Lallybroch: A teoria Gabaldon de viagem no tempo
18 outubro 2017

A teoria Gabaldon de viagem no tempo


A Teoria Gabaldon de viagem no tempo


O artigo abaixo foi escrito por Diana Gabaldon e pode ser lido na íntegra em inglês em The Outlandish Companion v.1. A tradução foi feita pela equipe Outlander Brasil.


Contém spoilers até “Os Tambores do Outono”


É tudo culpa de Claire Beauchamp. Se ela não tivesse se recusado a calar-se e falasse como uma mulher do século XVIII, esses teriam sido romances históricos perfeitamente íntegros. Como era, porém, muito preguiçosa para lutar contra suas inclinações naturais durante um livro todo, encontrei-me obrigada primeiramente a permitir que ela fosse moderna (não que eu tivesse muita escolha; ela é notavelmente teimosa), em segundo lugar, a descobrir como ela chegou lá, e em terceiro lugar a concluir o que havia ocorrido.


O círculo de pedras utilmente apresentou-se no curso da minha pesquisa sobre a geografia e cenários escoceses, então eu tinha um mecanismo para viagem no tempo. A verdadeira mecânica e implicações do processo, entretanto, necessitaram de um pouco de tempo para serem planejadas- quem quer que tenha erguido os círculos de pedras não pensou em cravar instruções neles.



Desde que Claire tinha noção nenhuma de como a viagem no tempo funcionava- e foi infelizmente privada da companhia de Geillis Duncan em Cranesmuir antes de ser capaz de comparar anotações- a explicação do processo tem sido vagarosa e hesitante, desenvolvendo-se ao longo dos vários livros, à medida que mais pedaços de informações vêm à luz, e aqueles capazes de viajar começam a discutir o assunto.


Duas coisas são óbvias:

1) os círculos de pedras marcam locais de passagem, e 2) a habilidade de viajar no tempo é evidentemente genética.


Agora, nós não sabemos ainda se os círculos de pedras são apenas indicadores, com a intenção de serem avisos antigos de um lugar de desaparecimentos misteriosos, ou se as próprias pedras têm algum papel ativo na “abertura” de uma porta através das camadas do tempo. Eu estou inclinada a acreditar na primeira ideia, mas isso se mantém uma pergunta em aberto.


Até agora, a habilidade sendo genética, é aparente que nem todos podem atravessar as pedras. Daqueles que podem, nós sabemos que dois (Brianna e Roger) são descendentes diretos de outras duas (Claire e Geillis Duncan). Isso sugere que o gene para viagem no tempo é dominante, isto é, apenas um pai precisa ter o gene, e apenas uma cópia do gene precisa estar presente em uma pessoa para que o traço possa ser expresso. É como a habilidade de enrolar a língua formando um cilindro. Se você não tem o gene para esse traço, você simplesmente não consegue fazer de forma alguma.



Genes que controlam traços desse tipo normalmente ocorrem em alelos, ou pares, um alelo sendo derivado de cada pai. Cada pai, porém, terá dois alelos ­-um de cada pai daqueles pais. Isso significa que, por exemplo, se uma pessoa (Brianna Fraser, por exemplo) é descendente de uma viajante e de um não viajante, então ela terá apenas um gene de viagem no tempo- mas esse gene é suficiente para permitir que o traço seja expresso; isso é, permite a ela atravessar os portões do tempo. Entretanto, também significa que ela possui um gene de viajante e um gene de não viajante. Ela passará apenas um dos alelos para a sua prole, e qual será transmitido para cada criança específica é puramente uma questão de seleção aleatória.



Se o outro pai da criança (Roger MacKenzie, por exemplo) é também um viajante do tempo heterozigoto para o gene da viagem do tempo (isso é, tem um gene de viajante e um gene de não viajante) (...), se Brianna e Roger tiverem quatro filhos, três deles serão viajantes do tempo e um deles, não. Se eles tiverem um filho (Jeremiah, por exemplo), as chances são de três em quatro que ele será capaz de viajar- mas há uma chance em quatro que ele não pos


Entretanto, se o pai de Jeremiah não for um viajante do tempo (Stephen Bonnet, por exemplo), então a seleção (...) demonstra que Jeremiah talvez possa viajar, mas as chances são apenas de uma em dois ou meio a meio.


