Lallybroch: Livros x Série de TV- Episódio 03: All debts paid
27 setembro 2017

Livros x Série de TV- Episódio 03: All debts paid



Contém spoilers do episódio e dos livros

Episódio 03: All debts paid


O terceiro episódio desta temporada “All debts paid” adapta trechos dos capítulos oito (Prisioneiro da honra), nove (O andarilho), dez (A maldição da bruxa branca), onze (O gambito torremolinos), o iniciozinho do capítulo 14 (Geneva) e um flashback de Claire no capítulo 19 (Aplacar um fantasma) de “O Resgate no mar”.

Jamie (1755-1756)


Jamie agora é um prisioneiro em Ardsmuir, Escócia. O capítulo oito inicia-se com uma conversa entre Lorde John, o novo diretor da prisão, e Coronel Harry Quarry, o seu predecessor a qual envolve o modo como a cadeia funciona, a quantidade de presos, sobre o ouro dos franceses e fala sobre o “acordo” que tem com Jamie Fraser de jantar com ele, enquanto o escocês lhe conta as necessidades dos prisioneiros. No episódio, apenas um trecho dessa conversa, a qual é originariamente bem mais extensa é exposta. Neste diálogo, Quarry, que era um amigo da família de Grey, menciona que ele não sabe o que John tinha feito para ter recebido esse posto, mas esperava que ele merecesse para seu próprio bem. Essa fala acaba pertencendo a Jamie em “All debts paid” na cena em que ele e Lorde John se encontram em seu gabinete.  Ademais, eles mudaram as características completamente de Harry, uma vez que ele era conhecido por ser bonitão e era um dos melhores amigos de Hal, Lorde Melton, irmão de Grey e, portanto, tinham uma idade aproximada a dele (John tinha vinte seis anos quando foi enviado a Ardsmuir, nesta época Hal tinha em torno de trinta e cinco) e o ator no episódio é bem mais velho. Quanto ao motivo de ter sido imposto esse “castigo” que era o cargo de diretor de Ardsmuir, nada é realmente deixado explícito nos livros, mas por dicas deixadas nas reflexões de John e por alguns comentários de Diana, seu exílio teve algo a ver com um quase escândalo entre John e seu amante George Everett (o relacionamento sexual/amoroso entre homens naquele período era crime), e muito provavelmente teve um dedo de Hal no meio para evitar que o nome da família ficasse mais manchado do que já estava (o patriarca Grey foi acusado de ser um traidor jacobita antes da sua morte, o que foi algo que desonrou o sobrenome deles). É mencionado durante a conversa ente Grey e Quarry, que Jamie em Ardsmuir é conhecido como Mac Dubh. No episódio, o coronel acredita que a expressão tem  algum significado de respeito. No capítulo, Harry diz que um dos soldados que fala gaélico disse-lhe que Mac Dubh é um diminutivo da de Seumas, mac an fhear dhuibh, que seria traduzido como “James, filho do negro”. O “negro” aqui faz referência aos cabelos negros do pai de Jamie, que era conhecido com Black Brian ou Brian Duhb.[1]

A cena tanto no capítulo quanto no livro muda para a conversa dos jacobitas com Jamie sobre o novo diretor. Em termos de conteúdo o diálogo é bem similar, a grande divergência vem com a aparição de Murtagh durante o episódio como um dos presos (no livro, Murtagh havia morrido em Culloden). Para uma parte do Fandom, uma alegria; para a outra, nem tanto. O Murtagh vivo tem gerado controvérsias. Aqueles que não gostam de nenhum tipo de desvio dos livros odiaram essa situação, entretanto uma parte do fandom tinha feito campanha nas redes sociais (Save Murtagh) para que o padrinho de Jamie continuasse vivo na série. Ron, produtor-executivo de Outlander, explica em uma entrevista a Mashable o porquê da decisão:

O desenvolvimento de Murtagh na série é diferente do dos livros basicamente desde o início. Nós o fizemos um personagem muito mais importante na história, mais próximo a Jamie e ele entrou no segredo [de Claire] em Paris. Ele tornou-se parte da família de uma forma diferente da dos livros. E eu não estava pronto para deixá-lo partir após Culloden. Ele vai sobreviver e vamos encontrá-lo mais tarde, vamos mantê-lo.

