido. — Sonhei várias vezes com Brianna.
— É mesmo?
Isso era um pouco surpreendente. Eu também havia sonhado com Brianna em nosso abrigo de gelo — algo que raramente acontecia.
— Eu estava pensando... — Jamie hesitou por um momento. — Ela tem uma marca de nascença, Sassenach? E se tem, você me contou sobre ela?
— Tem — eu disse lentamente, pensando. — Acho que nunca lhe falei. Não fica visível a maior parte do tempo, então faz anos que não a vejo. É uma...
Sua mão apertou meu ombro para me impedir de continuar.
— É uma marquinha marrom, com formato de diamante — disse ele. — Logo atrás da orelha esquerda. Não é?
— Sim, é. — A cama estava quente e confortável, mas um leve frio na nuca fez com que eu estremecesse levemente. — Você viu isso em seu sonho?
— Eu beijei essa marquinha— disse ele com delicadeza.” 


- Claire e os Muellers 




Foi após o parto de Petronella Mueller que ao retornar para casa em uma tempestade, Claire se perde do cavalo e no caminho e encontra o crânio do viajante (capítulo 23). Isso já foi colocado no episódio três em um contexto diferente do parto de Petronella. No capítulo, nem aparece Claire conversando com Petronella e a mãe, e sim, ela já se despedindo de Tommy que não queria que ela saísse no meio da tempestade. Claire cita um pouco do parto depois, porém para falar sobre a reação entre marido e mulher. No caso, Freddy, o marido de Petronella, estava vivo, enquanto na série, sei lá o porquê resolveram fazer dela uma viúva. Outro detalhe é que não há indicação no livro de terem dado o nome de Clara ao bebê. Claire, porém, sabia que se não viajasse durante a tempestade teria que esperar uns 10 dias para o rio voltar a sua altura natural e ficar presa com os Muellers seria uma tortura. No episódio, aparece um diálogo entre as mães e aparentemente toda um amorosidade com a família que não é citada nem descrita no livro. Foi acrescentada também a briga que Gerhard Mueller tem com os índios por causa da água. Ele mais a frente vai realmente acreditar que a família foi amaldiçoada com a doença, mas essa cena do rio não acontece no livro. No capítulo 28 é contado através do pastor que visita a residência dos Frasers que que alguns dias antes dos Muellers serem infectados com sarampo, um grupo de índios aparece em sua casa pedindo comida e bebida, Gerhard os expulsa de lá e como os viu fazendo sinais em direção a casa, ele acredita que os sinais eram feitiços. 






No início do capítulo 28 (conversa acalorada), Claire constata que jovem Ian assim como Lorde John havia contraído sarampo. Como a ordem dos capítulos foi invertida, Lorde John só irá aparecer no próximo episódio e este teve foco na previsão de Nayawenne. No livro assim como no episódio, o pastor Gottfried também visita Claire para avisar sobre a loucura do Sr. Mueller após a morte de sua família de sarampo, porém ele não falava um bom inglês e o alemão de Claire era péssimo. Como no capítulo, Lorde John estava presente na casa, ele traduz para Claire o que o pastor queria dizer. O pastor procura por Jamie por achar que talvez ele possa “ponderar” com Herr Mueller para tentar trazê-lo de volta a sanidade, além de avisar que Gerhard está vindo em direção a Fraser’s Ridge, mas o religioso não sabe o motivo. Claire logo pensa que Mueller possa achar que ela tivesse algo a ver com a morte da filha e neta (no episódio, o filho Tommy morre também). O pastor conta a Claire sobre o escalpelamento de alguns índios, que havia sido feito por Mueller como vingança. Na situação do livro, Claire estava sem Jamie porque ele estava ocupado entretendo William para que o menino ficasse longe de Lord John, que estava contagioso e ela não poderia sair da casa como sugerido pelo pastor por não poder deixar nem Lord John, nem jovem Ian sozinhos e doentes. No episódio, eles incluíram a viagem para a cidade para fazer com que Claire estivesse separada do marido, mas não havia realmente um motivo prático pelo qual ela não pudesse sair da cabana e se abrigar em algum outro lugar. 



“Mueller não era o único homem que acreditava em vingança. A família, o clã, a aldeia de quem quer que ele tivesse assassinado – eles buscariam vingança pelo massacre também; e poderiam não parar nos Mueller – se sequer soubessem a identidade dos assassino.” 



Um tempo depois Gerhard chega na casa dos Frasers, chorando pela morte da filha e da neta. Ele comenta que tinha medo de chegar tarde demais para ela e que havia trazido um amuleto para proteção (na série a referência a um amuleto não foi inserida). Além disso, agradece a Claire pelo cuidado que teve com sua família. Tudo isso é traduzido por Lord John. Quando Mueller desembrulha o papel, Claire e Lord John veem que é o escalpo de alguém, Claire logo reconhece como sendo de Nayawenne (Adawehi na série) e as palavras dela voltam a sua mente. 



“Mueller continuava falando e Grey tentava, mas eu mal percebia suas palavras. Nos meus ouvidos, ecoavam as palavras que eu ouvira um ano antes, junto ao riacho, na voz suave de Gabrielle, traduzindo para Nayawenne.
Seu nome significava ‘Pode ser, acontecerá’. Agora acontecera e tudo que restava como consolo eram suas palavras: ‘ Ela diz que você não deve se preocupar, a doença é enviada pelos deuses. Não será culpa sua.’” 



No episódio, Claire faz uma cremação do escalpo que não existe no livro. No capítulo 29, quando Jamie retorna para casa com William, ele sente o cheiro de queimado vindo de um incêndio. Jamie encontra os indíos caminhando em retirada de sua aldeia e Nacognaweto fala que o sarampo havia os atingido. Ele acreditava que haviam sido amaldiçoados, assim atearam fogo nas ocas e deixaram os mortos lá. No episódio é a casa dos Mueller que queima como vingança dos índios. No livro, Nacognaweto pergunta a Jamie sobre Gabrielle e Nayawenne, mas ele não sabia delas, assim Nacognaweto não tinha conhecimento que Mueller havia as matado para realizar uma vingança. 



- Murtagh 






Como nos livros, Murtagh havia morrido em Culloden, qualquer coisa que apareça na série com ele a partir da terceira temporada não aconteceu realmente no material original. Porém, como eu amo o Murtagh da série (que é bem diferente do dos livros e apesar de não gostar quando mexem na essência dos personagens, esse eu gostei) fico feliz com cada aparição dele. O meu problema com a trama criada para o personagem foi terem o feito como um regulador para ficar de um lado oposto a Jamie. Eu quero vê-lo apoiando Jamie e sendo o padrinho e amigo que por anos ele não pôde ser. Quero vê-lo encontrando Brianna e qual será sua reação, uma vez que dizem que ela se parece muito com Ellen e ele era apaixonado por ela. Espero que essa fase dele enquanto regulador seja rápida e que Murtagh logo se estabeleça em Fraser’s ridge. Por mais que um reencontro entre Jamie e Murtagh pudesse ser o mais aguardado por muitos, para mim foi o modo como Claire e Murtagh se viram novamente que marcou mais. Como ele canta a música que eles entoaram na primeira temporada no episódio The search, quando os dois se uniram para procurar por Jamie. Esses dois criaram um companheirismo que nem de longe existe na história de Diana Gabaldon.





Por Tuísa Sampaio 
28 novembro 2018

Livro x série de TV- episódio 04: Common Ground




Livro x série de TV- episódio 04: Common Ground







Contém spoilers dos livros e do episódio






“Common ground” é uma expressão em inglês que traduzida literalmente significa “terreno comum”. Normalmente é utilizada para fazer referência a um meio-termo ou consenso. No episódio, o título se encaixa perfeitamente nos dois significados. Esta semana, foi adaptado o trecho do capítulo quinze que havia ficado de fora em “The false bride”, o capitulo vinte (o corvo branco) e se considerarmos que a construção que estava sendo feita pelos Fraser também o capítulo dezoito (a benção do lar) apesar das ações serem diferentes, ambos da parte VII (na montanha) para o seguimento de Claire e Jamie. Quanto a Bree e Roger foram usados os capítulos 22 (a centelha de uma antiga chama) e 30 (como num passe de mágica), este já do segundo tomo e se consideramos que é nele que Roger descobre sobre a viagem de Brianna a Craigh na Dun.



- Claire e Jamie (1767)




Após conversar com o governador Tyron, Jamie vai demarcar suas terras junto com Claire e Jamie. Boa parte do episódio desenvolve-se ao redor da história do urso, que foi descrita no capítulo quinze; no caso da série, um homem vestido de urso. Como neste capítulo eles ainda estavam caminhando para encontrar Fraser’s Ridge e o enredo foi inserido no episódio seguinte quando eles já haviam visto e decidido ficar em suas terras e foi mesclado com o início da construção das casas descrita no capítulo dezoito. 


Antes de chegar na trama do urso; no episódio, eles criaram uma cena (que não existe no livro) em que Claire, Jamie e jovem Ian estão na cidade recolhendo provisões para ir a Fraser’s Ridge. Primeiro vamos lembrar que durante a gestação Marsali estava na Jamaica, e em segundo que Jamie comenta que Marsali e Bree teriam idades semelhantes o que na história original não é verdade, pois existem cinco anos de diferença entre elas (Bree é mais velha). 