Por outro lado, nós só sabemos o genótipo de Brianna com certeza; Roger poderia ter recebido um gene de viagem de ambos os pais. Se ele recebeu, então seu genótipo é TT, e todos os seus filhos com Brianna serão capazes de viajar.


Por um terceiro lado, nós não sabemos com certeza se Stephen Bonnet não é um viajante. Afinal, uma pessoa não descobriria isso até ele ou ela andar através de um círculo de menires- e apenas na época certa do ano. Nós podemos assumir a partir da pesquisa de Geillis Duncan que isso não ocorre frequentemente- mas acontece.


Geillis Duncan parece ter feito uma extensa pesquisa, e provavelmente sabia mais que qualquer pessoa sobre os caminhos e meios da viagem no tempo. Infelizmente, ela está morta, então a não ser que ela tenha escrito mais dos seus achados em algum outro lugar pelo caminho, nós teremos que tentar descobrir as coisas por dedução e experimento.


Nós devemos também ter em mente que Geillis Duncan possa não estar sempre certa em suas deduções; por exemplo, ela originalmente estava convencida que um sacrifício de sangue era necessário para abrir a passagem no tempo. Nós sabemos que isso não está correto, já que Claire fez a travessia sem esse tipo de assistência.


Geillis também pensou-presumidamente baseando-se em escritos antigos que ela descobriu mais tarde- que pedras preciosas oferecem um meio tanto de controlar o processo de viagem no tempo (abrindo passagens em momentos que não sejam as festas de sol e do fogo, por exemplo), como protegendo o viajante. Ela parece ter estado próxima de acertar nesta hipótese, uma vez que Roger foi de fato protegido em sua jornada- primeiro pelas granadas no broche de sua mãe, e depois, pelo diamante dado a ele por Fiona Graham.


O grimoire que Fiona achou e deu a Roger continha hipóteses que as passagens do tempo eram localizadas em locais onde as “linhas de ley” (linhas de força magnética que passam pela crosta da Terra) aproximavam-se o suficiente torcendo-se em vórtices, formando passagens que uniam as camadas do tempo. Evidentemente, as passagens do tempo podem ser de fato sujeitas a alguma influência da força magnética, uma vez que elas ficam mais abertas nas festas do sol e do fogo- os períodos do ano em que a atração gravitacional do sol é mais pronunciada em respeito às linhas da Terra de força magnética.


Ainda, essas são apenas hipóteses; o verdadeiro efeito das pedras preciosas resta a ser visto.


Isto é o que sabemos no presente em relação ao mecanismo de viagem no tempo. Além do simples fato do fenômeno, entretanto, nós podemos observar e deduzir várias coisas em relação aos seus efeitos. Em outras palavras, como, quando e por que uma pessoa viaja no tempo é uma coisa; mas o que acontece com o viajante – e com o tempo – no outro lado?


Paradoxo, predestinação e livre-arbítrio



Há sempre duas escolhas encarando um escritor que lida com viagem no tempo, quer elas sejam faladas ou não: uma, o paradoxo da viagem no tempo (isso é, o passado pode ser modificado, e se puder, como o futuro é afetado), e duas, a escolha entre predestinação e livre-arbítrio.


Essas perguntas estão certamente ligadas através das noções subjacentes de linearidade e causalidade – naturalmente, se uma pessoa recusa-se a aceitar a hipótese que o tempo é linear, mas essa pessoa aceita a causalidade (e é, eu acho, impossível escrever uma história na qual a noção de causalidade não existe. “Ficção experimental,” sim – história, não), mas quase certamente torna-se um foco importante da história.


Se uma pessoa aceita a hipótese de que a História (isso é, os eventos do passado) pode ser mudada, então essa pessoa aceita a filosofia do livre-arbítrio dos personagens. Se a pessoa rejeita a hipótese que a História possa ser mudada, então esta pessoa é forçada a aceitar a noção de predestinação.


Se o passado não pode ser mudado pelas ações dos viajantes do tempo, então isso implica a necessidade da predestinação (ou pós-destinação, como parece ser no caso) – isto é, a ideia básica que eventos estão “destinados” a ocorrer e, portanto, fora da capacidade do que um indivíduo possa afetar.