Meu palpite é que mantiveram Murtagh vivo na série de TV por duas razões. A primeira sendo fan service mesmo já que o personagem era muito amado principalmente na versão das telas; as segunda seria por questão de logística.  Acredito que eles irão fazer Murtagh substituir Duncan Innes (personagem que aparece em Tambores do Outono), seguindo um raciocínio parecido com o que os produtores de Game of thrones fizeram ao colocar a personagem Sansa para fazer a história de Jeyne Poole. Eles já tinham um ator contratado, em vez de descartá-lo e ter que fazer um novo casting, introduzir um novo personagem, organizar uma agenda com uma nova pessoa, eles vão usar esse ator que já está à disposição deles e que eles sabem que funciona em tela. Com o adendo de agradar a parcela de fãs que realizou a campanha do “Save Murtagh”. Eu gostei que mantiveram Murtagh vivo porque nunca quis que ele tivesse morrido, além de que Murtagh-série me conquistou muito mais que Murtagh-livro, o primeiro é mais carismático. Já perdi muito personagem amado, não queria perdê-lo também. Acho que foi um desvio em relação aos livros que se assenta bem na história, entretanto esse com certeza é um tema polêmico que continuará dividindo opiniões no fandom por um bom tempo.
Continuando no capítulo, Grey escreve uma carta para sua mãe, lembra-se de quando conheceu Jamie em Culloden, e de Hector, seu primeiro amor, que morreu no batalha final do levante. Já o episódio pula para o jantar de Grey em que ele se depara com um enorme rato o que também ocorre no livro ensejando uma conversação entre ele e McKay bem similar a do livro e encerrando o oitavo capítulo.
Iniciando “O andarilho” (capítulo nove) John Grey escuta sobre um caminhante que falava quase unicamente em francês e gaélico sobre um ouro (o ouro do francês como era conhecido havia sido supostamente enviado pelo Rei Louis da França para Charles Stuart, entretanto nunca foi encontrado), é quando então ele decide falar com Fraser (em “All debts paid”, ele comunica-se com Jamie no jantar onde há a conversa sobre ratos com McKay), uma vez que ele era o único ali que falava as duas línguas. O major faz a proposta a Fraser de que se ele for intérprete desta situação, ele vai retirar suas algemas. A discussão no livro é bem semelhante a do episódio, mas sem a parte em que Jamie perde remédios e cobertores (isso só é pedido em um encontro mais a frente entre eles, assim como o pedido para colocarem armadilhas). No capítulo ele contenta-se em ter suas algemas retiradas. Jamie reporta a John a conversa que teve com o moribundo, a qual não faz muito sentido, pois eram palavras soltas sobre feiticeiras brancas e focas. Na série, John fica desconfiado de que possa haver mais alguma coisa. No livro, o major já começava a ter sentimentos por Fraser então essa desconfiança não aparece. Um  detalhe era que Duncan Kerr era um conhecido de Jamie, foi um arrendatário de seu tio Colum, mas isso não é mencionado no episódio. No capítulo, enquanto retornam para Ardsmuir, Jamie cata agrião e fala sobre Claire e seu conhecimento sobre plantas e como elas deixam os dentes fortes e previnem escorbuto e por fim, conta que ela se foi. No episódio, essa conversa ocorre quando Jamie vai finalmente jantar com Lorde John e ele solicita que os prisioneiros possam fazer armadilhas para pegar animais e colher as plantas verdes. Na continuação do capítulo, John é informado sobre a fuga de Jamie, mas acaba o reencontrando e recapturando-o, ou melhor, Jamie deixa-se ser capturado. No episódio, assim também acontece, mas Jamie quando encontra Lorde John menciona que ele lembra quem ele é  e pede para que o major cumpra sua promessa final e o mate, o que não acontece. Em seguida, em “All debts paid”, Jamie conta a Grey que a conversa entre ele e Duncan Kerr tinha um significado especial para ele uma vez que o andarilho mencionou uma bruxa branca, a qual ele pensou que poderia ser sua esposa. Ele afirma então que o tesouro era uma lenda, porque tudo o que achou foi uma caixa vazia com uma pequena safira. No capítulo 10 (A maldição da bruxa branca), é onde é descrita a conversa entre Jamie e Duncan, que na adaptação já tinha aparecido. Jamie recusa-se inicialmente a dizer o motivo de sua fuga para Grey e depois disso é que Lorde John o convida para jantar como forma de conseguir fazer Jamie falar algo sobre o ouro, acreditando que devido a fuga, ele sabia mais do que demonstrava. Depois, eles começam a ter encontros para jogar xadrez. Em um desses jantares, Grey ameaça a família de Jamie em Lallybroch, é quando então Jamie conta o motivo de ele ter escapado. Também afirma que encontrou um tesouro que não era francês, mas que o jogou no mar e entrega a safira como prova.