No capítulo quinze, assim como nas telas, assim que vê os índios, Jamie pede para Claire lhe entregar a faca e ir para trás dele. Uma grande diferença é que jovem Ian no livro não estava presente, pois estava na jornada com John Quincy Myers para entregar Pollyanne aos índios. Na série como a ordem cronológica foi invertida, o sobrinho de Jamie estava presente no encontro com os Cherokees. No capítulo, eles encontram os índios após Jamie ter matado o urso. Ele comenta que o bicho só apareceria ali como apareceu se alguém houvesse o atiçado e quando encontram três índios descobrem quem o atiçou. É no ataque do urso em que ocorre uma cena icônica da série na qual Claire golpeia Jamie com um peixe achando que ele era o urso uma vez que estava muito escuro para enxergar. Como eles retiraram qualquer teor cômico da situação, acho que não coube encaixá-la. Enquanto na série, a presença dos índios é explicada por não gostarem dos novos vizinhos Fraser e não quererem sua presença ali; no livro, eles se encontram porque os índios buscavam o urso que Jamie matou e acabam dividindo a carne. Enquanto no episódio aparece um índio intérprete; no livro, Jamie, que era bom com línguas, se vira nos trinta para tentar entender algo que eles falam. Eles sentam, comem e bebem por quase a noite toda. No final do episódio, Jamie chega a convidar os índios para cear, porém não é algo que aparece com maiores detalhes. Pode ser que essa pequena reunião ainda apareça no próximo episódio. A situação é bem curta na verdade e serve para mostrar o primeiro elo entre os Fraser e a população indígena. Já na série, eles esticaram-na, fazendo os índios aparecem mais de uma vez ameaçando os Fraser e criando um cerco gerado pelo pseudo-urso que até chegou a roubar comida. Outro acréscimo da série foi a presença de John Quincy Myers que nesta parte do livro, como mencionei estava com jovem Ian. John no livro não foi atacado, como ocorre no episódio. 




A apresentação que Jamie faz a Claire sobre onde vai ficar cada coisa ocorre no capítulo dezoito (benção do lar), porém é mais extensa que na série. Também é neste capítulo que eles reencontram Myers que traz ferramentas e outras coisas que necessitavam para os Fraser e Duncan Innes. Também é no capitulo dezenove que Jamie decide aceitar a oferta do governador e lhe enviar uma carta informando, ou seja, depois de se estabelecer em Fraser’s ridge e começar a construir. Na série, Jamie vai pessoalmente aceitar a oferta antes de tudo. Jamie solicita a Duncan Innes para que ele procure colonos e que ajude Jocasta em sua ausência. Como Innes foi aparentemente cortado da série, imagino que ele peça a Fergus para fazer isso, ou John.. não sei. Veremos. Basicamente, foi só retirado do capítulo dezoito essa noção do início da construção das casas e aplicada no episódio em um contexto diferente com diálogos em sua maioria diversificados. O único realmente que foi incluído foi a explicação sobre os locais. 


Sobre a conversa que Claire e jovem Ian têm sobre o conhecimento dos habitantes de lallybroch em tricô, ela foi retirada do capítulo 28 (conversa acalorada), porém a o diálogo no livro é entre Claire e Jamie, e Claire comenta que vai pedir a Jocasta para ensiná-la, porém além de Jamie, jovem Ian também mostra o abc do tricô para ela. 


A conversa de Claire com as índias foi extraída do capítulo vinte (o corvo branco). Nele, enquanto Ian e Jamie cortavam madeira, Nacognaweto vem conversar com Jamie acompanhado de três mulheres. 


“Uma era menina, com não mais de treze anos, e a segunda , de trinta e poucos anos, obviamente a mãe da menina. A terceira mulher que os acompanhava era bem mais velha -- não a avó, pensei, vendo suas costas curvadas e seus cabelos brancos; talvez a bisavó.”



Na hora, vendo que os índios estavam bem vestidos, Jamie falou a Claire para ela ir colocar suas melhores roupas também, pois seria rude de outra forma. Claire e Gabrielle, esposa de Nacognaweto, conversam em francês e não, em inglês, como aparece no episódio. A índia mais velha, Claire descobre então, ser a avó de Nacognaweto , Nayawenne. Eu não tenho a mínima ideia por que mudaram os nomes dos índios na adaptação e por que cortaram a menina mais nova. A visita na verdade havia sido para levar presentes para Jamie por ter matado o urso. Nayawenne se oferece para mostrar as plantas das redondezas e Claire aceita. Durante essa caminhada, Gabrielle ia traduzindo tudo o que a índia anciã falava, após um período ela comenta que teve um sonho com Claire há uns dois meses. Nayawenne mostra a Claire a safira do sonho. O diálogo, no geral, é bem fiel ao reproduzido nas telas, de acordo com a índia, a pedra tinha poderes curativos, o que não aparece na adaptação. 




“A avó do meu marido diz que você tem remédio agora, mas terá mais. Quando seus cabelos forem brancos como os dela, é quando você encontrará seu poder total.

A senhora soltou a mecha e me encarou por um momento. Pensei ter visto uma expressão de grande tristeza nas profundezas de seus olhos, e estendi a mão para tocá-la.

Ela deu um passo para trás e disse algo mais. Gabrielle olhou para mim com timidez.

— Ela diz que você não deve se preocupar. A doença é enviada pelos deuses. Não será culpa sua.

Olhei para Nayawenne, assustada, mas ela já tinha se virado.

— O que não será culpa minha? — perguntei, mas a senhora se recusou a falar mais alguma coisa.”



Resumidamente, a produção decidiu fundir em cena dois encontros diferentes que aparecem no livro. Mudando de assunto, para mim foi uma escolha estranha a de substituir o urso real por um homem. Parece que eles nunca ouviram falar em efeitos especiais. O argumento utilizado era que não dava para usar um urso de verdade, o mesmo que eles usaram para cortar a cena de Claire com os lobos e do padre Bain com os cachorros na primeira temporada. A do padre Bain, eles até tentaram fazer, mas o ator foi realmente atacado pelos animais. Não entendo o porquê só pensar em utilizar animais de verdade quando existe computação gráfica. Por mais que seja cara, essa é uma série que já usou em outras situações, por que não usar para os animais? Eles esticaram um pequeno trecho do livro sem necessidade e muito provavelmente, como consequência alguma parte importante será cortada e filmada de forma apressada. Não vou dizer que não gostei do episódio, ele ficou muito bonito. A cena do ritual indígena foi linda, mas em termos práticos isso pode resultar em uma decepção maior em algum episódio adiante. O destaque de “Common Ground”, na minha opinião, foi jovem Ian. Apesar de não aparecer muitas vezes, quando ele estava presente sempre tinha alguma gracinha, alguma expressão que me fazia rir. O ator é fisicamente sem sal, mas está fazendo um bom trabalho. 






- Brianna e Roger (1970-71)





Os trechos relacionados a Brianna e Roger foram bem poucos neste episódio. Inclusive enquanto a parte deles já começa a adentrar no segundo tomo, os de Claire e Jamie continuam no primeiro, ainda mais porque são poucos os capítulos de Bree e Roger no primeiro volume em comparação a linha temporal de Jamie e Claire. 


Enquanto no episódio, Roger descobre onde os pais de Brianna estão ao ler um livro que ela lhe deu de presente e fazer uma pesquisa sobre as informações que contavam nele; no livro, ele, no capítulo 22, já descobre a notícia da morte deles por meio de estudos, por acaso. No episódio, o incêndio que ocasionaria a morte dos Fraser é informado a ele por Fiona algumas cenas depois que ele havia contado a Brianna que os pais tinham ido morar nas treze colônias e o papel não informava a data exata. No livro, a data era clara, 21 de janeiro de 1776. 


Roger matuta por um bom tempo se deveria ou não contar a Brianna e acaba se lembrando do dia que Claire partira. Com medo que Bree decidisse atravessar as pedras para avisar aos pais, ele prefere ficar em silêncio para mantê-la em segurança e evitar sua dor. No episódio, a decisão é resultado apenas de não fazê-la sofrer, não passa pela cabeça dele a possibilidade de ela querer ir atrás dos pais. 


No final do episódio, Roger decide ligar para Brianna, como ele não chega a falar com ela não dá para saber se tinha mudado de ideia e iria contar a ela sobre a morte dos pais ou se só queria tentar se reconectar. Quem responde a ligação é a colega de apartamento, Gayle, e fala que Brianna foi visitar a mãe na Escócia. Roger junta 2+2 e desconfia que ela pretende atravessar as pedras em Craigh na Dun. Se ela descobriu sobre a morte dos pais ou se quis viajar por solidão ou saudade só saberemos depois. No livro, a decisão da viagem dela é por ter descoberto a notícia do incêndio e querer avisar aos pais sobre ela a fim de tentar impedi-lo, algo que Roger previra que poderia acontecer. No capítulo 30, Roger percebe que Brianna viajou no tempo, pois recebe uma caixa dela com o bilhete “Você me falou certa vez que seu pai lhe disse que todo mundo precisa de uma história. Esta é a minha. Poderia guardar com a sua?”. Na caixa havia fotografias, uma boneca de trapos, um chapéu de Mickey Mouse surrado, uma caixinha de música que tocava “Over the rainbow”, uma camisa vermelha desbotada masculina que Roger assumiu ser de Frank, um roupão, um conjunto de talheres de prata, anéis, broches e brincos. A ausência do colar de pérolas de Claire e o bracelete que ele havia dado a Bree foi que o fez ter a epifania que a caixa foi o aviso de que ela iria voltar no tempo e precisava que alguém soubesse disso. Ele tenta ligar para o Bree nos Estados Unidos, mas o que ouve é a mensagem de que o número não está mais em operação. Em busca de Brianna, Roger liga para Joe Abernathy, este achava que Bree estava com Roger. Joe conta que Brianna se formou mais cedo e tinha partido direto para Escócia com o intuito de ir a Inverness. O período que ela chegaria era justamente aquele em que a passagem estava aberta. 






Os pormenores da investigação de Roger sobre se Bree voltou ou não pelas pedras devem aparecer no próximo episódio. Foram poucas as cenas deles nesse, mas a trilha sonora que vem sendo colocada para eles está linda. A de Claire e Jamie também, uma coisa que não se pode reclamar dessa série é da trilha. Esse foi um episódio que não andou muito nos livros e teve mais um quê de transição. O próximo, no entanto, já promete a passagem de Bree pelas pedras, muito provavelmente no final, e é aí que a melhor parte da aventura começa. 