Aceitar essa noção implica em uma larga ordem do universo, muito maior em escopo que a ação humana. Por um ponto de vista filosófico ou religioso, isso é atraente para muitas pessoas; nós gostaríamos de pensar que alguém está no comando e sabe o que está fazendo.


Por outro lado, a noção de predestinação não faz muito nem para o nosso senso de autoestima, nem para o nosso senso de possibilidade – e ambas são importantes para a noção da história (nós nos identificamos com os personagens e perguntamos “E então acontece o quê?”). Isso leva a um sentimento de “Por que se importar?” que é contraproducente tanto para o empenho, quanto para a assimilação da história. Eu vou lhe contar; predestinação pode funcionar na ficção, mas é bem menos atraente do que a noção de livre-arbítrio.


(...)


É mais fácil para um leitor aceitar uma história de paradoxo – uma envolvendo circularidade e predestinação – se for contada apenas em termos pessoais, separada de qualquer evento histórico maior. Contar uma história de viagem no tempo na qual eventos maiores reconhecíveis são modificados irá atrapalhar a suspensão de descrença do leitor configurando divergências entre o que o leitor sabe que aconteceu e o mundo criado que ele ou ela está tentando entrar.


(...)


Para mim, histórias que envolvem livre-arbítrio dos protagonistas são mais interessantes de escrever, e, eu acho, mais prováveis de serem atraentes para os leitores. Neste período e cultura específicos, a ideia de que nós temos poder individual sobre nossos próprios destinos é não apenas amplamente aceita, mas altamente desejável (a ficção de outros períodos e culturas naturalmente pode- e realmente- reflete noções diferentes de poder individual).


(...)


Eu decidi usar as duas formas – permitir o livre-arbítrio, mas sem mudar os eventos históricos principais (ah, o que é ser um Deus escritor!). A teoria Gabaldon de viagem no tempo, portanto, depende deste postulado central:


Um viajante do tempo tem livre-arbítrio e poder individual de ação; entretanto, ele ou ela não tem mais poder de ação do que permitido pelas circunstâncias pessoais do viajante.


Um corolário necessário a esse postulado não lida com a viagem do tempo de forma alguma, mas apenas com a natureza observada de eventos históricos:


Os eventos históricos mais notáveis (aqueles que afetam grande número de pessoas e, portanto, mais prováveis de serem registrados) são resultado da ação coletiva de muitas pessoas.


Existem exceções a esse corolário, claro: assassinatos políticos, os quais afetam um grande número de pessoas, mas que podem ser realizados por uma única pessoa; descoberta científica, exploração geográfica, invenção comercial, etc... Ainda assim, os efeitos de eventos como esses dependem em grande parte das circunstâncias nas quais acontecem; muitas descobertas científicas têm sido feitas – e perdidas – um número de vezes, antes de alcançar aceitação geral ou relevância social.



Portanto, a noção de que conhecimento é poder não é absolutamente verdadeira – conhecimento é poder apenas na medida em que as circunstâncias permitam que este conhecimento possa ser usado.


Assim sendo, se um viajante chegar a uma sociedade onde ele ou ela é meramente um cidadão normal, então o viajante tem relativamente pouco poder de afetar eventos sociais. Madame X chega a Paris na véspera da Revolução Francesa, por exemplo. Se Madame X é de fato meramente uma viajante do tempo, e não está tomando o lugar de um cidadão existente, então ela não é uma aristocrata, não tem conexões com os poderes da revolução, e portanto, não está em posição de afetar o curso geral da revolução.

(...)


Madame X, entretanto, tem o poder que qualquer indivíduo daquela época tem: ela pode avisar um amigo que seria sensato deixar Paris, por exemplo. Se ele a escutar, ela pode realmente salvar sua vida – e, portanto, mudar a História (mas não a História registrada).

(...)

Não simultaneidade


Dois indivíduos não podem ocupar o mesmo local no espaço; duas espécies não podem ocupar o mesmo espaço ecológico ou nicho. Por conseguinte, parece ser intuitivamente óbvio que duas entidades não podem ocupar a mesma localização corporal. O truque aqui, claro, é que espaço físico e nichos ecológicos existem do lado de fora do indivíduo, enquanto tempo existe dentro do indivíduo. Qualquer momento no tempo – ou qualquer segmento mais longo (um tempo de vida, por exemplo) – pertencem apenas ao indivíduo.