Em um dos jogos de xadrez, eles conversaram sobre Claire e Hector, o que também aparece no episódio, mas a cena na tela foi fundida com outra, quando Lorde John toca na mão de Jamie o que só ocorre em outro momento. Por causa desse toque, no capítulo seguinte, Jamie assume a culpa por portar um tartã, obrigando Lorde John a açoitá-lo como castigo, já que portar esse tecido tinha sido proibido. Ele fez isso para afastá-lo, mas no episódio isso não aparece. Eu até imaginei que eles fossem inserir isso quando vi Murtagh com um pedaço de tartã, mas não foi dessa vez. A parte final da história de Jamie neste episódio acontece quando a prisão é fechada e os prisioneiros são transferidos para as Colônias americanas para fazerem trabalhos forçados. Fraser, entretanto, é levado por Lorde John a outro local: Helwater. No início do capítulo catorze (Geneva), Lorde John sugere a Jamie usar outro nome enquanto estiver trabalhando na propriedade assim como no episódio já que Lorde Dunsany havia perdido o filho em Prestonpans.

David Berry, ator que interpreta Lorde John, foi um dos melhores achados desta série. Não apenas é lindo e realmente parece um Lorde inglês, como sua atuação é realmente digna de dividir as telas com Sam e Caitriona. O personagem de Lorde John Grey já tinha meu coração, agora David Berry também o tem.

Claire (1956-1966)


Na linha histórica de Claire mais uma vez só foi usada uma passagem do livro, a qual falarei mais à frente. Focarei primeiramente em uma mudança realizada na vida de Claire com Frank que muito me incomodou.  No episódio, logo na primeira cena, durante um café da manhã em que Claire convida o marido para ir ao cinema, o telespectador descobre que o casal tem algum tipo de acordo em que ambos poderiam “ver” outras pessoas contanto que fossem discretos. No livro, Claire suspeita e depois tem a certeza que Frank teve amantes (no plural mesmo) ao longo do casamento. Ela se incomoda com isso, por vezes tem raiva, mas faz vista grossa porque considera isso uma forma de vingança dele, MAS ELA JAMAIS aceita isso na boa ou faz algum tipo de acordo de “relacionamento aberto”. Na série isso é provavelmente consequência de eles não dormirem na mesma cama e nem terem mais um relacionamento sexual aparentemente. Entretanto no livro, sabe-se que ao longo do casamento eles mantem um relacionamento sexual mesmo que seja para diminuir a solidão e compartilham a cama. Existem várias passagens do livro que demonstram que apesar de não haver mais paixão, eles mantinham um casamento em que havia parceria e amizade. Por exemplo, quando Claire começa a estudar medicina, ela chega um dia mais tarde em casa e a babá de Brianna não tinha a esperado e a menina acabou saindo para rua, sofrendo um acidente. Isso a desespera de uma forma que a faz pensar em desistir da faculdade. Frank enxergando nela a paixão pela profissão não a deixa fazer isso e passa a levar Brianna para o escritório dele enquanto Claire está na aula. Essa mudança feita pela produção só quer arranjar uma justificativa para “traição” de Frank (que deixa de ser traição já que Claire concorda com ela) de forma a pintá-lo como uma pobre alma atormentada e Claire como a esposa insensível e fria. Pela razão de que por mais que não tivessem um casamento apaixonado, eles tinham um casamento de parceria, ficou algo totalmente deslocado colocar em tela uma cena em que há uma saída para celebrar a formatura de Claire sem o marido e ele trazendo a amante para casa. Representou não apenas uma falta de respeito, como da amizade e carinho de um pelo outro.  Quando Claire confronta Frank sobre ter trazido a amante para casa, eles conversam sobre divórcio, mas ele se recusa porque não quer ficar longe da filha e não acredita que Claire vá manter a palavra de deixá-la próxima a ele. Outro ponto é que na conversa final entre eles quando Claire fala que já sabia de suas amantes, no livro, Frank pergunta por que ela nunca lhe falou nada, ele ficou irritado com o fato de ela não ter reclamado, dá a entender que por mais que ele tentasse ser discreto, ele queria que ela sentisse um pouco de ciúmes e fazia isso para que ela de alguma forma mostrasse que ainda o amava.

O trecho que foi adaptado direto do livro é a discussão final quando Frank decide deixar Claire para em seguida morrer em um acidente de carro. O conteúdo da conversa na adaptação foi bem semelhante ao do material original, presente no capítulo dezenove:

“—Não vem para cama, Claire? Já passa da meia-noite. - Frank ergueu os olhos para mim por cima do livro. Ele próprio já estava instalado na cama, lendo com o livro apoiado nos joelhos. A suave poça de luz do abajur fazia com que parecesse estar flutuando numa bolha aquecida, serenamente isolado da escuridão fria do resto do quarto. Já era quase janeiro e, apesar dos melhores esforços da fornalha, o único lugar realmente quente à noite era a cama, sob pesados cobertores.
Sorri para ele e levantei-me da poltrona, deixando o grosso robe de lã deslizar dos meus ombros.
— Você não dormiu por minha causa? Desculpe-me. Só estava repassando a cirurgia de hoje de manhã.
— Sim, eu sei — disse ele secamente. — Eu sei só de olhar para você. Seus olhos ficam vitrificados e sua boca fica aberta.
— Desculpe-me — repeti, no mesmo tom seco. — Não posso me responsabilizar pelo que meu rosto faz quando estou pensando.
— Mas de que adianta pensar? — perguntou ele, colocando um marcador entre as páginas do livro. — Você fez tudo que podia... se preocupar com isso agora não vai mudar... ah, bem. — Deu de ombros com irritação e fechou o livro. — Já disse tudo isso antes.
— Já, sim — retruquei laconicamente. Entrei na cama, tremendo levemente de frio, e enfiei minha camisola em volta de minhas pernas. Frank automaticamente moveu-se em minha direção e eu deslizei por baixo dos lençóis para o lado dele, aconchegando-nos para unir nosso calor contra a friagem. (...)Frank resmungou quando desliguei a luz e me enfiei na cama outra vez, mas após um instante, ele rolou na cama para junto de mim, passando um braço por cima da minha cintura. Fiquei de lado e encolhi-me contra ele, relaxando gradualmente, conforme os dedos congelados dos meus pés degelavam. (...)— Estive pensando. — A voz de Frank veio da escuridão às minhas costas, excessivamente descontraída. — Hummm? — Eu ainda estava absorvida na visão da cirurgia, mas esforcei-me para voltar ao presente. — Sobre o quê? — Meu ano sabático. — Sua licença da universidade estava programada para começar dentro de um mês. Ele planejara fazer uma série de pequenas viagens pelo nordeste dos Estados Unidos, coletando material, depois iria para a Inglaterra por seis meses, retornando a Boston para passar os últimos três meses da licença escrevendo. — Eu havia pensado em ir direto para a Inglaterra — disse ele cautelosamente.
— Bem, por que não? O clima estará terrível, mas se vai passar a maior parte do tempo em bibliotecas...
— Quero levar Brianna comigo. Fiquei paralisada, o frio no quarto repentinamente se aglutinando em um pequeno grumo de suspeita na boca do estômago.
— Ela não pode ir agora, falta apenas um semestre para se formar. Certamente você pode esperar até nós irmos ao seu encontro no verão, não é? Já entrei com o pedido de férias de verão e talvez...
— Eu vou agora. Definitivamente. Sem você. Afastei-me abruptamente e sentei-me na cama, acendendo a luz. Frank estava deitado, piscando, os cabelos escuros desgrenhados. Tornaram-se grisalhos nas têmporas, conferindo-lhe um ar distinto que parecia ter efeitos alarmantes nas suas alunas mais suscetíveis. Eu me sentia surpreendentemente calma.
— Por que agora, de repente? Ela está pressionando-o, é isso?
O olhar de espanto que atravessou seus olhos foi tão evidente que que atravessou seus olhos foi tão evidente que chegou a ser cômico. Eu ri, com uma visível falta de humor.
— Você realmente pensava que eu não sabia? Meu Deus, Frank! Você é a pessoa mais... desligada que conheço!
Ele sentou-se ereto na cama, os maxilares contraídos.
— Achei que eu era discreto.
— Você pode até ter sido — disse ironicamente. — Contei seis nos últimos dez anos. Se houve cerca de uma dúzia, então você foi um modelo de discrição.
Seu rosto raramente demonstrava grande emoção, mas uma lividez em torno de sua boca disse-me que ele estava furioso de verdade.
— Esta deve ser muito especial — eu disse, cruzando os braços e recostando-me na cabeceira da cama com presumida descontração. — Mesmo assim, por que a pressa em ir para a Inglaterra agora, e por que levar Bree?
— Ela pode ir para um internato para terminar o último período — disse ele de maneira sucinta. — Será uma nova experiência para ela. — Não uma experiência que eu ache que ela queira — eu disse. — Ela não vai querer deixar seus amigos, especialmente logo antes da formatura. E certamente não para ir para um internato inglês! — Estremeci diante da ideia. Eu mesma quase fora confinada numa instituição desse tipo quando criança; o cheiro da lanchonete do hospital às vezes evocava lembranças daquela escola, junto com as ondas de terror e desamparo que eu sentira quando tio Lamb me levou para conhecer o lugar.
— Um pouco de disciplina não faz mal a ninguém — disse Frank. Mostrava-se mais sereno, mas as linhas de seu rosto ainda estavam tensas. — Teria lhe feito bem. — Abanou a mão, descartando o assunto. — Deixe isso pra lá. De qualquer modo, resolvi voltar para a Inglaterra definitivamente. Ofereceram-me um bom cargo em Cambridge e pretendo aceitá-lo. Você não vai deixar o hospital, é claro. Mas não pretendo deixar minha filha para trás.
— Sua filha? — Senti-me de repente sem fala. Então ele tinha um novo emprego completamente arranjado e uma nova amante para acompanhá-lo. Portanto, havia planejado tudo durante bastante tempo. Uma vida inteiramente nova, mas não com Brianna.
— Minha filha — disse ele calmamente. — Você pode vir nos visitar sempre que quiser, é claro...
— Seu... maldito... canalha! — disse.Seja razoável, Claire. — Olhou-me de cima, com aquele ar de longa paciência e tolerância, reservado para alunos de notas baixas. — Você quase nunca está em casa. Se eu não estiver aqui, não haverá ninguém para cuidar de Bree adequadamente.
— Você fala como se ela tivesse oito anos e não quase dezoito! Pelo amor de Deus, ela é quase uma adulta. — Mais razão ainda para precisar de atenção e supervisão — retrucou ele. — Se você visse o que eu vejo na universidade... bebidas, drogas e...
— Eu sempre vejo — eu disse entre dentes. — Bem de perto, na sala de emergência. Bree não vai...
— Claro que vai! As jovens não têm nenhuma noção nesta idade, ela vai sair com o primeiro sujeito que... — Não seja idiota! Bree é muito sensata. Além do mais, todos os jovens experimentam, é assim que aprendem. Não pode mantê-la presa em casa a vida toda. (...)E também não vai mesmo. Ela vai para a Inglaterra comigo.
— Não, se ela não quiser — disse, com decisão.
Sem dúvida percebendo que sua posição o colocava em desvantagem, Frank saiu da cama e começou a tatear em busca dos chinelos. — Não preciso de sua permissão para levar minha filha para a Inglaterra — disse ele.
— E Bree ainda é menor de idade, terá de ir para onde eu disser. Agradeço se puder me dar seu histórico médico, a nova escola vai pedir.
— Sua filha? — disse outra vez. Notei vagamente a friagem no quarto, mas estava com tanta raiva que sentia todo o corpo afogueado. — Bree é minha filha e você não vai levá-la a lugar algum!
— Não pode me impedir — ressaltou ele, com uma calma irritante, pegando o robe aos pés da cama.
— É o que você pensa — eu disse. — Quer se divorciar de mim? Muito bem. Use qualquer motivo que quiser, com exceção de adultério, que não pode provar, porque não existe. Mas se tentar levar Bree com você, terei uma ou duas coisas a dizer a respeito de adultério. Quer saber quantas amantes que você abandonou foram me procurar para me pedir que abrisse mão de você?
Ele ficou boquiaberto, em estado de choque.
