Lallybroch: "Outlander" acerta no que "Game of thrones" errou sobre estupro e consentimento na TV
04 outubro 2017

"Outlander" acerta no que "Game of thrones" errou sobre estupro e consentimento na TV


NA VERDADE, NÃO SIGNIFICA NÃO

‘Outlander’ acerta no que ‘Game of thrones’ errou sobre estupro e consentimento na TV


Revisando a cena dos livros em que o herói estupra sua parceira sexual, ‘Outlander’ nos mostra como o tratamento da TV em relação a consentimento evoluiu.

No quarto episódio da terceira temporada de Outlander, Jamie Fraser faz sexo. Isso não é notável por si só, já que a série da Starz tem uma reputação pelas cenas quentes bem-merecida. Mas o modo como a cena foi modificada na adaptação das páginas para a tela- especialmente na forma como aborda o consentimento entre Jamie e sua parceira sexual, Geneva- revela uma tensão muito fascinante em Outlander.

O seriado, baseado na série de livros de Diana Gabaldon, é sobre um relacionamento entre um casal que nasceu separado por dois séculos. A heroína Claire (Caitriona Balfe) é uma viajante do tempo do período dos anos de 1900 enquanto o herói Jamie (Sam Heughan) é dos anos de 1700. Juntos, eles navegam por um relacionamento carregado de costumes de gênero de dois séculos diferentes.


Mas fora do escopo da história, Outlander tem um deslocamento de tempo ainda mais intrigante. Os três primeiros romances, nos quais as três primeiras temporadas da série são baseadas, foram publicados no início da década de 90.


Embora Gabaldon tenha dito que os livros de Outlander não são romances românticos, eles compartilham DNA com o gênero- como o recorrente tropo da sedução forçada. E a grande conversa cultural sobre consentimento e sua representação na ficção tem mudado nas décadas entre os livros e a série.


Sedução forçada, também conhecida como consentimento dúbio, é um tropo em que o herói faz um avanço sexual indesejado e a relutância da heroína abre espaço para entusiasmo. Em outras palavras, é a ideia que “não” significa “sim” se o herói for sexy o suficiente. “E o vento levou”, apesar de não ser um romance romântico, tem talvez um dos exemplos mais famosos de sedução forçada, quando Rhett Butler inicia sexo com Scarlett O’Hara contra sua vontade. “Ela gritou, sufocada contra ele,” Margaret Mitchell escreve em seu romance, “e ele... curvou-se sobre ela e beijou-a com selvageria... De repente ela teve uma vontade selvagem que ela nunca havia conhecido...” O tropo é mais proeminente em romances históricos como o de Kathleen E. Woodiwiss, A Chama e a flor, e mais proveniente das décadas de oitenta e noventa. É daí que o termo “Bodice ripper” (N.T: algo como “rasgador de corpete”) vem; frequentemente, o herói rasga o corpete da heroína em sua agressão.


Independentemente de você pensar que Outlander é um romance romântico ou não, ele certamente tem seus elementos de “bodice ripper”. No primeiro livro, Jamie disciplina Claire com uma surra carregada de sexualidade, e muitos dos seus encontros começam enquanto Claire está relutante ou protestando completamente. A cena dele com Geneva no terceiro livro, o qual foi publicado em 1993, é também desenhada na tradição do “não significa sim”. É assim que está nas páginas: “ ‘Pare! É grande demais! Tire!’. Em pânico, Geneva debatia-se por baixo dele. Ele colocou uma mão sobre a sua boca e disse a única coisa coerente que ele conseguiu pensar ‘não’, ele disse desafiadoramente e empurrou.” Anteriormente a cena, Geneva queria fazer sexo com Jamie. Na ocasião, ela muda de ideia, mesmo assim ele ignora seu consentimento revogado.


Reveladoramente, a cena na versão da TV foi drasticamente alterada da versão do romance. Em “Of lost things” na terceira temporada, os roteiristas de Outlander pareceram intensamente conscientes que os espectadores de 2017 têm uma tolerância baixa para momentos de desistência, quando o herói sexy não aceita “não” como resposta. Antes de eles fazerem sexo na tela, Jamie fala a Geneva, “Nós não precisamos fazer isso. Você pode mudar de ideia se quiser.” Isso levanta a dinâmica da versão do romance da cena de forma tão descarada, Jamie quase pisca para câmera.


