Lallybroch: Livro x Série de TV- Episódio 02: Surrender
21 setembro 2017

Livro x Série de TV- Episódio 02: Surrender



Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 02: Surrender


O segundo episódio da terceira temporada segue um ritmo semelhante ao do primeiro com o entrelaçamento da linha temporal de Claire em 1949 (e alguns anos seguintes) e de Jamie em 1752. Consequentemente, vou seguir o mesmo raciocínio e dividir a comparação em duas partes relacionadas à linha do tempo de cada protagonista. A parte recortada de “O Resgate no mar” desta vez foi maior, abrangendo trechos dos capítulos três (Frank e a revelação completa) quatro (Dunbonnet), cinco (Uma criança de presente) e o seis todo (Justificado pelo sangue) concluindo assim a parte II do livro, denominada Lallybroch.

Jamie (1752)


O capítulo quatro, Dunbonnet, narra os deslocamentos de Jamie da sua caverna até Lallybroch, normalmente para se barbear e para ter um pouco de contato humano. As patrulhas dos casacas vermelhas são citadas, mas não exatamente descritas (a não ser a do parto do jovem Ian que falarei mais na frente). Em uma das conversas entre Jamie e Jenny, o leitor descobre que Ian havia sido preso pelo exército britânico sob a suspeita de ser um traidor jacobita. No episódio, eu compreendi que eles extraíram essas informações sobre a prisão de Ian e resolveram construir algo visual com ela. Assim, apresentaram os soldados ingleses levando Ian como uma forma de “tortura” para que ele falasse o paradeiro do seu cunhado. Na cena é mencionado que Lallybroch não mais pertence a Jamie Fraser, mas sim ao seu sobrinho Jamie Murray (a transferência de propriedade foi realizada para que eles não perdessem a terra, já que as propriedades dos traidores eram confiscadas pela Coroa). Entretanto, no livro, o motivo das constantes prisões de Ian era tentar provar que ele fosse jacobita, julgando-o como senhor de Lallybroch, para que pudessem confiscar a terra. Quando eles percebiam que o senhor de Lallybroch era o pequeno Jamie e não havia como provar que ele fosse um traidor, eles findavam por soltar Ian.

Um ponto interessante descrito neste capítulo é a dificuldade de Jamie em falar com as pessoas, que foi muito bem retratada em tela.

Haviam aprendido a não esperar que ele falasse enquanto não terminasse de se barbear; as palavras brotavam com dificuldade, após um mês de solidão. Não que ele não tivesse nada a dizer; era apenas que as palavras dentro dele formavam uma obstrução em sua garganta, digladiando-se para sair no curto tempo que ele dispunha. Ele precisava daqueles poucos minutos de meticulosos cuidados pessoais para separar e escolher o que iria dizer e para quem.”

A cena em que Jamie caça um veado aparece também neste capítulo. A Escócia do pós-Culloden estava enfrentando um período de fome e como alguns dos arrendatários de Lallybroch haviam sido executados pelos ingleses, suas viúvas e crianças também se alimentavam lá. Eram muitas bocas e Jamie costumava caçar para ajudar na complementação da comida, mesmo assim, seus esforços eram insuficientes em termos de nutrir a todos. No episódio, Jamie leva o veado a Lallybroch e prepara a carne com Jenny, enquanto conversa também com Fergus. Aparentemente, o relacionamento entre Fergus e Jamie durante “Surrender” está passando por um momento difícil, ou como meus pais chamariam: “aborrecência”. Aquela fase em que o jovem acha que sabe de tudo, está sempre certo, nada de mau nunca vai lhe acontecer, não escuta ninguém, é imortal, e metaforicamente tatua rebeldia na cara. O problema é que os atos de rebeldia de Fergus vão ter um custo alto para ele. As discussões entre Jamie e seu protegido não ocorrem no livro, mas entendo que eles colocaram esse comportamento no personagem para demonstrar melhor sua personalidade para que o telespectador (principalmente para aqueles que não leram o livro, já que no material original, o trecho ocorre de uma forma um pouco diferente) entendesse seus atos na cena em que sua mão é cortada.