— Eu disse a todas elas que abriria mão de você na mesma hora — continuei —, se você pedisse. — Cruzei os braços, enfiando as mãos sob as axilas. Estava começando a sentir a friagem outra vez. — Na verdade, sempre me perguntei por que você nunca pediu, mas imagino que tenha sido por causa de Brianna.
Seu rosto ficara completamente exangue, assomando branco como um crânio na penumbra do outro lado da cama.
— Bem — disse ele, com uma fraca tentativa de recompor o seu autocontrole habitual —, eu não achei que se importasse. Você nunca fez nenhuma tentativa de me impedir. Fitei-o, completamente surpresa. — Impedi-lo? — disse. — O que eu deveria ter feito? Abrir sua correspondência com vapor e sacudir as cartas sob seu nariz? Fazer uma cena na faculdade na festa de Natal? Queixar-me com o reitor?
Apertou os lábios com força por um instante, depois relaxou.
— Poderia ter demonstrado que se importava — disse ele à meia voz.
— E me importava. — Minha voz soou entrecortada.
Ele sacudiu a cabeça, ainda me fitando, os olhos escuros à luz do abajur. — Não o suficiente. — Parou, o rosto flutuando, pálido, no ar acima de seu robe escuro, depois deu a volta na cama para colocar-se ao meu lado. — Às vezes, eu me perguntava se teria o direito de censurá- la — disse ele, quase pensativamente. — Ele se parecia com Bree, não é? Ele era como ela?
— Sim.
Respirou ruidosamente, quase arfando.
— Eu podia ver em seu rosto... quando você olhava para ela, podia ver você pensando nele. Droga, Claire Beauchamp — disse ele, quase num sussurro. — Você e esse seu rosto que não consegue esconder nada do que pensa ou sente.
Houve um silêncio depois disso, do tipo que nos faz ouvir todos os minúsculos e quase inaudíveis ruídos de madeira estalando e casas respirando quando tentamos fingir que não ouvimos o que acabou de ser dito.
— Eu realmente amei você — eu disse baixinho, finalmente. — Um dia.
— Um dia — repetiu ele. — Devo ficar agradecido por isso?
A sensação começava a voltar aos meus lábios dormentes.
— Eu lhe contei — disse. — E depois, quando você não quis ir embora... Frank, eu realmente tentei.
O que quer que ele tenha ouvido em minha voz o fez parar por um instante.
— Mesmo — acrescentei, num sussurro.
Ele virou-se e dirigiu-se à penteadeira, onde ficou tocando nos objetos agitadamente, apanhando-os e colocando-os de novo sobre o móvel, aleatoriamente.
— No começo, eu não podia deixá-la... grávida, sozinha. Só um canalha o faria. E depois... Bree. — Olhou cegamente para o batom que segurava na mão, depois o colocou delicadamente de volta no tampo lustroso. — Não podia abrir mão dela — disse ele baixinho. Virou-se para olhar para mim, os olhos eram dois buracos escuros num rosto ensombreado. — Sabia que eu não podia gerar um filho? Eu... fiz um exame, há alguns anos. Sou estéril. Sabia?
Sacudi a cabeça, sem conseguir falar.
— Bree é minha, minha filha — disse ele, como se falasse consigo mesmo. — O único filho que terei. Não podia abrir mão dela. — Deu uma risada curta. — Eu não podia abrir mão dela, mas você não podia vê-la sem pensar nele, não é? Sem essa lembrança permanente, eu me pergunto... você o teria esquecido com o tempo?
— Não. — A palavra, apenas um murmúrio, pareceu percorrê-lo como um choque elétrico. Ficou paralisado por um instante, depois girou nos calcanhares, dirigiu-se ao closet e começou a vestir roupas por cima do pijama. Fiquei parada, os braços em volta do corpo, observando-o vestir o sobretudo e sair do quarto batendo os pés, sem olhar para mim. A gola de seu pijama de seda azul sobressaía por cima da borda de astracã do seu casaco. Instantes depois, ouvi a porta da frente se fechar — ele teve suficiente presença de espírito para não batê-la — e, em seguida, o barulho de um motor frio hesitante em pegar. Os faróis varreram o teto do quarto quando o carro saiu de ré da garagem e depois foi embora, deixando-me trêmula junto à cama desfeita.
Frank não voltou. Tentei dormir, mas continuava deitada rigidamente na cama fria, mentalmente revivendo a discussão, ouvindo o ruído dos pneus no caminho da garagem. Por fim, levantei-me e me vesti, deixei um bilhete para Bree e também saí. O hospital não me telefonou, mas fui para lá assim mesmo (...).Deve ter sido uma meia hora mais tarde quando uma enfermeira da emergência atravessou apressadamente a porta de vaivém e parou abruptamente ao me ver. Então, aproximou-se, muito devagar.
Eu soube imediatamente; eu já vira médicos e enfermeiros comunicarem notícias de morte muitas vezes para me enganar com os sinais. Com muita calma, sem sentir absolutamente nada, coloquei a xícara quase cheia sobre a mesa, percebendo, enquanto o fazia, que pelo resto da minha vida eu me lembraria que havia uma lasca na borda da xícara e que o B das letras douradas na lateral estava quase apagado. — ... que você estaria aqui. A identidade em sua carteira... a polícia disse... neve sobre gelo, uma derrapagem... já chegou morto... — A enfermeira continuava a falar, balbuciando, enquanto eu atravessava a passos largos os corredores brilhantemente brancos, sem olhar para ela, vendo os rostos das enfermeiras do posto virarem-se para mim em câmara lenta, sem saber, mas vendo, com um relance de olhos para mim, que algo terrível acontecera.
Ele estava em uma maca, em um dos cubículos da sala de emergências; um lugar anônimo, espartano. Havia uma ambulância estacionada do lado de fora — talvez a que o trouxera. As portas no final do corredor estavam abertas para o amanhecer glacial. A luz vermelha da ambulância pulsava como uma artéria, banhando de sangue o corredor. Toquei-o de leve. Seu corpo possuía aquela sensação plástica, inerte, dos que acabaram de morrer, tão em desacordo com a aparência de vida. Não havia nenhum ferimento visível; qualquer dano estava escondido sob o cobertor que o cobria. Sua garganta estava lisa e morena. Não havia nenhuma pulsação na base do seu pescoço.
Fiquei ali parada, a mão na curva imóvel de seu peito, olhando para ele como não olhava havia algum tempo. Um perfil forte e delicado, lábios sensíveis, nariz e maxilares perfeitamente cinzelados. Um homem bonito, apesar dos sulcos ao redor da boca, rugas de decepção e raiva contida, rugas que nem o relaxamento da morte conseguia apagar.
Permaneci completamente imóvel, ouvindo. Podia ouvir o lamento de outra ambulância se aproximando, vozes no corredor. O rangido de rodas de maca, a estática de um rádio de polícia e o zumbido suave de uma luz fluorescente em algum lugar. Compreendi com um susto que eu estava tentando ouvir Frank, esperando... o quê? Que seu espírito estivesse pairando ali por perto, ansioso para terminar nossa discussão inacabada? Fechei os olhos para fugir à perturbadora visão daquele perfil imóvel, ficando vermelho e branco e vermelho outra vez, alternadamente, conforme a luz da ambulância pulsava pelas portas abertas.
— Frank — disse num sussurro, para o ar gelado, agitado —, se ainda estiver perto o suficiente para me ouvir... eu realmente o amei. Um dia. Mesmo.
Então Joe surgiu, abrindo caminho pelo corredor apinhado de gente, o rosto ansioso acima da roupa verde do hospital. Viera diretamente da sala de cirurgia; havia respingos de sangue nas lentes de seus óculos, uma mancha de sangue no peito também.
— Claire — ele disse —, meu Deus, Claire!
E eu comecei a tremer. Em dez anos, ele nunca me chamara de outro modo senão de “Jane” ou “L. J.”. Se ele estava usando meu nome, aquilo devia ser real. Vi minha mão extraordinariamente branca na mão escura de Joe, depois vermelha à luz pulsante. Em seguida, virei-me para ele, sólido como um tronco de árvore, descansei a cabeça em seu ombro e — pela primeira vez — chorei por Frank.”