Por esse motivo, a implicação da não simultaneidade é evidente; dois indivíduos podem existir em espaços diferentes ao mesmo tempo, mas um indivíduo não pode existir simultaneamente em mais de uma locação temporal.



Isso leva a uma das perguntas básicas interessantes sobre viagem no tempo – e se o indivíduo tentar existir em mais de um tempo? Isso é possível?


Em termos da nossa moldura física de referência, não, não é – mas a coisa legal sobre ficção é que não somos limitados à moldura física de referência. Se o indivíduo assume, não obstante, que é possível uma pessoa existir em mais de uma localização temporal simultaneamente, nós recebemos complexidades e possibilidades divertidas (...).


Essas histórias dependem da presunção de dualidade (ou outras pluralidades) de tempo e espaço – que um indivíduo é de fato um indivíduo diferente de um momento no tempo para outro (o que é certamente verdade em termos de processos físicos e talvez mentais). Portanto, sob esta hipótese, uma pessoa não é realmente uma entidade descontínua, mas uma cadeia contígua de identidades, todas com um grande grau de similaridade, mas todas levemente diferentes, e (essa é a presunção básica) que qualquer dessas identidades possa manter-se fisicamente, se removidas da cadeira temporal que as une.


Naturalmente, uma das vantagens da ficção é que isso é um simples caso de remover a ligação temporal; o autor meramente elabora uma causalidade plausível e a declara verdadeira. O único inconveniente a essa hipótese ficcional em particular é se alguém a usá-la, ela é tão inoportuna que exige que essa invenção se torne a premissa central e o conflito da história. Legal, mas limitante.


Se uma pessoa assume, em vez disso – baseando-se no argumento do fenômeno natural/ não simultaneidade – que não é possível existirem pluralidades, então uma nova configuração de situações intrigantes e evolução lógica ocorrem. O que acontece se uma pessoa tentar existir simultaneamente em mais de uma localização temporal? Como uma pessoa pode evitar essa possibilidade?


A teoria Gabaldon postula que não é possível para identidades do mesmo personagem existirem simultaneamente. Assim sendo, um personagem pode existir apenas uma vez, qualquer que seja o período do tempo que esse personagem se encontre. No pressuposto da não simultaneidade, se um personagem tenta existir em um período em que ele ou ela já existe, o resultado deve ser desastroso ou deslocamento ou ambos.


Logo, quando Roger entra pela primeira vez no círculo de pedras em Craigh na Dun e atravessa a pedra fissada enquanto pensa em seu pai, ele inadvertidamente viaja através do seu próprio período de vida – isto é, ele (involuntariamente) tenta existir duas vezes no mesmo tempo. Já que ele não pode fazer isso, o resultado é algo como o que acontece quando dois átomos tentam existir em um mesmo espaço – uma explosão imediata de forças que os separa.


Se Roger não estivesse usando as pedras preciosas (as quais presumidamente absorveram ou desviaram a força), ele sem dúvidas teria sido morto. Sorte para ele (e para a história), ele as usava.


A reviravolta Moebius do destino


O que eu chamo de efeito ficcional de “reviravolta Moebius” (N.T: Moebius era um quadrinista dos anos setenta, que fez histórias que previram invenções atuais) é a situação em que um personagem por uma ação de livre-arbítrio alcança um resultado que preserva uma realidade histórica pessoal, a qual não seria preservada sem a intervenção do personagem. Exemplos disso são (Em Os Tambores do Outono), um jovem que arrisca sua vida para salvar um bebê por motivos humanitários – essa criança sendo (isso é desconhecido para ele) seu próprio ancestral; ou (como no livro “Time and again” de Jack Finney), um viajante do tempo que dá um passo consciente, mas banal que evita a concepção de um homem que mais tarde irá descobrir a viagem no tempo, portanto, removendo um risco pessoal. Esse tipo de situação, claro, esmaga a predestinação – mas como eu disse, nós gostamos de sentir às vezes que alguém está no comando.





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2 comentários:

  1. Q texto otimo! Adoro disxusskes de viagem no tempo! E é interessante saber q a diana tb le moebius hahah tudo mt bem escrito e pensado :) obrigada por trazerem esse texto para nós

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  2. Obrigada por traduzirem o texto. É interessantíssimo!

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