Lallybroch: Diana Gabaldon descreve os passos para a escrita de um episódio de Outlander
24 agosto 2015

Diana Gabaldon descreve os passos para a escrita de um episódio de Outlander



Leia a postagem de Diana Gabaldon sobre os passos para a escrita de um episódio de Outlander.


A maioria de vocês provavelmente já ouviu falar que eu estou escrevendo um roteiro para um dos episódios da segunda temporada da série de TV Outlander da Starz. Isso é novo e interessante por que eu escrevi roteiros de quadrinhos para Walt Disney (por volta do final dos anos 70) e eu escrevi o roteiro de uma novela gráfica (The Exile para aqueles que não conhecem, conta a história da primeira parte de OUTLANDER em formato de romance gráfico sobre Jamie, do ponto de vista de Murtagh), mas eu nunca fiz um roteiro para TV ou filme antes. Agora, eu li alguns deles. Durante o período em que os livros estavam sob opção de vários produtores que queriam fazer um filme de duas horas de OUTLANDER (algo que é impossível de se fazer, mas muitas tentativas valentes foram feitas), eu vi vários scripts de filmes, a maioria deles escritos por roteiristas muito respeitáveis. Estes horríveis, mas instrutivos.

Então veio Ron D. Moore, com uma série de TV. Como não se pode colocar um romance de 300.000 palavras em dezesseis horas de televisão, é possível fazer um trabalho muito melhor de adaptação. E como eu disse a Ron, depois que ele me mostrou o roteiro do piloto para o primeiro episódio, "Esta é a primeira coisa que eu vi com base no meu trabalho que não me deixa branca ou explodindo em chamas." Eu tive a sorte de ser convidada para ser uma consultora sobre a série, o que significa que eu vejo os esboços do roteiro, roteiros, revisões de script e, em última análise, a metragem real que é filmada. Este processo tem sido muito mais instrutivo, já que eu começo a ver apenas quantas vezes e quanto um determinado roteiro se flexiona e se altera antes de entrar na sala de filmagem e como ele realmente sai no filme. (O filme também é editado, mas isso é outro processo de um todo...)

A primeira vez que nos encontramos, Ron me perguntou se eu gostaria de escrever um roteiro para a série, e eu disse que não. A) eu nunca escrevi um, não sabia se eu seria boa nisso, e não queria ser responsável por estragar a primeira temporada e B) eu estava na fase final de MOBY e sabia que não teria tempo para respirar, muito menos assumir um novo projeto desafiador. Então eu passei, mas disse que se nós tivéssemos uma segunda temporada... então eu gostaria de fazer um...

Como a maioria das pessoas não quer escrever scripts ou conhece um monte de pessoas que fazem, eu pensei que você talvez possa estar interessado no processo de base. Pelo menos como praticado no mundo de Outlander. Quando nós concordamos que eu iria escrever um script, e Ron escolheu qual deles (é episódio 211 - o décimo primeiro de treze episódios na segunda temporada), a próxima coisa que fiz foi vir ao escritório dos roteiristas em Pasadena, e trabalhar o fluxo básico da história com Ron, Maril, e alguns dos outros roteiristas. Alguns de vocês vão viram fotos da sala dos roteiristas em seu estado primitivo: sofás confortáveis diante de duas paredes com um quadro branco magnético. Quando em ação, o quadro branco é coberto com folhas magnéticas apagáveis, cada um contendo notas sobre uma cena, cena externa, ou de transição. Este é o lugar onde um script começa a tomar forma.

Agora antes disso, o script/livro foi "quebrado" literalmente. O livro original foi desmontado, cena por cena, e todas as linhas de diálogo originais retirados e listados, assim os roteiristas podem usar o máximo possível da língua original, mesmo que às vezes possam ocorrer em um contexto diferente. Os roteiristas depois, coletivamente, classificam todas essas peças, e remontam (aproximadamente) todas elas em muitos episódios da temporada. Dado que cada episódio é de aproximadamente 57 minutos, e que cada episódio tem que ter o seu próprio arco dramático (você não pode ter um episódio inteiro de exposição, já que você pode fazer capítulos inteiros dele em um romance. Você até pode fazer isso, mas eu não recomendo que você faça.), o material do livro não vai se encaixar perfeitamente e de forma contígua.