No capítulo cinco (Uma criança de presente) vamos mergulhar no nascimento do jovem Ian que também aparece no episódio. No livro, Jamie pede a Jenny para avisar quando ela entrar em trabalho de parto, mas ela fala para Fergus não chamar seu Milorde quando isso acontece, a fim de que ele não corra o risco de ser capturado pelos ingleses. Entretanto, Fergus acaba dando com a língua nos dentes e Jamie sai de sua caverna para assistir a irmã. No episódio, Jamie estava chegando a Lallybroch para ajudar com a contabilidade, quando escuta os gritos de Jenny dando à luz. Em “Uma criança de presente”, após chegar à propriedade, Jamie organiza algo para as mulheres e crianças fazerem, e enquanto trabalhava com o feno conversava com Fergus e Rabbie sobre superstições acerca de partos. O corvo aparece e conhecendo-o como um sinal de má sorte para parturiente, Jamie atira nele. No episódio, quem atira no pássaro é Fergus, e Jamie, na verdade, briga com o menino por causa disso. A consequência é que assim como no livro o barulho da arma atrai os casacas vermelhas. Em ambos, Jamie sobe para conversar com Jenny no quarto, apesar de os temas falados terem sido principalmente sobre o nome do bebê e um casamento para Jamie, o modo como a conversa se desenvolveu foi um pouco diferente. Neste trecho de “O Resgate no mar”, Jamie conta a Jenny que Claire estava grávida, queria que tivessem acrescentado isso no episodio. Ademais, ao falar sobre a gestação de Claire, Jenny entende que a razão por que Jamie queria tanto estar presente no seu parto era por não ter podido estar presente para o de Claire. A cena em que os ingleses aparecem no quarto de Jenny, e Jamie tem que se esconder, também se parece com a do livro com algumas diferenças, entre elas temos no livro 1) a entrada do pequeno Jamie no quarto chorando acreditando que irmãozinho havia morrido e com isso acusando o “inglês desgraçado de ter matado o bebê”; 2) a presença da parteira, que é quem informa aos soldados sobre o parto 3) os ingleses vão embora após não terem encontrado nada, no episódio Mary McNab assume a culpa por estar com uma arma e atirar no corvo. Assim como no livro, no episódio, assim que Jamie sai do seu esconderijo com o jovem Ian, ele entrega o bebê a mãe que dá de mamar. Neste ponto, algo interessante ocorreu na série de TV. Foram realizadas algumas perguntas para Ron Moore, produtor-executivo do seriado, no Twitter, dentre elas, foi questionado se Laura Donnelly (atriz que interpreta Jenny Murray) estava realmente amamentando o próprio filho, e ele respondeu que acreditava que sim. Achei incrível colocarem em tela uma cena de amamentação real. Sempre gostei do fato dos livros não amenizarem a realidade e adoro quando isso é transmitido para a série.



