Resenha: A libélula no Âmbar


CONTÉM SPOILERS 


Segundo romance da série Outlander, A Libélula no Âmbar (título original: Dragonfly in Amber) é um dos livros mais políticos e emocionantes da trama de Diana Gabaldon. O enredo segue inicialmente a vida de Claire em 1968 (trecho que inicia a história e confunde a maioria dos leitores, uma vez que na conclusão de A viajante do tempo, Claire e Jamie estão juntos na França ainda no séc. XVIII) para só depois retornar ao período próximo onde A viajante do tempo havia terminado.



Capa e contra-capa da primeira edição de A Libélula no Âmbar

O livro é dividido em sete partes. Iniciando em 1968 com delineamento da busca de Claire e Roger (sobrinho-neto e filho adotivo do Reverendo Wakefield) pelo que teria acontecido com os jacobitas amigos de Claire em Culloden. Brianna, filha de Jamie e Claire, havia sido criada por Frank Randall após o retorno de sua mãe ao tempo “presente” e não tinha conhecimento acerca de sua misteriosa origem. A jornada de Jamie e Claire na França tem o objetivo de minar o levante jacobita a fim de que uma vez, sem a revolta, a Escócia não fosse massacrada e cruelmente dominada pela Inglaterra, acreditando que com as informações de Claire sobre o futuro, eles pudessem mudar o passado. O período em Paris é extremamente tenso, colocando à prova o recente casamento entre Jamie e Claire. Surgem novos personagens na trama dentre eles o Conde de St. Germain (baseado em uma figura histórica real), com quem Claire logo cria inimizade. Dentro os amigos, Claire conhece Mestre Raymond, Madre Hildegarde, Louise de Rohan e Mary Hawkins.


Capa original atual edição norte-americana



O período na França também traz um acréscimo à família Fraser, o pequeno Fergus, um batedor de carteiras que é inicialmente contratado por Jamie, mas por quem no futuro os Frasers desenvolvem um carinho paternal; infelizmente, também traz a perda de Faith, a bebê que Claire carregava.


Capa especial com elenco principal da série de TV.


Após o parto prematuro da filha natimorta, resultado de uma série de infortúnios, que leva os Frasers a se culparem (e também se perdoarem), eles voltam para Escócia. A guerra se aproxima, e na véspera de Culloden, Jamie e Claire percebem que não era possível mudar o curso da História. Assim, para proteger a amada que estava novamente grávida, Jamie a envia de volta para o século XX, enquanto ele pretendia morrer em campo de batalha no século XVIII (concedendo ao leitor a explicação detalhada de o porquê Claire estar em seu tempo de origem no início do livro).


Capa da primeira edição brasileira, Editora Rocco.



Vinte anos após a separação de Jamie, Claire acredita que ele realmente havia morrido em Culloden, entretanto, as pesquisas de Roger revelam que um oficial Fraser do regimento Lovat havia sobrevivido. E agora? Claire deve deixar sua vida de médica (as duas décadas de separação possibilitaram que a enfermeira estudasse medicina) no século XX e sua filha para tentar reencontrar o amor da sua vida? É com esse suspense que Diana termina o segundo romance da série.


Capa da edição atual brasileira (relançamento), Editora SdE/Arqueiro.


Pelos escritos da autora no volume um do seu compêndio, a história de A libélula no âmbar tem um formato específico, assim como cada um dos romances da série tem uma configuração diferente. O formato desse segundo livro é de um haltere: há um arco entre a história inicial e a final (fixadores do peso). Um outro arco maior simboliza em uma ponta a trama na França e outro o levante de Culloden (os pesos). E esses dois arcos são conectados pelo período em que os personagens principais estão em Lallybroch (informações retiradas da p. 337, The Outlandish Companion v.01).


Assim, como o tema do primeiro livro foi o amor; o do segundo, Diana afirma, é casamento. O desenvolvimento do matrimônio de Jamie e Claire é o que é mais escancarado na trama por serem os personagens principais: a persistência de Claire na recuperação do marido após o trauma de Wentworth é vista ainda no primeiro livro, porém o trauma ainda afeta seu casamento em A libélula no âmbar; a perda da filha que era tão esperada causa um grande atrito entre eles, cujo esforço e o amor que os envolve propicia o necessário perdão. Casamentos não são fáceis, requerem sacrifícios, perdão, cuidado, respeito ao seu parceiro e à sua individualidade, muito amor e a sabedoria de balancear tudo isso. Jamie e Claire em A libélula no âmbar são um lindo exemplo de casamento com amor.