A história de Jamie na série de TV é a que tem mais me agradado por enquanto nesta temporada, por estar mais fiel aos livros. Eu até gosto da ideia de ver os anos passando entre Claire, Frank e Bree, mas as mudanças no relacionamento de Frank e Claire foram decepcionantes para mim. Frank, como a maioria dos personagens de Diana tem várias facetas, tem suas qualidades e defeitos; porém os produtores teimaram em criar um Frank mártir, o qual até quando cometia erros, esses não eram meramente resultado de seu caráter, mas da pobre situação familiar em que vivia. Diversas vezes ao longo das temporadas, a produção realizou algumas modificações para colocar em pauta o empoderamento feminino ou de forma a mostrar a opressão das mulheres na História. A partir daí fica a reflexão: até que ponto, eles realmente querem valorizar o papel feminino, quando recriam um personagem masculino para que ele vire uma caricatura do seu original e o infantilizam, retirando a responsabilidade de suas atitudes ou colocando justificativas onde não deveria haver? Os seres humanos comentem erros, desvios ao longo da vida, por que Frank-série não tem o direito de ser dono dos seus próprios equívocos, das suas imperfeições? Frank-livro é um personagem que me trouxe sentimentos contraditórios durante a narrativa, principalmente pelo relacionamento entre ele e Bree me fazer lembrar do meu próprio pai, mas Frank-série é uma mera sombra do personagem criado por Diana, modificado para ser digno de pena.




