Resenha: Virgens

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(Uma novela da série Outlander presente na antologia Mulheres Perigosas)

“Se você vai para o inferno, eu vou também. Deus sabe que você não consegue se virar sozinho” (tradução livre) Virgens

“Virgens”, cronologicamente na série, se passa em 1740, três anos antes dos eventos do primeiro livro de Outlander, e narra uma aventura de Jamie e Ian na França, enquanto mercenários, logo após a primeira fuga de Jamie de Fort William. Ian e Jamie, por mais que já tivessem visto crueldade, principalmente Jamie após ter sido chicoteado e presenciado o AVC do pai, que o levara a morte, ainda eram inocentes. Virgens não apenas no sentido bíblico, mas como também nunca haviam tirado uma vida. De certa forma, é possível encontrar em suas conversas conteúdos mais infantilizados, ingênuos por melhor dizer, típicos de adolescentes que não conhecem mulheres e estão numa fase de curiosidade, e não se restringindo apenas a elas, mas também carregam um olhar ignorante sobre temas dos quais nunca experimentaram.





Capa da edição americana da Antologia Dangerous Women em volume único. A antologia também foi publicada em três volumes, estando "Virgens" no volume II. 





Ao encontrar com Jamie, que havia sido enviado para França por Murtagh, com o intuito de se esconder dos ingleses, Ian se assusta ao ver o sangue nas costas do amigo. Jamie conta sua história e une-se ao grupo de mercenários do qual Ian já fazia parte. Os dois amigos e sua gangue são responsáveis por levar uma jovem judia e seu dote ao encontro do seu futuro marido. O nome da antologia não é “Mulheres perigosas” por acaso. Rebekah, a noiva em questão, vai provar ser mais que um rostinho bonito e os meninos tem que usar suas cabeças para conter os danos que ela pode causar. O mais interessante dessa novela é enxergar a amizade deles dois, participar de suas aventuras, algo que por mais que esteja presente nos romances da série Outlander não é posto em foco. O Ian pai, marido e que havia sido mutilado na guerra não é o mesmo Ian brincalhão e com toques de ingenuidade que protagoniza essa história; da mesma forma, que o Jamie de Claire não é o mesmo adolescente solteirão, em luto e despedaçado pelo exílio que é descrito em “Virgens”. Essa novela, assim, traz um novo olhar à essência desses personagens. Porém, a versão imatura desses dois é bastante voltada para o próprio umbigo e para amizade que compartilham, que me peguei torcendo por Rebekah, principalmente por enxergar algo ao qual eles eram completamente cegos: a opressão que ela sofria por ser mulher. E nesse quesito, Claire permite que Jamie cresça bastante, porque ao longo da série, ela vai mostrando ao marido que uma mulher não é meramente a marionete de seus parentes.




Capa do ebook (edição em inglês)




Há uma cena colocada no enredo sobre um estupro que Jamie presenciou e a qual ele comenta com Claire em Outlander e que me incomodou muito. Eu acredito que a autora inseriu a violência mais para mostrar o choque dos rapazes em assistir a um ato sexual pela primeira vez do que qualquer outra coisa. Eu sei que a violência sexual era extremamente banalizada na época e muito mais comum do que é hoje, porém Diana usa esse recurso em excesso. Ademais, não achei que a construção em si da cena tenha feito muito pelo caráter de Ian e Jamie. A passividade deles me irritou muito, assim como um comentário machista – que deveria ser bastante comum à época, afinal até hoje acontece. Pode ser que a intenção tenha sido fazer uma crítica à banalização da violência sexual, pode ter sido para mostrar a “inocência” sexual de Ian e Jamie e/ou a função dela pode ter sido realmente incomodar (assim como foi a construção de uma cena semelhante da quarta temporada) e mostrar o quão sozinha e vulnerável está uma mulher em uma situação de estupro mesmo cercada de testemunhas. A interpretação desse trecho pode ser realizada de vários ângulos, mas uma coisa é certa: Diana usa excessivamente esse tema em suas histórias.




Edição americana de "Virgins" em capa dura 




Para quem não está acostumado a ouvir a expressão novela em referência a um texto, ela realmente não é tão usual em português, em que é bastante comum usar o termo conto tanto para o conto propriamente dito, como para novelas. Entretanto, não me sinto confortável em fugir da terminologia adequada, principalmente quando também é assim denominada pela autora e de classificar uma narrativa de mais de oitenta páginas como conto.  A novela é uma narração mais comprida e complexa que o conto, enquanto é mais simples e mais curta que o romance.





Capa da Antologia de Outlander,  Seven Stones to Stand or Fall (edição em inglês)




Jamie e Ian tem uma amizade poderosa, cunhada em cada aventura que viveram juntos e mais à frente nos laços familiares que irão os fortalecer, mas na série de Outlander percebe-se que os traumas que cada um passou entrega a eles uma solidão que o outro não compreende. Essa novela vem para mostrar o início da perda da inocência deles e uma faísca de como eles vão se moldando em quem irão se tornar. Em a Viajante do tempo, o leitor vê a amizade deles pelos olhos de Claire e no decorrer da série mesmo com a alternância de narração, só é possível ver o relacionamento de Ian e Jamie acompanhado das dores que cada um carrega. Por mais bobinhos que eles possam parecer em seus anos de adolescentes, “Virgens” permite enxergar uma imagem menos borrada dos caminhos que Jamie poderia ter seguido ou quem ele poderia ter se tornado se não fosse Claire e os sofrimentos que passou.




Capa da edição brasileira de "Mulheres Perigosas", antologia que contém "Virgens"





Em português, por enquanto, essa novela só pode ser encontrada na antologia Mulheres Perigosas publicada pela Editora Leya e organizada por George R.R Martin e Gardner Dozois. Em inglês, é possível comprar o ebook apenas da novela “Virgins”, assim como sua versão em capa dura, ou adquirir a antologia “Seven Stones to stand or fall” composta de contos e novelas escritos por Diana Gabaldon, todos do universo Outlander, na qual “Virgins” também está presente.






Por Tuísa Sampaio

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