Por Tuísa Sampaio 
21 novembro 2018

Livro x Série de TV- episódio 03: The false bride



Livro x Série de TV- episódio 03: The false bride 




Contém spoilers dos livros e do episódio 



O nome desse episódio remete a uma canção folclórica das ilhas britânicas também conhecida como “I Once loved a lass”, esta é a música que Roger canta ao se apresentar no festival escocês. Esta semana o roteiro volta algumas páginas e adapta um trecho da parte II (passado imperfeito) que havia sido pulada no primeiro episódio (capítulos três e quatro) para a linha temporal de Brianna e Roger, além da parte VI (Je t’aime- capítulos dezessete e dezoito). Já para Claire e Jamie, foram utilizados os capítulos da parte V (morangos silvestres- capítulos 14, parte do 15 e do 16) e o capítulo 23 (o crânio sob a pele). Como esse episódio teve duas linhas de tempo, vou dividir o texto a partir delas. 

- Roger e Brianna (1969-1970) 


A primeira diferença é que os fatos referentes a Roger e Brianna no livro se passam em 1969, enquanto na série já é 1970. Além disso, a produção uniu os acontecimentos deles referentes a junho/julho de 69 em Boston (parte II) e dezembro de 69 em Inverness (parte VI). O capítulo três (o gato do reverendo) inicia-se com a ligação telefônica de Roger avisando a Brianna que ele iria para os Estados Unidos a trabalho e se ela teria interesse em vê-lo. Brianna comenta com ele que havia sonhado com Jamie, justamente por ele ser a única pessoa capaz de compreender sua história. Esse diálogo não aparece na série, uma vez que além de cortado, foi invertida a ordem dos acontecimentos do livro. A primeira cena de Roger em Inverness é na verdade o início da parte VI e falarei dela mais a frente. É já no terceiro capítulo que sabemos que Brianna mudou o curso de História para Engenharia no MIT através da narração dela; no episódio, é Fiona quem comenta isso para o marido para passar o conhecimento ao telespectador. 



“Quando voltara para Boston, sozinha, e retomara os estudos, engenharia lhe pareceu uma escolha muito mais segura que história; concreta, baseada em fatos, tranquilizadoramente imutável. Acima de tudo, controlável.” 



Brianna vai pegar Roger no aeroporto com sua amiga Gayle em torno de um mês após a ligação dele; na série, ela o encontra sozinha. Eles seguem para o local do festival, onde Roger irá se apresentar, de carro, alguns dias após a chegada no aeroporto, enquanto brincam de um jogo escocês chamado “o gato do reverendo” que aparece no episódio, a diferença maior desta cena em relação ao livro foi que enquanto no último Brianna estava dirigindo, no primeiro é Roger quem o faz, assim como quem toma a iniciativa do beijo no livro é Roger, ao contrário da série. Além da brincadeira do gato, no livro, Brianna também comenta sobre os pais. Uma curiosidade é que no capítulo, ela fala de onde surgiu o termo “coccigodinio”. Era uma expressão que Claire usava referente a dor no cóccix. Ela costumava chamar assim o pessoal da administração do hospital, uma forma chique de falar “pé no saco”, ou em inglês, a expressão seria “pain in the ass” , tradução literal “pé na bunda” faz mais sentido. Para gente pé na bunda tem outro significado, assim a tradução não ficaria tão perfeita. 

No capítulo quatro (uma explosão do passado), eles finalmente chegam ao festival escocês. Ele inicia-se com a arrumação de Roger, que no episódio eles pularam. Em ambas as mídias, Brianna comenta sobre sua mãe sempre ter falado que homens em kilts são irresistíveis e Roger fica preocupado em como Brianna irá se sentir em meio a tantas coisas escocesas. Entretanto, o resto do diálogo é diferente do da série. Eles falam sobre as origens escocesas de Brianna, sobre comida típica, kilts e os sobrenomes de Roger. Antes de Roger cantar, ele entrega a Brianna uma fotografias de Frank e Claire, o que no episódio não aparece. Também, a escolha de música foi diferente, entre as várias citadas no livro, nenhuma é “the false bride”, a escolhida da série. Acredito que a escolheram muito provavelmente por falar de um amor perdido enquanto Brianna para ele no final do episódio parecia ser algo assim, e pela referência aos morangos. Ademais, Roger além do violão levou também um Bodhran, o que no episódio não apareceu. Logo em seguida a apresentação de Roger, há o chamado dos clãs, o que teve sua ordem invertida no episódio, o que me mais se destacou de diferente neste ponto (sem contar a discussão de Roger e Brianna que no livro ainda não tinha acontecido) foi que no capítulo quatro, durante o chamado, há o grito de “Os frasers estão aqui” e na série isso foi cortado. Talvez para não desviar a atenção de Brianna da carga emotiva que havia sido o diálogo com Roger. Devido à discussão, acredito que tenha sido por isso que retiraram a cena em que eles veem o homem andar na lua pela primeira vez na casa de Joe Abernathy, já que em Os tambores do Outono, essa briga só ocorre na parte VI, portanto, os acontecimentos do capítulo cinco foram excluídos da adaptação. 





Vamos então para o mês de dezembro em Inverness no capítulo dezessete (em casa para as festas de fim de ano) da parte VI, os quais foram parcialmente representados em um mesmo dia em sua maioria nos Estados Unidos na série. Brianna foi passar o natal em Inverness com Roger e acabou o ajudando a esvaziar a casa a qual seria devolvida a paróquia que iria alugar para Fiona e Ernie. Entre os achados da mudança estavam livros escritos por Frank Randall autografados. Na série, como tudo ocorreu em um dia, só aparece Roger entregando a chave da casa a Fiona e Ernie, e Brianna não vai à Escócia. Enquanto Bree está na antiga casa paroquial, visitando Roger, ela recebe uma carta da biblioteca, onde procurava informações sobre seus pais no passado, com isso o casal finda por conversar sobre a falta que sentem de seus pais, o que no episódio foi cortado. Também retirada da adaptação foi o encontro dos dois nos corredores da casa quando Brianna estava apenas de toalha. Porém a queda deles dois que aparece nas telas quando Roger aperta a bunda de Bree foi baseada na da cena da toalha, que termina por fazer parte dessa cobertura cair. Assim como o pedido de Brianna por algo mais e as palavras de Roger sobre querer algo melhor para a primeira vez. Foi logo depois deste “incidente” que os pensamentos de Roger começam a pensar na ideia de pedi-la em casamento primeiro, no entanto, ele nada fala. Por enquanto. O capítulo dezoito (Luxúria indecorosa) continua com a ida dos dois a igreja. No retorno para casa, Roger fala que a ama e a pede em casamento. Na série, isso ocorre após a queda e a interrupção do quase sexo entre eles. A discussão que eles têm após a recusa dela é bem semelhante em ambas as mídias. 



“Foi um grande esforço para ele se virar e olhar para ela. Não queria um consolo vazio, não queria ouvir uma sugestão para que fossem amigos. Ele achava que nem sequer conseguiria olhar para ela, de tão grande que era a sensação de perda. Mas Roger se virou mesmo assim, e então, ela estava contra ele, as mãos frias nas suas orelhas enquanto Brianna segurava a cabeça dele e o beijava com força, não tanto um beijo, mas uma loucura desenfreada, estranha e desesperada.
Ele segurou as mãos dela e as puxou para baixo, para afastá-la dele.
— Que tipo de brincadeira é essa? — A raiva era melhor do que o vazio, e Roger gritou com ela na rua vazia.
— Não estou brincando! Você disse que me desejava. — Ela puxou o ar. — Também desejo você, não sabe disso? Eu não disse isso no corredor essa tarde?
— Achei que sim. — Ele olhou para Brianna. — O que diabos você quer dizer?
— Quero dizer... quero dizer que quero ir para a cama com você — disse ela de uma vez.
— Mas não quer se casar comigo?
Ela balançou a cabeça, pálida como um fantasma. Algo entre nojo e fúria fervia dentro dele, e então, entrou em erupção.
— Então, não quer se casar, mas quer trepar comigo? Como pode dizer isso?
— Não use esse palavreado comigo!
Palavreado? Você pode sugerir uma coisa dessas, mas não posso dizer a palavra? Nunca fui tão ofendido. Nunca!
Brianna estava tremendo, mechas de cabelo se grudavam ao seu rosto devido à umidade.
— Não quis ofendê-lo. Pensei que você quisesse...
Roger agarrou os braços dela e a puxou para si.
— Se eu só quisesse foder você, eu teria feito isso uma dezena de vezes no verão passado!
— Até parece! — Ela puxou um dos braços e deu um tapa forte no rosto de Roger, deixando-o surpreso.
Ele agarrou sua mão, puxou-a na direção dele e a beijou, com muito mais força e por muito mais tempo do que qualquer outro beijo que haviam dado antes. Ela era alta, forte e estava furiosa... mas ele era mais alto, mais forte e estava muito mais furioso. Brianna se debateu, e ele a beijou até se sentir pronto para parar.
— Até parece — disse ele, puxando o ar quando a soltou.
Passou a mão na boca e deu um passo para trás, tremendo. Havia sangue em sua mão. Ela o mordera sem que ele sentisse nada.
Brianna também estava tremendo. O rosto estava pálido, os lábios contraídos tão fortemente que nenhuma expressão ficava visível em seu rosto, apenas os olhos escuros ardendo.
— Mas eu não fiz isso — continuou ele, respirando mais lentamente. — Não era o que eu queria. Não é o que quero. — Passou a mão sangrando na camisa. — Mas se você não se importa o bastante para se casar comigo, então não me importa tê-la em minha cama!
— Eu me importo!
— Até parece.
— Eu me importo demais para me casar com você, seu idiota.
— Você o quê?
— Se eu me casar com você, se eu me casar com qualquer pessoa, é para sempre, entendeu? Se eu fizer um juramento desses, manterei minha palavra, custe o que custar!
Lágrimas escorriam do rosto de Brianna. Roger pegou um lenço no bolso e o entregou a ela.
(...)