No próximo episódio, Jamie estará em Helwater e finalmente o veremos com aparência de highlander saudável com aqueles lindos cabelos ruivos, nutridos e limpos. Já estava cansada daquela cor de pele gangrena-zumbi que ele estava na prisão, estava com saudade do meu Jaminho com aparência de gente viva. Até mais ;)

Por Tuísa Sampaio




[1] Na versão oficial do livro lançado no Brasil “Mac Dubh” foi traduzido como “filho do coisa ruim”. A expressão em inglês é “son of the black one”. No capítulo dez, Jamie explica que seu apelido veio de seu pai: “E isso foi o que as pessoas disseram, quando ela saiu de casa, para fugir com Brian Dubh Fraser, o homem com os cabelos negros de uma silkie. O homem em razão do qual ele próprio era agora chamado de Mac Dubh- o filho de ‘Black Brian’.” Assim, o apelido não é uma referência a um demônio como traduzido, mas a seu pai. 

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12 comentários:

  1. Tuísa, adoro seus textos comparativos livro-serie. Vi a primeira e a segunda temporadas na TV e, apaixonada pela história, resolvi ler todos os livros ( a meta era ler até o livro 3, antes do início da T03. Estou na parte 2 do A cruz de fogo).
    Para mim, é impossível ler o livro sem pensar na figura dos atores. Da mesma forma, é impossível ver a série sem pensar nos livros, no que está igual e o que foi alterado, e ainda o sentido das alterações propostas.
    Parabéns pelos textos.
    Paula Costa - Brasília DF

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    1. Obrigada! Força, mana, para acabar esse livro cinco kkk. É o que eu menos gosto da série.