Erguendo a cronologia, a história será mais ou menos a mesma: os eventos que acontecem em Paris, obviamente, precedem os eventos do Levante, na Escócia, e a amizade de Jamie com Charles Stuart, naturalmente, tem que vir antes de Claire tratar da mordida de macaco na mão do Príncipe, o duelo de Jamie não pode ter lugar antes que ele se encontre com o homem que ele vai desafiar. MAS... pedaços menores da trama que não são necessariamente lineares podem ser removidos ou um pouco modificados, ou mesmo separados em pedaços ainda menores que podem ser incluídos em outros episódios, a fim de causar interessante, ser coerente para ser contado no episódio. E em serviço deste objetivo, pequenas peças novas e linhas podem precisar ser criadas para se misturar e apoiar as peças originais em sua nova configuração.

É por isso que eu estava dizendo às pessoas (em resposta a pré-histeria nos Ep 15/16) para por de lado o livro e aproveitar a série. Eles não vão ser exatamente o mesmo (pelas razões descritas acima), mas com sorte, boa vontade, determinação e talento (que a equipe de produção de Outlander tem de sobra), o resultado será reconhecido como "Outlander" e, por vezes, talvez, até mesmo um encantador romance.

Então eu fui e passei um dia muito divertido na Sala dos Roteiristas. O script já tinha sido "quebrado", por isso sabíamos o quanto de material seria incluído no episódio 211, mas não como ele podia ser arranjado, ou o que poderia ou deveria ser mexido ou adicionados para dar uma estrutura excitante e coerente.


O layout áspero para Episódios 210 e 212 também estavam no quadro, de cada lado do 211, juntamente com uma noção muito aproximada do 213. (Sim, eu sei como ela termina. Não, eu não vou dizer. Vai ficar bem. Não se preocupe.) Eu poderia, portanto, ver como alguns elementos que eu estava lidando ficariam saindo do 210, e devia olhar, indo para o 212. O que se seguiu foi um quebra-cabeça mental, em massa, com peças de tudo em movimento, sugerindo coisas novas, discutindo sobre elas, vetando isso, aprovando aquilo, e tudo se encaixando junto. Os roteiristas foram fazendo isso em massa nos sofás, enquanto Richard, assistente dos roteiristas, e Mike, o gerente de roteiro, estavam nas cadeiras na parte de trás da sala com seus laptops, anotando tudo o que falávamos e as conclusões que vinham para estas "notas", que seriam encaminhadas para mim depois.

OK, o próximo passo em fazer um script é o escritor fazer um esboço de seu episódio, abrir e expandir o material das notas, acrescentando pequenas coisas criativas ocorridas durante o processo que provavelmente não vão perturbar o "todo". Eu vi vários roteiros delineados da Primeira Temporada (e vários de Segunda Temporada), e, francamente, isso não é difícil. Levei três dias de trabalho dilatório (o que significa que eu estava fazendo outras coisas ao mesmo tempo, não que eu não estava prestando atenção) para produzir isso. Um esboço é executado em 10-11 páginas, e apenas relata a execução linear da história, observando ocasionais linhas específicas de diálogo ou configurações que podem ser importantes.


O esboço foi enviado para Rony e Maril, e voltou com notas de Rony, que foram muito breves, e sobre tudo a ver com a logística de filmagem como, não poderíamos ter uma emboscada em grande escala com vinte soldados e trinta Highlanders, mas nós poderíamos fazer algo como nas cenas de Abertura da Temporada, logo após Claire ir para o passado, sugerindo tal emboscada enquanto estivesse usando apenas alguns atores. Eu ajustei algumas coisas após as notas de Ron, e ele, em seguida, enviou o roteiro para "andar de cima", para as pessoas da Sony e Starz, que aprovam o script. Com notas de volta combinadas destas duas fontes (conhecidas como "Studio" e "Negócios") também felizmente breves, e como eu disse a Ron, "Estes parecem com comentários editoriais que você recebe nos manuscritos dos livros. Eu tenho um monte de prática para abordar essas preocupações enquanto ainda mantenho tudo o que eu quero." (Nós vamos descobrir o quão longe essa última parte vai, em termos de argumentos, dado que eu sou o juiz final do que vai para um livro, mas eu não sou, de todo, em relação a um script).