Sei — respondeu ele. — E se não quiser aprender algumas expressões bastante grosseiras... desembuche. O que quer dizer ao fazer uma sugestão dessas... e você, uma moça católica, recém-saída da missa! Pensei que fosse virgem.
— Eu sou! O que isso tem a ver?
Antes que ele pudesse responder a essa ousadia, ela disse mais uma.
— Não me diga que nunca dormiu com outras garotas... eu sei que sim!
— Sim, dormi! Eu não queria me casar com elas e elas não queriam se casar comigo. Eu não as amava e elas não me amavam. Mas eu amo você, droga!
Ela se recostou no poste, com as mãos atrás do corpo, e olhou diretamente nos olhos dele.
— Acho que eu também amo você.
Roger não percebeu que estava prendendo a respiração até soltá-la.
— Ah, você acha. — A água havia se condensado nos cabelos dele, e gotinhas de gelo desciam por seu pescoço. — Hummm, sei, e a palavra mais forte aqui é “acho” ou “amo”?
Ela relaxou um pouco e engoliu em seco.
— As duas.
Brianna levantou a mão quando ele começou a falar.
— Eu acho... mesmo. Mas não paro de pensar no que aconteceu com a minha mãe. Não quero que isso aconteça comigo.” 



No livro, após a briga entre eles, as coisas se acalmam e Roger fala que vai esperar por ela (o que não ocorre no episódio), pois ele quer tê-la completamente ou não a terá de forma alguma (o que ele diz também na série). É quando então ele dá a pulseira com os dizeres em francês a ela, o que em “the false bride” acontece logo antes da discussão. 

Eu não gosto muito da linha temporal de Roger e Bree nesta parte do livro, começo a me entreter mais com eles apenas no segundo tomo, qual não foi a surpresa que na série eu acabei gostando mais da história deles neste episódio do que da Jamie e Claire. A trilha sonora se encaixou perfeitamente e o clima de tradição escocesa em meio a músicas e o visual dos tartãs, o chamado dos clãs, tudo isso trouxe uma emoção a mais, principalmente quando espero que eles coloquem o segundo chamado dos clãs que eles responderão mais adiante. 




- Jamie e Claire (1767) 




Após a morte de Rufus no episódio anterior, Jamie e Claire decidem partir de River Run e buscar outras formas de ganhar a vida, visto que ser donos de escravos não era algo que condizia com o caráter deles. Assim, os Fraser vão embora deixando para trás uma Jocasta bastante chateada com Claire, achando que por culpa dela, Jamie não aceitava River Run. No livro, a saída de River Run carrega outros motivos. As quase trinta páginas finais do capítulo treze foram cortadas, em que nossos protagonistas, em um passeio de barco, atracam na serraria e encontram uma jovem morrendo em resultado de um aborto. O procedimento havia sido realizado por uma mulher, uma escrava, que Claire descobriu se chamar Pollyane e a quem os Fraser ajudam a escapar da região e de um destino parecido ao de Rufus, levando-a para as montanhas, a viver com os índios. Myers e jovem Ian os acompanharam como no episódio. Com o corte dessa parte final do capítulo treze também tiraram as calças e o sutiã improvisado que Claire cria para cavalgar e o diálogo que ela tem com Jamie que estava achando absurdo ela usar calças. 



“ O que, exatamente, você está fazendo, Sassenach? E o que, pelo amor de Deus, você está vestindo? — Jamie, de braços cruzados, estava recostado na porta, observando-me com as duas sobrancelhas erguidas.
— Estou improvisando um sutiã — disse com dignidade. — Não quero andar a cavalo pelas montanhas de vestido, e se não vestir faixas, não quero que meus seios fiquem balançando o caminho todo. É bem desconfortável.
— Imagino. — Ele entrou no quarto e caminhou ao meu redor a uma distância segura, olhando para os membros inferiores com interesse. — E o que é isso?
— Gostou? — Coloquei as mãos nos quadris, desfilando com a calça de cordões de couro que Phaedre fizera para mim — rindo histericamente enquanto a fazia —, com pele macia de gamo fornecida por um dos amigos de Myers em Cross Creek.
— Não — respondeu ele com sinceridade. — Você não pode sair com... com... — Ele fez um gesto sem dizer nada.
— Calças — completei. — É claro que posso. Eu usava calça o tempo todo em Boston. São muito práticas.
Ele olhou para mim em silêncio por um momento. E então, muito lentamente, caminhou ao meu redor. Por fim, sua voz soou atrás de mim.
Você as usava fora de casa? — perguntou ele, incrédulo. — Onde as pessoas viam?
— Sim — respondi contrariada. — Assim como a maioria das outras mulheres. Por que não?
— Por que não? — perguntou ele, escandalizado. — Consigo ver a forma das suas nádegas e até a divisão entre elas, pelo amor de Deus!
— Também vejo as suas — falei, virando-me de frente para ele. — Tenho visto seu traseiro de calça todos os dias há meses, mas só de vez em quando essa visão faz com que eu aja de modo indecente em relação a sua pessoa.
Jamie contraiu os lábios, sem saber se deveria rir ou não. Aproveitando a indecisão, eu dei um passo à frente e envolvi a cintura dele, apertando seu traseiro com vontade.” 



No episódio, antes de partirem de River Run, jovem Ian convence Jamie a ficar com eles nas treze colônias e escreverá uma carta aos pais avisando, na resenha passada eu comentei que Ian acaba ficando a pedido de seu pai que escreve a Jamie com medo que se o menino retornasse ele poderia ser levado a servir o exército. A jornada começa no capítulo 14 (fuja da ira que está por vir), primeiro da parte V (morangos silvestres). Durante o trajeto a fala de Myers sobre a região que eles estavam passando ter pertencido aos tuscarora, mas que havia sido roubada pelos Cherokee, é extraída deste capítulo, entretanto, no livro ela é feita como uma suposição e não, como uma certeza, quando eles atravessam o que parecia ser uma vila devastada. Assim, como é nele que Jamie pergunta se John sabe falar mohawk e ele comenta que um pouco. No episódio, o mohawk foi substituído por cherokee. No episódio, Myers comenta que são as mulheres cherokee que escolhem com quem se deitam, no capítulo essa fala está presente, porém referente aos tuscaroras e mohawks e o contexto é diferente. Myers fala isso para tranquilizar Claire e Jamie que Pollyane não corre o risco de ser estuprada pelos índios quando entregue para ser adotada por eles. Enquanto no episódio, jovem Ian pede permissão ao tio para acompanhar Myers em seu comércio com os índios; no capitulo, jovem Ian comunica que Myers o convidou para ir com ele entregar Pollyane aos índios. 

Enquanto no episódio, Claire e Jamie conversam sobre a escolha de profissão de Brianna; no capítulo 15 (nobres selvagens), o diálogo é sobre a hora de nascimento de Jamie, de Claire e a de Brianna e por fim, sobre morte. Claire, ao longo da conversa, conta um pouco sobre o parto da filha para ele. O casal também é atacado por um urso, algo que por enquanto, foi cortado da série. Considerando o que se segue neste capítulo e a cena que aparece na promo dos três índios caminhando em direção aos Fraser, pode ser que o urso seja incluído no próximo episódio. Uma coisa é certa, parte deste capítulo aparecerá semana que vem. 

Após os índios terem ido embora, Jamie e Claire no outro dia continuam seu caminho e encontram morangos silvestres no capítulo dezesseis (a primeira lei da termodinâmica) algo que também ocorre na série. Em ambas as mídias, Jamie faz uma descrição de para que cada pedaço da terra serviria. No livro, Claire pergunta então se Jamie acha que eles deveriam aceitar a oferta do governador. E ele lhe responde com outra pergunta, se ela acreditava em sinais, porque ele enxergava essa terra como um, pois os morangos era o símbolo dos Fraser e conta a história do Monsieur Frésilière, este último também ocorre na série. No episódio, Jamie faz uma afirmação sobre ter que aceitar a oferta. No capítulo, o casal se deita no chão e o texto dá a entender que eles fazem amor, o que foi cortado das telas. No dia seguinte, eles têm a conversa sobre morte que leva a ao trecho sobre a primeira lei da termodinâmica que foi encaixado em “America the beautiful”. 

A história do crânio que Claire acha foi tirada do capítulo 23, ela estava voltando de um atendimento médico na casa dos Mueller no ano seguinte (1768), quando uma tempestade assustou seu cavalo, que a jogou no chão e fugiu. Claire encontra a caveira quando vai buscar seus sapatos após passar a noite em um pequeno abrigo e fica conversando com ela como distração, uma vez que estava perdida, junto com ela também encontrou uma opala. Com o tempo, ela percebe que seus sapatos desapareceram. Assim como no episódio, Claire também vê um índio ou o espírito de um. Jamie e jovem Ian a encontram no outro dia com a ajuda de Rollo. Quando eles retornam a Fraser’s ridge, o cavalo fujão já está lá e passa a ser chamado de Judas. Duncan Innes o havia achado e trazido para casa. 






Na cabana, Claire vai examinar o crânio e encontra as obturações de platina, algo que não era daquele século ainda; no episódio ela também as encontra e as mostra a Jamie, o que os faz acreditar que o morto era assim como Claire um viajante do tempo. 

Com o final desse episódio o sonho de lar de Jamie e Claire começa a se moldar à ideia de uma terra que possa ser sua, onde possam se assentar e envelhecer juntos, Fraser’s ridge. As treze colônias da América foi para muitos naquela época a chance de um recomeço e de uma vida melhor, o que hoje talvez no imaginário continue sendo. O sonho americano. O desejo de prosperar. A terra que foi construída com o suor e sangue dos imigrantes ingleses, escoceses, irlandeses, italianos, franceses, alemães... dos escravos africanos e dos nativos. Uma mistura cultural a qual tenho esperança de ser bem explorada no seriado da mesma forma que foi no livro. A nação que assistiremos ser construída. As histórias de amor que forjarão seu crescimento. A guerra que permitirá sua independência. A família que lutará pela liberdade do seu lar. O tempo que ore os une, ora os separa. O sonho que os mantém de pé. Essa e as próximas temporadas prometem muitos tremores, choros, risos e emoções. Espero que a produção consiga trazer bem a essência do casal e da luta histórica que os acompanha.