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    2. Nossa!!! Não tô gostando tb!!! Mais de 100 paginas para um único dia!!!
      É o que eu estou demorando mais para ler!!

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  2. Já estava aflita esperando esse post. ��o que mais gostei do teu comentário foi a questão da visão sobre o papel estereotipado de homem que trai pq não tem outra forma de chamar atenção.
    Ao longo dos livros a autora se preocupa em demonstrar a humanidade dos personagens, eles erram mas acertam pois reconhecem que são fruto de suas épocas o que por si só não os condiciona a viver sempre do mesmo jeito. Estou lendo ecos do futuro vamos ver onde chegamos com a Claire e o Jamie. ��

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  3. Tuísa, estou lendo o livro 1 , e algimas coisas me deixaram perplexas, não sei quanto a você. Primeiro , sobre a fidelidade de Claire durante a guerra, ela cita que já havia beijado o quinhão de homens durante a guerra, enquanto afirma a frank que não o traiu. Também, não sei se por ter assistido a série primeiro, mas agums titudes de jamie sobre violência contra claire me deixaram intrigada. Ao mesmo tempo que ele a protege ele não tem escrupulos de ser muito violento ás vezes, princupalmente no inicio do relacionamento deles dois. Qual a sua opinião sobre esses dois assuntos?

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    1. Jordana, obrigada pelo comentário! Sobre a "fidelidade" de Claire, quando eu li isso, eu entendi que ela só considerava traição se fosse por meio de sexo. Para mim, era traição do mesmo jeito, mas eu enxerguei que essa foi a perspectiva dela, considerando que os beijos eram "inofensivos" e bons para distrair. Quanto a violência de Jamie no início do casamento, de primeira com minha criação do século XXI, eu me revoltei um pouco. Mas comecei a pensar com a mente da época e entendi mais a situação. Para eles, era obrigação do homem disciplinar a mulher e a surra de cinto era comum para isso. Claire, como mulher moderna, não entendia o castigo dessa forma. Tem algum livro que (ACHO que em Ecos, mas nao tenho ctza) fala que Ian também dava surras de cinto em Jenny. E também há um trecho em um dos livros (esse eu realmente não lembro qual era) em que Jamie e Claire estavam conversando sobre violência doméstica, e Jamie disse algo no sentido de ser um absurdo, e Claire olha para ele e fala que ele já havia batido nela uma vez. Jamie responde que era algo totalmente diferente, ele nunca bateria em uma mulher "com os punhos", o cinto era uma forma de surra "limpa" por assim dizer, que ele enxergava como uma obrigação e não como uma violência por mais que nossa mente do século XXI lute contra isso. Interessante em que The Exile, a versão de parte de a viajante do tempo em quadrinhos, aparece a cena antes de ele dar a surra de cinto em Claire do ponto de vista de Jamie. Dougal que manda Jamie trazer Claire do quarto para ele realizar a surra, mas Jamie não deixou. Ele sabia que se fosse Dougal a surra iria ser pior e mais humilhante, ainda mais porque ele iria dar a surra na frente de todo mundo, enquanto Jamie a fez no quarto. De certa forma, mostra uma perspectiva desconhecida de que na verdade aquela surra foi uma maneira de ele mostrar misericórdia com a situação porque ele estaria poupando-a da surra de Dougal, e ele não podia fugir da ordem do seu chefe de clã pro tempore.

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    2. Sim sim, gostei da sua perspectiva. Era realmente assim que pensava, mas ainda tinha minhas dúvidas se estava pensando corretamente kk. Na verdade, se voltarmos alguns anos aqui no Brasil coisas como essas ainda eram aceitáveis, a menos de 50 anos, então. Acredito que por eu primeiro ter visto a serie com aquele Jamie um pouco mais romantizado ( o jamie do livro embora íntegro se e mostrado mais seus defeitos) estranhei o do livro um pouco.Como sou acostumada com livros britânicos vitorianos, onde o cavalheirismo e romantismo daa situações são predominantes, a gente estranha um pouco certas " selvagerias" ocorridas na série de livros de outlander (inclusive nas cenas de sexo), porém tambem entendo essa violencia em alguns destes episodios como parte da consumação carnal deles, eles meio que tem um amor intenso e violento, mas ainda assim um amor forte o bastante para transpor barreiras. Obrigada por responder ❤

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  4. Ah, amo suas resenhas ❤

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  5. Tuisa, adorei seu quadro comparativo! Também concordo que a alteração que fizeram no personagem Frank não foi legal. Claire acabou sendo definitivamente a vilã bigama sem coração. No mais, a série está me deixando muito feliz. A adaptação está sendo muito bem feita. E pra completar, Murtagh viveu. Amei!!

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