De qualquer forma, as notas de estúdio/rede foram pequenas o suficiente para que Ron dissesse para "irmos para o roteiro", em vez de reelaborar a partir do esboço, e então eu fiz isso. Agora, deixe-me divagar aqui para notar que eu conheço um monte de escritores Agora, deixe-me divagar aqui para notar que eu conheço um monte de escritores que trabalham de forma linear, e que trabalham com esboços, e alguns que fazem uma apuramento de uma rede de métodos de dispersão que parece confuso. Todo mundo que usa esboços insiste que ter um esboço faz a elaboração do manuscrito muito mais fácil. Eles têm razão sobre isso; fica mais fácil. Muito, muito menos interessante do que colocar os pedaços juntos e inventá-los, mas certamente fácil o bastante para consegui fazer o diálogo e inserir entretenimento (bem, para mim, pelo menos) e brincadeiras. Francamente, a parte mais difícil de tudo foi o software de formatação FinalDraft 9, e que não foi muito difícil; apenas uma questão de me familiarizar com ele. (Bem, isso, e sua rolagem realmente irritante, que nunca funcionou sem apresentar problema. Não sei se foi o FD9 ou algo que eu estava fazendo, mas ele foi para o fundo de uma página que eu estava escrevendo, e não ia para cima em um espaço em branco para que eu pudesse continuar na página seguinte. Eu tive que mexer com o controle do cursor, o PgDn/Up, e as chaves finais em várias combinações cada vez que eu precisava mudar de página ou voltar para qualquer ponto) Não sei (ainda) como fazer coisas extravagantes como formatar a página do título de abertura, mas eu dependo da bondade de Richard e Mike para explicar isso para mim.


Então, o script está pronto. Mas, como com qualquer coisa que envolva a escrita e, especialmente, qualquer coisa que envolva a televisão, isso é só o começo. Primeiro Ron e Maril vão ler o roteiro e me dar todas as notas que eles tiverem. Dependendo do número e complexidade, posso refazer o roteiro para abordar ou apenas adicionar ajustes aqui e ali. Quando Ron estiver satisfeito, ele vai mais uma vez para a Sony e a Starz, que chegará a fazer anotações, que podem exigir várias correções (ou não tantas, se tivermos sorte. Quem sabe?). O script pode passar por três, quatro, cinco iterações antes que se torne um script "Pronto". Mas isso não é o fim de tudo!
Todos os tipos de problemas surgem, antes e durante as filmagens, que exigem alterações em um script. Muitos deles são muito menores, alguns podem envolver amarrar várias páginas e inserir toda uma cena nova ou conjunto de cenas.



E acima de tudo isso depende de como o script "funciona". Será que os atores fazem as linhas sem quebrá-las repetidamente? (Eu vi algumas cenas onde eles não conseguiam fazer isso. Em uma série de takes, após a quarta tentativa tudo terminou em risadas, Sam Heughan estava dizendo: 'Isso nunca vai funcionar ‘, e você pode ouvir o diretor dizendo firmemente no fundo, "Sim, vai!" (Aconteceu, mas demorou um pouco. Às vezes houve persistência para fazer, e às vezes o escritor (ou o ator, ou o diretor) mudam a linha.) A cena é fisicamente estranha de alguma forma que só se torna aparente quando os atores ficam bloqueados? Isso corre muito? É alguma fala mal formulada, por isso soa estranho? Será que a ação precisa ser rearranjada de modo a acomodar ângulos de câmera ou paisagens? Será que os atores e/ou o diretor gostam do script, ou eles sentem fortemente que isto ou aquilo não está funcionando? Todos esses tipos de coisas têm de ser corrigidas na hora, como se fosse o que é, suponho, porque o escritor precisa estar no set, enquanto o seu script está sendo filmado.
Posso dizer que eu já vi sete ou oito iterações de um roteiro feito após a versão "Pronta". Até agora, tem sido um processo fascinante, e eu sou grata pela oportunidade de fazer isso. Eu vou deixar vocês saberem o que acontecerá em seguida!

P.S. Eu tive um café da manhã com George R.R. Martin, logo após o acordo de que eu faria um script, e mencionei isso a ele, sabendo que ele fez um bom trabalho na televisão, antes de trabalhar em seu livro. Ele riu e disse: "Ah, então você está prestes a aprender o Grande Segredo do roteiro!". "Então me conte", eu disse. "O que é isso, George?" Ele se inclinou para mim, todo conspiratório e disse: "É muito mais fácil do que escrever um romance!"



Fonte: Diana Gabaldon

Comentários via Facebook

1 comentários:

  1. Muito interessante! Quem diria que escrever um roteiro adaptado de um romance seria tão trabalhoso e dependente da aprovação de tantas pessoas. Diana é maravilhosa ao se inserir nesse mundo e sempre compartilhar conosco suas experiências. Afinal, para nós que somos leigos tudo parece tão simples e acabamos sempre reclamando do resultado final sem nos darmos conta de que foi produto do trabalho árduo de um grande equipe

    ResponderExcluir

Lallybroch - Todos os Direitos Reservados - Copyright © 2016