Por Tuísa Sampaio

14 novembro 2018

Livro x Série de TV- episódio 2 : “Do no Harm”




Livro x série de TV- episódio 2 : “Do no Harm”




Contém spoilers do episódio e dos livros



“Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre”
Martin Luther King 



O título desse segundo episódio “Do no harm” significa “fazer mal algum/fazer nenhum mal” em referência ao código de ética médico em que isso é prometido, sendo uma frase derivada do juramento de Hipócrates. Ele adaptou a parcialmente a parte IV (River Run) do romance que vai dos capítulos dez a um pedaço do treze. 


- River Run



O capítulo dez (Jocasta) inicia-se com a chegada dos Fraser a River Run. Enquanto o Sally Ann vai atracando, os passageiros sentem um forte cheiro de terebintina e rum que leva a Jamie e Ian a uma discussão sobre discernir qual é qual. Jamie fala para Ian se arrumar, e eles conversam sobre o que terão para jantar e se Jamie contará a Jocasta sobre o ataque dos piratas. No episódio, Jamie fala com Claire sobre a morte de Lesley (o que não ocorre no livro, uma vez que ele não estava presente) e sente-se culpado por ter ajudado Stephen Bonnet a escapar da justiça, enquanto Claire o consola. No livro, além de jovem Ian, Fergus também acompanha os Fraser; no episódio, Fergus está ausente. A emoção de Jamie ao se encontrar com sua tia foi expressa tanto no livro quando nas telas, Claire acredita que isso ocorra pela semelhança de Jocasta com a mãe de Jamie. No episódio, Jamie afirma que elas são realmente muito parecidas. Em ambas as mídias, Jocasta expressa a surpresa com o tamanho do sobrinho, porém no livro ela ainda o compara a Dougal. A família entra em River Run em meio a brincadeiras de Fergus e Ian, como na série Fergus não estava presente, isso não ocorre, e Jocasta logo é apresentada a Rollo diferentemente do livro. No episódio, nesse primeiro encontro a beira do rio, Jocasta comenta sobre sua cegueira, para explicar o porquê Ulysses teve que informa-la sobre o ramalhete que jovem Ian carregava como presente. Isso, entretanto, não ocorre no material original, sendo Claire quem nota a deficiência visual algumas cenas mais a frente. A parte da conversa na sala entre Jocasta, Jamie e Claire é semelhante a do livro, salvo que neste ela é mais longa, englobando lallybroch. Jocasta fala em refazer a fortuna de Jamie mais como uma torcida do que como bajulação como foi na série e jovem Ian encontra na sala quadros que foram pintados pela tia-avó. Enquanto na adaptação jovem Ian adentra a sala com um Rollo fedendo a gambá; no livro, eles começam a perceber a chegada do gambá pela agitação de Rollo, e Jamie acreditava ser um animal perigoso. Foi nessa confusão do gambá, em que Jocasta não conseguia entender o que estava acontecendo, que Claire percebeu a cegueira dela. Essa percepção é confirmada por Jocasta quando vão todos dá um passeio (exceto Fergus que pretende ir a cidade enviar notícias a Marsali na Jamaica) e ela comenta sobre apenas conseguir enxergar luzes. Dra. Fraser passa então a matutar sobre um possível diagnóstico para a cegueira de Jocasta, o que por enquanto ainda não aconteceu nas telas. É nesse passeio a cavalo que Jocasta fala aos Frasers o que River Run produz; nas telas, eles apenas estão passeando pelo jardim e é também durante a cavalgada para visitar a fábrica de terebintina que os Fraser conhecem Clarence, uma mula da senhora Cameron que acaba sendo utilizada por eles mais a frente, e na fábrica, eles encontram pela primeira vez com Farquard Campbell (juiz) e tenente Wolff (que facilitava os negócios de River Run com a marinha britânica). No episódio, o tenente Wolff aparece na casa em River Run para falar sobre negócios com Jocasta. Por enquanto tenho achado o modo como Jocasta vem sendo interpretada nas telas muito dócil em comparação à maneira como ela descrita nos livros. Há menções de Jamie sobre a esperteza que ela herdou dos Mackenzies, porém ela parece uma senhora doce e calma, e Jocasta Cameron não tem nada de doce e calma, a não ser que seja para alcançar algum objetivo. Espero que essa seja uma forma de trazer uma apresentação inteligente da personagem, meio que para enganar a audiência, uma vez que era comum ela criar essa imagem de simpatia e educação, e mais a frente apresentem-na com mais do seu verdadeiro caráter: uma mulher forte, astuta e teimosa, como uma Mackenzie. 



“‘Os Fraser são teimosos como rochas’, ele havia dito. ‘ E os Mackenzie são encantadores como cotovias no campo... mas também estatutos como raposas.’”


Nesse dia da cavalgada, Fergus ao retornar da cidade finda por trazer cartas de Ian e Jenny para Jamie. Nelas, é revelado o desejo de Ian pai de que o jovem Ian continue nas colônias com Jamie para evitar que seja recrutado para o exército e assim colocando fim no dilema do retorno do rapaz, que já havia manifestado a vontade de continuar com os tios. As cartas não apareceram neste episódio, mas é algo que pode ser facilmente encaixado em algum dos próximos. Ainda no capítulo dez, comenta-se que o tenente Wolff havia pedido Jocasta em casamento logo após a morte de Hector, não por interesse nela, mas pelas terras; e que ela havia desmaiado para fugir de uma resposta. Já na série, enquanto espera Phaedre arrumar o vestido de Claire, Jocasta responde a jovem que os interesses do tenente nela são meros rumores. 

- Rufus e o dilema de Claire


A reunião que Jocasta organiza em homenagem ao sobrinho é algo que no livro sucede após um mês da chegada dos Fraser a River Run (no capítulo onze- a lei do derramamento), enquanto na série é realizada ainda no mesmo dia. Nesse período de um mês, Claire passava seus dias aprendendo a fiar e evitando os escravos, enquanto Jamie se ocupava da auxiliar Ulysses na administração das contas da fazenda. No dia em que Jocasta estava falando sobre o jantar, Farquard Campbell aparece em River Run para informar acerca de um acidente na serraria e solicitar os remédios de Claire. Ele insistia que a presença dela não era necessária, uma vez que seu marido poderia levar e administrar os medicamentos e que não era uma situação adequada para senhoras. 


“Jocasta se levantou antes que eu pudesse protestar, segurando o braço de Campbell.

— O que foi? — perguntou ela. — Foi um dos meus negros? Byrnes fez alguma coisa?

Ela era mais alta do que ele cerca de cinco centímetros. Campbell tinha que olhar para cima para responder a ela. Eu via as rugas de tensão em seu rosto, e ela também sentiu a situação. Seus dedos apertaram o tecido da manga do casaco dele.

Ele olhou para Ulysses e então para Jocasta. Como se tivesse recebido uma ordem direta, o mordomo se virou e saiu da sala, caminhando suavemente como sempre.

— Foi uma matança, Jo — sussurrou ele. — Não sei quem, nem como, nem a gravidade. O garoto de MacNeill me chamou. Mas quanto ao outro... — Ele hesitou e então deu de ombros. — É a lei.

— E você é o juiz! — rebateu ela. — Pelo amor de Deus, não consegue fazer nada? — Sua cabeça se virou, tentando fixar os olhos cegos nele para convencê-lo.

— Não! — respondeu ele de forma brusca, e então, mais delicadamente, repetiu: — Não. — Tirou a mão dela da manga de seu casaco e a segurou com força. — Você sabe que eu não posso — continuou ele. — Se eu pudesse...

— Se você pudesse, não faria — disse ela com amargura. Puxou a mão que ele segurava e deu um passo para trás, punhos fechados ao lado do corpo. — Vá em frente, então.

Eles o chamaram para ser o juiz. Vá e faça o julgamento. — Ela se virou e saiu da sala, com as saias farfalhando.

Campbell a observou se afastar e então, quando a porta foi fechada, suspirou com uma careta e se virou para Jamie.

— Hesito em pedir tal favor, sr. Fraser, já que nos conhecemos há pouco. Mas eu gostaria muito de sua companhia para essa tarefa. Já que a sra. Cameron não pode estar presente, ter o senhor lá como representante dela no assunto...

— Qual é o assunto, sr. Campbell? — perguntou Jamie.

Campbell olhou para mim, desejando que eu saísse. Como não me mexi, ele deu de ombros, tirou um lenço do bolso e secou o rosto.

— É a lei desta colônia, senhor, que se um negro ataca um branco e o fere, ele deve morrer por esse crime. — Ele parou, relutante. — Felizmente, essas coisas são raras. Mas quando ocorrem...

Campbell parou, contraindo os lábios. Então, suspirou, e com um tapinha no rosto corado, guardou o lençol.

— Tenho que ir. Vem comigo, sr. Fraser?

Jamie permaneceu mais um tempo parado, observando o rosto de Campbell.

— Vou — disse ele abruptamente.

Dirigiu-se ao armário e abriu a gaveta de cima, onde o falecido Hector Cameron guardava as pistolas.

Ao ver isso, eu me virei para Campbell.

— Há perigo?

— Não sei dizer, sra. Fraser. — Campbell encolheu os ombros. — Donald MacNeill me disse apenas que houve um conflito no moinho e que se tratava de um derramamento de sangue, de acordo com a lei. Ele pediu para que eu fosse fazer o julgamento e supervisionasse a execução, e então partiu para reunir os outros donos de propriedades antes que eu pudesse conseguir mais detalhes.

Ele parecia triste, mas conformado.

— Execução? Está dizendo que pretende executar um homem mesmo sem saber o que ele fez? — Na minha agitação, eu havia derrubado o cesto de novelos de Jocasta. Bolinhas de lã colorida se espalharam por todos os lados, pulando no carpete.