É a partir do momento em que Jamie vê-se encurralado com o bebê em Lallybroch que ele decide se afastar mais da casa. Em um dos dias que Jamie estava na caverna, ele escuta o grito de Fergus que estava discutindo com os oficiais que queriam confiscar a cerveja que ele carregava (destinada ao seu milorde). Fergus passou a provocar os soldados enquanto fugia com o barril, e no meio da confusão um deles cortou a sua mão. O modo como a cena foi construída no seriado foi um pouco diferente. Fergus estava indo encontrar Jamie na caverna, mas não carregava barril de cerveja, quando percebe que os soldados o estão seguindo, ele passa a andar em círculos, quando os casacas vermelhas enxergam isso, eles se encontram e Fergus passa a xingá-los. Até que um deles, propositalmente, prende o menino em uma tora com a ajuda do outro soldado, e corta a sua mão. Essa cena no episódio me passou uma raiva danada, principalmente, porque não houve nenhum tipo de reprimenda nem remorso do soldado. Ademais, no livro, o corte da mão como descrito ocorreu no calor da briga. Alguém levantou o sabre e no meio da confusão acabou decepando a mão do menino. Sem contar que no livro, os soldados são quem levam Fergus para Lallybroch para ser tratado e ainda dão uma moeda de ouro a Jenny pelo transtorno; e no episódio, ele é deixado para morrer. Uma crueldade sem tamanho. Assim como no episódio, Jamie vai visitar Fergus no quarto e conversam, e assim surge o tema de que agora, Jamie é responsável por Fergus devido ao acordo que fizeram na França. Esse trecho retirado do livro ficou muito parecido quando adaptado no seriado. Em seguida, Jamie conversa com Jenny e arma um plano para se entregar aos ingleses a fim de receber a recompensa por ele e para livrar os moradores de Lallybroch dos perigos da sua presença. No livro, ele a chama até o buraco do padre para conversar sobre isso (até agora o tal buraco do padre não apareceu na adaptação) e é um de seus arrendatários quem o entrega e não, sua irmã como ocorre na série de TV. Antes de ele ser “capturado”, Mary McNab vai a procura de Jamie na caverna e se entrega para ele. No episódio, ela faz a sua barba. No capítulo, ela leva comida para ele inicialmente. Em ambos quando Mary se oferece, Jamie assume a possibilidade de ter sido Jenny quem mandou Mary lá para “entretê-lo” e de início não aceita, mas acaba sendo convencido. Neste trecho o diálogo ficou bem semelhante ao da série.

“—Sei muito bem o que está pensando — ela disse — Porque eu conheci sua senhora e sei como era entre vocês dois. Eu nunca tive isso —ela acrescentou, com a voz mais branda— com nenhum dos dois homens com quem me casei. Mas eu sei quando vejo o verdadeiro amor  e não penso fazê-lo sentir que o traiu.(...)
—O que eu quero —ela disse serenamente— é lhe dar algo diferente. Algo menor, talvez, mas que você pode usar; algo para você se sentir inteiro, completo. Sua irmã e as crianças não podem lhe dar isso, eu posso. Ele ouviu-a inspirar e a mão em seu rosto afastou-se.  —Você me deu minha casa, minha vida e meu filho. Não vai deixar que eu lhe dê um pequeno presente em troca?(...)  —Eu... não faço isso há muito tempo —ele disse, de repente envergonhado.  —Eu também não —ela disse, com um leve sorriso— Mas a gente vai se lembrar como é.”

Assim, concluiu-se o capítulo seis. Consequentemente, as cenas que foram adaptadas do livro para este episódio na parte da linha temporal de Jamie ficaram bem parecidas. Acredito que o que mais divergiu foi o modo como ocorreu a mutilação de Fergus e a “suposta traição” de Jenny.

O que me surpreendeu aqui foi em termos de caracterização. O gorro que o dunbonnet usava era para cobrir o cabelo ruivo de Jamie, isso é até mencionado pelo Capitão inglês, mas o gorro não cobre nada. Ele serve mais de decoração do que de disfarce. Estou pressupondo que deixaram os cabelos de Jamie para fora do gorro para que ele ficasse com uma aparência mais "selvagem".

Claire (1949 e seguintes)


A linha temporal de Claire é que está de certa forma mais diferente dos livros, porque eles escolheram criar cenas novas para Claire e Frank que não são (pelo menos até agora) no geral os flashbacks que ela tem em “O Resgate no mar”. Neste episódio, apenas uma cena de Claire foi retirada do terceiro livro, do capítulo três (Frank e a revelação completa). Foi o momento em que Brianna se virá no berço e Frank aparece de toalha para ver o que havia acontecido, o diálogo é bem parecido entre material original e adaptação. A cena que inicia a linha de Claire neste episódio em que ela está deitada na cama pensando em Jamie também é uma reflexão dela descrita no livro:

Não era Frank quem eu desejava, na calada da noite, acordada. Não era seu corpo liso e delgado que povoava meus sonhos e me excitava, fazendo-me acordar molhada e arquejante, o coração disparado com a sensação relembrada. Mas eu jamais voltaria a tocar aquele homem outra vez.”