Mas como a própria autora delineia em The Outlandish Companion v.01, não é apenas o casamento de Jamie e Claire que vemos. A jovem Mary Hawkins tem que lidar com a perspectiva de um casamento arranjado com um visconde; em seguida, se apaixona e busca um casamento por amor, mas este é logo descartado pela doença de seu amado que o leva a óbito, fazendo Mary contrair matrimônio com Jack Randall a fim de dar um nome para a criança que espera de Alex, irmão de Jack. Ainda há a comparação do forte e inquebrável casamento entre Jamie e Claire com o fragilizado laço matrimonial entre Claire e Frank. Acrescento ainda, o casamento de Louise de Rohan, aquele que além de ser resultado de um acordo para manter as aparências, é constantemente desrespeitado pelo fantasma da traição.


Um dos pontos fortes para mim deste livro e de maior sensibilização das provações que apenas um casamento com amor consegue manter é a parte do perdão após a morte de Faith. Enquanto na série de TV, esse momento ocorre em uma única cena; no livro, o diálogo é quebrado em mais de um período. E quando eles finalmente fazem amor após terem colocado todos os pingos nos “is”, consegui compreender que a dor da perda sempre estará presente. Culpar o outro, entretanto, não permitiria um acalento no coração. Apenas aquele encontro de almas que eles compartilharam poderia possibilitar que eles sobrevivessem a maior tragédia que um casal pode enfrentar.



Minha cena favorita deste romance (por mais que eu ame os trechos em que eles vão se perdoando pela “morte” de Faith) é a despedida deles em Craigh na Dun, quando Jamie faz Claire retornar ao século XX.


“ Eu a encontrarei- murmurou em meu ouvido. – Eu prometo. Ainda que tenha que suportar duzentos anos de purgatório, duzentos anos sem você, esse será meu castigo, que eu mereci pelos meus crimes. Porque eu menti, matei e roubei; traí e quebrei confiança. Mas há uma única coisa que deverá pesar a meu favor. Quando eu ficar diante de Deus, eu terei uma única coisa a dizer, para contrabalancear o resto.
(...)
- Meu Deus, o Senhor me deu uma mulher especial e, Deus!, eu a amei demais.” (p. 877-878).


Durante todo o livro, Jamie vem aprendendo a ser marido, mas é nesse momento que ele realmente se torna pai. Já ouvi várias vezes, que a mulher se compreende como mãe quando descobre a gravidez, e o pai, quando pega seu filho ou filha pela primeira vez nos braços. Acho que a perda de Faith criou um choque de realidade necessário a Jamie que facilitou ele se reconhecer como pai de forma semelhante a uma mãe. Não apenas casamento requer sacrifícios para se manter, mas também a paternidade. Jamie sacrificou o seu direito de ser pai para que a filha vivesse bem e entregou a outro homem a sua função (alguém que ele acreditava ser capaz de ser uma boa figura paterna) de pai e marido. Ele sacrificou a si mesmo pelo bem-estar da esposa, filha e pela honra de cuidar até o último suspiro dos homens por quem era responsável (também representação de um grande líder).


“Eu vou morrer amanhã. Esta criança... é tudo que restará de mim. Eu lhe peço, Claire, eu lhe imploro, proteja-a.” (p. 877).


No fim, o livro me levou a reflexão de que será que há fortaleza maior que um matrimônio que sobreviveu não apenas a perda de um filho, prisão, estupro, duelo, o “fantasma” de um outro marido, a morte e ao tempo? Se o amor “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13:7), o casamento entre Jamie e Claire é um símbolo eterno de amor, respeito e perdão.


A libélula no âmbar inspirou a segunda temporada da série de TV, Outlander. Para quem quiser saber sobre as diferenças e semelhanças entre os livros e a adaptação para televisão, há no blog as resenhas de cada episódio com a respectiva comparação (obviamente, contém spoilers tanto dos livros, quanto da segunda temporada da série):




Por Tuísa Sampaio

LEIA também a resenha do primeiro livro da série A Viajante do Tempo, clicando aqui.

Referências:
GABALDON, Diana. A libélula no âmbar. Rio de Janeiro: Saída de Emergência, 2014. Tradução de: Geni Hirata.
GABALDON, Diana. The Outlandish Companion. 2d. New York: Delacorte Press. 2015. V.1.


                





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