— Eu sei o que ele fez, sra. Fraser! — Campbell levantou o queixo, corado, mas, controlando-se, engoliu em seco. — Peço seu perdão, senhora. Sei que chegou há pouco tempo. Considerará algumas de nossas atitudes difíceis e até bárbaras, mas...

— Isso mesmo, eu as considero bárbaras! Que tipo de lei condena um homem...

— Um escravo...

— Um homem! Condena um homem sem um julgamento, sem nem ao menos uma investigação? Que tipo de lei é essa?

— Uma lei ruim, madame! — respondeu ele. — Mas, ainda assim, é a lei, e tenho que cumpri-la. (...)”





A situação em questão foi a mostrada no episódio em que Rufus por ter atacado o capataz foi preso a um ferrão. No livro, Claire finda por ir com Jamie, pois quando ele se recusa a atender o pedido dela para não fazer parte dessa barbaridade, ela decide acompanha-lo para prestar os primeiros socorros. Em “Do no harm”, sem saber exatamente com o que estava lidando, Claire não pensa duas vezes e se oferece para ir com o marido atender a quem estava ferido, pois de pronto já se sabia que o capataz Byrnes havia perdido a orelha. Quando se encontram com MacNeill na estrada, ele comenta sobre a presença de Claire por não ser uma situação adequada a mulheres, enquanto Jamie afirma que sua mulher é uma curandeira, uma ban-lighiche, e por isso sua presença será útil. Na série, Claire acompanhar Jamie não traz questionamentos, na verdade, esperava-se que por ter conhecimentos médicos ela ajudasse com a execução do escravo. No capítulo, MacNeill explica que Rufus havia tentando decepar a cabeça de Byrnes após uma discussão, porém falhou e só conseguiu arrancar-lhe uma orelha. Acrescentam-se comentários sobre a ineficiência de Byrnes, o qual havia sido contratado por Hector, e que Jocasta iria ficar triste por perder Rufus. 


“Então, perdi inteiramente a consciência da multidão. Toda a minha atenção concentrou-se ao lado da serraria, onde a haste de um guindaste fora armada às pressas, com um enorme gancho curvo para levantar toras de madeira ao nível do tablado da serra. Empalado no gancho estava o corpo de um homem negro, contorcendo-se na terrível imitação de uma minhoca. O cheio de sangue, quente e adocicado, impregnava o ar; havia uma poça na plataforma embaixo do gancho.”


Ao contrário do que acontece na série, Claire congela completamente com a cena e não é capaz nem de pedir ajuda a Jamie. Ele, no entanto, age por conta própria, sacando as pistolas e ordenando que o homem fosse retirado do gancho. Logo quando Claire começa a analisar o caso, ela pergunta a Jamie se caso ela salve Rufus, deixarão ele viver, e Jamie lhe responde que não. É nesse momento, ainda com o corpo do homem no chão, que ela decide acabar com o seu sofrimento. Nem ao menos Jamie sabe dessa decisão de Claire; na série, é ele quem a convence a fazer isso quando eles se veem obrigados a entregar Rufus para evitar a invasão de River Run. Na adaptação, eles estendem essa decisão por todo o episódio, realizam uma cirurgia e mostram todo um comportamento barbárico da população para executar este homem, além dos comentários de Ulysses sobre ter sido melhor deixa-lo morrer quando Claire acabou com os procedimentos médicos. Muito provavelmente, a produção quis deixar a escolha mais difícil e emocional para Claire ao fazê-la conversar com ele, saber sobre sua família e sua vida, assim como ao esticar o dilema fazê-lo parte dos telespectadores também e deixar a morte mais tocante. Ou talvez colocaram a cirurgia de Rufus em substituição da de John Quincy Myers a fim de não divergir do teor médico presente nesta parte. Entretanto, enquanto a operação de John é meio cômico e feita na frente dos convidados de Jocasta, a delicada circunstância de Rufus é extremamente tocante e privada. 



“Seus olhos estavam embaçados. Tentei olhar dentro deles, para fazer com que me visse. Por quê?, eu me perguntava, mesmo quando me inclinei sobre ele e chamei seu nome. Eu não podia perguntar-lhe se essa seria sua escolha – eu a fizera por ele. E tendo feito essa escolha, não podia pedir sua aprovação ou perdão.”


- A festa






Na série a festa havia ocorrido antes do empalamento de Rufus, no livro ela acontece após. E Jocasta até comenta que servirá para tirar a mente deles da tristeza. Seu enredo se desdobra no capítulo doze (a volta de John Quincy Myers). A cena em que Phaedre ajeita um vestido para o jantar ocorre então aqui. A descrição que Phaedre faz sobre Claire a pedido de Jocasta também aparece de forma semelhante a das telas, mas como a cor dos olhos de Claire e de Caitriona não são as mesmas, neste quesito a descrição diverge. No jantar, Claire mais uma vez se encontra com Phillip Wyllie, que flerta descaradamente com ela (Claire o havia conhecido na celebração nos Lillingtons), apesar de não ter grande importância agora, ele criará problemas no quinto livro. John Quincy Myers invade a recepção de Jocasta para dizer a Claire que já está suficientemente bêbado para que ela faça sua cirurgia nos testículos. Quem leu o livro x série do episódio anterior sabe que apesar de na série ele aparecer pela primeira vez neste episódio ao ajudar jovem Ian a dar banho em Rollo, no livro ele auxiliou os Fraser no caminho para River Run e recebeu um possível diagnóstico de Claire sobre a necessidade de cirurgiá-lo. Com insistência, Claire finda por realizar a operação no salão de Jocasta em meio a vários comentários dos convidados sobre a anatomia de Quincy. Jamie tinha permanecido estranho durante o jantar, entrando e saindo do aposento, e no capítulo treze (um exame de consciência) ele comenta o porquê: Ulysses havia lhe informado do desejo de Jocasta anunciar na festa que Jamie seria seu herdeiro. No seriado, Ulysses não passa a informação e como também não há a distração da cirurgia, Jocasta acaba por fazer o anúncio. Jamie e Claire então vão discutir sobre a possibilidade de herdarem River Run a beira do rio em um passeio a barco, o que envolve o debate sobre Claire poder ser dona de escravos, uma vez que seria impossível libertá-los enquanto Jocasta vivesse e talvez até mesmo depois. É Jamie quem explica a Claire sobre as dificuldades de se libertar escravos, o que no episódio é feito por Campbell. Claire lhe fala que não pode dizer o que ele deve fazer, é escolha dele e a isso ele responde: 


“- Seu rosto é meu coração, Sasseanch – ele disse suavamente- e meu amor por você é minha alma. Mas você tem razão, você não pode ser minha consciência.”


Vi alguns comentários de que o episódio teria sido monótono, para mim foi longe disso, preferi este ao anterior. Tenho uma opinião meio dúbia quanto a cena em que os fazendeiros da região vão exigir a entrega de Rufus porque ficou parecendo uma cena de A Bela e a Fera, o que não sei se foi a intenção. Questionamentos morais me são interessantes e a escolha de mostrar de forma mais prolongada não apenas os horrores da escravidão, mas também das leis injustas foi acertada. Eles não podem ser esquecidos ou escanteados.E também a dificuldade de duas pessoas ao tentar fazer a diferença. De duas pessoas que enxergam além da moral da época. Só porque algo é determinado em lei não significa que seja correto. A escravidão um dia foi legal. O apartheid na África do Sul um dia foi legal. A segregação racial nos Estados Unidos um dia foi legal. Existem lugares do mundo em que é legal apedrejar mulheres adúlteras ou que foram estupradas. Há países em que ser homossexual é ilegal. Já houve uma época em que mulheres eram proibidas de estudar ou trabalhar. Se não fosse o pensamento de pessoas vanguardistas e revolucionárias, rebeldes, que questionam essas leis, e as desrespeitam, talvez elas nunca fossem mudadas. EX INJUSTA NON EST LEX, em português, a lei injusta não é lei. Essa frase é de Santo Agostinho. E completava Martin Luther King “é nosso dever moral, e obrigação, desobedecer a uma lei injusta”. De certa forma, foi isso que Claire e Jamie desejavam trazer a tona: a indignidade da lei e a crueldade da escravidão, mas é difícil apelar à razão e à empatia daqueles que não sabem o que é isso ou são egoístas demais para pensar além do seu próprio conforto. Farquad Campbell é um personagem que muito me incomoda nesses capítulos do livro com essa sua personalidade legalista, entretanto na série Tenente Wolff conseguiu ser mais desprezível que ele. 

Concluo então, deixando como reflexão em cima dos fatos narrados neste episódio, outra citação de King, em sua carta da prisão de Birmingham: 