De certa forma, entendi que as outras cenas colocadas serviram para mostrar ao telespectador a construção do relacionamento de Frank e Claire. O jantar com seus amigos, em que Frank pôde comparar um casal apaixonado com a sua relação, quando eles voltam a ter um relacionamento físico e Frank passa a não aceitar o fato de Claire fechar os olhos quando está com ele, até que se passam os anos... Claire ingressa na faculdade de medicina e seu casamento com Frank passa a ser algo de fachada, situação em que dormiam em camas separadas. Vamos focar nestas últimas cenas, que para mim foram as mais interessantes da história de Claire. Em relação a primeira aula de Claire e Joe, achei de muito bom tom colocarem a cena no episódio, mostrando o quanto ela e Joe, único negro da classe, teriam que enfrentar para se formar em um período e sociedades (mais) racistas e misóginos. Não foi mostrado o ano exatamente que Claire passa a estudar medicina, mas é mencionado no livro que ela volta a estudar quando Bree já está na escola. Supomos então que eles estão em algum momento dos anos cinquenta, período em que as leis de segregação racial (Jim Crow) ainda estavam em vigor (a segregação escolar acaba em 54, mas a lei em todos os estados só é revogada em 64 pela Lei dos direitos civis) e em que as mulheres ainda eram tratadas como propriedade masculina. Não é à toa que os outros estudantes da turma e o professor, todos homens brancos olhavam com desprezo para essa dupla improvável de estudantes. Claramente, não os julgavam dignos de estarem ali. Seria ótimo que introduzissem uma cena em que Joe e Claire colocassem os outros alunos “no chinelo”.


Quanto à parte das camas separadas, entendo que os produtores poderiam ter achado outra forma de apresentar o casamento de Frank e Claire como de fachada, uma vez que Brianna acreditava que os pais tinham um matrimônio de amor. E pelo menos no livro, dá a entender que eles ao longo do casamento tinham relações apesar de que para Claire isso resultava mais como uma forma de extravasar sua solidão. Estou ansiosa para o próximo episódio em que veremos Jamie e Lord John. Espero que David Berry não me decepcione.


Por Tuísa Sampaio









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7 comentários:

  1. Tuísa, você é sempre maravilhosa nesses paralelos. Adoro!

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  2. Na verdade está acontecendo uma controvérsia desnecessária. Desde 1890, quando foram criadas as "twin beds", que seriam colocadas juntas, dando certa liberdade pra cada pessoa, além de acreditarem ser mais higiênico e confortável, elas se tornaram muito populares. Apesar de que não era regra que os casais dormissem em camas de solteiro, também não era descomunal, principalmente depois de 1930, durante a chamada Code Era de Hollywood, em que os casais não poderiam compartilhar a mesma cama em tela, o que trouxe esse costume de volta.
    Exemplo fácil de se encontrar são fotos dos quartos de Jackelline Kennedy durante sua residencia na Casa Branca (1961-1963). Apesar de que seu marido tivesse seu próprio quarto, no dela as camas também eram de solteiro, permitindo conforto após as visitas.

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    1. Mas no livro, eles não usavam. Eles dormiam em cama de casal mesmo.

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    2. Percebo que a série faz alguns acertos históricos nos detalhes dos livros, sempre. Não que fosse estranho Claire e Frank dormir numa cama de casal, mas talvez assim a estética ficasse melhor. Veja bem o que eu disse em cima é essencialmente: dormir em cama de casal ou em camas de solteiro, não significava necessariamente aproximação ou distanciamento do casal. Era mais uma questão de conforto e cultura mesmo. Alguns casais não dividiam nem quarto, veja lá cama.

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  3. Tuisa... não resisti e resolvi ler a 2a resenha... sem spoilers dessa vez rsrsrsr 😅 ufa!
    Muito bem... vou ler a 3a!

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    1. Acabei de responder seu comentário no post da primeira resenha kkkk, espero que você goste das próximas (se você decidir lê-las).

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