Com essa mudança, a série não está apenas revisando uma cena desnecessária de estupro. Está também apagando a posição de Gabaldon em relação à cena do livro não ser estupro da parte de Jamie. O pilar do argumento dela é o fato que Geneva chantageia Jamie. No contexto da cena, ele está vivendo sob uma identidade falsa, e Geneva ameaça revelar seu nome verdadeiro se ele não tirar sua virgindade antes de ela casar com um homem muito mais velho. (No livro, ela fica com medo, por isso seus protestos.) A série não muda o cenário; ela simplesmente apaga o elemento do consentimento dúbio da cena de sexo deles. Em ambas as versões da história, Geneva não é uma boa pessoa e ela encurralou Jamie. Mas como a mudança na adaptação mostrou, isso não tem nada a ver com- e certamente não justifica- sua recusa de aceitar um “não” como resposta. Outlander nem sempre teve um histórico limpo de retratar o assédio sexual, mas com uma cajadada só, “Of lost things” leva o sentimento da cultura do estupro de “não significa sim” e “mas ela estava pedindo por isso” e toca fogo neles.


Enquanto escrevia sobre a cena na sua página do facebook e twitter, Gabaldon chama o princípio de “não significa não” de “ficção útil” que se desenvolveu nos últimos cinquenta anos “em resposta a um contexto cultural muito limitado”. Ironicamente, ao citar o contexto cultural no seu argumento, ela enfatiza a importância de o porquê a cena de Jamie e Geneva tinha que mudar para as telas. Considerem a quarta temporada de Game of thrones, na qual Jaime Lannister agressivamente faz sexo com Cersei em frente ao corpo do filho deles, enquanto ela protesta. Comentários do ator e do diretor indicam que aquela cena não tinha intenção de ser um estupro- mas boa parte do público entendeu de forma diferente. O clima do mundo real em que a série é lançada importa. Fingir que não, é no mínimo ingenuidade ou uma surdez proposital.


Hoje, as cenas de consentimento dúbio no entretenimento popular lançam milhares de tópicos no twitter sobre por que elas são #problemáticas. Graças parcialmente às mídias sociais, conversas sobre atuação e consentimento na ficção mudaram-se dos círculos feministas para o discurso mainstream.


Isso coloca Outlander em uma posição difícil. Seu material fonte é embebido na tradição da sedução forçada- mas também é uma série de televisão sendo transmitida em uma época em que a cultura do estupro é mais abertamente examinada do que antes. Nos anos recentes, graças aos números assombrosos de séries e a abundância de violência sexual na TV, há um impulso negativo quando isso não é o retratado de uma forma significativa. Showrunners como Bryan Fuller (Deuses Americanos, Hannibal) falaram sobre sua aversão ao estupro como ferramenta do enredo. O produtor de O Exorcista, Jeremy Slater contou a Variety que a notoriedade do estupro na TV tem se tornado “uma praga na indústria”. Outlander é deixada com uma questão difícil, porque os livros frequentemente usam o estupro como ferramenta de enredo. Nos dois primeiros romances, Claire é ameaçada com estupro não menos que quatro vezes, Jamie é estuprado, e dois de seus conhecidos (Mary e Fergus) são estuprados.


“Bodice rippers” e dramas de TV a cabo têm funções artísticas diferentes, e diferentes formas de trabalho pelos quais são avaliados. Quando Outlander demonstra sua consciência deste fato, é aí que a tensão da série com o seu material fonte atinge seu auge. Não há lugar mais claro que nas duas versões da cena de sexo entre Jamie e Geneva.


O público já foi instruído na cena de estupro de Sansa Stark em Game of thrones e na reação subsequente da internet; no estupro de Mellie Grant em Scandal, no de Claire Underwood em House of cards, no de Jessica Jones em Jessica Jones, no de Anna em Downton Abbey, no de Dolores em Westworld. Nenhuma arte existe em um vácuo isento de contexto moderno, até mesmo nos dramas históricos. E os telespectadores estão cansados de estupros na televisão.


O fato que este episódio de Outlander tenha consertado o assunto do consentimento do romance de 1993 é uma narrativa quieta brincando por cima da superfície- e ainda, é tão interessante quanto à história nas telas. Isso é o que é verdadeiramente fascinante sobre Outlander. O real deslocamento temporal com quem ela deve negociar não são os dois séculos entre Jamie e Claire, mas sim a mudança na conversa cultural ao redor de consentimento entre as décadas dos livros e da série.


Por Lauren Sarner


Traduzido por Outlander Brasil de The Daily Beast




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3 comentários:

  1. Amei! Também ficava indignada com tanta romantização de estupro, e quando li esse texto, parece que estamos evoluindo ❤

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