“Esperamos por mais de 340 anos por nossos direitos constitucionais e concedidos por Deus. As nações da Ásia e da África estão dirigindo-se com uma velocidade a jato rumo à conquista da independência política, mas nós ainda nos arrastamos a passo de cavalo e de charrete rumo à conquista de uma xícara de café em um aparador. Talvez seja fácil àqueles que nunca sentiram os dardos perfurantes da segregação dizer “espere”. Mas quando você viu bandos perversos lincharem suas mães e pais à vontade e afogar suas irmãs e irmão a seu capricho; quando você viu policiais cheios de ódio amaldiçoarem, chutarem e até matarem seus irmãos e irmãs negros; quando você vê a vasta maioria de seus vinte milhões de irmãos negros sufocando-se em uma jaula hermética da pobreza em meio a uma sociedade de abundância; quando você de repente descobre sua língua travada e sua fala gaga ao tentar explicar a sua irmã de seis anos de idade por que ela não pode ir ao parque de diversões público cuja propaganda acabou de passar na televisão, e vê lágrimas jorrando dos olhos dela quando lhe é dito que o Funtown está fechado para crianças de cor, e vê ameaçadoras nuvens de inferioridade começando a se formar no pequeno céu mental dela, e a vê começar a distorcer sua personalidade ao desenvolver um rancor inconsciente contra as pessoas brancas; quando você tem de inventar uma resposta a um filho de cinco anos de idade que está perguntando: “papai, por que as pessoas brancas tratam as pessoas de cor tão mal?”; quando você faz uma viagem através de seu estado e descobre ser necessário dormir noite após noite nos cantos desconfortáveis de seu carro porque nenhum motel o aceita; quando você é humilhado entra dia sai dia por sinais irritantes dizendo “branco” e “de cor”; quando seu prenome torna-se “neguinho”, seu nome do meio torna-se “menino” (não importa sua idade) e seu sobrenome torna-se “John”, e sua mulher e mãe nunca são chamadas pelo título respeitável de “Sras.”; quando você é perseguido de dia e assombrado à noite pelo fato de que você é um negro, vivendo constantemente na ponta dos pés, sem saber exatamente o que esperar em seguida, e é atormentado por medos interiores e ressentimentos exteriores; quando você está sempre lutando contra uma impressão degradante de “não ser ninguém” – então você entenderá porque achamos difícil esperar. Chega um momento em que a capacidade de suportar esgota-se, e os homens não estão mais dispostos a mergulhar no abismo do desespero. Espero, senhores, que vocês possam compreender nossa impaciência legítima e inevitável. Vocês manifestam uma boa dose de ansiedade quanto à nossa disposição de violar as leis. Essa é certamente uma preocupação legítima. Como nós exortamos tão ativamente as pessoas a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte que baniu a segregação em escolas públicas, à primeira vista pode parecer um tanto paradoxal que nós conscientemente violemos leis. Também se poderia perguntar: “Como vocês podem advogar a violação de certas leis e a obediência a outras?” A resposta está no fato de que existem dois tipos de leis: as justas e as injustas. Eu seria o primeiro a advogar a obediência a leis justas. Tem-se uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. De modo contrário, tem-se uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas.”




Por Tuísa Sampaio
06 novembro 2018

Livro x Série de TV – episódio 1 : America the beautiful (Quarta temporada)



Livro x Série de TV – episódio 1 : America the beautiful (Quarta temporada) 




Contém spoilers do episódio e dos livros (se você só leu até o quarto livro, há spoiler do sexto) 



Com o retorno de Outlander, estamos de volta também com as análises das semelhanças e diferenças entre o seriado e os livros. A quarta temporada promete adaptar o romance “Os tambores do Outono”, quarto da série. O título do episódio vem de uma famosa canção estadunidense. “America the beautiful” (“América, a linda”) é um poema de Katharine Lee Bates, escrito em 1893, tendo sido publicado pela primeira vez dois anos depois. Em 1910, Samuel A. Ward compôs a música para o poema de Bates. Ela concorreu para ser o hino do país, mas perdeu, porém muito dos seus amantes ainda realizam a sua defesa para o posto pela sua representação do sentimento patriota daquele povo. A versão cantada por Ray Charles é que a pode ser escutada na cena final do episódio. O primeiro episódio adaptou parcialmente a parte I do livro nomeada de “Admirável Mundo Novo”, cujo título faz referência a distopia clássica de Aldous Huxley, a qual carrega como tema principal o choque cultural entre os chamados “selvagens” e “civilizados” e como essas terminologias podem ser uma questão de referência. Essa primeira parte envolve os capítulos um “enforcamento no paraíso” e dois “quando encontramos um fantasma”. Pula-se então a parte II, protagonizada por Roger e Brianna em 1969 com o objetivo acredito eu de manter a mesma linha temporal durante todo o episódio, e continua-se a adaptação com a parte III “piratas” que inclui os capítulos seis a nove. Existe um trecho também cuja fonte é o final do livro seis e outro extraído do três, quando o momento chegar falarei sobre eles. Vou usar como base a ordem dos eventos do livro que é um pouco diferente da do episódio. 


O início do episódio não coincide com o do livro, porém não é algo completamente estrangeiro a história, uma vez que mais para o final de “Os tambores de outono” será mencionada a existência de círculos de pedras nas proximidades dos Frasers. A narrativa inicial de Claire também não está presente na abertura da versão escrita, a qual se inicia com Fergus e Claire procurando por Jamie pela multidão que aguardava o enforcamento dos condenados da coroa. Na história original, Hayes não acompanhava os Frasers da Escócia para as Colônias, ele já estava lá e foi em seus momentos finais que Fergus e Claire o viram pela primeira vez. No episódio, Jamie pensa em estratégias para libertar Hayes, mas falha, e como último pedido de seu amigo lhe dá rum e seu sorriso como visão final antes da morte. A conversa que é interpretada nele não aparece no livro, já que a história é narrada após ela, porém pelo diálogo de Claire e Jamie supõe-se que o conteúdo foi algo semelhante ao que ocorreu no episódio, uma vez que Jamie fala que embebedou Hayes a pedido dele. Ademais, ele se esforça para ser visto pelo amigo. A confusão que permite Stephen Bonnet fugir da forca também acontece no livro, entretanto ele não se aproveita da comoção causada pelo amigo de Hayes, que na verdade não está nem presente, os únicos amigos eram Jamie e sua família, mas sim, cria sua própria oportunidade quando os guardas estão distraídos retirando o corpo do cadafalso. Marsali, que aparece no episódio, havia ficado na Jamaica com amigos, pois sua gravidez, já conhecida no livro anterior faz com que decidam não arriscar coloca-la em um navio. Assim, Marsali só volta a aparecer após o nascimento do bebê quando mandam trazê-la da Jamaica para a Carolina do Norte, onde ela vai se estabelecer com Fergus. No episódio, dá-se a entender que uma possível razão para Fergus e Marsali decidirem ficar na América seria a gestação, porém no livro fica claro que é o desejo de Fergus de não abandonar seu Milorde. 



É nesse primeiro capítulo que Duncan Innes, outro companheiro de luta de Jamie que por não ter um braço havia sido libertado após Ardsmuir para ficar a própria sorte e acabou indo acompanha-los na Carolina do Norte volta a aparecer neste livro. Duncan tem um papel importante na história, mas resta a dúvida se ele irá realmente aparecer na série. 


Enquanto no livro, a viagem de jovem Ian de volta para Escócia e para sua mãe já estava marcada no navio Bonny Mary, pertencente ao primo de Jamie, Jared, com a intenção de que ele fosse aceito como marujo (pois não haviam vendido as pedras preciosas ainda); no episódio há apenas conversas sobre a travessia quando eles conseguem dinheiro e a argumentação do jovem para ficar. Na narrativa original, Ian se livra da viagem marítima porque eles chegam nas proximidades do porto três dias após a partida do navio. Rollo também é apresentado aos leitores no primeiro capítulo e a conversa que se segue no episódio quando Jamie e Claire conhecem o novo mascote é um trecho praticamente idêntico ao do livro. A cena da taverna na versão escrita é o momento para decidir que caminho irão seguir, é Duncan Innes quem comenta que Hayes tinha medo do escuro e de espíritos e conta a história do porquê e sobre a família de Gavin. Ele canta um cathris, uma espécie de lamento gaélico, o que foi entoado na série por Lesley. Fergus espertinho decide passar o chapéu para que as pessoas coloquem moedas pelo show, o que não ocorre no episódio. Após pedir para Fergus comprar uma pá, eles decidem enterrar Hayes em um cemitério. 



O enterro de Gavin ocorre no segundo capítulo “quando encontramos um fantasma”. Assim como na série, Claire pergunta se não irão notar o novo amontoado de terra e Jamie responde que o reverendo queria dinheiro para poder enterrar Gavin, então ele não iria se dá ao trabalho de desenterrá-lo. 


O flashback que jovem Ian tem enquanto ele e Jamie cavam o túmulo não ocorre e a conversa sobre seu abuso acontece no capítulo 62 do livro três, mas quando ainda estavam na Jamaica e o diálogo do romance tem um tom mais sexualmente explícito. Já no livro, Claire acompanha a escavação da sepultura enquanto papeia com jovem Ian e Jamie sobre como estudantes de medicina furtam corpos para estudar, enquanto jovem Ian conta como seu pai quase foi “furtado” da cadeia no meio da noite por acharem que ele estava morto. Em ambas as mídias, Stephen Bonnet se levanta da carroça como uma aparição, assustando a todos. Enquanto no episódio é Jamie quem pergunta a Stephen desde quando ele está no veículo, no livro isso cabe a Duncan, porém o resto do interrogatório passa a Jamie assim como na série e as falas são praticamente as mesmas. Decididos então a ajudar Stephen, resolvem carrega-lo na carroça até uma região sem soldados. Em ambas as mídias ao ser parado no ponto de checagem, o oficial responsável manda o soldado enfiar a baioneta no corpo para averiguar se ele estava realmente morto, uma vez que estavam todos a procura dos criminosos que haviam escapado a tarde. Na série, o casal para a carroça para poder costura-lo o que não livro não ocorre, eles só vão parar horas depois e um diálogo acontece entre Stephen e Jamie em que o segundo explica os motivos de tê-lo ajudado, pois alguém uma vez o havia ajudado na mesma situação. Bonnet chama-o então de asgina ageli, uma lenda cherokee que refere-se a pessoas que deveriam ter morrido e não morreram. E assim, virão meio-fantasmas, com um pé no mundo dos vivos e outro no espiritual. Na série, enquanto Claire presta os primeiros socorros, Bonnet conta ela sobre seu medo de morrer afogado devido a pesadelos recorrentes. Esse medo de Stephen existe, porém não é a Claire que ele conta no livro e sim a Brianna no capítulo 105 do sexto romance quando ele a sequestra. 


No episódio, o acampamento ocorre apenas entre Claire e Jamie onde há declarações e cenas de amor. No livro, a citação de Jamie sobre nada se perde, tudo se transforma e sobre a pequenez da morte ocorre apenas no capítulo dezesseis: 



“-Mas você não vê como é tão pequena a ideia de morte no nosso caso, Claire? – ele sussurrou.
Minhas mãos fecharam-se contra seu peito. Não, eu não achava uma questão menor de modo algum.
-Durante todo o tempo depois que você me deixou, depois do Culloden, estive morto, não estava?
‘Achei que estivesse. Foi por isso que eu... oh. – Respirei fundo, trêmula e ele balançou a cabeça.’
-Daqui a duzentos anos, eu certamente estarei morto, Sassenach – ele disse. Sorriu de modo enviesado.
- Sejam índios, animais selvagens, uma praga, a corda da forca ou apenas a bênção da idade... eu estarei morto.
-Sim.
-E enquanto você estava lá, em sua própria época... eu estava morto, não é?
Balancei a cabeça, concordando sem uma palavra. Mesmo agora eu podia olhar para trás e ver o abismo de desespero no qual aquela separação me lançara e do qual eu me erguera, um doloroso centímetro a cada vez.
Agora eu estava com ele novamente no ápice da vida e não podia contemplar uma queda outra vez. Ele estendeu a mão e arrancou um talo de capim, espalhando as lâminas verdes e macias entre os dedos.
-‘O homem é como a erva do campo’ –citou à meia-voz, roçando a haste fina pelos meus dedos, que repousavam em seu peito
- ‘Hoje ela floresce; amanhã seca e é lançada no forno’
Levou o tufo verde e sedoso aos lábios e beijou, depois o tocou delicadamente em minha boca.
- Eu estava morto, minha Sassenach... e no entanto, durante todo o tempo, eu a amava.
Fechei os olhos, sentindo o toque do capim em meus lábios, leve como o toque do céu e do ar.
-Eu também o amava -sussurrei-. Sempre o amarei
O talo do capim desapareceu. Com os olhos ainda fechados, eu o senti inclinar-se para mim, e sua boca na minha, quente como o sol, leve como o ar.
-Enquanto meu corpo viver, e o seu, seremos um só - sussurrou. Seus dedos tocaram meus cabelos, queixo, o pescoço e seios, e eu respirei seu hálito e o senti sólido sob minha mão. Deitei a cabeça em seu ombro, sua força sustentando-me, as palavras graves e suaves em seu peito
-E quando meu corpo deixar de existir, minha alma ainda será sua, Claire, juro pela minha esperança de céu, eu não me separarei de você.
O vento agitou as folhas castanheiras próximas e os aromas do final do verão eleveram-se, pungentes, à nossa volta; pinho e grama e morangos, pedra esquentada pelo sol e água fria, e o cheiro penetrante, almiscarado, de seu corpo junto ao meu.
- Nada se perde, Sassenach, apenas se transforma.
-Essa é a primeira lei da termodinâmica – eu disse, limpando o nariz.
-Não – ele disse. - Isso é fé.” 


Voltando ao segundo capítulo acontece uma cena de amor entre Jamie e Claire nas margens de um rio, que tem um diálogo bastante sexualizado como é de se esperar deles e há toda uma sensualização de Claire tomando banho antes. Preciso dizer que o modo como foi feito no episódio ficou sem graça comparado a descrição do livro. 



A conversa sobre os nativos ocorre tanto no material escrito quanto em audiovisual e para mim foi uma das cenas mais tocantes do episódio (mais delicada até que no livro, onde Jamie faz uns comentários um pouco preconceituosos sobre os índios), principalmente pela referência feita por Claire em relação às semelhanças do que aconteceria com os indígenas ao que são submetidos os escoceses pós-Culloden pela Coroa Inglesa (no livro, quem faz a associação é Jamie). Por mais que haja uma relação entre as duas opressões “coloniais” por assim dizer, a dizimação indígena, acredito eu, seja muito maior, pois até hoje em vários pontos da América (continente) os índios lutam para que sua cultura sobreviva. Várias línguas, histórias, religiões e segredos ancestrais desapareceram por completo, conhecimento até que poderia alavancar descobertas científicas. Eles são os verdadeiros donos dessa terra, nós somos os invasores. Quem são realmente os “selvagens” e quem são os “civilizados”? Por mais que os escoceses tenham sido proibidos de usar sua língua, seus tartãs, e algumas de suas expressões enquanto povo, hoje, ainda conseguem carregar uma identidade cultural forte e respeitada por seus pares. Ainda são donos da própria terra (apesar de individualmente os inimigos da coroa terem sido expropriados, os escoceses enquanto povo não foram expulsos da Escócia, também nunca foram obrigados a viver em “reservas” quando são os verdadeiros dono daquilo que o homem branco tomou para si). 


Concluindo essa cena, no livro, o episódio pula para o capítulo seis “deparo-me com uma hérnia”, porém o trecho se inicia já com os preparativos em Willington para viagem de barco com destino a River Run (o que não aparece na série), enquanto o episódio segue o jantar na casa dos Lillingtons em que os Frasers têm interesse de conseguir um comprador para um rubi. Infelizmente, como foi cortada a cena dos preparativos, o trecho em que Claire é convidada a examinar os testículos de John Quincy Meyer não aparece na TV, o que é uma situação super divertida. Fazendo logo uma pequena observação, enquanto no barco da série, Jamie comenta com Claire que sua tia era viúva; no livro, ele ainda não sabia sobre a morte do tio e como ela havia sucedido e quem lhe conta isso é John Quincy, assim como é John o contato para eles arranjarem a embarcação. Enquanto estão em Willington, na expectativa de viagem , Jamie descobre que o governador está na cidade hospedado na casa de Lillington e consegue um convite para jantar, onde tem interesse de vender suas pedras preciosas. Anterior a cena da refeição, no episódio, Claire e Jamie se arrumam para a celebração; no livro, Claire se arruma com uma ajuda de uma costureira e ela é quem comenta sobre a necessidade de uma jóia para que Claire não fique com o colo despido (no episódio, é uma fala de Jamie), quando Jamie aparece com o colar. No episódio, os frasers sempre mencionavam vender o rubi primeiro, no livro fica claro que o rubi foi usado para o colar de Claire por escolha de Jamie, poderia ter sido qualquer outra das pedras preciosas. 


“Ele olhou pela janela, onde uma pálida cor de pêssego tingia um céu enevoado, depois se voltou para mim, fez uma rebuscada reverência.
- Poderia me dar o prazer de sua companhia para o jantar, madame?” 



O capítulo sete “Grandes perspectivas repletas de perigo” abre-se com o jantar no Lillingtons. e o diálogo de ambas as mídias segue um tom semelhante com o tema dos impostos, porém no livro a conversa é mais longa e finda por adentrar outros assuntos como a gráfica de Jamie. Após se recolher, Claire decide vagar pela casa e escuta a conversa entre Jamie e o governador, em que este oferece terras a ele (apesar de ele ser católico, uma vez que um dos requisitos para ser proprietário era ser protestante) contanto que Jamie as povoasse e trouxesse colonos para trabalhar nelas. Após essa conversa, Claire e Jamie se encontram e discutem sobre a venda do rubi, a qual em parte foi reproduzida no episódio. 


No capítulo oito “Homem de valor” inicia-se a viagem no barco chamado Sally Ann para River Run, terras da tia de Jamie. Claire conversa com seu marido para tentar distrai-lo de um possível enjoo e ele comenta que não vê sua Tia Jocasta desde que tinha dois anos. A conversa sobre os casamentos de Jocasta com os Camerons vista no episódio e a pergunta sobre o mensageiro chegar antes que eles em River Run também aparece na narrativa original. Tanto na série como no livro, a tripulação do barco é formada pelo capitão e por um ajudante negro idoso. Algum tempo depois de eles terem visto um jacaré passando pelas águas, Jamie dá a Claire o estojo médico de presente pelos 24 anos de casamento. No episódio, ele menciona o tempo de matrimônio, mas não que era aniversário da união. O estojo era de segunda mão e pertencia a um Dr. Daniel Rawlings, que de acordo com a mulher que havia vendido a mercadoria para Jamie, veio se hospedar um dia, saiu e nunca mais voltou. 


“Há vinte e quatro anos, no dia de hoje, eu me casei com você, Sassenach. – ele disse ternamente. – Espero que você ainda não tenha motivo para se arrepender.” 



Durante a viagem, Jamie tenta ensinar grego e latim a jovem Ian, o que foi cortado do episódio, enquanto Claire estudava o caderno de anotações médicas do Dr. Rawlings. 


É no barco que Jamie pergunta a Claire se ela gostaria de se estabelecer nas Colônias e onde Claire menciona a revolução americana, enquanto na série, eles já haviam tomado uma decisão no segundo encontro na taverna, isso já no capítulo nove “dois terços de um fantasma”. É quando Jamie fala sobre querer encher Claire de rendas e jóias e sobre a única coisa que ele pôde dar ela ter sido o anel e as pérolas, quando ela lembra de Brianna e fala que deixou as perólas de herança. 


A cena final do ataque dos piratas orquestrado por Stephen Bonnet é descrita no final do capítulo. Rollo é atingido por um tiro defendendo jovem Ian (o que por enquanto não apareceu, mas não descarto que isso possa ser visto no próximo episódio), mas a bala foi de raspão. Ameaçando Ian com uma pistola, Bonnet obriga Claire a lhe entregar suas alianças. Na confusão, Claire tenta engoli-las, mas quando Bonnet tenta retira-las colocando o dedo na boca dela, uma delas pula. No livro, é a de ouro que ele leva e Claire engole a de prata que depois ela recupera quando Jamie faz uma mistura para induzi-la a vomitar. Na TV, ele leva a de prata e ela consegue cuspir a de ouro depois. Não gostei dessa mudança, pois é aliança de ouro com os dizeres de seu pai para sua mãe que Brianna reconhece mais a frente em seu encontro com Bonnet, porém também não é absurdo ela reconhecer a outra. Apesar dessa mudança, amei a construção da cena com “America, The beautiful” tocando no fundo, mostrando que a América apesar de suas lindas paisagens e abundante natureza guarda perigos antigos. Se muitos tinham medo dos “selvagens” índios, por serem desconhecidos, e os viam como “bárbaros” era na verdade dos já conhecidos piratas, ladrões e contrabandistas vindos do “Antigo mundo” que deveria haver temor. Afinal, os índios só queriam ser deixados em paz. A “América” era linda para quem? 


Por Tuísa Sampaio 

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